{"id":4779,"date":"2020-09-23T18:05:10","date_gmt":"2020-09-23T21:05:10","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4779"},"modified":"2020-09-23T18:05:10","modified_gmt":"2020-09-23T21:05:10","slug":"o-artista-e-sua-travessia-subversiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-artista-e-sua-travessia-subversiva\/","title":{"rendered":"O artista e sua travessia subversiva"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4375 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-300x76.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-768x194.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h6>por Janaina de Paula Costa Ver\u00edssimo (Associada ao CLIN-a)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_4780\" aria-describedby=\"caption-attachment-4780\" style=\"width: 425px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4780\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/013-1.png\" alt=\"Imagem: Instagram @anatolknotek\" width=\"425\" height=\"567\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/013-1.png 425w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/013-1-225x300.png 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4780\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @anatolknotek<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um filho artista e a travessia de um luto. Uma travessia po\u00e9tica, l\u00e1, onde a heran\u00e7a materna se fez viva pela presen\u00e7a dos escritos deixados. Assim, poder\u00edamos ousadamente sintetizar a experi\u00eancia concebida por Mateus Nachtergaele, em 2015, no mon\u00f3logo, ent\u00e3o intitulado, \u201cO processo do <em>conscerto<\/em> do desejo\u201d.<\/p>\n<p>Ao falar sobre a concep\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a, o ator e diretor esclarece o neologismo em jogo na composi\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo original. Para al\u00e9m da homofonia, uma manobra sutil com a letra permite romper com o sentido un\u00edvoco: \u201cpoucas palavras se confundem tanto em nossa l\u00edngua quanto \u2018concerto\u2019 e \u2018conserto\u2019. Aqui, elas se mesclam vertiginosamente [&#8230;]. Quero consertar meu desejo com poesia, num concerto\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a> \u2013 eis a interpreta\u00e7\u00e3o do artista, a partir do pr\u00f3prio equ\u00edvoco bem sucedido que se forja.<\/p>\n<p>Sua m\u00e3e, a poeta Maria Cec\u00edlia Nachtergaele, faleceu quando Mateus era ainda um beb\u00ea de tr\u00eas meses de vida. Recebeu do pai, j\u00e1 na adolesc\u00eancia, o caderno de poemas materno com o qual n\u00e3o soube o que fazer durante alguns anos. Ainda seria preciso tempo para dar algum tratamento \u00e0quele \u201cvespeiro emocional\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>, senti-lo menos aterrador e, quem sabe, pass\u00edvel de um novo destino: o teatro.<\/p>\n<p>Em seu \u201cDi\u00e1rio de Luto\u201d, Roland Barthes escreve \u2013 entre outubro de 1977 e junho de 1979 \u2013 nota\u00e7\u00f5es quase di\u00e1rias, ap\u00f3s a morte de sua m\u00e3e. Tratam-se de \u201ctextos curt\u00edssimos e secos, em que nada vibra para al\u00e9m da refer\u00eancia ao tempo: mais existem do que fazem sentido\u201d.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a> A escrita cumpre uma fun\u00e7\u00e3o, longe de suprimir, transforma a dimens\u00e3o est\u00e1tica da dor. Barthes escreve: \u201cTransformo \u00b4Trabalho\u00b4 no sentido psicanal\u00edtico (Trabalho do Luto, do Sonho) em \u00b4Trabalho\u00b4 real \u2013 de escrita\u201d.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a> Para cada um, a via de um trabalho singular.<\/p>\n<p>Em seu processo, Nachtergaele apanha com cuidado os fragmentos po\u00e9ticos da m\u00e3e e garante-lhes um lugar mais contundente do que tr\u00e1gico, ao construir uma delicada tecitura\/tessitura que confirma, sem d\u00favida, seu testemunho: \u201ca pe\u00e7a conseguiu n\u00e3o ser neur\u00f3tica, de autoajuda ou autopiedosa. Um filho utiliza seu instrumental de artista&#8230;\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a> para transcender uma quest\u00e3o muito \u00edntima e devolv\u00ea-la ao p\u00fablico \u2013 \u201cminha queixa como filho e o suic\u00eddio da mam\u00e3e, para fazer um espet\u00e1culo sobre o embelezar das coisas tristes\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a>, ele dir\u00e1.<\/p>\n<p>Com seu tra\u00e7o singular, a escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol, ao abordar em texto a quest\u00e3o do luto, tamb\u00e9m produz um oportuno neologismo: \u201cn\u00e3o houve um processo de retrocesso. Houve antes ondula\u00e7\u00e3o por <em>nostalgria<\/em>\u201d.