{"id":4791,"date":"2020-09-23T18:05:09","date_gmt":"2020-09-23T21:05:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4791"},"modified":"2020-09-23T18:05:09","modified_gmt":"2020-09-23T21:05:09","slug":"a-imagem-de-si-e-o-uso-do-diva-em-tempos-de-distanciamento-de-corpos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-imagem-de-si-e-o-uso-do-diva-em-tempos-de-distanciamento-de-corpos\/","title":{"rendered":"A imagem de si e o uso do div\u00e3 em tempos de distanciamento de corpos"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4375 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-300x76.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-768x194.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>Cl\u00e1udia Regina Reis (EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_5163\" aria-describedby=\"caption-attachment-5163\" style=\"width: 476px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5163\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/imagem-texto-claudia-reis.png\" alt=\"Instagram @overist_curation\" width=\"476\" height=\"314\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/imagem-texto-claudia-reis.png 476w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/imagem-texto-claudia-reis-300x198.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 476px) 100vw, 476px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5163\" class=\"wp-caption-text\">Instagram @overist_curation<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cAt\u00e9 ontem, o uso de celulares era rigorosamente proibido na escola onde trabalho. Hoje, \u00e9 determinado que todos os alunos devem ter acesso a este equipamento para poderem participar das aulas&#8230;Como fica a cabe\u00e7a das crian\u00e7as? Os dirigentes, perdidos, ficam determinando e retificando comandos que os professores devem cumprir, como se soubessem a solu\u00e7\u00e3o. A Educa\u00e7\u00e3o estava em colapso h\u00e1 muito tempo, mas foi preciso um colapso na Sa\u00fade para que os furos do sistema escolar fossem escancarados.\u201d Interessada, escutava recentemente, os impasses vividos por um professor de educa\u00e7\u00e3o infantil da rede p\u00fablica, diante da instala\u00e7\u00e3o da pandemia causada pelo Covid 19.<\/p>\n<p>Este fragmento da fala do professor, nos remete a pensar a pol\u00edtica das promessas, aquela que apresenta solu\u00e7\u00f5es instant\u00e2neas, vindas dos l\u00edderes que se colocam na posi\u00e7\u00e3o de ter o saber, possuindo como fundamento o Discurso do Mestre, conforme nos orientou Lacan.<\/p>\n<p>A comunidade anal\u00edtica, tamb\u00e9m recebe os impactos da crise sanit\u00e1ria que se instalou mundialmente e encontra-se diante de v\u00e1rios impasses. Como o analista n\u00e3o est\u00e1 no mesmo lugar do mestre, a pol\u00edtica que nos orienta \u00e9 outra. \u00c9 justamente a subvers\u00e3o desta pol\u00edtica que interessa \u00e0 psican\u00e1lise. No lugar de determina\u00e7\u00f5es, quest\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>\u201cA pol\u00edtica, \u00e9 o inconsciente\u201d ou \u201cO Inconsciente, \u00e9 a pol\u00edtica\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 no Semin\u00e1rio A L\u00f3gica da Fantasia\u00b9, onde encontramos a asser\u00e7\u00e3o lacaniana \u201cO inconsciente, \u00e9 a pol\u00edtica\u201d, comentada por J-A.Miller em Mil\u00e3o\u00b2. Este, nos traz \u00e0 luz os fundamentos de ambas as frases. Destaca que em \u201cA pol\u00edtica, \u00e9 o inconsciente\u201d, se trata da pol\u00edtica segundo Freud, numa sociedade organizada a partir de uma hierarquia articulada ao pai, portanto, da presen\u00e7a da fun\u00e7\u00e3o paterna. <em>\u201cFoi Freud que quis reduzir a pol\u00edtica ao inconsciente\u201d<\/em>, diz Miller, <em>\u201cpor isso, ele se concentrou nos termos identifica\u00e7\u00e3o, cis\u00e3o, repress\u00e3o, inclusive a repress\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao gozo\u201d<\/em><sup>3<\/sup><em>.