{"id":6068,"date":"2021-10-05T12:11:58","date_gmt":"2021-10-05T15:11:58","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6068"},"modified":"2021-10-05T12:11:58","modified_gmt":"2021-10-05T15:11:58","slug":"os-atos-no-caso-da-jovem-homossexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/os-atos-no-caso-da-jovem-homossexual\/","title":{"rendered":"Os atos no caso da Jovem homossexual[*]"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_6113\" aria-describedby=\"caption-attachment-6113\" style=\"width: 558px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6113\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/travessias004_007-1.jpg\" alt=\"Imagem: Instagram @lensculture\" width=\"558\" height=\"396\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/travessias004_007-1.jpg 558w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/travessias004_007-1-300x213.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 558px) 100vw, 558px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6113\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @lensculture<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Atos<\/strong><\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio da Ang\u00fastia, Lacan prop\u00f5e que no caso da Jovem homossexual houve um <em>acting out<\/em> e depois uma passagem ao ato. Gostar\u00edamos de explorar essa constru\u00e7\u00e3o em dois tempos para levantar a hip\u00f3tese de que as passagens ao ato podem ser, em sua maioria, precedidas de um ou mais <em>actings<\/em>. Assim, poderemos temperar o car\u00e1ter disruptivo da passagem ao ato e fazer uso dos <em>actings<\/em>, n\u00e3o s\u00f3 para pens\u00e1-los como solu\u00e7\u00e3o para a ang\u00fastia, mas tamb\u00e9m como um sinal e at\u00e9 mesmo como um mecanismo para evitar a passagem ao ato.<\/p>\n<p>O modo de <em>agieren<\/em> do <em>acting<\/em> passa por um \u201ccolocar em cena\u201d a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o objeto, um descortinar da fantasia dirigida ao Outro. Por isso, entende-se o <em>acting<\/em> como um pedido de socorro, uma demanda atuada. Lacan valoriza esse aspecto ao fazer a distin\u00e7\u00e3o entre o <em>acting<\/em> e o sintoma. Sua indica\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: o sintoma \u00e9 gozo, n\u00e3o pede por interpreta\u00e7\u00e3o; o <em>acting,<\/em> ao contr\u00e1rio, demanda uma interpreta\u00e7\u00e3o; ele \u00e9 encenado para ser interpretado. Se entendermos assim, podemos identificar um <em>acting<\/em> no passeio pr\u00f3ximo ao escrit\u00f3rio do pai como sendo um \u201cdar a ver\u201d do comportamento da Jovem na sua rela\u00e7\u00e3o com a dama.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade dizer que a passagem ao ato, assim como em todo e qualquer sintoma, tamb\u00e9m se mostra como Outro; entretanto, n\u00e3o seria propriamente uma exig\u00eancia de sua natureza clamar por interpreta\u00e7\u00e3o. O <em>acting out<\/em>, por sua vez, clama por interpreta\u00e7\u00e3o, uma vez que ele compreende um apelo ao Outro. Mas seria isto poss\u00edvel? De que maneira?<\/p>\n<p><strong><em>Acting out <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Para Lacan, a rela\u00e7\u00e3o profunda e necess\u00e1ria com o objeto <em>a<\/em> \u00e9 a principal caracter\u00edstica do <em>acting out<\/em>. Em ess\u00eancia, todo <em>acting out <\/em>diria respeito a alguma coisa que se mostra na conduta do sujeito. Para ele, a exibi\u00e7\u00e3o dos passeios nos quais, se por um lado, a Jovem n\u00e3o faz esfor\u00e7os para esconder a rela\u00e7\u00e3o, por outro, n\u00e3o economiza mentiras dirigidas ao pai, como se quisesse que ele soubesse que ela o enganava. Poder\u00edamos interpretar que todo o seu comportamento de cortejo \u00e0 dama de reputa\u00e7\u00e3o duvidosa, exibido aos olhos de todos, configura um <em>acting out<\/em>.