{"id":5253,"date":"2020-10-20T11:33:45","date_gmt":"2020-10-20T14:33:45","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=5253"},"modified":"2020-10-20T11:33:45","modified_gmt":"2020-10-20T14:33:45","slug":"invencoes-subversoes-eliana-machado-figueiredo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/invencoes-subversoes-eliana-machado-figueiredo\/","title":{"rendered":"INVEN\u00c7\u00d5ES <> SUBVERS\u00d5ES \u2013 Eliana Machado Figueiredo"},"content":{"rendered":"<h6>Eliana Machado Figueiredo (EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_5250\" aria-describedby=\"caption-attachment-5250\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5250\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/006-2-300x243.png\" alt=\"Imagem: Instagram@_through_my_eye\" width=\"300\" height=\"243\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/006-2-300x243.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/006-2.png 351w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5250\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram@_through_my_eye<\/figcaption><\/figure>\n<p>Provocada por uma discuss\u00e3o na comiss\u00e3o de boletim <em>Fora da S\u00e9rie, <\/em>da Jornada <em>Subvers\u00f5es<\/em>, 2020, sigo na proposta de buscar responder \u00e0 pergunta: seria a cria\u00e7\u00e3o sempre da ordem da subvers\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Tolerar o intoler\u00e1vel, o inomin\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p>Nuno Ramos, artista pl\u00e1stico, escritor e compositor brasileiro destaca numa entrevista<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> que a escolha do atual Presidente Jair Bolsonaro \u201cpotencializou o tra\u00e7o brasileiro de ser indiferente a mortes e de tolerar o intoler\u00e1vel\u201d. Prossegue ele: \u201cA indiferen\u00e7a pela vida, o Brasil sempre teve. N\u00e3o \u00e9 cria\u00e7\u00e3o bolsonarista. Mas o grau de elabora\u00e7\u00e3o que isso tomou nos levou ao plano do inomin\u00e1vel. Vivemos uma situa\u00e7\u00e3o em que o n\u00famero de mortos \u00e9 in\u00fatil, e isso \u00e9 desprezado. O grau de mentira que circula, o enlouquecimento discursivo, a falta de empatia&#8230; \u00c9 uma guerra civil com outras armas\u201d.<\/p>\n<p>Perguntado sobre a influ\u00eancia do atual momento e do isolamento social, ele diz que tudo isso j\u00e1 aparecia em sua obra sem que ele percebesse desde os tr\u00eas urubus que colocou na Bienal de S\u00e3o Paulo em 2010. Articula ele: \u201cO grau de elabora\u00e7\u00e3o que isso tomou nos levou ao plano do inomin\u00e1vel. Lembro de uma observa\u00e7\u00e3o de Adorno\u00a0<em>(Theodor W. Adorno)<\/em>, de que depois de Auschwitz n\u00e3o seria mais poss\u00edvel escrever poesia. O que voc\u00ea faz com a crueldade que temos passado? S\u00e3o invers\u00f5es malucas. Quem defende a democracia \u00e9 acusado. O Brasil tem um fundo de viol\u00eancia, uma incapacidade de assimilar e respeitar quem est\u00e1 fora do jogo. A \u00fanica coisa normal \u00e9 que o Presidente foi eleito. Isso conta e temos que tir\u00e1-lo pela democracia. E prop\u00f5e uma sa\u00edda dizendo que precisamos voltar a n\u00e3o saber, historicizar, olhar para tr\u00e1s, refundar o tempo e dar alguma continuidade. O bolsonarismo \u00e9 a grande descontinuidade. Veio para destruir o que puder com uma nuvem de gafanhotos\u201d.<\/p>\n<p>Nuno diz que a arte contempor\u00e2nea \u201cj\u00e1 tem dado respostas interessantes sobre o tema. Um artista alem\u00e3o refez uma fonte destru\u00edda pelos nazistas, mas de ponta cabe\u00e7a. A \u00e1gua cai dentro dela. Isso tem muita for\u00e7a.