<\/em><\/p>\n<p>O enunciado \u201cO inconsciente, \u00e9 a pol\u00edtica\u201d, parte do inconsciente como aquilo que est\u00e1 para \u201cser definido\u201d. Neste Semin\u00e1rio<sup>4<\/sup>, Lacan se dedicava \u00e0 quest\u00e3o do significante, que a priori n\u00e3o significa nada, mas que pode vir representar o sujeito. Trata-se das marcas que o significante inscreve no corpo, hoje, corpo falante. O sujeito, assim representado, se dirige ao analista levando seu sintoma. Os analistas, por sua vez, desde Freud, sempre se fizeram presentes atrav\u00e9s de sua escuta, mas tamb\u00e9m, com seus corpos, permitindo que a pessoa que realiza uma demanda de an\u00e1lise, experimente falar a algu\u00e9m que se interessa verdadeiramente pelo seu caso, incluindo seu corpo libidinal. Assim, vai-se delineando seu inconsciente, aquilo que do discurso do Outro o definiu, segundo a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana.<\/p>\n<p>\u00c9 por esta via, da articula\u00e7\u00e3o da assertiva lacaniana \u201cO inconsciente, \u00e9 a pol\u00edtica\u201d com suas dimens\u00f5es que incidem na cl\u00ednica, que pretendo seguir aqui. Procuro discorrer sobre dois pontos: a imagem de si e o uso do div\u00e3. S\u00e3o elementos da nossa pr\u00e1tica que visam nossa \u00e9tica e nossa pol\u00edtica e que, com as impossibilidades dos corpos presentes impostas pela pandemia, nos suscitam quest\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A imagem de si<\/strong><\/p>\n<p>Na confer\u00eancia A Imagem Rainha<sup>5<\/sup>, em 1995, Miller fala da psican\u00e1lise enquanto um convite ao dizer e assim renunciar \u00e0 imagem pelo significante. Nesse processo algumas resistem ao naufr\u00e1gio &#8211; as imagens rainha &#8211; que est\u00e3o sob o imp\u00e9rio do olhar e s\u00e3o o lugar onde o imagin\u00e1rio se amarra ao gozo. Localiza o pr\u00f3prio corpo e seu operador l\u00f3gico, o espelho &#8211; corpo em sua forma visual, matriz do eu; o corpo do Outro e seu operador o v\u00e9u &#8211; sobre o qual se faz a leitura \u00f3ptica da castra\u00e7\u00e3o; e o falo, tendo como operadores o apoio, o pedestal, o enquadre que faz borda na imagem. \u00c9 pela via do olhar que podemos pensar aqui a inser\u00e7\u00e3o do gozo.<\/p>\n<p>Mais algumas articula\u00e7\u00f5es sobre a imagem do corpo em psican\u00e1lise nos s\u00e3o apresentadas por Miller<sup>6<\/sup>. Acredita que o corpo do outro, que \u00e9 uma imagem, anteceda o corpo pr\u00f3prio e que n\u00e3o \u00e9 por meio da imagem do corpo pr\u00f3prio que este se introduz no campo do gozo, mas sim por interm\u00e9dio do corpo do outro. Deixa claro que em psican\u00e1lise fazemos uma distin\u00e7\u00e3o entre o corpo entregue ao gozo em sua totalidade e a concentra\u00e7\u00e3o libidinal sobre o \u00f3rg\u00e3o. Retoma Lacan quando este formula que o gozo f\u00e1lico \u00e9 fora do corpo e faz explodir a tela do imagin\u00e1rio corporal. Elucida ainda que a const\u00e2ncia com que Lacan explicita a supremacia do corpo pr\u00f3prio tem a ver com a suposi\u00e7\u00e3o de uma falta que a imagem do corpo viria recobrir, ou seja, temos a primeira imagem do outro na falta da imagem do corpo pr\u00f3prio. A vers\u00e3o mais complexa desta falta em Lacan, n\u00e3o \u00e9 o d\u00e9ficit org\u00e2nico, mas