{"id":5985,"date":"2021-09-03T15:15:52","date_gmt":"2021-09-03T18:15:52","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=5985"},"modified":"2021-09-03T15:15:52","modified_gmt":"2021-09-03T18:15:52","slug":"lalingua-e-a-interpretacao-na-passagem-de-psicanalisante-a-psicanalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/lalingua-e-a-interpretacao-na-passagem-de-psicanalisante-a-psicanalista\/","title":{"rendered":"Lal\u00edngua e a interpreta\u00e7\u00e3o na passagem de psicanalisante \u00e0 psicanalista"},"content":{"rendered":"<h6>Ana Martha Wilson Maia (EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_5986\" aria-describedby=\"caption-attachment-5986\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5986\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/travessias_003_007-1.png\" alt=\"Imagem: Pixabay\" width=\"300\" height=\"157\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/travessias_003_007-1.png 914w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/travessias_003_007-1-300x157.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/travessias_003_007-1-768x401.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5986\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quando Lacan introduziu o neologismo lal\u00edngua, ele promoveu um giro em seu ensino que produziu efeitos importantes na cl\u00ednica. Um deles incide diretamente sobre o conceito de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lacan inventa lal\u00edngua para circunscrever o gozo que fica marcado no corpo a partir do encontro com esta massa sonora que \u00e9 constitu\u00edda de significantes sozinhos, isolados, que n\u00e3o formam cadeia, n\u00e3o comunicam, n\u00e3o estabelecem la\u00e7o com o Outro. Lal\u00edngua s\u00f3 serve para gozar.<\/p>\n<p>Em seu curso de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana <em>A fuga do sentido<\/em>, Miller sublinha uma modifica\u00e7\u00e3o que Lacan fez em suas coordenadas fundamentais: do lado esquerdo de uma tabela, temos palavra, linguagem e letra e, do lado direito, apalavra, lal\u00edngua e lituraterra. S\u00e3o tr\u00eas termos do <em>primeiro Lacan<\/em> e tr\u00eas neologismos, inven\u00e7\u00f5es de Lacan dos anos 70. N\u00e3o por acaso, \u00e9 no mesmo <em>semin\u00e1rio 20<\/em> que ele apresenta lal\u00edngua e o gozo feminino.<\/p>\n<p>Quando a linguagem passa a ser uma elocubra\u00e7\u00e3o de saber sobre lal\u00edngua, j\u00e1 n\u00e3o se trata de estrutura, mas de aparelho de gozo. A interpreta\u00e7\u00e3o tem a\u00ed um outro lugar.<\/p>\n<p>No tempo do inconsciente estruturado como uma linguagem, a linguagem \u00e9 uma estrutura a ser decifrada, constru\u00edda (Miller, 2012). Na linguagem como aparelho de gozo, a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o visa o sentido que relan\u00e7a e tende \u00e0 infinitiza\u00e7\u00e3o. Na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, no avesso da interpreta\u00e7\u00e3o (Miller, 1996) est\u00e1 o corte que reconduz o ser falante \u00e0 opacidade de seu gozo.<\/p>\n<p>Assim, neste giro das coordenadas fundamentais, Lacan faz da interpreta\u00e7\u00e3o uma formaliza\u00e7\u00e3o da apalavra que suporta o real como imposs\u00edvel e promove uma redu\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>isso quer gozar<\/em>\u00a0para\u00a0<em>isso n\u00e3o quer dizer nada<\/em>.<\/p>\n<p>As marcas deixadas por lal\u00edngua no corpo reaparecem \u201cnos sonhos, em todo tipo de trope\u00e7o, em todo tipo de formas de dizer\u201d. (Lacan, 1975, p. 10). Podemos verificar em uma an\u00e1lise, at\u00e9 onde v\u00e3o os efeitos de lal\u00edngua e destacar restos enigm\u00e1ticos, um indiz\u00edvel que itera (Miller, 2011).<\/p>\n<p>Em um de seus testemunhos de passe, Bruno de Halleux (2012) traz um sonho que marca a conclus\u00e3o de sua an\u00e1lise. Ele vai de bicicleta para a casa de uma mulher <em>baronesa<\/em>. De repente, algo o freia e a bicicleta para. Um homem b\u00eabado, parecido com um primo <em>bar\u00e3o<\/em> com quem brincava na inf\u00e2ncia, surge em um carro <em>Twingo<\/em> e para em seu lado. Ele se esquiva para n\u00e3o ser atingido, tenta fugir, mas, inexplicavelmente, a bicicleta o impede de seguir. O homem o alcan\u00e7a e, no momento em que vai atingi-lo, Halleaux grita forte \u201cn\u00e3o!\u201d, acordando a mulher e os filhos.<\/p>\n<p><em>Twingo<\/em> \u00e9 um significante que condensa muitas significa\u00e7\u00f5es: a carreira do pai em uma empresa automobil\u00edstica, ser g\u00eameo, a l\u00edngua inglesa usada pela m\u00e3e para guardar segredos e a brincadeira escolhida por seus filhos de contar <em>Twingos<\/em> na rua, depois do epis\u00f3dio do sonho.