\u00a0Sem a cena p\u00fablica questionar, o monumento vai ser s\u00f3 um homem a cavalo\u201d. Hoje h\u00e1 essa discuss\u00e3o em torno das est\u00e1tuas de personalidades question\u00e1veis. N\u00e3o \u00e9 mais verdade o ditado de que se voc\u00ea quer esquecer algu\u00e9m, deve construir uma est\u00e1tua. Existe a pergunta de quem \u00e9 aquela pessoa morta, mas viva na cena p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p><strong>Paulista subversiva?<\/strong><\/p>\n<p>Avenida Paulista, inaugurada em 8\/12\/1891, ali mesmo onde h\u00e1 um acontecimento e um encontro a cada instante, a cada esquina, marco geogr\u00e1fico, financeiro e tur\u00edstico da cidade de S\u00e3o Paulo. L\u00e1 vivia os bar\u00f5es do caf\u00e9! Hoje trabalho de poderosos e frequentada por um p\u00fablico bem variado que diariamente divide seu espa\u00e7o com cenas que saltam aos nossos olhos! Ali onde tudo acontece na noite ou com o despertar da cidade. Desde 2013 \u00e9 palco de protestos e lugar onde se iniciaram as passeatas contra o aumento da tarifa do \u00f4nibus em 2013; ali h\u00e1 passeatas e manifesta\u00e7\u00f5es culturais. Palco da direita e da extrema direita desde o <em>impeachment<\/em> da Presidenta Dilma Rousseff em agosto de 2016, deixando ali as marcas do que enfrentamos desde ent\u00e3o no que chamo de desmantelamento de tudo que foi constru\u00eddo no pa\u00eds at\u00e9 hoje e do primeiro golpe recente que sofreu nossa democracia.<\/p>\n<p>Curiosamente dois dias antes de sua inaugura\u00e7\u00e3o, em 06\/12\/1891, em <a href=\"http:\/\/acervo.estadao.com.br\/pagina\/#!\/18911206-5029-nac-0001-999-1-not\">Paris, no ex\u00edlio, falecia Dom Pedro II, o homem que por 48 anos foi o chefe da Na\u00e7\u00e3o. Dom Pedro de Alc\u00e2ntara foi acometido de um resfriado que evoluiu para pneumonia. Pessoas de diferentes posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas prestaram homenagem ao \u00faltimo imperador do Brasil.<\/a><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p><strong>Uma interven\u00e7\u00e3o na cidade, \u201ca marcha a r\u00e9\u201d e a presen\u00e7a do telespectador<\/strong><\/p>\n<p>Em 05 de agosto, dois meses ap\u00f3s a entrevista de Nuno, entre a Fiesp (Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo) na Avenida Paulista e o Cemit\u00e9rio da Consola\u00e7\u00e3o, na Rua da Consola\u00e7\u00e3o, ele exp\u00f5e uma performance, um protesto!<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Ele e Antonio Ara\u00fajo, um dos fundadores da ambiciosa companhia de teatro, Teatro da Vertigem, ambos vestidos de branco, botas, m\u00e1scaras e escudos faciais guiaram 100 motoristas concentrados em dirigir os carros de marcha a r\u00e9, por um quil\u00f4metro e meio e na lentid\u00e3o de cinco quil\u00f4metros por hora! De dentro dos ve\u00edculos ecoava uma sinfonia, com sons de respiradores e monitores card\u00edacos de UTI. No in\u00edcio e no fim do comboio um carro funer\u00e1rio de cortejo f\u00fanebre acompanha o tom. Na chegada ao cemit\u00e9rio da Consola\u00e7\u00e3o, o hino nacional foi tocado ao contr\u00e1rio por um trompetista, sobre o p\u00f3rtico da entrada.