{"id":4796,"date":"2020-09-23T18:05:09","date_gmt":"2020-09-23T21:05:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4796"},"modified":"2020-09-23T18:05:09","modified_gmt":"2020-09-23T21:05:09","slug":"a-subversao-feminina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-subversao-feminina\/","title":{"rendered":"A subvers\u00e3o feminina*"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4375 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-300x76.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-768x194.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<figure id=\"attachment_4766\" aria-describedby=\"caption-attachment-4766\" style=\"width: 242px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4766\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/003-2.png\" alt=\"Imagem: Instagram@artmazemag\" width=\"242\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/003-2.png 242w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/003-2-217x300.png 217w\" sizes=\"auto, (max-width: 242px) 100vw, 242px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4766\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram@artmazemag<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Gabriela Camaly** (EOL\/AMP)<\/h6>\n<p><strong><em>A explos\u00e3o feminista<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, testemunhamos uma verdadeira explos\u00e3o feminista. Entre os jovens, o feminismo est\u00e1 na moda. Nancy Fraser, reconhecida intelectual feminista contempor\u00e2nea, explica que nos \u00faltimos trinta anos houve um \u201cgiro cultural\u201d da concep\u00e7\u00e3o quase marxista de um feminismo de car\u00e1ter socialista &#8211; concentrado na luta pela igualdade de direitos com o homem e o reconhecimento das diferen\u00e7as &#8211; pr\u00f3prio das disputas feministas dos anos 70 e 80, rumo \u00e0 luta por uma redistribui\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria de natureza econ\u00f4mica e social.<sup>1<\/sup> Este giro se sustenta em uma \u201cnova concep\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a de g\u00eanero\u201d.<sup>2<\/sup> Aos conflitos de g\u00eanero, apresentados em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho e \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero, foram acrescentados os discursos sobre a identidade e o reconhecimento da diversidade.<\/p>\n<p>Da mesma forma, a presen\u00e7a dos feminismos populares se multiplicou na Am\u00e9rica Latina: as feministas negras, o feminismo campon\u00eas, o feminismo ind\u00edgena, os feminismos dos bairros, entre outros. S\u00e3o coletivos de mulheres e\/ou LGTTBI que interagem com outros grupos n\u00e3o necessariamente feministas e que participam de organiza\u00e7\u00f5es populares mistas. Pronunciam-se a favor da despatriarcaliza\u00e7\u00e3o e questionam as hierarquias estabelecidas e as formas atuais de opress\u00e3o das mulheres.<sup>3<\/sup><\/p>\n<p>Por sua vez, o feminismo atual recupera o velho slogan \u201co pessoal \u00e9 pol\u00edtico\u201d pr\u00f3prio do feminismo dos anos 60 e 70. Naquela \u00e9poca, feministas radicais argumentavam que o descontentamento feminino era \u201cuma resposta a uma estrutura social na qual as mulheres s\u00e3o sistematicamente dominadas, exploradas e oprimidas.\u201d<sup>4 <\/sup>Em seu tempo, Betty Friedan<sup>5<\/sup> tinha advertido a respeito de n\u00e3o transformar disputas pol\u00edticas em problemas de dormit\u00f3rio, mas n\u00e3o teve sucesso. A ideologia subjacente era que a infelicidade e a insatisfa\u00e7\u00e3o femininas dependiam de um problema pol\u00edtico e social, produto da cultura patriarcal predominante na cultura. Atualmente, o feminismo do s\u00e9culo XXI recuperou esse slogan como parte de uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica com o objetivo de questionar o paradigma da normatividade androc\u00eantrica e heterossexual. Prop\u00f5e-se, portanto, uma luta nas trincheiras da intimidade para desnaturalizar a subordina\u00e7\u00e3o da mulher, o que permite \u201cvisibilizar\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> &#8211; termo em voga &#8211; realidades de subjuga\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o que costumam permanecer ocultas sob o v\u00e9u da normalidade dos usos e costumes pr\u00f3prios da sociedade e das institui\u00e7\u00f5es tradicionalmente patriarcais.