{"id":4784,"date":"2020-09-23T18:05:09","date_gmt":"2020-09-23T21:05:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4784"},"modified":"2020-09-23T18:05:09","modified_gmt":"2020-09-23T21:05:09","slug":"interpretacao-e-subversao-do-sujeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/interpretacao-e-subversao-do-sujeito\/","title":{"rendered":"Interpreta\u00e7\u00e3o e subvers\u00e3o do sujeito"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4375 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-300x76.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-768x194.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_4770\" aria-describedby=\"caption-attachment-4770\" style=\"width: 286px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4770\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/008-2.png\" alt=\"Imagem: Instagram @vie_pub_like\" width=\"286\" height=\"357\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/008-2.png 286w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/008-2-240x300.png 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 286px) 100vw, 286px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4770\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @vie_pub_like<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Jovita Carneiro de Lima (Associada ao CLIN-a)<\/h6>\n<p>Ao me lan\u00e7ar \u00e0 tarefa de extrair do texto <em>Subvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano <\/em>uma pontua\u00e7\u00e3o para trabalhar o tema das Jornadas, ressoava em mim os ecos da leitura e trabalho recente do artigo de Freud <em>\u201cO Inconsciente<\/em>\u201d, do qual\u00a0 havia extra\u00eddo como chave de leitura que a subvers\u00e3o freudiana repousaria no fato de fazer do termo inconsciente um conceito fundamental a partir de \u201catos ps\u00edquicos, alheios \u00e0 consci\u00eancia\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, \u00edndice de um saber outro que nos atravessa \u00e0 nossa revelia.\u00a0 E o sonho, mais precisamente a sua interpreta\u00e7\u00e3o, seria o caminho tanto para aceder a esse saber como para demonstrar o modo como estava estruturado em torno de um umbigo, um ponto fora do limite da interpreta\u00e7\u00e3o. O estatuto do inconsciente que ali se justifica est\u00e1 fundado na no\u00e7\u00e3o de recalque, de censura, enfim no fato de que h\u00e1 algo que escapa ao saber.<\/p>\n<p>Interpreta\u00e7\u00e3o, \u00e9 esse outro termo do qual Freud faz um uso subversivo, na medida em que ao partir dos dizeres do sujeito para retornar a eles, funda uma dial\u00e9tica que ele d\u00e1 o estatuto de conceito fundamental. A\u00e7\u00e3o do psicanalista, ancorada na linguagem e calcada sobre uma falta. Aqui, falta de saber sobre o sentido desses atos ps\u00edquicos que atravessam o sujeito, dentre os quais est\u00e1 inclu\u00eddo o sintoma. \u00c0 medida em que a cl\u00ednica avan\u00e7ava, Freud se deparava com obst\u00e1culos \u00e0 decifra\u00e7\u00e3o que j\u00e1 estavam postos desde o in\u00edcio, tais como: compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, parada das reminisc\u00eancias, rea\u00e7\u00e3o terap\u00eautica negativa, etc., obst\u00e1culos estes que o permitem fazer avan\u00e7ar a teoria, principalmente diante desse limite ao dizer tudo. Ao final de sua obra, Freud prop\u00f5e um modo de interpreta\u00e7\u00e3o que chama de constru\u00e7\u00f5es em an\u00e1lise que consistia em comunicar ao paciente as constru\u00e7\u00f5es feitas pelo analista a partir dos ditos recolhidos da fala do paciente em livre associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em \u201c<em>Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise <\/em>\u201d, texto que funda o seu ensino, Lacan toma para si a tarefa de demostrar que os conceitos freudianos s\u00f3 \u201cadquirem pleno sentido ao se orientarem num campo de linguagem, ao se ordenarem na fun\u00e7\u00e3o da fala\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. Fun\u00e7\u00e3o esta que est\u00e1 no cerne da descoberta freudiana, pois constitui o sujeito do inconsciente, fundado pela opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica quando convocado a assumir seu lugar e se implicar em seus ditos.<\/p>\n<p>Na doutrina do significante da qual se serve para a empreitada de \u201crenovar na psican\u00e1lise os fundamentos que ela retira da linguagem\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, o conceito de sujeito op\u00f5e-se tanto ao do enunciado cartesiano \u201cpenso, logo sou\u201d quanto ao sujeito da consci\u00eancia de si como prop\u00f5e Hegel. Efeito da a\u00e7\u00e3o da linguagem na articula\u00e7\u00e3o significante, o sujeito do inconsciente tem como marca a impossibilidade de representar a si mesmo; \u00e9 separado de seu objeto pela a\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o e impelido a se haver com o desejo sempre alhures.<\/p>\n<p>Lacan faz do desejo a tradu\u00e7\u00e3o da libido freudiana, advertindo que \u00e9 preciso toma-lo ao p\u00e9 da letra, uma vez que em sua estrutura, \u201co desejo \u00e9 aquilo que se manifesta no intervalo cavado pela demanda aqu\u00e9m dela mesma, na medida em que o sujeito, articulado \u00e0 cadeia significante, traz \u00e0 luz a falta-a-ser com o apelo de receber seu complemento do Outro, se o Outro lugar da fala, \u00e9 tamb\u00e9m lugar dessa falta<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>.\u201d<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do grafo do desejo demonstra, em uma montagem, tanto a estrutura da fala e da linguagem, quanto a estrutura do sujeito nos dois patamares. O primeiro marca a entrado no simb\u00f3lico e p\u00f5e em jogo a pergunta sobre o desejo. No segundo, entra em cena a puls\u00e3o em termos de um \u201cisso fala\u201d, na linha homologa ao que Lacan escreve S(\u023a), significante da falta no Outro. O que isso quer dizer?