{"id":5857,"date":"2021-08-12T07:04:44","date_gmt":"2021-08-12T10:04:44","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=5857"},"modified":"2021-08-12T07:04:44","modified_gmt":"2021-08-12T10:04:44","slug":"a-entrada-em-analise-ato-e-moterialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-entrada-em-analise-ato-e-moterialismo\/","title":{"rendered":"A entrada em an\u00e1lise: ato e moterialismo"},"content":{"rendered":"<h6>Cristina Drummond (EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_5858\" aria-describedby=\"caption-attachment-5858\" style=\"width: 323px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5858\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/boletim002_009-1.png\" alt=\"Imagem: Instagram @artintermational\" width=\"323\" height=\"392\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/boletim002_009-1.png 323w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/boletim002_009-1-247x300.png 247w\" sizes=\"auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5858\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @artintermational<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nas jornadas da ECF sobre o feminino, Fran\u00e7ois Ansermet nos disse que a fala de Paul Preciado nos trouxe a responsabilidade que temos de reinventar a psican\u00e1lise em um mundo do qual participamos. O pensamento de Preciado foi tomado por nossa comunidade como signo da subjetividade de nossa \u00e9poca e a quest\u00e3o trans como uma consequ\u00eancia da interven\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia no mundo dos seres falantes. J\u00e1 em 83, Catherine Millot dizia: \u201cnada de transexual sem cirurgi\u00e3o e sem endocrinologista\u201d. A impossibilidade de representar a diferen\u00e7a dos sexos como tal e a alteridade do sexo e do gozo que n\u00e3o podem se representar pela linguagem se apresentam de maneira cada vez mais insistente nas solu\u00e7\u00f5es singulares dos falasseres que produzem sintomas para se arranjarem com seus corpos e seus gozos.<\/p>\n<p>Juntamente com essa convoca\u00e7\u00e3o a reinventar a psican\u00e1lise diante dos novos sintomas, das novas formas dos falasseres se arranjarem com o gozo, temos a orienta\u00e7\u00e3o de Lacan em seu semin\u00e1rio 11 de que a presen\u00e7a do analista \u00e9 ela mesma uma manifesta\u00e7\u00e3o do inconsciente. Lacan tamb\u00e9m diz nesse semin\u00e1rio que a fun\u00e7\u00e3o do analista se sustenta a partir de um desejo impuro, que \u00e9 um desejo de obter a diferen\u00e7a absoluta, aquela que interv\u00e9m quando, confrontado com o significante primordial, o sujeito vem \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de se assujeitar a ele.<\/p>\n<p>Assim, nessas jornadas da EBP-SP sobre o ato, teremos a oportunidade de buscar as maneiras de sustentar nossa fun\u00e7\u00e3o que leva ao Um. Gostaria aqui de pensar a respeito do ato de entrada em an\u00e1lise. Esse ato depende da conex\u00e3o do sujeito com o inconsciente, cuja materialidade em nossa atualidade n\u00e3o me parece ser t\u00e3o f\u00e1cil de ser levada em conta, sobretudo a moterialidade do inconsciente que nos permite localizar o Um. Estamos num tempo em que o falasser recorre a outras formas que n\u00e3o a decifra\u00e7\u00e3o fundada na met\u00e1fora para resolver sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo.<\/p>\n<p>Miller, em sua confer\u00eancia \u201cUma fantasia\u201d, disse que a an\u00e1lise demanda amar seu inconsciente para fazer existir n\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o sexual, mas a rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Isso para que no final do tratamento, o sujeito possa se destacar dos efeitos de verdade que ele amou. N\u00e3o h\u00e1 in\u00edcio de an\u00e1lise sem a passagem pelo sujeito suposto saber para que se abra o inconsciente, fundado sobre o amor ao seu pr\u00f3prio inconsciente, ao Outro. Tal como disse Lacan, n\u00e3o h\u00e1 ato anal\u00edtico fora do manejo da transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>A abertura do inconsciente permite ao analisante localizar um sujeito em seu dizer e indica algo de sua rela\u00e7\u00e3o singular com a palavra e o que ela toca em seu corpo e que o introduz no caminho da longa experi\u00eancia de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Localizar o ponto em que a palavra equivocada orientou o mal-entendido sobre o qual o sujeito fundou seu fantasma leva tempo. Antes disso, \u00e9 preciso que o sujeito se d\u00ea conta de sua rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria com a palavra, com sua <em>lal\u00edngua<\/em> familiar, com seu inconsciente charlat\u00e3o. E isso s\u00f3 tem lugar a partir de um endere\u00e7amento transferencial e uma escuta.