<\/p>\n<p>No romance familiar, ele \u00e9 a <em>crian\u00e7a do milagre<\/em> que foi salva por uma enfermeira no parto em que supunham que nasceria apenas uma crian\u00e7a. Ele chegou inesperado: eram g\u00eameos.<\/p>\n<p>A partir de lal\u00edngua, esse <em>parl\u00eatre<\/em> faz uma elocubra\u00e7\u00e3o de saber que se torna uma constru\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica que \u00e9 esvaziada, inicialmente, por um primeiro analista, em uma interven\u00e7\u00e3o que considera ousada, ao lhe dizer: \u201cEu te quero bem\u201d (<em>Je vous ai \u00e0 la bonne<\/em>). O efeito \u00e9 de um golpe. Como continuar acreditando em um pai ideal se o analista lhe diz que \u00e9 amado? Ele n\u00e3o suporta a interven\u00e7\u00e3o e deixa o analista.<\/p>\n<p>Lacan n\u00e3o incluiu a interpreta\u00e7\u00e3o entre os conceitos fundamentais da psican\u00e1lise porque ela faz parte do conceito de inconsciente, conforme Miller (1996). Podemos dizer que ao final de uma an\u00e1lise, na passagem de analisante \u00e0 psicanalista, o <em>parl\u00eatre<\/em> relata como l\u00ea seu percurso. E em sua leitura, em sua interpreta\u00e7\u00e3o, vemos que \u201cele se encontra no lugar do sinthoma.\u201d (Laurent, 2010)<\/p>\n<p>Tempos depois da interpreta\u00e7\u00e3o ousada que o leva \u00e0 sa\u00edda da primeira an\u00e1lise, um estranho sintoma aparece na segunda an\u00e1lise de Halleux: as crises de choro. Ele demanda ao novo analista sua significa\u00e7\u00e3o e recebe a resposta: \u201cOs choros s\u00e3o muito misteriosos!\u201d (<em>Les larmes sont tr\u00e8s myst\u00e9rieuses!<\/em>).<\/p>\n<p>O analista acentua a dimens\u00e3o do acontecimento de corpo. N\u00e3o procura a causa que o faz chorar, mas o mist\u00e9rio do corpo que chora. Trata o choro como um real e o conduz a um significante que fa\u00e7a borda ao gozo, com uma interpreta\u00e7\u00e3o que produz um furo. O analista esvazia a significa\u00e7\u00e3o com uma interpreta\u00e7\u00e3o aparentemente simples que introduz a dimens\u00e3o fora do sentido e o empuxa a nomear, sob a forma do S1, ao inv\u00e9s de dar significa\u00e7\u00e3o e o lan\u00e7ar numa cadeia associativa infinita. Essa interpreta\u00e7\u00e3o abre um lugar na cadeia significante e faz surgir um significante sozinho que vem nomear o sem sentido do sintoma do lado do S1, e n\u00e3o do sentido, do S2.<\/p>\n<p>O lugar do pai est\u00e1 vazio. Ele abandona a rela\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria com o irm\u00e3o g\u00eameo e o significante paterno automobil\u00edstico. A redu\u00e7\u00e3o de gozo traz uma mudan\u00e7a radical em sua posi\u00e7\u00e3o subjetiva. Um desejo decidido o incita a ir, a n\u00e3o ceder sobre mais nada em sua vida. Ele termina o testemunho com o sonho que havia lhe indicado t\u00e3o precisamente em ingl\u00eas: \u201cV\u00e1 em frente, g\u00eameo! <em>Twin-go<\/em>!\u201d<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 6: o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u201d. (1975). In <em>Opc\u0327a\u0303o lacaniana<\/em>, S\u00e3o Paulo, n\u00ba23, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9ric. Los nombres del sinthome. Opacidad sel s\u00edntoma., ficciones del fantasma. Buenos Aires: Colecci\u00f3n Orientaci\u00f3n Lacaniana, 2010.<\/h6>\n<h6>MAIA, Ana Martha Wilson. \u201cO feminino e lal\u00edngua \u2013 dizendo o imposs\u00edvel de dizer\u201d. Trabalho apresentado no XXIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, 2020.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jaqcues-Alain. (1995-1996) <em>La fuga del sentido<\/em>. Paid\u00f3s: Buenos Aires, 2012.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cL\u2019interpr\u00e9tation \u00e0 l\u2019envers\u201d. <em>La Cause freudienne<\/em> n\u00ba32, 1996.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. <em>L\u2019Un tout seul<\/em>. 2011. Dispon\u00edvel em: https:\/\/jonathanleroy.be\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/2010-2011-LUn-tout-seul-JA-Miller.pdf. Acesso em: 10\/02\/2021.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Martha Wilson Maia (EBP\/AMP) Quando Lacan introduziu o neologismo lal\u00edngua, ele promoveu um giro em seu ensino que produziu efeitos importantes na cl\u00ednica. Um deles incide diretamente sobre o conceito de interpreta\u00e7\u00e3o. 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