<\/p>\n<p>Alguns coletivos de mulheres denunciam que o maternalismo hist\u00f3rico instalado nas sociedades continuou incidindo na pol\u00edtica do novo mil\u00eanio e influenciando &#8211; tanto simb\u00f3lica como materialmente &#8211; a constru\u00e7\u00e3o das subjetividades femininas e masculinas e a pr\u00f3pria ideia de g\u00eanero. Nesse sentido, a outra face do reconhecimento do papel materno implica o fen\u00f4meno de que as mulheres nem sempre s\u00e3o percebidas como trabalhadoras, de fato ou de direito<sup>6<\/sup>. Embora o modelo do homem provedor e da mulher que se dedica \u00e0 casa e aos filhos em tempo integral caiu h\u00e1 bastante tempo, a \u201cs\u00edndrome da super mulher\u201d que al\u00e9m de cuidar da fam\u00edlia e trabalhar em tempo integral, tamb\u00e9m est\u00e1 sendo questionada. O pressuposto de que a mulher \u00e9 a mais apta para a maternagem tamb\u00e9m n\u00e3o se sustenta, pois essa perspectiva limita a possibilidade das mulheres se desenvolverem <em>par e passo<\/em> aos homens nas esferas pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social. Ainda h\u00e1 alguns anos, a fil\u00f3sofa feminista francesa Elisabeth Badinter publicou um livro cuja pol\u00eamica tese considera a maternidade como uma nova forma de escravid\u00e3o, resultado da grave crise econ\u00f4mica e da perda do estado de bem-estar que atravessa a Europa.<sup>7 <\/sup>\u00c9 uma forma de \u201cdesnaturalizar\u201d a maternidade para indicar sua condi\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e ao mesmo tempo denunciar que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma reciprocidade essencial entre a mulher e a m\u00e3e. \u00c9 uma forma de dizer que \u201cA m\u00e3e\u201d n\u00e3o existe e que o que existe s\u00e3o modos particulares de realizar a maternagem das crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong><em>Novos usos da linguagem<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Em outro plano das coisas, a partir de uma abordagem sociol\u00f3gica, uma nota recente circulou pelas redes sociais propondo o \u201cuso inclusivo da linguagem\u201d<sup>8<\/sup> substituindo as vogais que determinam o g\u00eanero por um \u201ce\u201d ou um \u201cx\u201d (por exemplo: \u201ctodes\u201d ao inv\u00e9s de todas ou todos). Para al\u00e9m de qu\u00e3o engra\u00e7ado pode ser para alguns, ou rid\u00edculo e inapropriado para outros, evidencia-se a pretens\u00e3o de modificar a l\u00edngua introduzindo uma forma neutra de falar que n\u00e3o defina o g\u00eanero feminino ou masculino do sujeito da frase, para desenvolver um uso n\u00e3o sexista da linguagem e reverter o androcentrismo que nela se instala. A hip\u00f3tese de base \u00e9 que o uso dos termos e do g\u00eanero a eles atribu\u00eddos condicionam o imagin\u00e1rio popular, os pensamentos, as representa\u00e7\u00f5es da cultura, perpetuando os velhos estere\u00f3tipos. O uso de uma linguagem inclusiva \u00e9, portanto, uma decis\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o lingu\u00edstica, que pretende produzir uma \u201csubvers\u00e3o simb\u00f3lica\u201d para reverter o machismo dominante na maioria das l\u00ednguas comuns. Por\u00e9m, como afirma Claudia L\u00e1zaro, este giro linguageiro que \u201ctenta designar o empuxo \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o do Outro, acaba sendo um sintoma que desconhece &#8211; ao mesmo tempo que mostra &#8211; a impossibilidade de nomear o gozo\u201d que se aninha na rela\u00e7\u00e3o entre as palavras e os corpos<sup>9<\/sup>.