{"id":4798,"date":"2020-09-23T18:05:09","date_gmt":"2020-09-23T21:05:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4798"},"modified":"2020-09-23T18:05:09","modified_gmt":"2020-09-23T21:05:09","slug":"subversivo-ainda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/subversivo-ainda\/","title":{"rendered":"Subversivo ainda"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4375 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-300x76.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-768x194.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<h6>Oscar Reymundo (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201c\u00c9 preciso que o analista reinvente, a partir do que ele extraiu de sua pr\u00f3pria an\u00e1lise, a maneira pela qual a psican\u00e1lise pode perdurar\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/em><\/p>\n<p>O retorno a Freud, enunciado por Lacan, adquire toda sua pot\u00eancia quando podemos reconhecer que esse retorno implicou na retomada do car\u00e1ter subversivo que o fundador imprimira \u00e0 psican\u00e1lise desde suas origens. Subvers\u00e3o nos planos da \u00e9tica, da cl\u00ednica e da pol\u00edtica que Lacan soube sustentar e transmitir ao longo dos anos da sua produ\u00e7\u00e3o. Aquela feliz s\u00edntese que Jacques-Alain Miller formulara, \u201cLacan contra Lacan\u201d, d\u00e1 conta desse empuxo subversivo que atingiu a pr\u00f3pria psican\u00e1lise, imprimindo-lhe o pulsar do vivo at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4765\" aria-describedby=\"caption-attachment-4765\" style=\"width: 275px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4765\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/002-2.png\" alt=\"Imagem: Instagram @the.irving.penn.foudation\" width=\"275\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/002-2.png 275w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/002-2-236x300.png 236w\" sizes=\"auto, (max-width: 275px) 100vw, 275px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4765\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @the.irving.penn.foudation<\/figcaption><\/figure>\n<p>E n\u00e3o foi, justamente, esse \u00edmpeto subversivo original o que nos permitiu distinguir que a\u00ed, onde reinava o ciclo da vida instintual dos mam\u00edferos de uma das esp\u00e9cies do planeta ficou, por arte da imprevis\u00edvel irrup\u00e7\u00e3o da linguagem humana, o indiz\u00edvel do sexo e o furo da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual?<\/p>\n<p>O ensino lacaniano da \u00e9poca do \u201cal\u00e9m do \u00c9dipo\u201d permite esclarecer o car\u00e1ter de supl\u00eancia que o \u00c9dipo cumpre perante a perda do instinto nos seres falantes, supl\u00eancia que permite que o furo da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual seja cerzido com a fragilidade e a transitoriedade que todo remendo tem. Assim, o Nome-do-Pai, com sua fun\u00e7\u00e3o orientadora do enxame de significantes soltos, deixa transparecer, na perspectiva do al\u00e9m do \u00c9dipo, sua dimens\u00e3o de semblante. O agente adv\u00e9m semblante e nestes tempos, quando o discurso da ci\u00eancia, associado ao mercado capitalista, avan\u00e7a na cultura com suas promessas de um mundo feliz sem interdi\u00e7\u00f5es nem imposs\u00edveis, torna-se muito dif\u00edcil sustentar a posi\u00e7\u00e3o de sujeito desejante que consiga encarnar, com seu desejo, o objeto causa para outro sujeito na posi\u00e7\u00e3o de filho. Assim, os filhos da hipermodernidade n\u00e3o mais se orientam pelas suas marcas e, rejeitando a castra\u00e7\u00e3o, ficam \u00e0 deriva no campo da sexua\u00e7\u00e3o, \u00e0 merc\u00ea do ca\u00f3tico enxame de significantes, assim como tamb\u00e9m ficam afastados das quest\u00f5es do amor.<\/p>\n<p>Cabe perguntar-se se, nestes tempos, a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica constituem um novo modo de fazer supl\u00eancia ao instinto perdido, de fazer semblante para o furo da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, ou se nesta \u00e9poca essa inexist\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais um segredo e o que avan\u00e7a na cultura \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o do la\u00e7o amoroso, esse que permite o gozo autista condescender ao desejo que implica na castra\u00e7\u00e3o e que se dirige a um outro.