{"id":5974,"date":"2021-09-03T15:08:15","date_gmt":"2021-09-03T18:08:15","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=5974"},"modified":"2021-09-03T15:08:15","modified_gmt":"2021-09-03T18:08:15","slug":"alea-jacta-est","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/alea-jacta-est\/","title":{"rendered":"Alea jacta est"},"content":{"rendered":"<h6>Rodrigo Camargo (Associado a CLIPP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_5975\" aria-describedby=\"caption-attachment-5975\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5975\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/travessias_003_010-1.png\" alt=\"Imagem: Instagram @nasa\" width=\"300\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/travessias_003_010-1.png 535w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/travessias_003_010-1-300x260.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5975\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @nasa<\/figcaption><\/figure>\n<p>O semin\u00e1rio do ato anal\u00edtico ainda n\u00e3o foi publicado no Brasil dentro da s\u00e9rie estabelecida por Jacques-Alain Miller. Encontramos nos <em>Outros Escritos<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em> um resumo deste semin\u00e1rio, de n\u00famero 15, <em>O ato psicanal\u00edtico<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em>, proferido nos anos de 1967 e 1968. Sabemos que al\u00e9m dele, os tr\u00eas semin\u00e1rios anteriores (12, 13 e 14) tamb\u00e9m ainda n\u00e3o foram publicados. H\u00e1 neste hiato de uma s\u00e9rie hist\u00f3rica algo que merece nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do <em>semin\u00e1rio 11<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em> (1964) ao <em>semin\u00e1rio 16<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em> (1968-69) configurou-se assim uma esp\u00e9cie de \u201cburaco negro\u201d que, a meu ver, obedece a uma l\u00f3gica pr\u00f3pria articulada por J.-A. Miller; e isto n\u00e3o aparece assim t\u00e3o aleat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Segundo a Wikipedia, \u201co buraco negro\u00a0\u00e9 uma regi\u00e3o do espa\u00e7o-tempo em que o campo gravitacional \u00e9 t\u00e3o intenso que nada &#8211; nenhuma part\u00edcula ou radia\u00e7\u00e3o eletromagn\u00e9tica como a luz &#8211; pode escapar dela\u201d. Ainda conforme o verbete, \u201ca teoria da relatividade geral prev\u00ea que uma massa suficientemente compacta pode deformar o espa\u00e7o-tempo para formar um\u00a0buraco negro\u201d. Trata-se, assim, de assumir tamanha densidade em um per\u00edodo espec\u00edfico do ensino de Lacan. E vemos nisto uma prof\u00edcua coer\u00eancia interna em tal orienta\u00e7\u00e3o estabelecida por Miller.<\/p>\n<p>Talvez Lacan n\u00e3o tenha nada a ver com isso, mas a escolha de Miller &#8211; ao publicar em uma ordem n\u00e3o cronol\u00f3gica os seus semin\u00e1rios &#8211; tem uma l\u00f3gica que justifica termos acesso a uns e n\u00e3o ainda a outros semin\u00e1rios. Mas, afinal, qual seria a raz\u00e3o disso?<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese aqui levantada \u00e9 que, apesar de alguns textos escritos de Lacan dessa \u00e9poca estarem ao nosso alcance em seus <em>Outros Escritos, <\/em>publicados postumamente, os semin\u00e1rios proferidos naquela mesma \u00e9poca indicam uma tremenda reviravolta na recep\u00e7\u00e3o de seu ensino e nas gera\u00e7\u00f5es vindouras.<\/p>\n<p>Talvez apenas hoje tenhamos condi\u00e7\u00f5es de recolher os estilha\u00e7os em forma de fragmentos e n\u00e3o nos perdermos de vez neste intenso campo gravitacional. Afinal, um buraco negro \u00e9 dotado de tanta luz que acaba sugando tudo que est\u00e1 em volta, inclusive sua pr\u00f3pria luz.<\/p>\n<p>\u201cOs seis paradigmas do gozo\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>, de J.-A. Miller, contam um pouco sobre este buraco, principalmente na aposta de Miller que salta do paradigma 4 para o paradigma 5, ou seja, algo de muito importante se passa entre o <em>semin\u00e1rio 11<\/em> e o <em>semin\u00e1rio 17 <a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\"><strong>[6]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n<p>Desde o semin\u00e1rio inexistente sobre Os Nomes-do-Pai<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a> (1963) at\u00e9 o in\u00edcio do <em>semin\u00e1rio 16 &#8211; De um Outro ao outro<\/em> (1968), Lacan n\u00e3o fez mais nenhuma men\u00e7\u00e3o ao Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>Quando isto reaparece, vem em rela\u00e7\u00e3o com o nome de Deus. N\u00e3o mais o Deus dos fil\u00f3sofos, mas o do Antigo Testamento. Um Deus que fala, cujo nome \u00e9 impronunci\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos deixar de levar em considera\u00e7\u00e3o, na medida em que \u00e9 sempre muito importante cotejar a \u00e9poca dos semin\u00e1rios de Lacan com as datas de seus textos escritos, que a \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a> \u00e9 concomitante com o semin\u00e1rio do Ato.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre bom lembrar que a luz da noite \u00e9 mais escura apenas em um instante antes do amanhecer. S\u00f3 depois do <em>semin\u00e1rio 15<\/em> que Lacan, interrompido, ali\u00e1s, pelo \u201cmaio de 68\u201d em Paris, retoma seu dizer sobre o Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>Se Lacan fala novamente disto \u00e9 em raz\u00e3o de uma articula\u00e7\u00e3o interna com seu ensino. Trata-se de uma tens\u00e3o imposta entre o sujeito do cogito em Descartes e o saber absoluto de Hegel.