{"id":5982,"date":"2021-09-03T15:14:15","date_gmt":"2021-09-03T18:14:15","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=5982"},"modified":"2021-09-03T15:14:15","modified_gmt":"2021-09-03T18:14:15","slug":"o-psicanalista-em-ato-e-os-restos-sintomaticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-psicanalista-em-ato-e-os-restos-sintomaticos\/","title":{"rendered":"O psicanalista (em ato) e os restos sintom\u00e1ticos"},"content":{"rendered":"<h6>Camila Col\u00e1s Sabino de Freitas<\/h6>\n<figure id=\"attachment_5983\" aria-describedby=\"caption-attachment-5983\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5983\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/travessias_003_008-1.png\" alt=\"Imagem: @Pinterest, colagem de Marcelo Monreal\" width=\"300\" height=\"282\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/travessias_003_008-1.png 507w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/travessias_003_008-1-300x282.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5983\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: @Pinterest, colagem de Marcelo Monreal<\/figcaption><\/figure>\n<p>No argumento para estas Jornadas, Psican\u00e1lise em Ato, Lu\u00eds Fernando Carrijo da Cunha nos lembra, com Lacan, que \u201ca tarefa do psicanalista \u00e9 a psican\u00e1lise e o ato \u00e9 aquilo mediante o qual o psicanalista se compromete a responder por ela e que n\u00e3o h\u00e1 psican\u00e1lise onde n\u00e3o h\u00e1 psicanalista (&#8230;) eis porque o ato, em Lacan, ganha a dimens\u00e3o pol\u00edtica\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Se a tarefa do psicanalista \u00e9 a psican\u00e1lise e o ato \u00e9 pelo o que o psicanalista se responsabiliza, trazer os restos sintom\u00e1ticos para pensar o psicanalista (em ato) \u00e9 fundamental para pensar a dimens\u00e3o pol\u00edtica da psican\u00e1lise. Lacan, em alguns momentos do seu ensino, lembra como Freud at\u00e9 o final da sua vida n\u00e3o encontrou resposta para a pergunta \u201co que quer uma mulher?\u201d. No semin\u00e1rio<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> sobre o ato psicanal\u00edtico Lacan, retoma a quest\u00e3o de Freud \u201co que quer uma mulher?\u201d para dizer que \u00e9 justamente pela aus\u00eancia de resposta que Freud fez um psicanalista.<\/p>\n<p>Vale lembrar que o psicanalista \u00e9 aquele que chegou ao final da an\u00e1lise pela passagem de analisando para psicanalista, atrav\u00e9s do ato anal\u00edtico. No entanto, essa passagem n\u00e3o \u00e9 sozinha, ela vem acompanhada do real do sintoma, esse que jamais \u00e9 elimin\u00e1vel. Uma passagem que s\u00f3 se d\u00e1 pela experi\u00eancia e pelos encontros com os restos sintom\u00e1ticos. Esses restos dos quais Freud, na sua \u00e9poca, verificou serem um grande obst\u00e1culo em conseguir reduzi-los ao final da experi\u00eancia anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Freud<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> em \u201cAn\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel\u201d sobre como tornar-se analista, se pergunta onde o praticante conseguir\u00e1 essa \u201cqualifica\u00e7\u00e3o\u201d e logo diz \u201c(\u00e9) na an\u00e1lise de si mesmo (&#8230;) e a fun\u00e7\u00e3o dela \u00e9 cumprida quando proporciona ao aprendiz uma firme convic\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia ao inconsciente\u201d. Freud tamb\u00e9m presta solidariedade ao analista pelas dif\u00edceis exig\u00eancias que ele tem de cumprir ao exercer sua atividade, colocando o se analisar ao lado das tr\u00eas profiss\u00f5es, como \u201cimposs\u00edveis\u201d, pois, de antem\u00e3o, o resultado do final de an\u00e1lise ser\u00e1 insatisfat\u00f3rio. Aqui, Freud j\u00e1 vislumbrava o fracasso da psican\u00e1lise pela n\u00e3o resolu\u00e7\u00e3o do sintoma.<\/p>\n<p>Miller<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, no texto \u201cLer um sintoma<em>\u201d,<\/em> lembra como Freud percebeu a persist\u00eancia do sintoma depois da interpreta\u00e7\u00e3o e que denominou isso como um paradoxo.<\/p>\n<blockquote><p>De fato, \u00e9 um paradoxo se o sintoma \u00e9 pura e simplesmente um ser de linguagem. Quando temos que nos haver com seres de linguagem na an\u00e1lise, n\u00f3s os interpretamos, isto \u00e9, n\u00f3s os reduzimos. Reconduzimos os seres da linguagem ao nada. O paradoxo aqui \u00e9 o resto. H\u00e1 um \u2018x\u2019 que resta, \u2018para al\u00e9m\u2019 da interpreta\u00e7\u00e3o freudiana.<\/p><\/blockquote>\n<p>Lacan, por\u00e9m, n\u00e3o recuou diante dos restos sintom\u00e1ticos e foi al\u00e9m: \u201co analista n\u00e3o diz <em>stop<\/em> e o analisante n\u00e3o diz <em>stop<\/em>\u201d <a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>. Aqui tem-se a confronta\u00e7\u00e3o daquilo que resta, um \u2018x\u2019, e por isso \u201cFreud esbarrou no real do sintoma, no que do sintoma \u00e9 fora do sentido\u201d.