sim a castra\u00e7\u00e3o. Esta, desde Freud \u00e9 a nossa refer\u00eancia \u00e0s coisas que concernem \u00e0s imagens. Aqui, Miller escreve a vers\u00e3o \u201cimagem do outro como tamp\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o\u201d e formula que a imagem n\u00e3o se sustenta sem uma carga libidinal que sempre deve ser regularizada. Implica a met\u00e1fora paterna que \u00e9 a regulariza\u00e7\u00e3o do gozo do lado da castra\u00e7\u00e3o. Temos como suporte fundamental das imagens do corpo dos outros e do corpo pr\u00f3prio a a\u00e7\u00e3o do Nome-do-pai. Assim, \u00e9 preciso que o gozo seja recusado para que a crian\u00e7a deseje outras coisas. O Nome-do-pai circunscreve, limita o gozo, oferece uma representa\u00e7\u00e3o para apreender o que estava fora do simb\u00f3lico, localiza o gozo no falo, negativizando-o. Miller aponta as perturba\u00e7\u00f5es perceptivas nas psicoses quando a carga libidinal, que grafamos <em>a<\/em>, se retira: <em>\u201ctemos um mundo povoado de sombras\u201d<\/em>. Quando a libido invade a imagem, vemos o gozo narc\u00edsico. Depois de experimentar a retirada da libido das imagens dos outros, observamos a concentra\u00e7\u00e3o da libido na imagem do corpo pr\u00f3prio. Conclui dizendo que a imagem do corpo traduz sempre a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com a castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No seu curso O Inconsciente Real<sup>7<\/sup>, em 2007, Miller nos adverte a respeito do desaparecimento do sujeito do inconsciente. Afirma que \u201cno desastre do simb\u00f3lico, flutua o imagin\u00e1rio do corpo\u201d. N\u00e3o se trata apenas da ruptura com o gozo f\u00e1lico. O que se apresenta \u00e9 o gozo da adi\u00e7\u00e3o como o modo contempor\u00e2neo de ruptura com o Outro, na itera\u00e7\u00e3o do gozo do Um<sup>8<\/sup>. Trata-se de uma nova leitura da ordem social, da insist\u00eancia do S<sub>1<\/sub> sem fazer s\u00e9rie, dos Uns-sozinhos.<\/p>\n<p>Em 2014, temos a confer\u00eancia O Inconsciente e o Corpo Falante<sup>9<\/sup>. Destaca que o imp\u00e9rio das imagens coloca como centro a dimens\u00e3o do corpo no contempor\u00e2neo e que se deve levar em conta outra ordem simb\u00f3lica e outro real. Trata-se do falasser, neologismo que representa o sujeito mais a subst\u00e2ncia gozante, incluindo agora o corpo do qual se pode gozar. Essa orienta\u00e7\u00e3o o faz tomar o sinthoma como acontecimento de corpo, uma emerg\u00eancia de gozo que exclui o sentido. Situa ao lado do sinthoma o escabelo, dizendo ser aquilo sobre o qual o falasser se ergue para se fazer belo.<\/p>\n<p>Numa entrevista \u00e0 Radiolacan, Beneti<sup>10<\/sup>, refere-se \u00e0 import\u00e2ncia das duas confer\u00eancias de Miller, a de 1995 e a proferida quase vinte anos depois, em 2014, para pensar a quest\u00e3o do imagin\u00e1rio no contempor\u00e2neo e o trabalho com o sinthoma. Destaca que se na primeira, temos a \u201cimagem rainha\u201d que seria o significante imagin\u00e1rio, operando do mesmo modo que opera o significante mestre no simb\u00f3lico, na segunda interven\u00e7\u00e3o, aponta que no s\u00e9culo XXI ocorre a difus\u00e3o maci\u00e7a do porn\u00f4 com a exibi\u00e7\u00e3o do corpo evocando o gozo. Assim, junto com o Lacan dos n\u00f3s, Miller ir\u00e1 nos lembrar que o imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo no contempor\u00e2neo. Segundo Beneti, um ponto precioso desta confer\u00eancia \u00e9 quando Miller nos diz \u201co sinthoma de um falasser \u00e9 um acontecimento de corpo, uma emerg\u00eancia de gozo\u201d, e outro ponto, quando situa ao lado do sinthoma a palavra escabelo. Na primeira confer\u00eancia se refere ao apoio, ao pedestal quando aponta o falo enquanto uma das imagens rainha. Na segunda, se refere a pedestal enquanto escabelo: <em>\u201cos escabelos est\u00e3o a\u00ed para fazer a beleza pois esta \u00e9 a \u00faltima defesa contra o real\u201d<\/em>. Trata-se de um corpo falante com seus dois gozos \u2013 o gozo da fala que leva ao escabelo e o gozo do corpo que sustenta o sinthoma.