<\/p>\n<p>O que podemos construir sobre o contexto no qual o <em>acting out<\/em> se d\u00e1? Lacan segue a vertente ed\u00edpica de Freud e aponta que, nesse caso, h\u00e1 um desejo frustrado. Vejamos o caminho proposto por Freud. A Jovem, enredada na trama ed\u00edpica, deseja um filho do pai, uma das formas poss\u00edveis a uma mulher, segundo Freud, de acesso \u00e0 feminilidade &#8211; forma simb\u00f3lica de ter o falo pela via do filho (uma frustra\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria de um objeto real). Para Lacan essa fantasia n\u00e3o se sustentou. No caso da Jovem, quem teve o filho do pai foi a m\u00e3e. Freud justifica o comportamento da Jovem para com a dama como uma forma masculina de fazer a c\u00f4rte a uma mulher. Para al\u00e9m de uma identifica\u00e7\u00e3o masculina, o que vemos \u00e9 uma identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria com o falo que \u00e9 encenada pela via do amor. A posi\u00e7\u00e3o do amante \u00e9 aquela de quem n\u00e3o tem, mas, como o amor \u00e9 dar o que n\u00e3o se tem, a Jovem se oferece \u00e0 dama nessa posi\u00e7\u00e3o do ter. \u201cEm outras palavras, coloca-se naquilo que ela n\u00e3o tem, o falo, e, para mostrar que o tem, ela o d\u00e1\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Portanto, ela contorna seu desejo deste modo demonstrativo.<\/p>\n<p>O <em>acting<\/em> acontece quando a dama denuncia a farsa f\u00e1lica da Jovem como podemos ler no di\u00e1logo abaixo:<\/p>\n<blockquote><p>A dama: Nesse caso, <em>ma ch\u00e8re, <\/em>\u00e9 realmente melhor que voc\u00ea me poupe de suas manifesta\u00e7\u00f5es de amor pela metade. Tudo isso s\u00f3 estraga o meu humor.<\/p>\n<p>A Jovem: Leonie, por favor, gosto tanto de estar com voc\u00ea, sempre! Queria ficar a seu lado dia e noite e todos devem saber disso, mas&#8230;<\/p>\n<p>A dama: \u00c9 exatamente esse \u201cmas\u201d o motivo pelo qual \u00e9 melhor que de agora em diante n\u00e3o sejamos mais vistas juntas. Corra e passe bem!<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Ningu\u00e9m tem o falo, alguns portam um \u00f3rg\u00e3o que, imaginariamente, se confunde com ele. Em rela\u00e7\u00e3o ao falo, estamos todos e sempre no campo do engodo, da fal\u00e1cia do falo, pois como significante ele est\u00e1 no lugar daquilo que n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p>O fantasma fundamental \u00e9 a \u00faltima resposta do sujeito ao desejo do Outro que o solicita, que o provoca, em posi\u00e7\u00e3o de causa de desejo e de gozo. Nesta situa\u00e7\u00e3o, em que a ang\u00fastia domina o sujeito, ele responde com a causa de seu pr\u00f3prio desejo.<\/p>\n<p>Essa fantasia pode estar integrada por significantes, mas se inscreve no imagin\u00e1rio: nesse roteiro o sujeito lida com seu objeto pulsional em uma posi\u00e7\u00e3o que o elide (fading). Na sua fantasia fundamental, o sujeito consente ao seu ser de objeto.<\/p>\n<p>A Jovem homossexual, por exemplo, se comporta como um leg\u00edtimo cavalheiro diante de sua amada dama, apesar de n\u00e3o exatamente s\u00ea-lo. Ela banca ter o que n\u00e3o tem. O seu desejo passa a ser mostrar-se como um outro para assim se designar. \u00c9 uma \u201cmostra\u00e7\u00e3o velada\u201d, mas n\u00e3o velada em si. \u201cO essencial do que \u00e9 mostrado \u00e9 esse resto, \u00e9 sua queda, \u00e9 o que sobra nessa hist\u00f3ria\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Podemos propor que o lugar de complemento da dama condensava alguma coisa do ser da Jovem, uma sustenta\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria que, ao ser retirada, a faz cair como objeto e a desliga do Outro. Nesse momento, j\u00e1 estar\u00edamos no segundo tempo do ato apontado por Lacan e que ir\u00e1 levar a Jovem ao encontro com Freud.