{"id":5365,"date":"2020-11-17T16:13:34","date_gmt":"2020-11-17T19:13:34","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=5365"},"modified":"2020-11-17T16:13:34","modified_gmt":"2020-11-17T19:13:34","slug":"a-subversao-instituida-pelo-ato-analitico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-subversao-instituida-pelo-ato-analitico\/","title":{"rendered":"A Subvers\u00e3o institu\u00edda pelo ato anal\u00edtico"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_5352\" aria-describedby=\"caption-attachment-5352\" style=\"width: 359px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5352\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/003-1.jpg\" alt=\"\u00a0Imagem: @Pinterest https:\/\/pin.it\/5cDfVzj\" width=\"359\" height=\"470\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/003-1.jpg 359w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/003-1-229x300.jpg 229w\" sizes=\"auto, (max-width: 359px) 100vw, 359px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5352\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: @Pinterest https:\/\/pin.it\/5cDfVzj<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Maria C\u00e9lia Reinaldo Kato (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Uma das subvers\u00f5es que Lacan nos apresenta a partir de Freud, \u00e9 a mudan\u00e7a no estatuto do sujeito. Essa \u00e9 uma das leituras que podemos fazer sobre o que prop\u00f5e no texto \u201cA subvers\u00e3o do sujeito e a dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano\u201d<sup>1<\/sup>.<\/p>\n<p>A subvers\u00e3o proposta por Lacan, neste momento do seu ensino, \u00e9 no sentido de modificar o conceito de sujeito feito pela filosofia, recusando-se a utilizar da ci\u00eancia e tamb\u00e9m da psicologia para isso.<\/p>\n<p>A dial\u00e9tica do desejo cria a subvers\u00e3o do sujeito enquanto id\u00eantico a si mesmo, assim, o sujeito lacaniano n\u00e3o aparece no enunciado. Trata-se do sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o inconsciente que aparece no intervalo significante, dividido, barrado pela linguagem e alienado no Outro. A dimens\u00e3o do \u201csou onde n\u00e3o penso e penso onde n\u00e3o sou\u201d.<\/p>\n<p>Outra indica\u00e7\u00e3o de subvers\u00e3o do sujeito que Lacan nos apresenta neste mesmo texto \u00e9 a seguinte: \u201cL\u00e1 onde o isso era, o eu deve advir\u201d, indicando que o eu aqui est\u00e1 relacionado com o sujeito que a an\u00e1lise procura fazer aparecer, um eu que se responsabiliza pelo seu inconsciente. Esta dimens\u00e3o j\u00e1 indica uma nova rela\u00e7\u00e3o do sujeito com seu inconsciente, n\u00e3o mais como linguagem, mas implicado com seu gozo. Lacan subverte o sujeito cartesiano para que o sujeito do inconsciente possa advir.<\/p>\n<p>A vertente que pretendo trabalhar \u00e9 a subvers\u00e3o do sujeito institu\u00edda pelo ato anal\u00edtico, onde Lacan indica que a partir dele ocorre uma transforma\u00e7\u00e3o no estatuto do sujeito. Essa no\u00e7\u00e3o de \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d nos indica algo para al\u00e9m de uma \u201cmudan\u00e7a\u201d, muito comumente pregada pela an\u00e1lise do comportamento, onde se indica \u201cmudar de comportamento\u201d. \u201cTransforma\u00e7\u00e3o\u201d incide na radicalidade, no mais singular, que Lacan prop\u00f5e enquanto \u201cefeito de sujeito\u201d institu\u00eddo pelo discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Segundo Graciela Brodsky<sup>2<\/sup>, o ato anal\u00edtico implica que algo se transforma no dispositivo, \u201cessa experi\u00eancia, trabalho ou processo desemboca em uma subvers\u00e3o do sujeito\u201d. \u201cO ato implica numa transforma\u00e7\u00e3o do estatuto da indetermina\u00e7\u00e3o do sujeito, em sua falta-a-ser\u201d. No percurso de uma an\u00e1lise h\u00e1 uma transforma\u00e7\u00e3o do sujeito, que n\u00e3o mais ser\u00e1 dar marcha a r\u00e9, uma vez entrado no dispositivo n\u00e3o tem como retroceder.