<\/p>\n<p>Na Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana os psicanalistas n\u00e3o militamos em prol da salva\u00e7\u00e3o do pai, nem em defesa da diferen\u00e7a sexual na tentativa de sustentar erguido o velho mestre cl\u00e1ssico que est\u00e1 virando p\u00f3, mas tamb\u00e9m n\u00e3o nos deslumbramos com os cantos de sereia das novas tecnologias do corpo que prometem que, na condi\u00e7\u00e3o de seres falantes, possamos n\u00e3o nos complicar a vida perante o indiz\u00edvel do gozo e do enigma da sexualidade. Acredito que quem j\u00e1 consentiu com sair da seguran\u00e7a do seu consult\u00f3rio para tentar estabelecer um di\u00e1logo com os representantes do fundamentalismo do g\u00eanero, tem se deparado com um discurso de argumenta\u00e7\u00f5es ferrenhas, quando n\u00e3o agressivas e violentas, que excluem toda e qualquer refer\u00eancia aos impasses sexuais e amorosos pr\u00f3prios de qualquer simples mortal. Um novo modo de dar exist\u00eancia ao velho mestre da exce\u00e7\u00e3o do primeiro tempo de Totem e Tabu?\u00a0 N\u00e3o tem muito de religiosidade nessa posi\u00e7\u00e3o que, expulsando o velho patriarca esquartejado pela porta da frente, o faz entrar com roupagens \u201cn\u00e3o-bin\u00e1rias\u201d pela janela? Quem j\u00e1 abriu as portas do seu consult\u00f3rio para jovens que chegam extraviados numa deriva de significantes com os que fazem v\u00e3s tentativas de sustentar uma posi\u00e7\u00e3o sexuada, sabe do sofrimento ai presente e do insuficiente, n\u00e3o por isso menos importante, do discurso dos Direitos Humanos, e das civilizadas conquistas no campo jur\u00eddico, para abordar e tratar esse extravio, produzindo um lugar no Outro social. Um novo documento de identidade, com um novo nome e uma nova designa\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o destinado ao sexo, pode fazer com que um sujeito fique em melhores condi\u00e7\u00f5es para poder falar e inventar sua pr\u00f3pria solu\u00e7\u00e3o perante sua deriva, sem amarras, numa posi\u00e7\u00e3o sexuada.<\/p>\n<p>Cabe perguntar-se, ent\u00e3o, considerando que a subvers\u00e3o \u00e9 de \u00e9poca, se nestes tempos de neoliberalismo, o car\u00e1ter subversivo da psican\u00e1lise n\u00e3o continua ainda se manifestando na proposta lacaniana de que, talvez, do discurso do analista possa surgir um novo estilo de significante amo<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, (<em>a<\/em>)mo. No discurso psicanal\u00edtico o analista encarna uma fun\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o e com seu dizer realiza uma orienta\u00e7\u00e3o muito diferente daquela orienta\u00e7\u00e3o que opera o S1 do discurso do mestre tradicional, uma vez que se trata do analista na posi\u00e7\u00e3o do objeto que encarna o mais vivo de cada ser falante que aceita realizar a experi\u00eancia de uma an\u00e1lise. Assim, a dimens\u00e3o subversiva do discurso psicanal\u00edtico est\u00e1 presente na \u201copera\u00e7\u00e3o descaridante<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, que \u00e9 tamb\u00e9m um descarrilhar, uma sa\u00edda, do discurso capitalista, desta vez, na qual se trata de ensinar o sujeito a se deixar orientar pelo real do seu inconsciente, das suas marcas, localizando o sexo como um furo \u2013 e n\u00e3o como um abismo \u2013 ao redor do qual realizar a constru\u00e7\u00e3o singular de uma posi\u00e7\u00e3o sexuada\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Patriarcal, faloc\u00eantrico, heteronormativo, bin\u00e1rio, conservador, s\u00e3o alguns dos qualificativos com os que, hoje, um setor da milit\u00e2ncia acad\u00eamica do g\u00eanero interpreta julgando a psican\u00e1lise, ignorando as muta\u00e7\u00f5es que a pr\u00f3pria psican\u00e1lise desenvolveu, ao longo dos anos, tanto epist\u00eamica como cl\u00ednica, pol\u00edtica e eticamente, atenta \u00e0s mudan\u00e7as na subjetividade do seu tempo. Talvez seja esperar demais que os detratores da psican\u00e1lise estejam interessados nas elabora\u00e7\u00f5es atuais, do que na paroquia chamamos de \u201cultim\u00edssimo