<\/p>\n<p>Antes, podemos retomar uma das teses apresentadas no in\u00edcio do texto sobre a possiblidade do <em>acting out<\/em> servir como uma tentativa de evitar a passagem ao ato. Lacan levanta essa possibilidade ao dizer que \u201c(\u2026) na maioria dos casos, a passagem ao ato \u00e9 cuidadosamente evitada. S\u00f3 acontece por acaso\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. A quest\u00e3o que colocamos em discuss\u00e3o \u00e9 se no caso da Jovem homossexual, o <em>acting out<\/em> que antecedeu \u00e0 passagem ao ato poderia ter servido para evit\u00e1-la, ou, se ao contr\u00e1rio, a teria precipitado?<\/p>\n<p><strong>Passagem <\/strong><\/p>\n<p>\u201cTudo que \u00e9 <em>acting out<\/em> \u00e9 o oposto da passagem ao ato\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. O <em>acting <\/em>d\u00e1 a ver, enquanto a passagem ao ato faz o sujeito desaparecer, restando apenas como objeto dejeto. Ela n\u00e3o seria apenas uma rea\u00e7\u00e3o frente \u00e0 ang\u00fastia, mas tamb\u00e9m uma evas\u00e3o provocada por ela, isso porque diante da emerg\u00eancia do objeto <em>a<\/em>, que n\u00e3o pode ser imaginarizado, nem significantizado, passa-se ao ato: \u201cna passagem ao ato, como verificamos na cl\u00ednica, n\u00e3o se trata somente de um ato que exclui o sujeito, mas tamb\u00e9m se trata de uma realiza\u00e7\u00e3o que dissolve a forma\u00e7\u00e3o narcisista do eu (i (a))\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Ela \u00e9 uma esp\u00e9cie de dissolu\u00e7\u00e3o narc\u00edsica em um contexto no qual n\u00e3o resta mais ao sujeito nenhuma sustenta\u00e7\u00e3o no Outro ou nas suas identifica\u00e7\u00f5es. Na passagem ao ato, o sujeito se coloca no limite do discurso ao deixar-se cair como um objeto.<\/p>\n<p>No instante da passagem ao ato, a Jovem homossexual olha para o pai<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> e n\u00e3o encontra o signo de amor, mas de f\u00faria. A antiga decep\u00e7\u00e3o, experimentada quando do nascimento do irm\u00e3o, encontra agora a castra\u00e7\u00e3o do pai, ou seja, o vazio do olhar do pai. Busca no olhar do Outro uma significa\u00e7\u00e3o para si e n\u00e3o v\u00ea nada. Como consequ\u00eancia, temos um epis\u00f3dio de dessubjetivac\u0327a\u0303o: a Jovem anda desnorteada pela avenida que a levar\u00e1 ao terminal de trem<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>Depara-se, nesse momento, com a impossibilidade de fazer parceria amorosa com o pai &#8211; a barreira do incesto. E a fantasia que, at\u00e9 ent\u00e3o, sustentava essa parceria imagin\u00e1ria como defesa do vazio, transborda. Al\u00e9m disso, a parceria com a dama, que veio substituir \u00e0quela com o pai, se rompe. A dama a recha\u00e7a. \u00c0 Jovem, resta nada, ela resta como nada.<\/p>\n<p>A passagem ao ato assinala, ent\u00e3o, um recha\u00e7o a qualquer identifica\u00e7\u00e3o fabricada pela opera\u00e7\u00e3o subjetiva. Lacan aponta que \u00e9 um salto no real, no real pulsional, na medida em que \u201co sujeito realiza o limite do discurso, que \u00e9 o objeto <em>a<\/em>, e o realiza na identifica\u00e7\u00e3o, se faz objeto <em>a<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. \u00c9 por isso que Lacan vai entender a passagem ao ato como um atravessamento selvagem da fantasia. Nessa situa\u00e7\u00e3o, o sujeito, ao inv\u00e9s de se fazer representar entre dois significantes, se identifica ao objeto. Assim, a passagem ao ato se estabelece como um limite da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o que ele \u00e9 como <em>a<\/em>, indicando o rompimento do limite entre a cena e o mundo.