<\/p>\n<p>Eles quiseram ali homenagear e mostrar o luto aos quase 100 mil mortos pelo Covid-19, em agosto. Mas tamb\u00e9m lembrar toda a destrui\u00e7\u00e3o do governo em todos os setores sociais: arte, educa\u00e7\u00e3o, cultura, sa\u00fade, meio ambiente etc&#8230; Segundo Nuno, a ideia era usar \u201ca linguagem bolsonarista \u00e0s avessas\u201d e mostrar que o pa\u00eds vive \u201ca nacionalidade do pesadelo, com tudo andando de marcha a r\u00e9\u201d. Para Antonio Araujo, a performance contribui para \u201cinstaurar um certo tipo de afeto solid\u00e1rio num contexto social de apatia e anestesia\u201d.<\/p>\n<p>Subvertendo a lei, onde em uma situa\u00e7\u00e3o normal \u00e9 crime dirigir longas dist\u00e2ncias em marcha a r\u00e9, em tempos de pandemia, onde a ocupa\u00e7\u00e3o da cidade e a reuni\u00e3o de pessoas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 desej\u00e1vel, isso tudo se deu dentro de carros, numa situa\u00e7\u00e3o controlada e cuidada para que o evento na rua pudesse ir na contram\u00e3o da imobiliza\u00e7\u00e3o que pode ser provocada pelos tempos de Zoom e outras plataformas de encontro \u00e0 dist\u00e2ncia, poder\u00edamos acrescentar.<\/p>\n<p>Entre indigna\u00e7\u00e3o e curiosidade, a reportagem registrou as rea\u00e7\u00f5es das pessoas que n\u00e3o entendiam <em>a priori<\/em> o que estava acontecendo: \u201ccaraca, que treta\u201d; \u201cdoideira\u201d; \u201c\u00e9 fila da vacina?\u201d; \u201ccuriosidade resignada dos pedestres\u201d; \u201co seguran\u00e7a de um pr\u00e9dio disse que a prociss\u00e3o era bonita\u201d; \u201co entregador de comida disse que era bacana o que ele via\u201d.<\/p>\n<p><strong>O que se v\u00ea e o que se l\u00ea, e o que se pode revelar do que se v\u00ea&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Em outubro de 2020, mais de 150 mil mortos&#8230; e os n\u00fameros continuam crescendo&#8230;<\/p>\n<p>Uma nova forma de pensar as artes c\u00eanicas emerge ap\u00f3s a Crise da Modernidade no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, que questionou os valores propostos pelo Ocidente at\u00e9 ent\u00e3o. A partir da\u00ed a busca \u00e9 pela transmiss\u00e3o de saberes diante da realidade, pela transforma\u00e7\u00e3o interna do homem, inserindo o corpo e suas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Uma outra contribui\u00e7\u00e3o desde essa \u00e9poca tem sido colocar a arte cada vez mais perto do espectador, numa tentativa de desestabilizar os sentidos e a percep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, atrav\u00e9s do tensionamento das camadas do real e do ficcional. Bertolt Brecht e Antonin Artaud buscaram romper com a passividade do p\u00fablico pela via do distanciamento cr\u00edtico ou da participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antoine Marie Joseph Artaud<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, teve grande parte de sua vida marcada por interna\u00e7\u00f5es em hospitais psiqui\u00e1tricos. Suas experi\u00eancias denotam a sua viv\u00eancia entre crueldade e a reinven\u00e7\u00e3o. De forma subversiva p\u00f4de criar algo entre a realidade e a fic\u00e7\u00e3o, entre sagrado, lucidez e loucura, despertando-se para uma pesquisa muito mais profunda que relacionava o ser, a carne e a espiritualidade, fazendo-o declarar guerra aos seus \u00f3rg\u00e3os contestando a natureza humana, quando busca contestar o pr\u00f3prio Deus e o seu ju\u00edzo sobre a exist\u00eancia. Dedica-se \u00e0 pesquisa de um \u201ccorpo sem \u00f3rg\u00e3os\u201d, entendendo que desde sempre somos acostumados a viver nosso corpo isolando suas partes e limitando seu sentir, acreditando que os olhos foram feitos s\u00f3 para ver, os ouvidos s\u00f3 para escutar e se pergunta: por que n\u00e3o subverter a ordem? Por que n\u00e3o falar com o joelho, tatear com a bacia, com o \u201ccomo um todo\u201d?