<\/p>\n<p>Da mesma forma, basta navegar na Internet por alguns minutos para encontrar uma infinidade de novos termos em sintonia com essas quest\u00f5es. A saber: <em>feminazi <\/em>como forma pejorativa que designa feministas radicais que defendem a superioridade da mulher<em>; transfobia<\/em> para nomear o \u00f3dio e a intoler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas trans e \u00e0 diversidade de g\u00eanero; <em>micromachismo<\/em> para descrever todas aquelas a\u00e7\u00f5es cotidianas de car\u00e1ter machista que a sociedade naturaliza e passam despercebidas; <em>femismo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>, <\/em>para indicar a suposta repress\u00e3o e dom\u00ednio das mulheres em rela\u00e7\u00e3o aos homens; <em>cisg\u00eanero<\/em> para nomear pessoas cuja identidade de g\u00eanero \u00e9 concordante com seu sexo biol\u00f3gico; etc.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, termos como feminic\u00eddio, heteronormatividade, misoginia, patriarcado, androcentrismo, estere\u00f3tipos de g\u00eanero, desconstru\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e empoderamento feminino, entre v\u00e1rios outros, tornaram-se significantes mestres do discurso comum que circula pelas redes, a m\u00eddia de massa, os coletivos de mulheres e GLTTBI, bem como em publica\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas e de g\u00eanero.<\/p>\n<p><strong><em>A crise de g\u00eanero<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 necess\u00e1rio mencionar as teorias <em>queer<\/em> (que devem ser consideradas como p\u00f3s-feministas, <em>mais do que uma quarta onda do feminismo<\/em>), que prop\u00f5em a desconstru\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e preveem o crep\u00fasculo da heterossexualidade, bem como da homossexualidade, entendidas a partir do bin\u00e1rio homem-mulher. A crise de g\u00eanero e as pr\u00e1ticas sexuais n\u00e3o normativas s\u00e3o orientadas para uma constru\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel da identidade sexual. Judith Butler sustenta uma separa\u00e7\u00e3o radical entre o sujeito e o g\u00eanero, derrubando o binarismo sexual e \u201cdenunciando sua n\u00e3o inaturalidade fundamental\u201d<sup>10<\/sup>. A perspectiva de desconstru\u00e7\u00e3o do g\u00eanero rompe drasticamente com as categorias do feminino e do masculino, ao denunciar n\u00e3o s\u00f3 a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual entre um homem e uma mulher, mas tamb\u00e9m a inexist\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o entre o corpo e a identifica\u00e7\u00e3o sexuada.<\/p>\n<p>Ali onde os feminismos sustentam uma pol\u00edtica de luta pela igualdade de direitos entre ambos sexos e o reconhecimento de uma identidade feminina, os movimentos p\u00f3s-feministas denunciam em voz alta a inexist\u00eancia de toda forma de normatividade sexual, propondo identidades sexuais polimorfas que se sustentam a partir de pr\u00e1ticas de gozo n\u00e3o normativizadas, variadas e vari\u00e1veis para cada sujeito.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, um breve panorama da explos\u00e3o feminista, mas tamb\u00e9m suficientemente representativo para permitir alguma leitura. Nos termos de Foucault, a entrada do sexo no discurso abriu \u00e0 dimens\u00e3o da sexualidade e levou \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de sua magnitude pol\u00edtica. As formas sob as quais a pr\u00e1tica da sexualidade \u00e9 regulada pela cultura constituem dispositivos de poder que condicionam tipos de normatividade e estabelecem um enquadre simb\u00f3lico. Atualmente, impera a ideologia do determinismo social, a partir da qual a subjetividade e a viv\u00eancia da sexualidade dependem de uma constru\u00e7\u00e3o cultural que limita e condiciona as rela\u00e7\u00f5es entre os sexos em termos de submiss\u00e3o de um sobre o outro. Esta interpreta\u00e7\u00e3o da disparidade entre os sexos deixa de lado a responsabilidade dos sujeitos em rela\u00e7\u00e3o a seus pr\u00f3prios modos de gozo, ao mesmo tempo em que constitui uma nova vers\u00e3o do recha\u00e7o da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Para a psican\u00e1lise, a explos\u00e3o feminista e o correlativo empoderamento feminino n\u00e3o resolvem nem o mal-entendido sexual nem o <em>impasse <\/em>da feminilidade. Situa-se o paradoxo em que, ao mesmo tempo em que denunciam o n\u00e3o reconhecimento do feminino e tentam uma inscri\u00e7\u00e3o no campo do Outro, nesse mesmo movimento, sustentam uma forma de recha\u00e7o do feminino ao querer inscrev\u00ea-lo nas coordenadas da l\u00f3gica do ter ou n\u00e3o ter, ou seja, a l\u00f3gica f\u00e1lica.