<\/p>\n<p>O ato chamado verdadeiro, aquele que tem como modelo o atravessamento do Rubic\u00e3o por J\u00falio C\u00e9sar, resulta em uma mudan\u00e7a subjetiva. O mesmo n\u00e3o \u00e9 observado na passagem ao ato. Entretanto, mesmo que nela n\u00e3o se observe uma mudan\u00e7a subjetiva, podemos, por outro lado, entend\u00ea-la como uma repeti\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se trata de uma repeti\u00e7\u00e3o do mesmo, porque a passagem ao ato pode se deslocar. As compuls\u00f5es nos ensinam que a passagem ao ato pode ser serial, podendo se deslocar para outro objeto enquanto a estrutura se mant\u00e9m. \u00a0No caso, a Jovem homossexual n\u00e3o recolheu nenhum efeito subjetivo como consequ\u00eancia da passagem ao ato. Podemos supor que sua recusa \u00e0 an\u00e1lise tenha contribu\u00eddo para isso. A mudan\u00e7a, no entanto, parece que ocorreu no Outro, pois, a tentativa de suic\u00eddio produziu alguma mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o da Jovem com o pai<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>A evas\u00e3o da cena \u00e9 algo que Lacan marca ser o que \u00e9 essencialmente reconhecido na passagem ao ato e o que a diferencia do <em>acting-out<\/em>. Enquanto no <em>acting out<\/em> a \u00eanfase est\u00e1 no Outro, na passagem ao ato a \u00eanfase est\u00e1 no objeto. O <em>acting out<\/em> encena a fantasia; na passagem, o sujeito pula para fora da cena. A aliena\u00e7\u00e3o que caracteriza a passagem ao ato \u00e9 o \u201cn\u00e3o penso\u201d, onde se manifesta a presen\u00e7a oculta e ac\u00e9fala da puls\u00e3o. No <em>acting out<\/em>, a aliena\u00e7\u00e3o se manifesta pelo \u201cn\u00e3o sou\u201d, apontando para um entrela\u00e7amento com o Outro e um Inconsciente posto em ato.<\/p>\n<p><strong>E a\u00ed, o que fazer?\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>O que um analista pode fazer diante de um <em>acting<\/em> ou de uma passagem ao ato? Antes de ensaiar alguma resposta, tr\u00eas pontos devem ser levados em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro diz respeito \u00e0 contraposi\u00e7\u00e3o entre ato, pensamento e saber, distinguindo-o, no entanto, da simples rea\u00e7\u00e3o motora. Lacan vai usar o cogito cartesiano e invert\u00ea-lo. A m\u00e1xima de Descartes era \u201cpenso, logo sou\/existo\u201d, na invers\u00e3o de Lacan fica \u201conde penso n\u00e3o sou, onde sou n\u00e3o penso\u201d. \u00c9 o modo de Lacan excluir da psican\u00e1lise qualquer racionalismo, instituindo um saber pr\u00f3prio ao inconsciente que \u00e9 um \u201csaber n\u00e3o sabido\u201d. N\u00e3o se trata de uma intui\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma mem\u00f3ria, tampouco um saber escondido. Trata-se de um saber que s\u00f3 se sabe no exato momento em que ele se constitui. Por isso, Lacan poder\u00e1 dizer que no ato n\u00e3o h\u00e1 saber.<\/p>\n<p>O segundo tamb\u00e9m \u00e9 uma oposi\u00e7\u00e3o entre o ato e, agora, a linguagem. Por\u00e9m, aqui, h\u00e1 uma particularidade: ao mesmo tempo que o ato \u00e9 mudo<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, ele vem no lugar de um dizer, exatamente no limite do discurso.<\/p>\n<p>Se os dois pontos anteriores s\u00e3o mais reconhec\u00edveis no <em>Semin\u00e1rio 15<\/em>, o terceiro tem seu auge no <em>Semin\u00e1rio 10<\/em>. \u00c9 nele que Lacan situa duas das concep\u00e7\u00f5es de ato \u2013 passagem e <em>acting<\/em> \u2013 como respostas \u00e0 ang\u00fastia. O semin\u00e1rio tem por base a suposi\u00e7\u00e3o de que certeza e ang\u00fastia est\u00e3o irremediavelmente ligadas &#8211; \u201cagir \u00e9 arrancar da ang\u00fastia sua certeza\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. N\u00e3o se age na d\u00favida; apenas imbu\u00eddo de uma certeza inabal\u00e1vel \u00e9 que o sujeito se precipita tanto no <em>acting<\/em> como na passagem. \u201cA certeza \u00e9 a ess\u00eancia do ato\u201d, nos diz Miller<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>Tendo esses tr\u00eas pontos, comecemos pela passagem ao ato.