<\/p>\n<p>Ele cria ent\u00e3o o Teatro da Crueldade, que prop\u00f5e desestabilizar os sentidos do telespectador, com efeito de ambiguidade e incertezas, sem saber o que \u00e9 realidade e fic\u00e7\u00e3o. Eis a\u00ed um mecanismo que for\u00e7a o espectador a ler o real em \u00e2ngulo diferente, ler o cotidiano que passaria despercebido ao p\u00fablico, dar visibilidade, provocando uma sa\u00edda da anestesia.<\/p>\n<p>Tal como nos provocou Nuno, buscar estrat\u00e9gias c\u00eanicas que busquem sensibilizar o espectador a reagir a situa\u00e7\u00f5es banalizadas no cotidiano, at\u00e9 pelo excesso de informa\u00e7\u00e3o. Em \u00faltima inst\u00e2ncia buscar devolver ao espectador um olhar desanestesiado, uma resposta ao esgotamento?<\/p>\n<p>Temos nessa leitura a interven\u00e7\u00e3o da \u201cA \u00daltima Palavra \u00e9 a Pen\u00faltima 2.0\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> (2014), do grupo paulista Teatro da Vertigem, baseada no texto \u201cO Esgotado\u201d, de Gilles Deleuze. O que estava em jogo era reocupar um espa\u00e7o esquecido pelo tempo, o acesso subterr\u00e2neo da Rua Xavier de Toledo, no centro de S\u00e3o Paulo. A reflex\u00e3o do j\u00e1 feito, revelando a perspectiva do futuro, as condi\u00e7\u00f5es sociais, os problemas cotidianos da vida e o esgotamento como resultado do trabalho duro dos habitantes de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Para Deleuze na arte se pode encontrar a pot\u00eancia de viver, a partir da compreens\u00e3o dos impactos na subjetividade do sujeito na rela\u00e7\u00e3o com a intensidade dos afetos.<\/p>\n<p>Artaud diria que \u201cno ponto de desgaste a que chegou nossa sensibilidade, certamente precisamos antes de mais nada de um teatro que nos desperte: nervos e cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Com Brecht<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>, aprendemos que o p\u00fablico deve aprender a espantar-se com a situa\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de se identificar, abandonando a apar\u00eancia das coisas para v\u00ea-las como s\u00e3o. O teatro \u00e9pico consegue fazer ver sob o \u201cefeito de estranheza\u201d, de forma cr\u00edtica, que se instala entre o mostrar e o mostrado, entre o significante e o significado. E se isso acontecer, a catarse d\u00e1 lugar n\u00e3o \u00e0 emo\u00e7\u00e3o, mas ao espanto.<\/p>\n<p><strong>Entre o inomin\u00e1vel, o desprezo pelas mortes, o negacionismo, a descontinuidade<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e9sus Santiago, em seu texto \u201cO avesso da biopol\u00edtica e o v\u00edrus<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a> nos adverte que \u00e9 \u201cposs\u00edvel interpretar o quanto a a\u00e7\u00e3o corrosiva da puls\u00e3o de morte na \u00e9poca da ci\u00eancia se apresenta sob o modo de impasses quase insol\u00faveis. Antes mesmo de Freud ter fornecido as grandes coordenadas do problema da necessidade \u201cda ren\u00fancia da satisfa\u00e7\u00e3o das fortes puls\u00f5es sexuais e destrutivas\u201d para a sobreviv\u00eancia do la\u00e7o social, em seu\u00a0<em>Mal-estar na cultura<\/em>,<a name=\"_ftnref2\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2020\/03\/28\/o-avesso-da-biopolitica-e-o-virus\/#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0Paul Val\u00e9ry j\u00e1 havia prenunciado que a civiliza\u00e7\u00e3o tem a mesma fragilidade de uma vida: \u201cN\u00f3s, civiliza\u00e7\u00f5es, agora sabemos que somos mortais\u201d.