<\/p>\n<p>\u201cO que o grafo nos prop\u00f5e agora, situa-se no ponto em que toda cadeia significante se honra ao fechar sua significa\u00e7\u00e3o. Se \u00e9 preciso esperar tal efeito da enuncia\u00e7\u00e3o inconsciente, \u00e9 aqui em S(\u023a), e h\u00e1 que l\u00ea-lo: significante de uma falta do Outro inerente \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o mesma de ser o tesouro do significante. Isso na medida em que o Outro \u00e9 solicitado (<em>che vuoi<\/em>) a responder pelo valor desse tesouro, responder certamente, de seu lugar na cadeia inferior, mas nos significantes que constituem a cadeia superior, ou seja em termos de puls\u00e3o.\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Este ponto me parece crucial no que se refere ao lugar da interpreta\u00e7\u00e3o, na medida em que convoca o analista em sua pr\u00e1tica a sustentar o lugar da subvers\u00e3o freudiana chamada psican\u00e1lise. Convocado a responder com sua palavra, n\u00e3o qualquer uma, mas aquela que assegure seu valor como significante, decide sobre sua a\u00e7\u00e3o a partir da pol\u00edtica do inconsciente. A\u00ed est\u00e1 dado, a meu ver, o lugar da interpreta\u00e7\u00e3o uma vez que desde Freud, ela \u00e9 indissoci\u00e1vel da transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>O lugar da interpreta\u00e7\u00e3o ent\u00e3o \u00e9 aquele que aponta como o dedo erguido de S\u00e3o Jo\u00e3o de Leonardo, para \u201co horizonte desabitado do ser\u201d, ou seja, para a falta-a-ser.\u00a0 O que Lacan prop\u00f5e como emblema da interpreta\u00e7\u00e3o, nas palavras de Miller, \u00e9 o que ser\u00e1 \u201cescrito como S(\u023a) como o dedo de S\u00e3o Jo\u00e3o apontando em dire\u00e7\u00e3o ao que, sob o significante n\u00e3o podemos dizer\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. E esclarece que o que n\u00e3o se pode dizer deve ser dito nas entrelinhas, de maneira alusiva, de modo indireto, assinalando a zona de contorno da puls\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste escrito de Lacan, do qual nos ocupamos hoje, como texto de base para pensar o argumento das Jornadas Subvers\u00f5es, trata-se da tentativa de Lacan, talvez a \u00faltima, para tentar formular o gozo em termos de significante e significado, ou seja, aqui Lacan lan\u00e7a m\u00e3o sobretudo da lingu\u00edstica, para dar conta da significantiza\u00e7\u00e3o do gozo. \u00c9 o tempo de uma ontologia sem\u00e2ntica como bem lembrou Heloisa Teles nas discuss\u00f5es que precederam a elabora\u00e7\u00e3o desse trabalho de pontua\u00e7\u00e3o. No entanto, ao formular o matema S(\u023a) como \u201cesse significante que s\u00f3 pode ser um tra\u00e7o que se tra\u00e7a por seu c\u00edrculo, sem poder ser inclu\u00eddo nele. Simboliz\u00e1vel pela iner\u00eancia de um (-1) no conjunto dos significantes\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>, Lacan aponta a subvers\u00e3o da estrutura, na medida em que n\u00e3o existe no conjunto dos significantes um todo, ou tudo que se possa dizer. Em sendo o Outro, ele mesmo barrado, n\u00e3o existe na linguagem um significante que poderia sozinho representar o sujeito. Ent\u00e3o, aqui j\u00e1 podemos vislumbrar o que vir\u00e1 a seguir em termos de articula\u00e7\u00e3o entre a linguagem e o gozo, a partir desse significante que n\u00e3o faz par, aquele que em sua falta \u201ctodos os demais n\u00e3o representariam nada. J\u00e1 que nada \u00e9 representado sen\u00e3o para algo\u201d.<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Desde sempre ancorada na linguagem, a interpreta\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise \u00e9 esse lugar onde a palavra tem peso \u2013 seja quando incide entre o significado, entre o dito e o dizer ou em seu uso ao isolar o S<sub>1 <\/sub>sozinho, tra\u00e7o do mais singular de cada um. Neste contexto, encerro essa pontua\u00e7\u00e3o com uma quest\u00e3o: qual o lugar da interpreta\u00e7\u00e3o num tempo em que o saber \u00e9 pulverizado, uma vez que a inconsist\u00eancia do Outro vive seu apogeu, onde a palavra mais instiga o consumo do que apazigua a puls\u00e3o, qual o lugar da interpreta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Feud, S. \u2013 O Inconsciente. Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas, Vol. 14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Lacan, J. \u2013 Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise. Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Idem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Lacan, J. \u2013 A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios do seu poder. Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Lacan, J \u2013 Subvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano. Escritos. Rio de Janeiro,\u00a0\u00a0 Jorge Zahar, p\u00e1g. 832.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Miller, J-A \u2013 Silet: Os paradoxos da puls\u00e3o de Freud \u00e0 Lacan. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Idem, ibidem. P\u00e1g. 833.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Idem, ibidem.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h6><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Jovita Carneiro de Lima (Associada ao CLIN-a) Ao me lan\u00e7ar \u00e0 tarefa de extrair do texto Subvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano uma pontua\u00e7\u00e3o para trabalhar o tema das Jornadas, ressoava em mim os ecos da leitura e trabalho recente do artigo de Freud \u201cO Inconsciente\u201d, do qual\u00a0 havia extra\u00eddo&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4784","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-fora-da-serie","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4784","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4784"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4784\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4784"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4784"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4784"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4784"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}