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>As vozes do mal-estar feminino<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Contudo, o feminismo contempor\u00e2neo apresenta novos desafios frente aos quais, cada um, em maior ou menor medida, se sente interpelado. O multiculturalismo, a desconstru\u00e7\u00e3o do g\u00eanero, o uso de uma linguagem neutra, as rela\u00e7\u00f5es entre g\u00eanero e desenvolvimento social, o feminismo como fundamentalismo ideol\u00f3gico, os transfeminismos e a pluralidade das identidades sexuais, etc. A psican\u00e1lise, ali onde acreditava fazer parte do discurso progressista da civiliza\u00e7\u00e3o, se confronta com a den\u00fancia renovada de manter posi\u00e7\u00f5es conservadoras, patriarcais e faloc\u00eantricas, sustentando a heteronormatividade sexual como medida da sexualidade normal. \u00c9 preciso considerar a necessidade de que a psican\u00e1lise se integre a uma ampla conversa\u00e7\u00e3o com esses novos emergentes tomados em sua diversidade, mas sem perder a b\u00fassola que lhe \u00e9 pr\u00f3pria. A pol\u00edtica da psican\u00e1lise \u00e9 orientada pelo gozo que sempre excede o campo da palavra e da representa\u00e7\u00e3o, e que somente se circunscreve pela rela\u00e7\u00e3o singular de cada sujeito com a <em>lal\u00edngua<\/em> e com o corpo como experi\u00eancia viva de do gozo.<\/p>\n<p>Em um artigo da revista <em>Anfibia<\/em>, duas jovens feministas afirmam: \u201c\u2026 os feminismos s\u00e3o m\u00faltiplos, heterog\u00eaneos, complexos e mut\u00e1veis, mas se h\u00e1 uma caracter\u00edstica que os une, \u00e9 o questionamento cont\u00ednuo dos esquemas de desigualdade e opress\u00e3o baseados no sexo e na orienta\u00e7\u00e3o sexual, e a tentativa permanente de tornar vis\u00edvel o que at\u00e9 ent\u00e3o era invis\u00edvel e por desnaturalizar o que acredit\u00e1vamos naturalizado. Ou seja, sua ess\u00eancia est\u00e1 na atitude cr\u00edtica e na integralidade, pois os feminismos tudo transformam.\u201d<sup>11<\/sup> De fato, o discurso feminista produziu um efeito subversivo na civiliza\u00e7\u00e3o. O questionamento das normas e modos de la\u00e7o existentes, em diferentes momentos da hist\u00f3ria, permitiu obter valiosas conquistas em termos de direitos e condi\u00e7\u00f5es de vida das mulheres em todo o mundo.<\/p>\n<p>Recentemente, uma \u201cmar\u00e9 de len\u00e7os verdes\u201d proclamando-se a favor da interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez tornou-se um acontecimento, como Patricia Moraga coloca em sua leitura.<sup>12 <\/sup>Nem todas as manifestantes eram feministas, mas uma multid\u00e3o de mulheres, em uma rede de enorme diversidade, aderiu a essa luta. Hoje, o feminismo tamb\u00e9m se apresenta como um fato social, um acontecimento do corpo social, mais do que uma doutrina compacta, na qual os sujeitos podem participar de forma contingente, movidos por uma causa particular como a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto na Argentina, sem necessariamente fazer dessa participa\u00e7\u00e3o uma identifica\u00e7\u00e3o ou uma condi\u00e7\u00e3o de ser.<\/p>\n<p>Desde a sua origem &#8211; e talvez hoje com maior for\u00e7a &#8211; os movimentos feministas encarnam o questionamento dos dispositivos de poder que regulam e normativizam a viv\u00eancia da sexualidade, as constru\u00e7\u00f5es de saber, as refer\u00eancias identit\u00e1rias e os modos de gozar. O discurso feminino introduziu um obst\u00e1culo \u00e0 homogeneiza\u00e7\u00e3o f\u00e1lica do mundo ao mudar as regras do jogo. Nesse sentido, quando o dizer feminino \u00e9 introduzido no discurso universal, ele avan\u00e7a contra todas as tentativas de padroniza\u00e7\u00e3o, produzindo a subvers\u00e3o dos pressupostos existentes.