ensino de Lacan\u201d, mas, ao menos, \u00e9 de se esperar que os cr\u00edticos sejam modestos perante o n\u00e3o-saber para n\u00e3o se precipitarem tirando conclus\u00f5es impertinentes. Caberia esclarecer, talvez, caso algu\u00e9m esperasse outro rumo, que essas muta\u00e7\u00f5es foram e s\u00e3o produzidas no interior do Campo Freudiano o que de nenhuma maneira significa erguer todas as mesmas argumenta\u00e7\u00f5es que Freud e seus contempor\u00e2neos elaboraram nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, muito embora aquelas que, definitivamente, inseririam a psican\u00e1lise no campo da cultura, n\u00e3o como um acontecimento re-evolucion\u00e1rio, mas subversivo, continuam nos orientando ainda hoje. Lembremos das palavras de Miller que remetem ao vivo da psican\u00e1lise que nos orienta: \u201c[&#8230;] o psicanal\u00edtico \u00e9 o discurso que, como nenhum outro, tem abalado os semblantes da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>.\u00a0 \u00c9 nisso que consiste o car\u00e1ter subversivo da psican\u00e1lise desde suas origens: retirar consist\u00eancia, da boa maneira, i. e. n\u00e3o de modo selvagem, dos semblantes na sua fun\u00e7\u00e3o de defesa perante o real do gozo sem sentido, sem lei, no qual se funda o estritamente humano. Abalar, retirar consist\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 substituir com novos mestres do saber. A re-evolucion\u00e1ria oposi\u00e7\u00e3o entre um poder opressor e uma expressividade que quer libertar-se do poder para conquistar sua liberdade, ou a ideia de que um poder desp\u00f3tico impede a express\u00e3o de uma puls\u00e3o naturalmente criativa e livre, devem nos colocar numa posi\u00e7\u00e3o atenta e prevenida, uma vez que n\u00e3o \u00e9 com boas inten\u00e7\u00f5es, essas que pavimentam a estrada para o inferno, que podemos esclarecer algo acerca do funcionamento da puls\u00e3o de morte nos seres falantes. N\u00e3o faltam exemplos na hist\u00f3ria das civiliza\u00e7\u00f5es nos quais a luta contra a opress\u00e3o deu lugar a um opressor tanto ou mais feroz que o anterior. Qual outro discurso, sen\u00e3o o da psican\u00e1lise, evidencia que aquilo que recha\u00e7amos, muitas vezes com \u00f3dio, por distante, estranho, perturbador, opressor, pode revelar-se como o mais pr\u00f3ximo, familiar e \u00edntimo de cada um?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> LACAN, J. \u201cCongresso sobre a transmiss\u00e3o\u201d, 1978. <em>Revista Letra Freudiana<\/em>, ano XIV, n 0, pag.66.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Significante mestre.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Ver sobre o neologismo em: Lacan, J. Televis\u00e3o. Outros Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editores, 2003, pg. 518.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> SORIA, N, <em>La sexuaci\u00f3n en cuesti\u00f3n<\/em>. Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires, Edici\u00f3n Del Bucle, 2020, p. 448. Tradu\u00e7\u00e3o Livre.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> MILLER, J-A \u201cPela liberdade de palavra\u201d, in <em>Correio 79<\/em>, S\u00e3o Paulo, EBP, 2016, p.22.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oscar Reymundo (EBP\/AMP) \u201c\u00c9 preciso que o analista reinvente, a partir do que ele extraiu de sua pr\u00f3pria an\u00e1lise, a maneira pela qual a psican\u00e1lise pode perdurar\u201d[1] O retorno a Freud, enunciado por Lacan, adquire toda sua pot\u00eancia quando podemos reconhecer que esse retorno implicou na retomada do car\u00e1ter subversivo que o fundador imprimira \u00e0&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4798","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-fora-da-serie","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4798","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4798"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4798\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4798"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4798"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4798"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4798"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}