{"id":5860,"date":"2021-08-12T07:04:38","date_gmt":"2021-08-12T10:04:38","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=5860"},"modified":"2021-08-12T07:04:38","modified_gmt":"2021-08-12T10:04:38","slug":"uma-disputa-do-ato-contribuicoes-para-uma-clinica-psicanalitica-do-suicidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/uma-disputa-do-ato-contribuicoes-para-uma-clinica-psicanalitica-do-suicidio\/","title":{"rendered":"Uma disputa do ato: contribui\u00e7\u00f5es para uma cl\u00ednica psicanal\u00edtica do suic\u00eddio"},"content":{"rendered":"<h6>Nieves Soria (EOL\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_5861\" aria-describedby=\"caption-attachment-5861\" style=\"width: 477px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5861\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/boletim002_008-1.png\" alt=\"Imagem: Instagram @reymondimagenslinas\" width=\"477\" height=\"597\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/boletim002_008-1.png 477w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/boletim002_008-1-240x300.png 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 477px) 100vw, 477px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5861\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @reymondimagenslinas<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong><em>A recusa do inconsciente<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O suic\u00eddio nos deixa sem palavras, n\u00e3o sabemos nada sobre ele. Ele nos confronta com a ignor\u00e2ncia mais absoluta. Deslumbramo-nos at\u00e9 que o esquecemos. Ele se produz em um abismo do qual, s\u00f3 \u00e0s vezes, nos aproximamos em nossa pr\u00e1tica. O abismo no qual o suicida se lan\u00e7a consiste em uma recusa de saber, uma recusa que se eleva como um n\u00e3o radical e absoluto diante dos emaranhados do verdadeiro, com suas voltas e reviravoltas, seus meio-dizeres, seus equ\u00edvocos. Ele recusa a dimens\u00e3o falha do ato no que diz respeito ao verdadeiro. \u00c9 uma nega\u00e7\u00e3o definitiva do inconsciente.<\/p>\n<p>A releitura lacaniana de Freud nos leva a uma aproxima\u00e7\u00e3o estreita entre a recusa do saber e a puls\u00e3o de morte, em que o gozo da vida permanece ligado ao prazer que pode produzir o dizer sobre o verdadeiro. \u00c9 assim que em 1971, Lacan dizia em seu semin\u00e1rio: &#8220;[\u2026] S\u00f3 que, em vez de falarmos ninharias acerca do instinto de morte primitivo, proveniente do exterior ou do interior, ou nos voltando do exterior para o interior e, no fim da vida, nos relan\u00e7ando sobre a agressividade e o tumulto, talvez pud\u00e9ssemos ler o instinto de morte freudiano o que levaria a dizer, quem sabe, que o \u00fanico ato, se houvesse um que fosse um ato consumado, seria, se ele fosse poss\u00edvel, o suic\u00eddio\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><strong><em>Sem esperan\u00e7a<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Em seu texto \u201cTelevis\u00e3o\u201d, ante a terceira pergunta kantiana &#8211; o que devo esperar? &#8211; que lhe foi dirigida por J.-A. Miller, Lacan adverte contra a possibilidade de alimentar uma esperan\u00e7a na an\u00e1lise: \u201cSaiba apenas que, por v\u00e1rias vezes, vi a esperan\u00e7a &#8211; aquilo a que se chama os r\u00f3seos amanh\u00e3s &#8211; levar ao suic\u00eddio, pura e simplesmente\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. De fato, o discurso anal\u00edtico pode trazer \u00e0 luz o inconsciente do sujeito, mas isto \u00e9 contingente, n\u00e3o h\u00e1 garantias: \u201c[&#8230;] com o que pretendo dizer que a esperan\u00e7a n\u00e3o adiantar\u00e1 nada, o que basta para torn\u00e1-la in\u00fatil, isto \u00e9, para n\u00e3o permiti-la\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a \u00e9 uma promessa que sup\u00f5e um Outro ali onde ele n\u00e3o existe, onde s\u00f3 existe o acaso. Nessas manh\u00e3s que cantam, o futuro sorri ao sujeito, faz-lhe um sinal de um futuro afortunado, como se estivesse assegurado, desconhecendo tanto sua pr\u00f3pria responsabilidade com rela\u00e7\u00e3o ao seu desejo, no que o destino lhe reserva, quanto \u00e0s conting\u00eancias da vida. Lacan indica que o esperan\u00e7oso \u00e9 um poss\u00edvel suicida, pronto para fazer Um com esse Outro sorridente, empurrado pelo retorno mortal da exalta\u00e7\u00e3o man\u00edaca, ou para passar ao ato ao deixar de perceber aquele sorriso do Outro em sua vida. Da\u00ed esta surpresa, que n\u00e3o \u00e9 raro perceber nas pessoas pr\u00f3ximas do suicida, que \u00e9 costumeiramente repetida, de que o percebiam bem, feliz, etc.