<a name=\"_ftnref3\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2020\/03\/28\/o-avesso-da-biopolitica-e-o-virus\/#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Santiago caracteriza a atitude do governo Bolsonaro para com o saber da ci\u00eancia e os semblantes ofertados por ela, com uma posi\u00e7\u00e3o negacionista que nos leva ao pior e com \u201cefeitos devastadores e catastr\u00f3ficos da pandemia (&#8230;)\u201d, sendo que \u201cesse desd\u00e9m pela ci\u00eancia \u00e9 um menosprezo pelo\u00a0<em>pior<\/em>, ou pelo car\u00e1ter mortal da civiliza\u00e7\u00e3o, na medida em que se desconhece que a fatia da popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel no Brasil \u00e9 muito maior que nos pa\u00edses nos quais prevalecem as democracias liberais, com a tend\u00eancia ao agravamento dos efeitos econ\u00f4micos adversos e calamitosos dessa crise\u201d. Conclui dizendo que a desestabiliza\u00e7\u00e3o dos semblantes, \u201cfavorece o retorno da face feroz e tir\u00e2nica da ordem social e pol\u00edtica\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent em seu texto orientador<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a> diz que \u201c\u00e9 a partir da inexist\u00eancia do Outro que garantiria o real da ci\u00eancia que surge um outro real para o sujeito que vive na linguagem. \u00c9 esse real da ang\u00fastia, da esperan\u00e7a, do amor, do \u00f3dio, da loucura e da debilidade mental. Todos esses afetos e paix\u00f5es estar\u00e3o no encontro marcado da nossa confronta\u00e7\u00e3o com o v\u00edrus; eles acompanham, como suas sombras, as \u201cprovas\u201d cient\u00edficas\u201d. E cita Jacques-Alain Miller: \u201cA inexist\u00eancia do Outro n\u00e3o \u00e9 antin\u00f4mica ao real, ela lhe \u00e9, ao contr\u00e1rio, correlativa. [\u2026] \u00c9 [\u2026] o real pr\u00f3prio do inconsciente, ao menos esse do qual, segundo a express\u00e3o de Lacan, o inconsciente testemunha, [\u2026] o real quando ele se revela na cl\u00ednica como o imposs\u00edvel de suportar.\u201d<\/p>\n<p>Laurent conclui seu texto alertando-nos sobre a \u00e9tica da ci\u00eancia, seus problemas e a \u00e9tica pessoal: \u201cno n\u00edvel pessoal, o modo como cada um pode interpretar as medidas de seguran\u00e7a terrivelmente restritivas que lhe s\u00e3o dadas introduz uma vari\u00e1vel importante em todo c\u00e1lculo global. Mas que isso depende muito do comportamento das pessoas e da maneira como v\u00e3o aplicar essas medidas [\u2026]\u201d<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Criamos? Reinventamos?<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia, o isolamento social, o distanciamento social, o v\u00edrus, que nos assombra como inimigo invis\u00edvel, desprez\u00edvel para alguns, e a morte t\u00e3o pr\u00f3xima para outros. Os v\u00e1rios significantes aos quais cada um de n\u00f3s se viu confrontado nos deu possibilidades, \u00e0 dist\u00e2ncia, de mostrar nossa solidariedade e capacidade de inven\u00e7\u00e3o. Para alguns apenas uma paranoia do outro, para outros o real da morte. Para outros a pedra no caminho, a solid\u00e3o tantas vezes experimentada, mas agora com maior rigor, insistiu.<\/p>\n<p>Termino essa reflex\u00e3o colocando o t\u00edtulo ao final, em vermelho, uma pequena subvers\u00e3o das normas, no momento em que as informa\u00e7\u00f5es oficiais nos mostram que contamos mais de 150 mil mortos no Brasil: <span style=\"color: #993300;\"><strong><em>O Brasil de \u201cmarcha a r\u00e9\u201d, a inven\u00e7\u00e3o e a subvers\u00e3o na cidade.