<\/p>\n<p>Anteriormente, t\u00ednhamos nos sintomas o predom\u00ednio das defesas, hoje, revelam-se as formas de gozo. O escabelo \u00e9 colocado como uma jun\u00e7\u00e3o da sublima\u00e7\u00e3o com o narcisismo, na qual o falasser busca se erguer nas articula\u00e7\u00f5es dos semblantes ofertados no s\u00e9culo XXI, onde lida-se com a falta muito mais nos registros da frustra\u00e7\u00e3o e da priva\u00e7\u00e3o do que no registro da castra\u00e7\u00e3o. O corpo \u00e9 o alvo da variedade de modos de gozar ofertada pelo discurso capitalista. Testemunhamos tentativas de congelamento de gozo no corpo, atrav\u00e9s de objetos externos e de imagens, para nada saber do real do la\u00e7o social que cont\u00e9m a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Assim, temos o gozo do corpo que sustenta o sinthoma e exclui o sentido, como nos coloca Miller<sup>11<\/sup>. O sinthoma est\u00e1 ancorado no furo que a linguagem faz no real do corpo, \u00e9 um acontecimento de corpo, um n\u00facleo de gozo. Nossas balizas na cl\u00ednica nos indicam estrat\u00e9gias no sentido de extra\u00e7\u00f5es visando este n\u00facleo de gozo. Nos importa o deixar-se surpreender pelo real veiculado pela palavra, pelo inter-dito. Se pensarmos a interpreta\u00e7\u00e3o, na \u00e9poca do falasser, enquanto uma opera\u00e7\u00e3o de desarticula\u00e7\u00e3o, de ruptura, de diferen\u00e7a, temos que nos perguntar como isto se opera tendo como anteparo as telas com a interfer\u00eancia das c\u00e2meras, dos microfones e do sinal da internet? E ainda, chega-se a experimentar uma opera\u00e7\u00e3o de \u201ccastra\u00e7\u00e3o do escabelo\u201d<sup>12<\/sup> para que o sinthoma possa emergir como singular no falasser?<\/p>\n<p><strong>O uso do div\u00e3<\/strong><\/p>\n<p>Retomo, rapidamente, suas origens em Freud, mas foi numa entrevista concedida por J-A. Miller<sup>13<\/sup> onde pude colher localiza\u00e7\u00f5es muito precisas sobre sua ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em seu artigo Sobre o In\u00edcio do Tratamento<sup>14<\/sup>, Freud, relata que a base hist\u00f3rica da disposi\u00e7\u00e3o deitada do paciente \u00e9 remanescente do m\u00e9todo hipn\u00f3tico, a partir do qual a psican\u00e1lise se desenvolveu. Defende que ele deve ser mantido para que os pacientes n\u00e3o vejam ou sofram interfer\u00eancias de poss\u00edveis express\u00f5es faciais do analista, para que seu prop\u00f3sito de impedir que a transfer\u00eancia se misture \u00e0s associa\u00e7\u00f5es do paciente seja sustentado, assim como, de isolar a transfer\u00eancia e permitir que apare\u00e7a como resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Na entrevista que mencionei acima, indagado a respeito do papel do div\u00e3 na psican\u00e1lise, Miller esclarece que n\u00e3o \u00e9 o div\u00e3 que a define e que existem an\u00e1lises que se realizam perfeitamente com o paciente sentado na poltrona. Pondera ainda que para alguns pacientes \u00e9 necess\u00e1rio que seja assim. Argumenta, por\u00e9m, que em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 demanda do paciente, implica uma certa ren\u00fancia.