<\/p>\n<p>Dificilmente uma passagem ao ato d\u00e1 chance para se fazer alguma coisa antes, mas em alguns casos o contato posterior com um analista oferece a possibilidade de alguma abordagem. Pelo que vimos anteriormente sobre a oposi\u00e7\u00e3o entre ato e saber, torna-se claro que n\u00e3o h\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para uma passagem ao ato porque ela n\u00e3o porta um saber. Pelo contr\u00e1rio, ela \u00e9 a \u201cexpress\u00e3o m\u00e1xima do recha\u00e7o ao inconsciente\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. O ato falho \u00e9 o modelo de ato que porta um saber e faz falar o inconsciente, enquanto a passagem ao ato pode at\u00e9 ser considerada um ato \u201cbem-sucedido\u201d, por\u00e9m n\u00e3o veicula uma mensagem, nem porta um saber. No espa\u00e7o entre a ang\u00fastia, que leva \u00e0 passagem ao ato e o ato em si, n\u00e3o h\u00e1 saber. Sem saber, sem a suposi\u00e7\u00e3o de um saber suposto ao inconsciente, como interpretar?<\/p>\n<p>Um dos manejos poss\u00edveis, indicado pelo Guy Trobas<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>, \u00e9 fazer o sujeito falar, associar a partir das pegadas que possam existir dos momentos que antecederam a ang\u00fastia e com as quais o sujeito possa construir uma hist\u00f3ria ou um contexto que localize o ato em um aparato discursivo. Quando h\u00e1 chance de se fazer alguma coisa antes da passagem ao ato, a tentativa visa criar um espa\u00e7o que anteceda a ang\u00fastia ou fa\u00e7a um par\u00eantese entre ela e o ato. O objetivo seria incluir um tempo de compreender e com ele desfazer a superposi\u00e7\u00e3o do tempo de ver com o de concluir. Como fazer isso? Cada caso fornecer\u00e1 na transfer\u00eancia, e s\u00f3 nela, as coordenadas poss\u00edveis a esse manejo.<\/p>\n<p>No <em>acting<\/em> temos uma cena que pode ser lida, o que \u00e9 um perigo. Mesmo sendo uma mensagem endere\u00e7ada ao Outro, ela sofre do mesmo desconhecimento da passagem ao ato e pode ser tomada em um vi\u00e9s persecut\u00f3rio. Sua opacidade ainda assim deixa \u00e0 mostra um resto. O <em>acting out <\/em>\u00e9 uma cena \u00e0 qual o sujeito assiste de fora, podendo assim identificar o que acontece com o protagonista. Isso \u00e0s vezes aponta para uma interpreta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o poder\u00e1 ser da inten\u00e7\u00e3o do ato, mas da posi\u00e7\u00e3o na qual o sujeito sobra como dejeto.<\/p>\n<p>Uma caracter\u00edstica importante de todo e qualquer ato \u00e9 que ele somente se define como tal por suas consequ\u00eancias. No texto \u201cDiscurso na Escola Freudiana de Paris\u201d, Lacan comenta sobre o fato de seus colegas titulados como AE e AME terem considerado a \u201cProposi\u00e7\u00e3o\u201d, que tratou sobre o passe, um ato. Ele diz: \u201cSer\u00e1 ela um ato? \u00c9 o que depende de suas consequ\u00eancias, desde as primeiras a se produzir\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. E a repercuss\u00e3o delas o confirmou.<\/p>\n<p>Assim, um ato nunca \u00e9, sempre foi, porque o que importa n\u00e3o \u00e9 sua origem, mas aquilo que ele produziu. O ato pega suas coordenadas na estrutura da linguagem na qual o significado do S<sub>1<\/sub> s\u00f3 se define a partir do S<sub>2<\/sub>, em retroa\u00e7\u00e3o. Se por um lado o ato se conjuga no passado, por outro ele \u201cest\u00e1 aberto ao futuro\u201d<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>, j\u00e1 que esse \u00e9 o tempo da consequ\u00eancia. \u00c9 nesse sentido que temos que guardar certa cautela at\u00e9 decidir se foi um ato.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[*]<\/a> Produ\u00e7\u00e3o coletiva da Unidade de pesquisa \u201cCl\u00ednica e pol\u00edtica do ato\u201d do ICP-RJ: Andr\u00e9 Spinillo, Bruna Borges de Araujo Bulh\u00f5es, Christine de Morais Saturnino, Glaucia Helena Barbosa, Maria L\u00eddia Pessoa, Heloisa Shimabukuro, Leonardo Lopes Miranda, Mariana Tamborindeguy de Oliveira, Ondina Machado e Samantha de Moura Ribeiro.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p.138.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Rieder, I.; Voigt, D. <em>Desejos secretos<\/em>. A hist\u00f3ria de Sidonie C., a paciente homossexual de Freud. S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2008, p. 29.