<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a>1Entrevista dada \u00e0 Revista \u00c9poca por Nuno Ramos, cujo t\u00edtulo \u201cElegemos o pior brasileiro entre 210 milh\u00f5es\u201d, em 17\/06\/2020, para o jornalista Eduardo Barretto. Ver em: <a href=\"https:\/\/epoca.globo.com\/guilherme-amado\/elegemos-pior-brasileiro-entre-210-milhoes-diz-nuno-ramos-24483073\">https:\/\/epoca.globo.com\/guilherme-amado\/elegemos-pior-brasileiro-entre-210-milhoes-diz-nuno-ramos-24483073<\/a>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Conforme acervo digital do Jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d. Acessado em 12\/10\/2020: <a href=\"https:\/\/acervo.estadao.com.br\/paginas-da-historia\/decada_1890.shtm\">https:\/\/acervo.estadao.com.br\/paginas-da-historia\/decada_1890.shtm<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Carreata em marcha a r\u00e9 que ocorreu em 05\/082020, une arte e protesto contra Bolsonaro na Paulista. Teatro da Vertigem e Nuno Ramos fazem cortejo f\u00fanebre em homenagem a mortos por Covid-19. Ver em: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2020\/08\/carreata-em-marcha-a-re-une-arte-e-protesto-contra-bolsonaro-na-paulista.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2020\/08\/carreata-em-marcha-a-re-une-arte-e-protesto-contra-bolsonaro-na-paulista.shtml<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Antoine Marie Joseph Artaud, conhecido como Antonin Artaud, nascido em 1896 em Marselha, na Fran\u00e7a. Foi poeta, ator, escritor, dramaturgo, roteirista e diretor.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Espet\u00e1culo encenado pela primeira vez em 2008, foi revisitado para a 31\u00aa Bienal de S\u00e3o Paulo em 2014. Ver em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2YqEy9wciY0\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2YqEy9wciY0<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Eugen Bertholt Friedrich Brecht, conhecido como Bertholt Brecht, foi um destacado dramaturgo, poeta e encenador alem\u00e3o do s\u00e9culo XX.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Texto publicado no <em>Correio Express, <\/em>Boletim Extra n\u00ba 6, de mar\u00e7o\/2020, \u201cO avesso da biopol\u00edtica e o v\u00edrus\u201d. Ver em: <a href=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2020\/03\/28\/o-avesso-da-biopolitica-e-o-virus\/\">https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2020\/03\/28\/o-avesso-da-biopolitica-e-o-virus\/<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\"><strong>[9]<\/strong><\/a> Texto publicado no <em>Correio Express, <\/em>Boletim Extra n\u00ba 6, de mar\u00e7o\/2020, <em>\u201c<\/em><em>A epidemia e seus comit\u00eas\u201d\u00a0<\/em>Ver em: <a href=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2020\/03\/28\/o-outro-que-nao-existe-e-seus-comites-cientificos\/\">https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2020\/03\/28\/o-outro-que-nao-existe-e-seus-comites-cientificos\/<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Idem.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eliana Machado Figueiredo (EBP\/AMP) Provocada por uma discuss\u00e3o na comiss\u00e3o de boletim Fora da S\u00e9rie, da Jornada Subvers\u00f5es, 2020, sigo na proposta de buscar responder \u00e0 pergunta: seria a cria\u00e7\u00e3o sempre da ordem da subvers\u00e3o? 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