{"id":5255,"date":"2020-10-20T11:35:54","date_gmt":"2020-10-20T14:35:54","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=5255"},"modified":"2020-10-20T11:35:54","modified_gmt":"2020-10-20T14:35:54","slug":"o-syngue-sabour1-de-uma-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-syngue-sabour1-de-uma-mulher\/","title":{"rendered":"O syngu\u00e9 sabour<sup>[1]<\/sup> de uma mulher"},"content":{"rendered":"<h6>Patricia Badari (EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_5249\" aria-describedby=\"caption-attachment-5249\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5249\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/005-2-300x296.png\" alt=\"Imagem: Instagram@cosmic.mektoob\" width=\"300\" height=\"296\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/005-2-300x296.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/005-2.png 419w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5249\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram@cosmic.mektoob<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u201cNo meio do caminho tinha uma pedra<\/em><\/p>\n<p><em>Tinha uma pedra no meio do caminho<\/em><\/p>\n<p><em>Tinha uma pedra<\/em><\/p>\n<p><em>No meio do caminho tinha uma pedra\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>Sabemos o que \u00e9 ser um homem ou uma mulher no Afeganist\u00e3o? Sim, se tomarmos pelo vi\u00e9s religioso, pelas tradi\u00e7\u00f5es, pelos valores, pelos significantes amos, pois estes orientam, organizam e d\u00e3o sentido \u00e0 exist\u00eancia, \u00e0 vida. Mas, se formos ser mais precisos, talvez s\u00f3 saibamos o que \u00e9 ser um marido, um her\u00f3i, um pai, uma esposa, uma m\u00e3e \u2013 pap\u00e9is, identidades dos sujeitos emitidos pelo Outro \u2013 a sociedade, a cultura, a religi\u00e3o, por exemplo, o islamismo. Ou seja, pela via do discurso do amo, podemos saber o que um homem e uma mulher devem fazer, pensar, como devem gozar, reproduzirem-se; podemos saber sobre a posi\u00e7\u00e3o viril de um sujeito, sobre sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autoridade paterna.<\/p>\n<p><strong>\u201cEm algum lugar do Afeganist\u00e3o ou alhures\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>No Afeganist\u00e3o um her\u00f3i \u00e9 aquele que luta por seu pa\u00eds e em nome de Al\u00e1. E este her\u00f3i \u00e9 o marido ideal para uma jovem afeg\u00e3. E, nossa jovem-personagem, embora nunca o tivesse visto ou ouvido sua voz se encanta e se orgulha deste nome: o Her\u00f3i. O noivado \u00e9 logo arranjado pelos pais de ambos, e como a guerra demora a terminar \u00e9 melhor que a jovem se case, mesmo que o noivo-her\u00f3i esteja ausente. Assim se d\u00e1 o casamento, a noiva de corpo presente e o belo noivo-her\u00f3i presente em fotografia.<\/p>\n<p>O noivo-her\u00f3i s\u00f3 retorna para casa ap\u00f3s tr\u00eas anos do casamento. Encontram-se pela primeira vez, inclusive na cama. E ela, que est\u00e1 menstruada, com o corpo impuro, segundo a tradi\u00e7\u00e3o do isl\u00e3, n\u00e3o fala nada ao marido, pois se n\u00e3o houver sangue como provar sua virgindade resguardada pelos pais e pela sogra, ap\u00f3s o matrim\u00f4nio? A noite de n\u00fapcias se realiza. E o marido-her\u00f3i v\u00ea o sangue e fica maravilhado e orgulhoso. Um her\u00f3i, digno deste nome!<\/p>\n<p>Um her\u00f3i que sabe segurar, portar, manipular uma arma sobre seu corpo, que sabe se mover nos campos de batalha. Um homem cuja religi\u00e3o lhe ensinou a lidar com seu corpo e com o corpo da mulher. Ele sabe do gozo do macho, o que \u00e9 permitido ou proibido, quando se pode transar ou n\u00e3o&#8230; Ele sabe que a esposa \u00e9 um peda\u00e7o de carne para onde v\u00e3o seus flu\u00eddos, um ventre para gerar filhos e ele \u00e9 o esposo, o valente, m\u00e1sculo, viril e portador da honra. Um homem cuja paix\u00e3o \u00e9 paix\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m sabe o que \u00e9 ser mulher e esposa no Afeganist\u00e3o. Sabe que uma mo\u00e7a deve se casar virgem e dar provas de sua virgindade. Sabe que uma esposa deve procriar e que um her\u00f3i n\u00e3o pode decair deste lugar ao ser est\u00e9ril. Ent\u00e3o, passados meses ap\u00f3s a efetiva\u00e7\u00e3o das n\u00fapcias, quando a gravidez n\u00e3o acontece, ela logo vai buscar uma solu\u00e7\u00e3o com sua tia \u2013 mulher que por n\u00e3o ter podido procriar foi trocada pelo marido, exclu\u00edda da sociedade e tornou-se puro dejeto. Em sabendo dos interditos, do sentido religioso, dos pap\u00e9is e tradi\u00e7\u00f5es; em sabendo do que regula o gozo, n\u00e3o nega estes semblantes, pois neg\u00e1-los seria ir em dire\u00e7\u00e3o ao pior.<\/p>\n<p>Mas, se esta jovem nada sabe dos homens, da vida de casal &#8211; quer saber! Contempla seu marido-her\u00f3i-homem, olha-o&#8230; Como amar um her\u00f3i, uma presen\u00e7a vazia e um corpo desajeitado? O medo do primeiro encontro com o marido, torna-se excita\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o se furta de seu corpo, das experi\u00eancias \u00fanicas que marcam esse Um-corpo.