{"id":5244,"date":"2020-10-20T11:30:46","date_gmt":"2020-10-20T14:30:46","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=5244"},"modified":"2020-10-20T11:30:46","modified_gmt":"2020-10-20T14:30:46","slug":"a-subversao-do-gesto-uma-forma-de-lidar-com-o-real-da-fantasmagoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-subversao-do-gesto-uma-forma-de-lidar-com-o-real-da-fantasmagoria\/","title":{"rendered":"A subvers\u00e3o do gesto: uma forma de lidar com o real da fantasmagoria"},"content":{"rendered":"<h6>Bianca Dias (Psicanalista, cr\u00edtica de arte e escritora)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_5251\" aria-describedby=\"caption-attachment-5251\" style=\"width: 261px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5251 size-medium\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/007-2-261x300.png\" alt=\"Jos\u00e9 Rufino\" width=\"261\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/007-2-261x300.png 261w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/007-2.png 482w\" sizes=\"auto, (max-width: 261px) 100vw, 261px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5251\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Rufino<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 a partir de um poema de Paul Celan que o fantasma do contempor\u00e2neo se inscreve: \u201cA morte \u00e9 uma flor que s\u00f3 abre uma vez \/ mas quando abre, nada se abre com ela \/ abre sempre que quer e fora da esta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Sou tomada de assombro e emo\u00e7\u00e3o pelo trabalho de Jos\u00e9 Rufino: sua partilha se efetiva em tempo real, pelas redes sociais, durante a pandemia. Na s\u00e9rie \u201cFantasmagoria\u201d h\u00e1, al\u00e9m de um arquivo ps\u00edquico incontrol\u00e1vel e que se deixa manifestar, a necessidade interna de reavivar o terrrit\u00f3rio da mem\u00f3ria. Diferentemente de trabalhos anteriores \u2013 em que a mem\u00f3ria era um ponto fulcral, mas a maneira de constru\u00e7\u00e3o dos trabalhos era regida por outra m\u00e9trica e outra temporalidade \u2013 agora nenhuma regra externa sena\u0303o a do pro\u0301prio impulso subjetivo que \u00e9 quase uma incorpora\u00e7\u00e3o, um estado de sidera\u00e7\u00e3o como aquele sentido por Roland Barthes apo\u0301s a morte da ma\u0303e, em 1977, quando entregou-se a organizar os arquivos de fami\u0301lia, remexer objetos e rever fotos. Agora isso acontece em um s\u00f3 golpe. Quase em estado ext\u00e1tico, Rufino se dirige \u00e0s telas como num transe em que visa dar destino ao real, libertando seu pr\u00f3prio corpo como um efeito de mancha, como enigma em pura voragem. A travessia que ele empreende fala do desejo de ultrapassagem, como proposto por Jacques Lacan, no atravessamento da fantasia ao longo de um processo de an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Objetos e partes estilha\u00e7adas de um todo s\u00e3o inclu\u00eddos em pinturas que tornam-se ve\u00edculos para o fantasma. O artista parece saber que \u00e9 pela imagem e pelos fragmentos de mem\u00f3ria que podem ser impressos algo que da epifania se encarna, como mancha ou fulgura\u00e7\u00e3o, como perplexidade ou aberra\u00e7\u00e3o. Liberar o fantasma implica colocar o corpo no v\u00f3rtice de uma fantasmagoria que \u00e9 subversiva e informe, como relata Barthes: \u201cEu sabia que, por essa fatalidade que e\u0301 um dos tra\u00e7os mais atrozes do luto, eu consultaria imagens em v\u00e3o, n\u00e3o poderia nunca mais lembrar-me de seus tra\u00e7os (convoca\u0301-los inteiros, a mim).\u201c<\/p>\n<p>O trabalho de Rufino \u00e9 reinventado, estra\u00e7alhado em seu sistema de organiza\u00e7\u00e3o. Ele agora acontece no abismo de uma madrugada e nas suscetibilidades abertas por um luto inomin\u00e1vel, por uma espera incerta, pela fissura aberta da mortalidade e da vulnerabilidade que guarda o trac\u0327o de um real e de um inassimil\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ao remontar os escombros do passado, ele constr\u00f3i uma margem que faz do instante algo infinito: reproduz mecanicamente, nas telas, algo que na\u0303o mais podera\u0301 se reproduzir existencialmente. S\u00e3o trabalhos que guardam uma perda e produzem uma escrita que escava o tempo e o corpo do mundo com estilete. Cada obra \u00e9 um acordar, registro de um instante u\u0301nico e intempestivo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5274\" aria-describedby=\"caption-attachment-5274\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5274\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/008-1-300x241.png\" alt=\"Jos\u00e9 Rufino\" width=\"300\" height=\"241\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/008-1-300x241.