<\/p>\n<p>Em \u201cO ato psicanal\u00edtico \u2013 resumo do semin\u00e1rio de 1967-1968\u201d<sup>3<\/sup>, Lacan coloca \u201co ato (puro e simples) tem lugar por um dizer, e pelo qual modifica o sujeito. Andar s\u00f3 \u00e9 ato desde que n\u00e3o diga apenas \u201canda-se\u201d, ou ao menos \u201candemos\u201d, mas fa\u00e7a com que \u201ccheguei\u201d se verifique nele\u201d. A modifica\u00e7\u00e3o do sujeito institu\u00edda pela psican\u00e1lise consiste no que Lacan prop\u00f5e sobre a fun\u00e7\u00e3o do ato anal\u00edtico ser a subvers\u00e3o do sujeito. Podemos pensar nessa met\u00e1fora do \u201candar\u201d sobre a inten\u00e7\u00e3o de Lacan ao tomar a palavra subvers\u00e3o, propondo que em uma an\u00e1lise n\u00e3o se trata de girar sobre o mesmo eixo, mas sim seguir adiante para que se chegue \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do sujeito, implicando que este n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo do in\u00edcio.<\/p>\n<p>Essa dimens\u00e3o da subvers\u00e3o institu\u00edda pelo ato nos remete \u00e0 a\u00e7\u00e3o do psicanalista e sua incid\u00eancia no estatuto de sujeito, indicando que h\u00e1 um antes e um depois, sendo que n\u00e3o se sai da mesma forma que entrou. O ato nos coloca a dimens\u00e3o do novo, em cada ato se percorre um trajeto e se chega a algo in\u00e9dito, ao imprevisto, \u00e0 sua mais radical singularidade.<\/p>\n<p>O ato introduz um vazio experimentado tanto pelo analista quanto pelo analisante. Lacan afirma que no ato n\u00e3o h\u00e1 Outro nem sujeito, marcando que o que se produz \u00e9 um \u201cefeito de sujeito\u201d institu\u00eddo pelo significante a partir da divis\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>Encontramos esta proposta de Lacan em \u201cDiscurso na Escola Freudiana de Paris\u201d<sup>4<\/sup> quando ele pontua que no trabalho anal\u00edtico o analista n\u00e3o pode ser poupado do des-ser com que ele \u00e9 afetado ao final deste processo, e ao psicanalisante a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva, na qual o sujeito se ausenta de sua dimens\u00e3o de sujeito.<\/p>\n<p>\u201cNessa reviravolta em que o sujeito v\u00ea so\u00e7obrar a seguran\u00e7a que extraia da fantasia em que se constitui, para cada um, sua janela para o real, o que se percebe \u00e9 que a apreens\u00e3o do desejo n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o a de um des-ser\u201d<sup>5<\/sup>. Lacan prop\u00f5e que no final da an\u00e1lise o sujeito se coloca na rela\u00e7\u00e3o com o desejo e com o saber a partir de outro lugar. Essa nova rela\u00e7\u00e3o com o saber, ele nomeia \u201cum saber sem sujeito\u201d indicando que esta \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para se estar no inconsciente. Esse \u201csaber sem sujeito\u201d implica na transforma\u00e7\u00e3o que ele prop\u00f5e, indica uma mudan\u00e7a na condi\u00e7\u00e3o de sujeito, destitu\u00eddo das amarras significantes, capaz de suportar o vazio de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Isso aponta para uma nova rela\u00e7\u00e3o com o Outro e com o objeto <em>a<\/em>, n\u00e3o mais aprisionado \u00e0 fantasia e ao desejo do Outro. No texto \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967\u201d, contempor\u00e2neo do resumo do Ato Anal\u00edtico, Lacan coloca que a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva est\u00e1 indicada desde o in\u00edcio e ao final h\u00e1 uma mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o objeto, n\u00e3o mais enquanto causa e sim como resto, possibilitando que o sujeito ceda em sua fantasia. Assim, o desejo liberto das amarras do Outro pode indicar a dire\u00e7\u00e3o desse \u201candar\u201d para que se consiga dizer \u201ccheguei\u201d.