<\/p>\n<p>Diante da analogia, realizada pelo entrevistador, se o div\u00e3 seria mais que uma cama, Miller alega ser muito mais que isto, <em>\u201cnos deitamos sobre uma superf\u00edcie &#8230; com as evoca\u00e7\u00f5es mort\u00edferas que podem rondar\u201d<\/em>. Despojado, prop\u00f5e uma outra paridade: <em>\u201ctalvez se poderia dizer que o div\u00e3 \u00e9 um guarda roupa, onde um deposita seu corpo, outro se despe do corpo ativo, onde tamb\u00e9m se deixa o corpo imagin\u00e1rio\u201d &#8230; \u201cPermanece um terceiro corpo, o corpo que \u00e9 nosso trapo&#8230;e que \u00e9 t\u00e3o querido pelo sujeito\u201d<\/em>. Alega que o div\u00e3 \u201cencarna\u201d o paradoxo de termos que levar nosso corpo \u00e0 sess\u00e3o e, ao mesmo tempo, devemos dispor dele, <em>\u201cfaz presente a rela\u00e7\u00e3o sexual e, ao mesmo tempo, manifesta sua aus\u00eancia\u201d<\/em>. Seus dizeres seguintes nos orientam, a meu ver, sobre o efeito que deitar no div\u00e3 \u00e9 capaz de provocar em rela\u00e7\u00e3o ao uso que fazemos da imagem e dos objetos externos ofertados na tentativa de fixar o gozo: <em>\u201cO div\u00e3 \u00e9 uma m\u00e1quina, uma multiguilhotina que amputa o corpo de seus movimentos, de sua capacidade de agir, sua postura ereta, sua visibilidade. Ele materializa o corpo abandonado, o corpo quebrado, o corpo abatido. Deitar-se no div\u00e3 \u00e9 tornar-se puro falante, enquanto se experimenta a si mesmo como um corpo parasitado pela palavra, pobre corpo enfermo da enfermidade da fala\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Para concluir, al\u00e9m de nos trazer orientadores sobre o lugar do div\u00e3 na psican\u00e1lise, Miller<sup>15<\/sup>, nos oferece um naco generoso sobre o lugar da psican\u00e1lise diante dos modos de presen\u00e7a virtual ofertados pela tecnologia, do qual, transcrevo um fragmento aqui: <em>\u201cA tecnologia elabora modos de presen\u00e7a in\u00e9ditos. O contato remoto em tempo real tem se convertido em um lugar comum com o passar do s\u00e9culo. &#8230; Isto continuar\u00e1, se multiplicar\u00e1, ser\u00e1 onipresente. Mas, ter\u00e1 a presen\u00e7a virtual um impacto fundamental na sess\u00e3o anal\u00edtica? N\u00e3o. Ver e falar n\u00e3o \u00e9 uma sess\u00e3o anal\u00edtica. Na sess\u00e3o, dois est\u00e3o ali juntos, sincronizados, mas eles n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1 para se verem, como o demonstra o uso do div\u00e3. A co-presen\u00e7a em carne e osso \u00e9 necess\u00e1ria mesmo que seja apenas para fazer surgir a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual. Se sabotarmos o real, o paradoxo desaparece. Todos os modos de presen\u00e7a virtual, inclusive os mais sofisticados, v\u00e3o trope\u00e7ar com isto. &#8230; A presen\u00e7a permanecer\u00e1. E quanto mais se torna comum a presen\u00e7a virtual, mais preciosa ser\u00e1 a presen\u00e7a real\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Contemplamos o quanto Miller enfatiza a import\u00e2ncia do corpo presente na sess\u00e3o anal\u00edtica e o efeito no corpo e na imagem de si provocados no sujeito na sua rela\u00e7\u00e3o com o div\u00e3. Penso serem estas, contribui\u00e7\u00f5es valios\u00edssimas que nos ajudar\u00e3o neste processo de reflex\u00e3o entre a pol\u00edtica da psican\u00e1lise e as subvers\u00f5es impostas pelo contempor\u00e2neo. Constatamos que h\u00e1 uma perda quando os corpos n\u00e3o est\u00e3o presentes na sess\u00e3o anal\u00edtica, que os encontros virtuais s\u00e3o prec\u00e1rios e n\u00e3o desejamos que tais encontros substituam os presenciais. Temos escutado, no entanto, que t\u00eam sua utilidade, que s\u00e3o uma forma