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 139.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 18: de um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, p. 31.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/em>. <em>Op.cit<\/em>., p. 136.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Trobas. G. \u201cTres respuestas del sujeto ante la angustia: inhibici\u00f3n, passaje al acto y <em>acting out<\/em>\u201d. <em>Revista Logos<\/em> 1 (NEL- Miami). Buenos Aires: Grama Ediciones, 2003, p. 39.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Aqui existem algumas diferen\u00e7as entre o relato de Freud e o das autoras de <em>Desejos secretos<\/em> (<em>op.cit<\/em>) que entrevistaram a Jovem homossexual um ano antes de sua morte aos 99 anos. Nele, a cena em que a Jovem v\u00ea o pai \u00e9 descrita de maneira que o olhar do pai ganha todo o seu valor: \u201cDo outro lado da rua, em frente, ela viu seu pai (&#8230;). Com certeza, o pai a viu e atravessaria prontamente a rua para lhe pedir explica\u00e7\u00f5es. N\u00e3o sabia o que fazer. Desesperada, olhou para Leonie e desta para o pai, e viu como ele acabava de apertar a m\u00e3o do amigo e despedir-se. Ela precisava agir\u201d (p. 29).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Sobre o encontro com o pai, ela nunca soube exatamente se ele a viu com a dama ou n\u00e3o. Ao descrever a cena em que larga a dama e sai correndo diz que \u201cao olhar \u00e0 sua volta, percebeu admirada que o pai n\u00e3o pareceu atentar para sua presen\u00e7a; muito pelo contr\u00e1rio, acabara de embarcar no el\u00e9trico que passava nesse momento\u201d. <em>Idem<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Trobas, G. <em>Op.cit<\/em>., p.39.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Mais uma vez nos servimos do livro <em>Desejos secretos<\/em>, <em>op.cit<\/em>., \u201cn\u00e3o se deflagrou a temida tempestade. (&#8230;) os pais se deram por satisfeitos de ter recebido a filha de volta e ainda com vida\u201d, p. 30. Tamb\u00e9m \u201cal\u00e9m disso, os pais t\u00e3o cheios de amor e atenciosos como nunca haviam sido!\u201d, p. 32.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Miller, J.-A., \u201cJacques Lacan: observa\u00e7\u00f5es sobre seu conceito de passagem ao ato\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online<\/em>, nova s\u00e9rie, ano 5, n. 13, mar\u00e7o 2014, p. 9. Acesso por: www.opcaolacaniana.com.br<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 10.<\/em> <em>Op.cit<\/em>., p. 88.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Miller, J.-A.. \u201cJacques Lacan: observa\u00e7\u00f5es sobre seu conceito de passagem ao ato\u201d. <em>Op. cit<\/em>., p. 8.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Brodsky, G. <em>Short Story. Os princ\u00edpios do ato anal\u00edtico<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2004, p. 74.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Trobas, G., <em>Op.cit<\/em>., p. 42.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Lacan, J. \u201cDiscurso na Escola Freudiana de Paris\u201d. Em: <em>Outros escritos. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 265.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Miller, J.-A., \u201cEl acto entre intenci\u00f3n y consecuencia\u201d. Em: <em>Pol\u00edtica lacaniana<\/em>. Buenos Aires: Colecci\u00f3n Diva, 2002, p. 94.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atos No Semin\u00e1rio da Ang\u00fastia, Lacan prop\u00f5e que no caso da Jovem homossexual houve um acting out e depois uma passagem ao ato. Gostar\u00edamos de explorar essa constru\u00e7\u00e3o em dois tempos para levantar a hip\u00f3tese de que as passagens ao ato podem ser, em sua maioria, precedidas de um ou mais actings. 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