<\/p>\n<p>Brousse<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> refere que os testemunhos dos Analistas da Escola, por meio do discurso anal\u00edtico, d\u00e3o acesso \u00e0 uma feminiza\u00e7\u00e3o para os ditos homens e ditas mulheres por interm\u00e9dio do sintoma. \u00c9 pela via da an\u00e1lise levada at\u00e9 o final que \u201cpermite que apare\u00e7a uma identidade sintomal, produzida pelo arrebatamento do gozo no corpo (&#8230;) que prov\u00e9m mais do sexual no corpo do que do sexuado no Outro\u201d.<\/p>\n<p>Os AE demonstram, com os testemunhos do passe, o caminho de analisante e tamb\u00e9m da posi\u00e7\u00e3o do analista, esses que fizeram valer o desejo do analista de dar lugar ao singular at\u00e9 o final. \u00c9 poss\u00edvel verificar, com os testemunhos, como o analisante e o analista n\u00e3o disseram <em>stop<\/em> quando se depararam com os restos sintom\u00e1ticos no final da an\u00e1lise. Por isso, no semin\u00e1rio 23, Lacan afirma que \u201cn\u00e3o pode conceber o psicanalista de outra forma sen\u00e3o como um sinthoma. N\u00e3o \u00e9 a psican\u00e1lise que \u00e9 um sinthoma, mas o psicanalista<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>\u201d. Desta maneira, sustentar uma psican\u00e1lise orientada pelo real e pelo sinthoma seria a condi\u00e7\u00e3o para sua sobreviv\u00eancia?<\/p>\n<p>Oscar Reymundo, na \u00faltima Carta de S\u00e3o Paulo<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>, cita Lacan: \u201c\u00e9 preciso que o analista reinvente, a partir do que extraiu de sua pr\u00f3pria an\u00e1lise, a maneira pela qual a psican\u00e1lise pode perdurar\u201d. Ana Lydia Santiago<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>, em um texto apresentado na plen\u00e1ria\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>O amor e o inconsciente ao final de an\u00e1lise<\/em>, fala do la\u00e7o que cai no vazio do amor, sendo que o que adv\u00e9m da\u00ed \u00e9 a satisfa\u00e7\u00e3o, essa que se se extrai do resto: \u201cpoder ser sinthoma para acolher outros modos de reposta ao real e produzir experi\u00eancias do inconsciente para que a psican\u00e1lise sobreviva\u201d.<\/p>\n<p>Assim, para poder consentir e saber-fazer com os restos sintom\u00e1ticos \u00e9 preciso do psicanalista (em ato) com o seu sinthoma, este que inclui o real, para a\u00ed, termos o que ainda pode haver de mais subversivo na psican\u00e1lise em sua dimens\u00e3o pol\u00edtica, ou seja, a psican\u00e1lise (em ato)!<\/p>\n<p>Mas vale lembrar, ainda com Lu\u00eds Fernando em uma das atividades preparat\u00f3rias para estas Jornadas, que \u201c\u00e9 preciso de muito atos e saltos do Rubic\u00e3o para se chegar ao ato anal\u00edtico do final de an\u00e1lise\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>Luiz Fernando Carrijo da Cunha. Argumento das X Jornadas da EBP-SP, Psican\u00e1lise em ato, 2021 https:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/x-jornadas-psicanalise-em-ato\/argumento-x-jornadas\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Jacques Lacan. (1968). <em>O semin\u00e1rio, livro 15: o ato psicanal\u00edtico<\/em>. In\u00e9dito, aula 21 de fevereiro de 1968, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Sigmund Freud. (1937) \u201cAn\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel\u201d. In: <em>Obras Completas<\/em>, volume 19: Mois\u00e9s e o monote\u00edsmo. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2018, p.319.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Jacques-Alain Miller. \u201cLer um sintoma\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n\u00ba70, 2015, p.18.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> <em>Ibid<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse. \u201cA metade de UOM\u201d. In: <em>Mulheres e discursos<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2019, p 168.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> J. Lacan. (1975-1976). <em>O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007, p.131.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Oscar Reymundo. \u201cSubversivo ainda\u201d. In: <em>Carta de S\u00e3o Paulo. Subvers\u00f5es<\/em>, 2021, p.153<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Ana L\u00eddia Santiago. \u201cMetamorfose no amor\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n\u00ba70, 2015, p.27.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camila Col\u00e1s Sabino de Freitas No argumento para estas Jornadas, Psican\u00e1lise em Ato, Lu\u00eds Fernando Carrijo da Cunha nos lembra, com Lacan, que \u201ca tarefa do psicanalista \u00e9 a psican\u00e1lise e o ato \u00e9 aquilo mediante o qual o psicanalista se compromete a responder por ela e que n\u00e3o h\u00e1 psican\u00e1lise onde n\u00e3o h\u00e1 psicanalista&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5982","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-travessias","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5982","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5982"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5982\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5982"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5982"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5982"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5982"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}