de fazer acontecer algo, em lugar de uma paralisa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Que nossas \u201csubvers\u00f5es\u201d se deem muito mais no sentido da insubordina\u00e7\u00e3o aos ganhos de gozo, insubordina\u00e7\u00e3o esta que d\u00e1 acesso ao real da exist\u00eancia, do que no sentido das sub vers\u00f5es, decorrentes das manifesta\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas de solu\u00e7\u00f5es pela via da imagem e do consumo, ligadas \u00e0 vertente pulsional de uma exig\u00eancia incondicional de satisfa\u00e7\u00e3o, que exprimem a ideia de depend\u00eancia, de estar sob o comando de, que o prefixo sub presume.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>1 Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 14: A L\u00f3gica da Fantasia. (In\u00e9dito) Li\u00e7\u00e3o do dia 10 de maio de 1967.<\/h6>\n<h6>2 Confer\u00eancia pronunciada em Mil\u00e3o em 12 de maio da 2002, publicada com o t\u00edtulo Intui\u00e7\u00f5es Milanesas, nos n\u00fameros 11 e 12 da publica\u00e7\u00e3o Mental.<\/h6>\n<h6>3 Miller, J.-A. <em>A orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. Um esfor\u00e7o de poesia<\/em>. Li\u00e7\u00e3o de 15 de maio de 2002.<\/h6>\n<h6>4 Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 14: A L\u00f3gica da Fantasia. (In\u00e9dito)<\/h6>\n<h6>5 Miller, J.-A. (1995). \u201cA Imagem Rainha\u201d. In Lacan Elucidado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 575.<\/h6>\n<h6>6 Miller, J.-A. (1995). \u201cA Imagem do Corpo em Psican\u00e1lise\u201d. In Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, (52): 17.<\/h6>\n<h6>7 Miller, J.-A. (2007). O Inconsciente Real: curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana. Aula de 16 de maio de 2006. In Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online 4. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/antigos\/n4\/\u00edndex.asp\">www.opcaolacaniana.com.br\/antigos\/n4\/\u00edndex.asp<\/a> .<\/h6>\n<h6>8 Miller, J.-A. (2011). Ler um Sintoma. Congresso NLS. Londres.<\/h6>\n<h6>9 Miller, J.-A. (2014). O Inconsciente e o Corpo Falante.\u00a0 In Scilicet: O Corpo Falante \u2013 sobre o Inconsciente no s\u00e1culo XXI. S\u00e3o Paulo. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. 2016.<\/h6>\n<h6>10 Beneti, A. (2015). \u201cDas Imagens Rainha ao Real como La\u00e7o Social\u201d. In <a href=\"http:\/\/www.radiolacan.com\">www.radiolacan.com<\/a> . Entrevista postada em 23 de fevereiro de 2015.<\/h6>\n<h6>11 Miller, J.-A. (2014). O Inconsciente e o Corpo Falante.\u00a0 In Scilicet: O Corpo Falante \u2013 sobre o Inconsciente no s\u00e1culo XXI. S\u00e3o Paulo. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. 2016.Idem<\/h6>\n<h6>12 Idem<\/h6>\n<h6>13<a href=\"https:\/\/nelguayaquil.org\/2020\/04\/13\/entrevista-a-jacques-alain-miller-y-cuanto-mas-se-vuelva-comun-la-presencia-virtual-mas-preciosa-sera-la-presencia-real\/?fbclid=IwAR3uRlRigGrMC6sk5Oj_TjOX1WPPGV6KclBPkGd9w8xWNe-d8B5-tRWa93c\">https:\/\/nelguayaquil.org\/2020\/04\/13\/entrevista-a-jacques-alain-miller-y-cuanto-mas-se-vuelva-comun-la-presencia-virtual-mas-preciosa-sera-la-presencia-real\/?fbclid=IwAR3uRlRigGrMC6sk5Oj_TjOX1WPPGV6KclBPkGd9w8xWNe-d8B5-tRWa93c<\/a><\/h6>\n<h6>14 Freud, S. (1913). \u201cSobre o inicio do tratamento\u201d, Edi\u00e7\u00e3o Standard, Rio de Janeiro: Imago, Vol. XII, p. 176<\/h6>\n<h6>15 Ibidem<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Cl\u00e1udia Regina Reis (EBP\/AMP) \u201cAt\u00e9 ontem, o uso de celulares era rigorosamente proibido na escola onde trabalho. 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