<\/p>\n<p><strong><em>Orienta\u00e7\u00e3o pelo sintoma<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 o sintoma que cumpre a fun\u00e7\u00e3o de impedir que tudo corra bem, como uma esp\u00e9cie de rem\u00e9dio &#8211; claro que n\u00e3o infal\u00edvel &#8211; contra o suic\u00eddio, como recorda Lacan em \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d: \u201cPena que haja os que pulam da balaustrada logo no primeiro andar, e justamente aqueles cujas necessidades foram todas reconduzidas \u00e0 sua exata medida. Rea\u00e7\u00e3o terap\u00eautica negativa, dir\u00e3o [&#8230;] gra\u00e7as a Deus, a recusa n\u00e3o vai t\u00e3o longe em todos! O sintoma simplesmente torna a brotar qual erva daninha, compuls\u00e3o de repeti\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Trata-se aqui de um ponto fundamental na dire\u00e7\u00e3o do tratamento: a import\u00e2ncia de manter aberta a dimens\u00e3o do sintoma. Este ponto torna-se crucial no tratamento das melancolias. O melanc\u00f3lico v\u00ea o futuro como obscuro, nada de bom lhe est\u00e1 reservado e, geralmente, como consequ\u00eancia da recusa do simb\u00f3lico em jogo na sua posi\u00e7\u00e3o, \u00e9 nesta perspectiva sombria e, somente nela, que consiste a sua dimens\u00e3o sintom\u00e1tica. Isto p\u00f5e \u00e0 prova o desejo do analista que, muitas vezes, s\u00f3 est\u00e1 presente para que o sujeito volte, a cada vez, para depositar nele, para transferi-lo uma dose desta puls\u00e3o de morte desligada que o habita.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica do analista, ao encarnar na transfer\u00eancia a caveira mesma, sem enterrar, e que com sua presen\u00e7a embara\u00e7a o melanc\u00f3lico, muitas vezes, isto pelo menos o alivia parcialmente de seu peso, abrindo-lhe, em alguns momentos, de forma excepcional e contingente, um espa\u00e7o para outro destino deste gozo que pode ent\u00e3o tomar o caminho da sublima\u00e7\u00e3o. Trata-se, no entanto, de uma pr\u00e1tica sem garantias.<\/p>\n<p><strong><em>Uma pol\u00edtica do ato falho<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nas suas observa\u00e7\u00f5es sobre o conceito da passagem ao ato, Miller argumenta que a cl\u00ednica da passagem ao ato evoca a antinomia entre o pensamento e a a\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. \u00c9 nesta hi\u00e2ncia que ter\u00e1 lugar o ato anal\u00edtico, o qual se prop\u00f5e como pol\u00edtica do ato falho, tratando da proximidade da passagem ao ato suicida por meio da hi\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A indica\u00e7\u00e3o freudiana &#8211; em desuso nesta \u00e9poca em que as an\u00e1lises duram muitos anos &#8211; de n\u00e3o tomar decis\u00f5es como viajar, casar, etc., enquanto durasse a an\u00e1lise, n\u00e3o apontava precisamente para certa suspens\u00e3o do empuxo ao ato que poderia insinuar-se como um curto-circuito que, ao retirar o sujeito do circuito da palavra, lhe pouparia da confronta\u00e7\u00e3o com algum saber que o horroriza?<\/p>\n<p>Esta suspens\u00e3o pode se realizar de outras formas. Nem sempre \u00e9 poss\u00edvel. \u00c9 o ato anal\u00edtico, aquilo que prov\u00e9m do desejo do analista, um desejo que est\u00e1 consciente da disjun\u00e7\u00e3o entre saber e a\u00e7\u00e3o. Trata-se de devolver o &#8220;n\u00e3o penso&#8221; ao lugar do analista, dividindo o sujeito e o causando para que tome o tempo de compreender. Afinal de contas, n\u00e3o se trata de disputar o ato do sujeito?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Eduardo Vallejos<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><sup>1<\/sup> Lacan, J. <em>Estou falando com as paredes: conversas na capela de Sainte-Anne<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 30 e 31.<\/h6>\n<h6><sup>2<\/sup> Lacan, J. (1974) \u201cTelevis\u00e3o\u201d. In <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 540.<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Ibid. p. 541.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Lacan, J. \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d. In <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 630.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. \u201cJacques Lacan: observa\u00e7\u00f5es sobre seu conceito de passagem ao ato\u201d. In <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana <\/em><em>online <\/em>nova s\u00e9rie, Ano 5, n\u00ba 13, mar\u00e7o 2014. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_13\/Passagem_ao_ato.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_13\/Passagem_ao_ato.pdf<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nieves Soria (EOL\/AMP) A recusa do inconsciente O suic\u00eddio nos deixa sem palavras, n\u00e3o sabemos nada sobre ele. Ele nos confronta com a ignor\u00e2ncia mais absoluta. Deslumbramo-nos at\u00e9 que o esquecemos. Ele se produz em um abismo do qual, s\u00f3 \u00e0s vezes, nos aproximamos em nossa pr\u00e1tica. 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