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/008-1.png 482w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5274\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Rufino<\/figcaption><\/figure>\n<p>Seus gestos de precis\u00e3o irrevers\u00edvel recordam o dizer de Didi-Huberman, que considera que a obra e\u0301 sempre portadora de algo ja\u0301 visto que volta subterraneamente como fantasma, atravessando e mesclando diferentes temporalidades pelos arremessos fragmenta\u0301rios da memo\u0301ria. Suspensa entre dois comec\u0327os, a imagem se refere tanto \u00e0quilo que se faz bloco de afecc\u0327o\u0303es e sensac\u0327o\u0303es num dado momento, como tambe\u0301m ao que e\u0301 trazido pelas forc\u0327as prete\u0301ritas que na\u0303o cessam de retornar como sobrevive\u0302ncia po\u0301stuma ou pote\u0302ncia associada ao rebatimento do passado no presente, questa\u0303o que confere a\u0300 imagem um cara\u0301ter de espectralidade.<\/p>\n<p>Os trabalhos da s\u00e9rie \u201cFantasmagoria\u201d transmitem a for\u00e7a ambivalente de um acontecimento que na\u0303o se dara\u0301 novamente, portanto \u00fanico e, por outro lado, e concomitantemente, o acontecimento que esta\u0301 ali, registrado diante de seus olhos, evoca vozes e gestos de eterno retorno. S\u00e3o trabalhos que habitam a tenra fronteira entre o que se v\u00ea e o que se esconde, encarna\u00e7\u00e3o do visi\u0301vel e do invisi\u0301vel, inscri\u00e7\u00e3o que promove\u00a0 um corte, um dilaceramento, de modo que seu corpo, engajado na obra, se reescreve junto dela.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0s imagens fantasmag\u00f3ricas de Rufino relembro Georges Didi-Huberman com estranheza e fascina\u00e7\u00e3o, que compara a definic\u0327a\u0303o benjaminiana de aura \u2013 como \u201cu\u0301nica aparic\u0327a\u0303o de uma lonjura, por mais pro\u0301xima que esteja\u201d &#8211; ao significado do <em>Unheimlich <\/em>freudiano (o estranhamente familiar ou familarmente estranho), referindo-se ao retorno de algo que deveria permanecer em segredo, na sombra, e que dela saiu. Essa sensa\u00e7\u00e3o inquietante possui algo recalcado que retorna. S\u00e3o imagens que o artista faz brotar em telas imensas e que poderiam ser apreendidas atrave\u0301s das experie\u0302ncias da aura e do estranho, por serem elas mesmas lugares que se abrem e nos incorporam.<\/p>\n<p>Na media\u00e7\u00e3o infinita das telas, no isolamento de outros corpos, o cara\u0301ter de inquietante estranheza de \u201cFantasmagoria\u201d reside na capacidade de promover uma cisa\u0303o aberta pelo olhar: um gesto subversivo que provoca fissuras, pois n\u00e3o se acionam algumas n\u00e9voas impunemente. Sua impress\u00e3o e seus gestos sobre a tela s\u00e3o a met\u00e1fora de seu pro\u0301prio corpo, um Santo Sud\u00e1rio que \u00e9 tamb\u00e9m a possibilidade viva da fic\u00e7\u00e3o que sustenta a chama do desejo.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o pol\u00edtca da obra de Rufino e de seu percurso acentuam-se agora de maneira incontorn\u00e1vel. Em um estado totalit\u00e1rio \u00e9 preciso que possamos encontrar uma maneira de romper\u202fcom o previs\u00edvel, o explic\u00e1vel e a ordem estabelecida.\u202f E \u00e9 preciso que cada um coloque algo de seu, tomando posi\u00e7\u00e3o a partir daquilo que sempre excede, a partir do real.\u00a0 Precisamos, antes de mais nada, tomar a dimens\u00e3o pol\u00edtica da palavra e do corpo no sentido de resgatar sua espessura. Em tempos de exce\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso lidar com coragem e fulgor, com o intoler\u00e1vel, e talvez tenhamos que perseguir as pequenas revolu\u00e7\u00f5es como um corte no totalitarismo do Um.