<\/p>\n<p>Ao final da an\u00e1lise, a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva se d\u00e1 com o analisante e tamb\u00e9m com o analista em sua condi\u00e7\u00e3o de des-ser. \u201cSer\u00e1 que o psicanalisante, ao t\u00e9rmino da tarefa que lhe foi atribu\u00edda, sabe \u201cmelhor do que ningu\u00e9m\u201d da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva a que ela reduziu justamente aquele que lha ordenou? Ou seja: o em-si do objeto <em>a<\/em> que, nesse t\u00e9rmino, esvazia-se no mesmo movimento pelo qual o psicanalisante cai, por ter verificado nesse objeto a causa do desejo\u201d<sup>6<\/sup>. Do lado do analisante abre-se uma nova rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente, n\u00e3o mais enquanto discurso do Outro, mas tempo l\u00f3gico do sinthoma.<\/p>\n<p>O ato destitui o pr\u00f3prio analista, onde este esvazia-se de sua consist\u00eancia, remetendo-lhe ao des-ser pr\u00f3prio daquele que conduziu uma an\u00e1lise ao seu final. Lacan indica que \u201cpor isso ele remete ao em-si de uma consist\u00eancia l\u00f3gica, de um decidir se \u00e9 poss\u00edvel dar sequ\u00eancia a um ato tal que, em seu fim, destitui o pr\u00f3prio sujeito que o instaura\u201d<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p>Para concluir, busco os apontamentos de Miller ao se referir que \u201co passe \u00e9 exatamente o resultado do ato anal\u00edtico na medida em que este permite tocar e transformar, no n\u00edvel significante, a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com este resto de gozo\u201d<sup>8<\/sup>. Temos ent\u00e3o, os efeitos da subvers\u00e3o do ato anal\u00edtico no sujeito que, despido do arsenal significante, encontra-se no registro da escrita representado por uma letra, do Um sozinho e do imposs\u00edvel de dizer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>1 Lacan, J. (1960\/1998) \u201cSubvers\u00e3o do Sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano\u201d In <em>Escritos<\/em>, Rio de Janeiro, Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>2 Brodsky, G. \u201cO Sujeito Subvertido\u201d In Short Story, o princ\u00edpios do ato psicanal\u00edtico. Rio de Janeiro, Contra Capa Livraria, 2004, p\u00e1g. 46.<\/h6>\n<h6>3 Lacan, J. \u201cAto anal\u00edtico \u2013 resumo do semin\u00e1rio de 1967-1968\u201d In Outros Escritos. Rio de Janeiro, Zahar, 2003, p\u00e1g. 375.<\/h6>\n<h6>4 Lacan, J. \u201cDiscurso na Escola Freudiana de Paris\u201d In <em>Escritos<\/em>, Rio de Janeiro, Zahar 2003, p\u00e1g. 278.<\/h6>\n<h6>5 Lacan, J. Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola In <em>Escritos<\/em>, Rio de Janeiro, Zahar 2003. Pag. 259.<\/h6>\n<h6>6 Lacan, J. \u201cO ato psicanal\u00edtico \u2013 resumo do semin\u00e1rio de 1967-1968\u201d. In Outros Escritos. Rio de Janeiro, Zahar, 2003, p\u00e1g. 375.<\/h6>\n<h6>7 idem.<\/h6>\n<h6>8 Miller. J. A. \u201cO ato sexual e o ato anal\u00edtico\u201d in Donc: la l\u00f3gica de la cura. Buenos Aires, Paid\u00f3s, 2011.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria C\u00e9lia Reinaldo Kato (EBP\/AMP) Uma das subvers\u00f5es que Lacan nos apresenta a partir de Freud, \u00e9 a mudan\u00e7a no estatuto do sujeito. Essa \u00e9 uma das leituras que podemos fazer sobre o que prop\u00f5e no texto \u201cA subvers\u00e3o do sujeito e a dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano\u201d1. 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