{"id":5258,"date":"2020-10-20T11:37:36","date_gmt":"2020-10-20T14:37:36","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=5258"},"modified":"2020-10-20T11:37:36","modified_gmt":"2020-10-20T14:37:36","slug":"uma-aposta-subversiva-encontrar-um-analista1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/uma-aposta-subversiva-encontrar-um-analista1\/","title":{"rendered":"Uma aposta subversiva, encontrar Um analista[1]"},"content":{"rendered":"<h6>S\u00edlvia Sato (EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_5248\" aria-describedby=\"caption-attachment-5248\" style=\"width: 259px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5248\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/004-2.png\" alt=\" Imagem: Instagram@canalacultura\" width=\"259\" height=\"254\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5248\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram@canalacultura<\/figcaption><\/figure>\n<p>O encontro com a psican\u00e1lise foi subversivo para mim por tratar do que faz furo no real e incluir na vida o que fica fora de sentido. Assim o tema das Jornadas foi de entrada uma bela surpresa que seguiu com a pergunta: e ela continua subversiva? Ao lembrar das interven\u00e7\u00f5es de Lacan, a primeira resposta veio com cara de pergunta: como n\u00e3o ser? O que talvez implique em dizer que, ao n\u00e3o ser subversiva, talvez j\u00e1 n\u00e3o seja mais psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Foi preciso ent\u00e3o, para entrar na elabora\u00e7\u00e3o sobre as Subvers\u00f5es, buscar na minha pr\u00f3pria experi\u00eancia, nas leituras e nos efeitos da pr\u00e1tica, algo que esboce se ela se mant\u00e9m subversiva.<\/p>\n<p>Num breve espa\u00e7o de tempo, o acaso me colocou diante de um texto de 1997, onde Miller<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> j\u00e1 localizava nos sintomas da \u00e9poca o apre\u00e7o pelo novo como um novo agalma que logo se converte em dejeto, de modo que, para tratar desse sintoma, a solu\u00e7\u00e3o seria produzir um outro sintoma.<\/p>\n<p>Nesse contexto, segundo Miller<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, a pr\u00f3pria psican\u00e1lise teria se tornado sintoma social do mal estar da cultura, levando ao questionamento se ent\u00e3o seria pass\u00edvel de ficar obsoleta. Contudo, ele n\u00e3o acreditava nisso. Primeiro pela psican\u00e1lise estar fadada ao fracasso desde seu nascimento e segundo por sua rela\u00e7\u00e3o estreita com o novo na cultura contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de tom\u00e1-la como obsoleta, Miller desenvolve sobre os sintomas mudos, que em distin\u00e7\u00e3o aos sintomas freudianos, aqueles que falam, seriam reflexo da aus\u00eancia de um grande Outro no lugar da verdade e efeito de uma <em>\u201cdemocracia do dizer do gozo\u201d<\/em>. Seriam sintomas com maior valor de gozo do que de sentido.<\/p>\n<p>Ao que parece, isso tamb\u00e9m nos diz algo sobre os modos de satisfa\u00e7\u00e3o de hoje, onde o gozar \u00e9 imperativo e supera a verdade. E j\u00e1 em 1997, Miller<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> prop\u00f4s que a pervers\u00e3o seria uma nova norma social, como citou Gustavo<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> ao falar sobre a \u201cSubvers\u00e3o do pai\u201d, que <em>\u201chaveria uma democratiza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas perversas\u201d<\/em>. Um gozo que se justifica por si mesmo, sem necessariamente ter um sentido.<\/p>\n<p>A predomin\u00e2ncia do valor de gozo sobre o sentido \u00e9 formalizado no discurso hipermoderno, que tem o mais de gozar como agente. Miller ressalta a converg\u00eancia entre esse discurso e o anal\u00edtico, diferenciando-os pela disjun\u00e7\u00e3o dos elementos no primeiro, que se ordenariam num discurso, numa psican\u00e1lise pura.<\/p>\n<p>Nessa ordem social regida pelo imperativo de gozo, um giro no discurso n\u00e3o \u00e9 mais o suficiente para entrar na experi\u00eancia anal\u00edtica. Essa a\u00e7\u00e3o parece demandar algo a mais para fazer passar do objeto enquanto mais de gozar ao objeto causa de desejo, implicando a fun\u00e7\u00e3o de queda como Niraldo<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> aponta, em seu texto, ao falar da a\u00e7\u00e3o subversiva como uma invers\u00e3o da ordem.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2014, em sua fala sobre o Corpo Falante, Miller<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a> localiza uma modifica\u00e7\u00e3o na ordem simb\u00f3lica. Na \u00e9poca do falasser, <em>\u201da ordem simb\u00f3lica \u00e9 reconhecida como um sistema de semblantes que n\u00e3o comanda o real, mas lhe \u00e9 subordinada. Um sistema respondendo ao real da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe\u201d<\/em>.\u00a0 N\u00e3o se trata ent\u00e3o de uma aposta no Outro como promessa de satisfa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que parte da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o, e sim de uma modifica\u00e7\u00e3o que tem a dimens\u00e3o do furo como centro ou causa desse sistema.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso um amuro, uma palavra enigm\u00e1tica na tentativa de cingir mais de perto os efeitos dessa modifica\u00e7\u00e3o da ordem simb\u00f3lica e no que fazemos em nossa pr\u00e1tica anal\u00edtica. Como disse Miller<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>, em 2014, <em>\u201canalisar o falasser n\u00e3o \u00e9 mais exatamente a mesma coisa que analisar o inconsciente no sentido de Freud, nem mesmo o inconsciente estruturado como uma linguagem\u201d.