\u202fDesse ponto m\u00ednimo \u2013 e, no entanto, grandioso \u2013 em que opera o trabalho do artista, um sentido de resist\u00eancia pode fazer vicejar a \u202fsubvers\u00e3o do sujeito, o ponto luminoso que preserva a possibilidade sempre em aberto de que algu\u00e9m possa se contar fazendo do \u00edntimo for\u00e7a pol\u00edtica em dire\u00e7\u00e3o ao comum, numa pol\u00edtica em que a precariedade se torne for\u00e7a de inven\u00e7\u00e3o. No cont\u00e1gio entre uma obra e outra, uma escrita que se faz da ferida, uma rela\u00e7\u00e3o com o traum\u00e1tico que insinua um corpo que se escreve e se deixa atingir pelas coisas a ponto de sentir suas frestas e fraturas.<\/p>\n<p>Assumir a precariedade \u00e9 guardar da cria\u00e7\u00e3o sua vibra\u00e7\u00e3o \u00edntima, apostando num territ\u00f3rio em que a fragilidade aflora junto da imagem, revirando-a por dentro e propiciando, assim, um acontecimento que encontra for\u00e7a na indetermina\u00e7\u00e3o, nas coisas que est\u00e3o em cont\u00e1gio com o m\u00ednimo, acolhendo as contradi\u00e7\u00f5es e limites que podem iluminar a escurid\u00e3o do tempo, aceitando o risco, o corte, o rasgo, um grito para al\u00e9m do sentido, um estado febril para o qual n\u00e3o existe significa\u00e7\u00e3o e onde as imagens e as palavras emergem como na poesia, rompendo o real, pulsionalizadas, vibrando no campo do vazio em vias de nascer como um fazer po\u00e9tico em um tempo de desencantamento, no qual n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel construir uma imagem do mundo orientada por pontos fixos.<\/p>\n<p>\u201cFantasmagoria\u201d permanece nessa fissura inst\u00e1vel e intoler\u00e1vel, que \u00e9 o espa\u00e7o de uma viol\u00eancia contra a linguagem, viol\u00eancia que, como intuiu Georges Bataille, \u00e9 sagrada porque in\u00fatil, dispendiosa, excessiva, insignificante. Violenta porque investe contra os limites do interdito e abre espa\u00e7o para uma festa transgressiva. E religiosa porque pretende \u201csaltar\u201d para fora de si na tarefa de articular o inarticulado, recuperando uma experi\u00eancia de sacralidade nova, elevando a l\u00edngua \u201c\u00e0 dignidade do indiz\u00edvel\u201d em seu efeito sublimat\u00f3rio que se sustenta sobre nada.<\/p>\n<p>As imagens fantasmag\u00f3ricas sustentam a poesia em sua abertura e no encontro com o imposs\u00edvel. S\u00e3o escoamentos ou jorros no encontro-limite com a impossibilidade de dizer.<\/p>\n<p>Jacques Lacan nos apresenta uma abordagem que confere \u00e0 arte um lugar destacado, como a \u00fanica articula\u00e7\u00e3o discursiva capaz de salvaguardar o vazio da coisa. Mas Rufino, como escavador de mundos, reinventa tamb\u00e9m uma ideia de ci\u00eancia e religi\u00e3o, extraindo dos discursos todos os restos, equ\u00edvocos, lapsos e fraturas, como os objetos que desregulam o modo operacional e previs\u00edvel das coisas. Ele faz o enlace da puls\u00e3o com o imposs\u00edvel subvertendo e reinventando o lugar do religioso e o discurso da ci\u00eancia, na medida em que recusa tanto a promessa de vida eterna \u2013 e faz aparecer a fragilidade e a finitude \u2013 como tamb\u00e9m incorpora no trabalho seu percurso como ge\u00f3logo, de maneira sinuosa e indireta, sem rejeitar o vazio e sem tentar explicar a dimens\u00e3o do corpo, sustentando uma inquieta\u00e7\u00e3o febril, uma incur\u00e1vel perplexidade, driblando a puls\u00e3o de morte e o aniquilamento.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie abismal instaura a diferen\u00e7a, a diverg\u00eancia, a descoincid\u00eancia do <em>eu<\/em> com o <em>si mesmo<\/em> e provoca, como dito por Lacan sobre a arte e a poesia, \u201cefeito de sentido, mas tamb\u00e9m efeito de buraco&#8221;.<\/p>\n<p>E a isso chamo <em>acordar a l\u00edngua e o corpo pela obra<\/em>, como no poema de Herberto Helder: \u201cH\u00e1 que se pensar com delicadeza \/ imaginar com ferocidade\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bianca Dias (Psicanalista, cr\u00edtica de arte e escritora) \u00c9 a partir de um poema de Paul Celan que o fantasma do contempor\u00e2neo se inscreve: \u201cA morte \u00e9 uma flor que s\u00f3 abre uma vez \/ mas quando abre, nada se abre com ela \/ abre sempre que quer e fora da esta\u00e7\u00e3o\u201d. 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