<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a> O trabalho do luto segue, mas n\u00e3o sem seus rastros e algo que restar\u00e1 sempre como nost\u00e1lgico e inassimil\u00e1vel.<\/p>\n<p>Como Freud t\u00e3o bem nos adverte em sua \u201cCarta a Biswanger de 14 de mar\u00e7o de 1920\u201d, ap\u00f3s a morte da filha Sophie, no per\u00edodo da Gripe Espanhola: \u201ctenho muito que fazer, mas nada estanca o empobrecimento\u201d.<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a><\/p>\n<p>Em julho deste ano, j\u00e1 com a pandemia do novo corona v\u00edrus em curso, Mateus Nachtergaele renomeou seu espet\u00e1culo de \u201cDesconcerto\u201d e foi ao ar, ao vivo, pelo You Tube do Sesc S\u00e3o Paulo, em uma vers\u00e3o mais intimista, mas n\u00e3o menos pungente, emocionante e desconcertante da pe\u00e7a.<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a><\/p>\n<p>Em an\u00fancio pr\u00e9 apresenta\u00e7\u00e3o, ele afirmou: \u201cvou estar sozinho [ao se referir \u00e0 aus\u00eancia dos m\u00fasicos que o acompanham nos palcos] fazendo teatro ou, como eu disse, aquilo que se parece com teatro\u201d.<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a> Um saber-fazer que se (re)inventa diante da conting\u00eancia. O artista, assim como o psicanalista, \u00e9 aquele que n\u00e3o recua diante do mal-estar de sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>Em um momento t\u00e3o delicado como o atual, em que o luto atravessa os dias, e o somat\u00f3rio das mortes beira n\u00fameros, at\u00e9 ent\u00e3o, inimagin\u00e1veis, avan\u00e7ar na companhia subversiva e sens\u00edvel dos artistas pode ser mais do que bem-vindo, \u00e9 vital.<\/p>\n<p>\u201cTrata-se da arte promovendo subvers\u00f5es em corpos confinados\u201d<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[xi]<\/a>, como bem nos lembrou Daniela de Camargo Barros Affonso, em sua provoca\u00e7\u00e3o intitulada \u201cSubvers\u00e3o criativa\u201d. O artista e seu ato \u00e9tico, est\u00e9tico e, por que n\u00e3o, pol\u00edtico segue nos ensinando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a>i Entrevista dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/aplausobrasil.com.br\/gente-matheus-nachtergaele-estreia-processo-de-conscerto-do-desejo-em-sp\/&gt;. Acesso em: 06 set. 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\"><\/a>ii FONTANARI, R. <strong>Roland Barthes. A dor do luto<\/strong>. Dispon\u00edvel em: &lt;file:\/\/\/C:\/Users\/User\/Downloads\/46812-Texto%20do%20artigo-56278-1-10-20121115.pdf&gt;. Acesso em: 06 set. 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> BARTHES, R. <strong>Di\u00e1rio de luto<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 123.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> Entrevista dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.hojeemdia.com.br\/almanaque\/entrevista-matheus-nachtergaele-fala-de-desconscerto-planos-futuros-e-a-arte-no-cen%C3%A1rio-atual-1.790500\">https:\/\/www.hojeemdia.com.br\/almanaque\/entrevista-matheus-nachtergaele-fala-de-desconscerto-planos-futuros-e-a-arte-no-cen%C3%A1rio-atual-1.790500<\/a>&gt;. Acesso em: 06 set. 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> LLANSOL, M. G. <strong>Os cantores de leitura<\/strong>. Lisboa: Ass\u00edrio &amp; Alvim, 2007, p. 13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> FREUD, S. <strong>Carta a Biswanger de 14 de mar\u00e7o de 1920<\/strong>. Dispon\u00edvel em: &lt; http:\/\/www.ipla.com.br\/conteudos\/artigos\/carta-a-binswanger-de-14-de-marco-de-1920\/&gt;. Acesso em: 06 de set. 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> Ao leitor interessado, cabe conferir: &lt; https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=To0j0Ss_GkE&gt;. Acesso em: 06 set. 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a> Entrevista dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/aplausobrasil.com.br\/gente-matheus-nachtergaele-estreia-processo-de-conscerto-do-desejo-em-sp\/&gt;. Acesso em: 06 set. 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a> AFFONSO, D. C. B. <strong>Subvers\u00e3o criativa<\/strong>. Dispon\u00edvel em: &lt; https:\/\/ebp.org.br\/sp\/subversao-criativa\/&gt;. Acesso em: 06 de set. 2020.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 por Janaina de Paula Costa Ver\u00edssimo (Associada ao CLIN-a) Um filho artista e a travessia de um luto. Uma travessia po\u00e9tica, l\u00e1, onde a heran\u00e7a materna se fez viva pela presen\u00e7a dos escritos deixados. 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