<\/p>\n<p>Lacan comp\u00f5e isto em termos de transfer\u00eancia na figura do Sujeito suposto Saber ou na problem\u00e1tica da divis\u00e3o do sujeito entre saber e verdade a partir da qual vai operar o discurso anal\u00edtico vindouro.<\/p>\n<p>Ato e pot\u00eancia se articulam desde a metaf\u00edsica de Arist\u00f3teles. No entanto, um antigo amigo de Lacan, de estilo espirituoso, chamado Raymond Queneau, poeta e matem\u00e1tico, fundou naquela mesma \u00e9poca, junto com mais alguns outros colegas, um grupo inspirando na ci\u00eancia pataf\u00edsica de Alfred Jarry.<\/p>\n<p>Um par\u00eantese: (A\u00a0pataf\u00edsica\u00a0vem do\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/L%C3%ADngua_grega_antiga\">grego<\/a> e significa &#8220;al\u00e9m da f\u00edsica&#8221;. Trata-se de uma\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ci%C3%AAncia\">ci\u00eancia<\/a>\u00a0de solu\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias e de leis que regulam exce\u00e7\u00f5es. Jarry, que na verdade era um dramaturgo, ao explorar alguns campos negligenciados pela\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/F%C3%ADsica\">f\u00edsica<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Metaf%C3%ADsica\">metaf\u00edsica<\/a>, expressou-se por meio de uma linguagem <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Nonsense\"><em>nonsense<\/em><\/a>, um modo pessoal e\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Anarquismo\">an\u00e1rquico<\/a>\u00a0de explicar o absurdo da exist\u00eancia, conforme podemos observar de novo com a Wikipedia. Fecha o par\u00eantese).<\/p>\n<p>Enfim, ao longo da d\u00e9cada dos anos 1960, apareceu na cena intelectual francesa o OuLiPo&#8230; Levemente inspirado nessa aventura pataf\u00edsica do pai Ubu, o grupo do OuLiPo (acr\u00f4nimo de <em>Ouvroir de Litt\u00e9rature Potentielle<\/em>, algo como um canteiro de obras de literatura potencial) inventava uma solu\u00e7\u00e3o genial para os procedimentos da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Tratava-se de recolher os efeitos do que seria uma <em>contrainte<\/em>. Est\u00e1vamos num contexto de efervesc\u00eancia do estruturalismo franc\u00eas e a <em>contrainte<\/em> era um procedimento em torno do qual poetas e matem\u00e1ticos se juntaram para escrever textos impondo-se uma constri\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de m\u00e9todo ou simplesmente um regime criativo de lidar com um furo na linguagem.<\/p>\n<p>O que Lacan fazia nesta \u00e9poca, a partir do semin\u00e1rio interrompido de 63 at\u00e9 o semin\u00e1rio interrompido de 68 (interrompidos, ali\u00e1s, por raz\u00f5es bem diversas), era constituir n\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade da psican\u00e1lise, mas sen\u00e3o aquilo que Freud articulou como sendo sua impossibilidade mesma, ou nos termos lacanianos: as raz\u00f5es de um fracasso.<\/p>\n<p>Estamos nessa altura no semin\u00e1rio do Ato Anal\u00edtico e notamos que Lacan percebe que n\u00e3o se trata de fazer com a psican\u00e1lise uma revolu\u00e7\u00e3o em potencial. Astronomicamente, inclusive, uma revolu\u00e7\u00e3o seria uma volta de um corpo celeste que, ao voltar sempre para o mesmo lugar, atesta inclusive uma das acep\u00e7\u00f5es do real.<\/p>\n<p>Podemos com isto propor que a experi\u00eancia da an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a experi\u00eancia do atravessamento de um rubic\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nada de extraordin\u00e1rio em vista, a n\u00e3o ser uma transforma\u00e7\u00e3o singularmente radical do infraordin\u00e1rio, isto \u00e9, a pr\u00e1tica anal\u00edtica enquanto uma pr\u00e1xis que aponta para um modo de vida mais satisfat\u00f3rio ou apenas menos confuso.<\/p>\n<p>O potencial de uma an\u00e1lise s\u00f3 se converte em uma psican\u00e1lise em ato se sua cl\u00e1usula de impossibilidade promove uma travessia do furo na linguagem pelo qual damos voltas e voltas infinitas, voltas em torno deste \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual que possa ser escrita\u201d at\u00e9 ent\u00e3o lido como o buraco negro de um gozo pulsional mortificante.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Jacques Lacan. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> J. Lacan. (1967-1968) <em>O semin\u00e1rio, livro 15: \u00a0O ato psicanal\u00edtico<\/em>. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> J. Lacan. (1964) <em>O semin\u00e1rio, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> J. Lacan. (1968-1969) <em>O semin\u00e1rio, livro 16: De um Outro ao outro<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Jacques-Alain Miller. \u201cOs seis paradigmas do gozo\u201d. In <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana<\/em> <em>online<\/em>, n\u00ba7, 2012<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> J. Lacan. (19169-1970) <em>O semin\u00e1rio, livro 17: O avesso da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de janeiro, Jorge Zahar Ed., 1992.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> J. Lacan. (1963) <em>Semin\u00e1rio Os Nomes-do-Pai<\/em>. Inexistente.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> J. Lacan. (1967) \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola\u201d. In: <em>Outros escritos<\/em>, <em>op. cit<\/em>.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodrigo Camargo (Associado a CLIPP) O semin\u00e1rio do ato anal\u00edtico ainda n\u00e3o foi publicado no Brasil dentro da s\u00e9rie estabelecida por Jacques-Alain Miller. Encontramos nos Outros Escritos[1] um resumo deste semin\u00e1rio, de n\u00famero 15, O ato psicanal\u00edtico[2], proferido nos anos de 1967 e 1968. 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