<\/p>\n<p>Ela sabe que \u201cno meio do caminho h\u00e1 uma pedra\u201d e que a pot\u00eancia paterna trope\u00e7a nela, neste objeto <em>a<\/em> como inomin\u00e1vel, irredut\u00edvel \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o e manter-se pela via do sentido a levar\u00e1 ao seu destino de mulher afeg\u00e3. Logo, subverte seu destino de mulher como um peda\u00e7o de carne e os significantes que marcaram seu corpo, n\u00e3o sem passar pelo homem como conector<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> para ir em dire\u00e7\u00e3o ao enigma de sua feminilidade corporal.<\/p>\n<p>E \u00e9 isso que ela nos d\u00e1 testemunho enquanto cuida de seu marido &#8211; o suposto her\u00f3i que foi lutar por seu pa\u00eds e, ironicamente, volta para sua casa com uma bala no pesco\u00e7o por uma briga com um companheiro. Um insulto e para defender sua honra \u2013 retorna para casa, em estado vegetativo e n\u00e3o como um her\u00f3i de guerra.<\/p>\n<p>Ela cuida daquele corpo morto, em coma, e fala com ele. Mas, talvez fale menos com ele e para ele. Quem fala ali, talvez n\u00e3o seja o puro sujeito da fala e sim o corpo falante. A voz como objeto <em>a,<\/em> separada do corpo e um resto n\u00e3o significante, emerge. E esta jovem nos transmite esse objeto <em>a, <\/em>essa voz separada dela. Sua \u201cvoz que lhe soa com um som estranho\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> e que por vezes emerge \u201ccomo imperativo, como aquela que reclama obedi\u00eancia ou convic\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>,\u00a0 em outras vezes como invasiva e em outras ressoando o sentido e o fora do sentido.<\/p>\n<p>Enuncia\u00e7\u00e3o da solid\u00e3o radical que habita seu ser falante e de como foi al\u00e9m das identifica\u00e7\u00f5es do que \u00e9 ser mulher em sua cultura, como se serviu dos semblantes para ir al\u00e9m do Nome do Pai; como tornou-se Outra para si mesma e se virou com seu imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>P\u00f4de ir mais al\u00e9m da problem\u00e1tica da interdi\u00e7\u00e3o. Fez sua subvers\u00e3o a partir do gozo que n\u00e3o responde totalmente \u00e0 incid\u00eancia da interdi\u00e7\u00e3o \u2013 \u201co gozo feminino como tal, gozo n\u00e3o edipiano e reduzido ao acontecimento de corpo\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do homem, seu marido e, tamb\u00e9m, do jovem soldado gago que arrisca ir em dire\u00e7\u00e3o ao corpo do Outro e arrisca o encontro com o Outro sexo, atrav\u00e9s destes, um a um e \u201c(&#8230;) sem que haja uma rela\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, ela \u00e9 Outra para si mesma como o \u00e9 para cada um deles. Nesta alteridade, sem simetria nem reciprocidade, a feminilidade est\u00e1 confrontada ao feminino, ao a-sexuado do ser, sem representa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>Talvez esta personagem-falasser em <em>Syngu\u00e9 sabour<\/em><a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>, <em>Pedra-de-paci\u00eancia<\/em>, nos d\u00ea o testemunho da er\u00f3tica do seu objeto <em>a \u2013 <\/em>voz.\u00a0 \u201c(&#8230;) objeto pequeno <em>a<\/em>, um objeto suplementar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem regulada pelo significante. Pequeno <em>a<\/em> \u00e9 a pedra que existe em todo caminho da fala. Em franc\u00eas, este pequeno <em>a <\/em>\u00e9 o osso; ali\u00e1s, o osso \u00e9 uma esp\u00e9cie de pedra que h\u00e1 no corpo\u201d<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> N.A.: Syngu\u00e9 sabour: pedra de paci\u00eancia.\u00a0 RAHIMI, A. <em>A pedra de paci\u00eancia. <\/em>(Livro) Esta\u00e7\u00e3o liberdade: S\u00e3o Paulo, 2008. (Filme) 2012.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> ANDRADE, C. D. de. \u201cNo meio do caminho\u201d. <em>Uma pedra no meio do caminho. Biografia de um poema.<\/em> 1967.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> RAHIMI, A. <em>A pedra de paci\u00eancia. <\/em>(Livro) Esta\u00e7\u00e3o liberdade: S\u00e3o Paulo, 2008. P. 11.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> LACAN, J. \u201cDiretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina\u201d. In: <em>Escritos.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar. P. 741.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio. livro 10. A ang\u00fastia. <\/em>Jorge Zahar: Rio de Janeiro. 2005. p. 300.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> ________ <em>Ibid.<\/em> p. 300.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> MILLER, J.-A. Curso in\u00e9dito \u201cO ser e o Um\u201d. Aula de 2 de mar\u00e7o de 2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> BASSOLS, M. \u201cO feminino, entre centro e aus\u00eancia\u201d.<em> Op\u00e7\u00e3o lacaniana online<\/em>. N. 23, agosto de 2017. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/nranterior\/numero23\/texto2.html<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> RAHIMI, A. <em>A pedra de paci\u00eancia. <\/em>(Livro) Esta\u00e7\u00e3o liberdade: S\u00e3o Paulo, 2008. (Filme) 2012.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> MILLER, J.-A. <em>O osso de uma an\u00e1lise. <\/em>Agente, EBP \u2013 Se\u00e7\u00e3o Bahia, 1998. P. 35.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patricia Badari (EBP\/AMP) \u201cNo meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho Tinha uma pedra No meio do caminho tinha uma pedra\u201d[2] Sabemos o que \u00e9 ser um homem ou uma mulher no Afeganist\u00e3o? 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