<\/p>\n<p>Alguns relatos de AEs s\u00e3o bastante elucidativos a esse respeito e nos ensinam sobre sua rela\u00e7\u00e3o singular com o significante e demonstram que a possibilidade desse trabalho foi devido\u00a0\u00e0 presen\u00e7a e \u00e0 palavra do analista, que muitas vezes n\u00e3o \u00e9 mais do que referendar a interpreta\u00e7\u00e3o do inconsciente de cada um. A topologia pr\u00f3pria ao ato anal\u00edtico se articula \u00e0 fun\u00e7\u00e3o po\u00e9tica j\u00e1 que, como disse \u00c9ric Laurent, o moterialismo encerra em seu centro um vazio. Vou tomar alguns desses exemplos que me ajudaram a pensar essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Dominique Jammet diz ter repetido durante muito tempo certos significantes que retornavam em suas queixas, seja nos sonhos ou nos atos falhos, e que n\u00e3o lhe permitiam captar a l\u00f3gica que os enla\u00e7avam e determinavam seu gozo. Era preciso tempo para uma an\u00e1lise que, em um segundo tempo s\u00f3 foi poss\u00edvel a partir de um encontro com um analista diante do qual ela teve medo de que ele esquecesse o seu nome. O ser esquecida retomava um relato de seu nascimento feito por sua m\u00e3e no qual a parteira a deixara sobre a balan\u00e7a, onde a m\u00e3e foi busc\u00e1-la diante da demora.<\/p>\n<p>Como diz Daniel Pasqualin, se no in\u00edcio est\u00e1 a transfer\u00eancia, uma an\u00e1lise reserva muitas surpresas para aquele que se engaja nesse trabalho de decifra\u00e7\u00e3o do inconsciente. Percurso de localiza\u00e7\u00e3o dos significantes e de mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o com o gozo.<\/p>\n<p>Dominique Hoelvet nos relata que, desde o in\u00edcio de sua an\u00e1lise, aparece o olhar da m\u00e3e que o invadia ao entrar no banheiro quando tomava banho e que ele repetia como dan\u00e7arino. Ao ser deitado no div\u00e3 ele pode fazer uma primeira separa\u00e7\u00e3o desse olhar devorador e deixar o palco para continuar sua an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Araceli Fuentes relata que ap\u00f3s a morte de seu pai ela busca uma segunda an\u00e1lise com uma analista reconhecida.\u00a0 Logo na primeira sess\u00e3o, sem que ela tivesse pensado nisso, surge a frase que marcara sua vida: \u201cah se sua m\u00e3e a visse!\u201d. Tamb\u00e9m menciona a frase que seu primo tinha o costume de dizer: \u201cQue sorte teve a menina com dona Maria!\u201d. Dona Maria era a mulher com quem seu pai se casara, sua segunda m\u00e3e, a \u00fanica que ela conheceu e a menina era ela. Essa frase lhe dizia n\u00e3o apenas que estava bem ter uma segunda m\u00e3e como que era uma sorte ter perdido sua primeira m\u00e3e. A transfer\u00eancia a fazia sonhar, inclusive com sua analista examinando sua garganta e dizendo, tal como Freud a Irma, o nome de sua doen\u00e7a: Lupus. Segundo ela, sua an\u00e1lise n\u00e3o foi f\u00e1cil, uma verdadeira travessia no deserto, pois ela partia de um real mudo que n\u00e3o se prestava a nenhum tipo de simboliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlos Rossi nos conta sobre sua primeira entrevista. Ele se dividia entre a m\u00fasica e a psican\u00e1lise. Sua analista o deixa falar um pouco de seus inc\u00f4modos com o Outro: os m\u00fasicos eram muito descontrolados e os analistas uns esnobes, n\u00e3o sa\u00edam \u00e0 rua. A analista lhe diz: \u201cfale-me de seu pai\u201d. A partir desse corte se seguiram 16 anos de an\u00e1lise.<\/p>\n<p>O ato de entrada est\u00e1 atrelado ao moterialismo, ao la\u00e7o singular de cada um com a palavra e que s\u00f3 tem lugar ao ser acolhido por algu\u00e9m que se presta a ser o destinat\u00e1rio desse lugar. Fun\u00e7\u00e3o encarnada por um desejo nada puro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cristina Drummond (EBP\/AMP) Nas jornadas da ECF sobre o feminino, Fran\u00e7ois Ansermet nos disse que a fala de Paul Preciado nos trouxe a responsabilidade que temos de reinventar a psican\u00e1lise em um mundo do qual participamos. 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