<\/em><\/p>\n<p>O que talvez n\u00e3o seja uma subvers\u00e3o, como uma queda e destrui\u00e7\u00e3o da ordem, j\u00e1 que analisar o falasser n\u00e3o desconsidera passar pelo Outro, pela cadeia simb\u00f3lica, mas, ao mesmo tempo, \u00e9 um percurso que inclui, em algum tempo, ir al\u00e9m do sentido, logo uma queda do sentido. Como diz Lacan<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>, estamos no inconsciente quando j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais sentido e se pode ler, deste modo, que os significantes servem ao gozo e encontram o furo do simb\u00f3lico, como vazio produtivo, se consideramos o sinthoma.<\/p>\n<p>Durante as Jornadas, a leitura orientada de S\u00e9rgio<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a> e o escrito de Bernardino<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a> me parecem conversar com esse furo no centro do sistema de semblantes, pelo modo como o real do gozo pode ser escutado em seu ressoar.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio extrai do texto o S(A\/), ressaltando sua fun\u00e7\u00e3o de significante para o qual todos os outros significantes representam o sujeito, um \u201c<em>significante impronunci\u00e1vel<\/em>\u201d que opera enquanto furo. J\u00e1 Bernardino prop\u00f5e que a subvers\u00e3o lacaniana seria fazer o Um anteceder ao Outro, como um significante uniano. Ambos, a meu ver, localizam nos textos lacanianos dois significantes com seu valor de gozo, que no registro simb\u00f3lico \u00e9 real e enfatiza o sil\u00eancio dos significantes no encontro com o corpo, como nos sintomas mudos.<\/p>\n<p>Assim, se a cren\u00e7a de que a psican\u00e1lise se mant\u00e9m subversiva se sustenta pela no\u00e7\u00e3o de furo no simb\u00f3lico, marcando o corpo pelo real do gozo que escapa ao sentido, me parece importante considerar como um discurso que tem o mais gozar como agente cede lugar ao objeto causa de desejo no discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Com Lacan<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a>, sabemos que <em>\u201cs\u00f3 o amor permite ao gozo condescender ao desejo\u201d<\/em> e, para Miller<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a>, o amor vem antes abrindo caminho para o campo simb\u00f3lico e a suposi\u00e7\u00e3o de saber.<\/p>\n<p>Acrescentaria que, frente ao falasser com seu sintoma mudo, a defesa de entrada se articula \u00e0 dificuldade em assimilar a perda de sua pr\u00f3pria entrada no discurso. Assim, o ato da fala em si implica em se arriscar a abalar suas defesas, de modo que consentir na fala \u00e9 um primeiro passo para que o amor de transfer\u00eancia opere e a presen\u00e7a do analista, menos pela suposi\u00e7\u00e3o de saber e mais pela presen\u00e7a do objeto, cause seu ir e vir \u00e0s sess\u00f5es. Deste modo, ao acolher o falasser em seu modo de gozo o analista aposta nesse encontro que abala as defesas.<\/p>\n<p>Para concluir, \u201cao introduzir na experi\u00eancia anal\u00edtica o Um, como analista que se \u00e9\u201d, como diz Bernardino<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a>, o amor de transfer\u00eancia acolhe o singular do gozo do Um e nessa medida permite ao falasser ceder algo do gozo do sintoma mudo e consentir ao desejo como causa no discurso anal\u00edtico, entrando no campo do Outro. Como nos lembra Miller<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[15]<\/a>, o poder subversivo do discurso anal\u00edtico est\u00e1 em deixar-se conduzir pelo Isso. Assim, a aposta subversiva seria a de manter a exist\u00eancia daquilo que \u00e9 ao n\u00e3o ser.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Eixo 2: ato, interpreta\u00e7\u00e3o e desejo do analista.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Miller, J-A.: O sintoma e o cometa, in Op\u00e7\u00e3o Lacaniana 19, agosto 1997.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> idem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> idem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Menezes, G.: A subvers\u00e3o do pai, nas Pontua\u00e7\u00f5es sobre o tema, das Jornadas.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a>Santos, N. O: Revolu\u00e7\u00e3o e subvers\u00e3o em psican\u00e1lise, no Boletim Fora da S\u00e9rie n1,\u00a0 https:\/\/ebp.org.br\/sp\/revolucao-e-subversao-em-psicanalise-do-isso-gira-ao-isso-cai\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Miller, J-A.: O inconsciente e o corpo falante, in Scilicet: o Corpo Falante \u2013 sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI, SP: EBP, 2016, pg 31.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Idem, pg 26.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Lacan, J. Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do semin\u00e1rio 11, in Escritos, JZE.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Laia, S.: Disciplina do coment\u00e1rio sobre \u201cA subvers\u00e3o do sujeito e a dial\u00e9tica do desejo\u201d, nas Jornadas Subvers\u00f5es.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a>Horne, B.: A subvers\u00e3o do um, in Boletim Fora da s\u00e9rie n.2, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-subversao-do-um\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> Lacan, J. (1972-73) O Semin\u00e1rio: livro 20, Mais ainda: Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a> Miller, J-A: Uma fantasia, in http:\/\/2012.congresoamp.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Conferencia-de-Jacques-Alain-Miller-en-Comandatuba.html<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a> idem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[15]<\/a> idem<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00edlvia Sato (EBP\/AMP) O encontro com a psican\u00e1lise foi subversivo para mim por tratar do que faz furo no real e incluir na vida o que fica fora de sentido. Assim o tema das Jornadas foi de entrada uma bela surpresa que seguiu com a pergunta: e ela continua subversiva? 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