<sup>13<\/sup><\/p>\n<p><strong><em>Subvers\u00e3o feminina<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Apesar das conquistas dos movimentos feministas, \u00e9 evidente que o mal-estar feminino persiste de m\u00faltiplas formas. A psican\u00e1lise sabe que esse mal-estar n\u00e3o depende dos modos sociais de opress\u00e3o de g\u00eanero, mas que, para al\u00e9m das lutas sociais que \u00e9 preciso sustentar, se enoda um imposs\u00edvel de suportar. Nesse ponto, duas perspectivas podem ser levantadas: a primeira, trata-se de um malestar no qual subsiste um imposs\u00edvel de dizer e a segunda, que insiste a busca de reconhecimento pelo Outro<sup>14<\/sup>.<\/p>\n<p>Foi Betty Friedan que, nos anos 60, soube perceber \u00e0 sua maneira a falta de significante para nomear o desassossego da alma feminina e o chamou \u201cmal-estar que n\u00e3o tem nome\u201d.<sup>15<\/sup>Esse mal-estar, que Lacan circunscreveu e elaborou como \u201cgozo feminino\u201d, faz obst\u00e1culo a todas as formas de inscri\u00e7\u00e3o no Outro. Elas, ao se confrontarem com o n\u00e3o ter desde a origem, est\u00e3o menos amea\u00e7adas pela castra\u00e7\u00e3o e mais pr\u00f3ximas ao uso dos semblantes. A isso se acrescenta que a sexualidade feminina n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 l\u00f3gica f\u00e1lica devido \u00e0 afeta\u00e7\u00e3o de um gozo a mais imposs\u00edvel de significantizar. Por isso, Lacan aborda a sexualidade feminina a partir da dualidade dos gozos que habita em uma mulher e da forma como cada uma se arranja com esse imposs\u00edvel de suportar, uma experi\u00eancia de gozo na qual ela mesma pode se perder. Por isso mesmo, as mulheres tamb\u00e9m podem estar mais pr\u00f3ximas do ilimitado do gozo e da loucura, mas tamb\u00e9m mais propensas a inventar solu\u00e7\u00f5es singulares frente ao gozo imposs\u00edvel de negativizar que se apresenta sempre fazendo furo no Outro.<\/p>\n<p>Situa-se ent\u00e3o a \u201cdignidade da diferen\u00e7a\u201d, como a expressa Irene Greiser ao se referir \u00e0 tens\u00e3o entre igualdade jur\u00eddica e disparidade subjetiva.<sup>16 <\/sup>Nesse sentido, o feminino opera certa subvers\u00e3o da ordem simb\u00f3lica que tem que fazer as contas com o real da sexualidade. A dignidade da diferen\u00e7a feminina \u00e9 uma boa forma de nomear certo saber-fazer com o imposs\u00edvel de dizer do gozo e com a diferen\u00e7a irredut\u00edvel entre os sexos.<\/p>\n<p>Com este percurso tentamos tra\u00e7ar o litoral entre a pol\u00edtica dos feminismos e a pol\u00edtica da psican\u00e1lise, entre a igualdade de direitos entre um g\u00eanero e outro e a diferen\u00e7a radical entre os modos de gozar. N\u00e3o se trata de uma fronteira em que se possa estar de um lado ou de outro, mas de um espa\u00e7o no qual \u00e9 necess\u00e1rio que como analistas nos incluamos na conversa\u00e7\u00e3o com os novos modos de viver a sexualidade e as novas nomea\u00e7\u00f5es que tentam cernir um real sempre indialetiz\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Silvia Jacobo<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Paola Salinas<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>* Texto publicado anteriormente em Feminismos. Variaciones. Controversias. AA.VV. Colecci\u00f3n de la Orientaci\u00f3n Lacaniana de la EOL. Grama, Buenos Aires, 2018, (p. 99-108). Traduzido ao portugu\u00eas com autoriza\u00e7\u00e3o da autora.<\/h6>\n<h6>** Psicanalista. Membro da Escola da Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (EOL) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). Magister em Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica.<\/h6>\n<hr \/>\n<ol>\n<li>\n<h6>Fraser, N., \u201cNuevas reflexiones sobre el reconocimiento\u201d. Dispon\u00edvel http:\/\/www.cedet.edu.ar\/Archivos\/Bibliotecas_Archivos\/id40\/fraser%20reflexiones_sobre_el_reconocimiento.pdf. Consultado em 1\/6\/2018.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Fraser, N., \u201cLa pol\u00edtica feminista en la era del reconocimiento: un enfoque bidimensional de la justicia de g\u00e9nero\u201d. Dispon\u00edvel em: http:\/\/revistaseug.ugr.es\/index.php\/arenal\/article\/view\/1417\/1589. Consultado em 1\/6\/2018.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Korol, C., \u201cFeminismos populares. Las brujas necesarias en los tiempos de c\u00f3lera\u201d. In: <em>Revista Nueva Sociedad<\/em>, n\u00ba 265. Geograf\u00edas feministas, Buenos Aires, septiembre-octubre de 2016.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Hartmann, H. \u201cThe unhappy marriage of Marxism and feminism: Towards a more progressive union\u201d. In: Linda J. Nicholson (ed.). <em>The Second Wave: A Reader in Feminist Theory<\/em>. New York, Routledge, 1997, p. 100. Tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Friedan, B. <em>La m\u00edstica de la feminidad. Feminismos<\/em>. Valencia, C\u00e1tedra, 2009<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Faur, E., <em>El cuidado infantil en el siglo XXI. Mujeres malabaristas en una sociedad desigual<\/em>. Buenos Aires, Siglo XXI, 2014.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Badinter, E., <em>La mujer y la madre.<\/em> <em>Un libro pol\u00e9mico sobre la maternidad como nueva forma de esclavitud.<\/em> Madrid, La esfera libros, 2011.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Minoldo, S. y Bali\u00e1n, J. C., \u201cLa lengua degenerada\u201d.Dispon\u00edvel em: https:\/\/elgatoylacaja.com.ar\/la-lengua-degenerada\/ Consultado em 1\/6\/2018.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>L\u00e1zaro, C. Arrugas de la lengua. Intervenci\u00f3n en la primera noche preparatoria de las XXVII Jornadas Anuales de la EOL, el 26 de junio de 2018. In\u00e9dito. Tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Butler, Judith P. <em>Problemas de g\u00eanero: feminino e subvers\u00e3o da identidade<\/em>; tradu\u00e7\u00e3o, Renato Aguiar. \u2013 Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2003, p.214.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Martelotte, L. y Rey, P., \u201cLos machos me dicen feminazi\u201d. In: Revista Anfibia. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.revistaanfibia.com\/ensayo\/los-machos-me-dicen-feminazi\/ Consultado em 1\/6\/2018. Tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Moraga, P., \u201cUna marea de pa\u00f1uelos verdes\u201d. 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Dispon\u00edvel em: https:\/\/zadigespana.wordpress.com\/2018\/05\/01\/igualdad-juridica-y-disparidad-subjetiva\/ Consultado em 1\/5\/2018.<\/h6>\n<\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> N. T. Dar visibilidade.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> N. T. No original <em>hembrismo, <\/em>referente a <em>hembra, <\/em>f\u00eamea em portugu\u00eas.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gabriela Camaly** (EOL\/AMP) A explos\u00e3o feminista Nos \u00faltimos anos, testemunhamos uma verdadeira explos\u00e3o feminista. Entre os jovens, o feminismo est\u00e1 na moda. Nancy Fraser, reconhecida intelectual feminista contempor\u00e2nea, explica que nos \u00faltimos trinta anos houve um \u201cgiro cultural\u201d da concep\u00e7\u00e3o quase marxista de um feminismo de car\u00e1ter socialista &#8211; concentrado na luta pela igualdade de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4796","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-fora-da-serie","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4796","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4796"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4796\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4796"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}