{"id":4763,"date":"2020-09-23T17:33:00","date_gmt":"2020-09-23T20:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4763"},"modified":"2020-09-23T17:33:00","modified_gmt":"2020-09-23T20:33:00","slug":"0-povo-e-a-peste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/0-povo-e-a-peste\/","title":{"rendered":"O povo e a peste*"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4375 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-300x76.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-768x194.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-4773\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/015-2.png\" alt=\"\" width=\"327\" height=\"674\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/015-2.png 327w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/015-2-146x300.png 146w\" sizes=\"auto, (max-width: 327px) 100vw, 327px\" \/>Fernanda Otoni Brisset (EBP\/AMP)**<\/h6>\n<blockquote><p>Se n\u00e3o fosse uma raiz de mucun\u00e3 arrancada aqui e al\u00e9m, ou alguma batata-branca que a seca ensina a comer, teriam ficado todos pelo caminho, nessas estradas de barro ruivo, semeado de pedras, por onde trotavam se arrastando e gemendo .<\/p>\n<h6>(Rachel de Queiroz)<\/h6>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Que pa\u00eds \u00e9 este? <\/strong><\/p>\n<p>Um pa\u00eds dividido, onde cada lado tem mais de um lado, a metralhar a diferen\u00e7a que se insinua no campo sexual, religioso e pol\u00edtico; um pa\u00eds que assiste, sem indignar-se, ao genoc\u00eddio de pobres, negros e \u00edndios de todos os g\u00eaneros; um pa\u00eds intolerante, polarizado, brutalizado no dizer e em atos; um pa\u00eds onde a peste se alastra, aparentemente, com o consentimento do seu povo e de suas lideran\u00e7as. <em>\u201cE da\u00ed?\u201d<\/em> Fala o presidente do Brasil:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 s\u00f3 uma gripezinha.\u201d \u201cVida segue normal.\u201d \u201cEsse v\u00edrus \u00e9 igual a uma chuva, vai molhar 70% de voc\u00eas. N\u00e3o tem que se acovardar com esse v\u00edrus na frente.\u201d \u201cEst\u00e1 morrendo gente? T\u00e1.\u201d \u201cE da\u00ed? Quer que eu fa\u00e7a o qu\u00ea? Eu sou Messias, mas n\u00e3o fa\u00e7o milagre.\u201d \u201cA maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira contrai o v\u00edrus e nem percebe.\u201d \u201cEu sabia que um dia ia pegar. Como, infelizmente, eu acho que todos voc\u00eas v\u00e3o pegar um dia.\u201d \u201cTem medo do qu\u00ea? Enfrenta como homem, p\u00f4!\u201d \u201cLamento, lamento todas as mortes. Morre gente todo dia de uma s\u00e9rie de causas, n\u00e9? \u00c9 a vida, \u00e9 a vida.\u201d (Jair Bolsonaro)<\/p>\n<p>O discurso da banaliza\u00e7\u00e3o da morte, da valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho, da servid\u00e3o, do viril e da meritocracia, encontra resson\u00e2ncia no corpo sens\u00edvel do povo brasileiro. Raiz exposta!<\/p>\n<p>\u201cQuase nove milh\u00f5es perderam emprego. Esse efeito colateral \u00e9 mais grave que o pr\u00f3prio v\u00edrus.\u201d, fala Bolsonaro em sua luta para salvar o mercado da peste&#8230; j\u00e1 as vidas doentes, improdutivas&#8230; \u00e9 lament\u00e1vel. Ministros se demitem. A pauta neoliberal comanda a dan\u00e7a das cadeiras. O placar marca cem mil mortos, e o Jair comemora o t\u00edtulo do Palmeiras. Em seguida, a Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o do Governo comemora os \u201cquase tr\u00eas milh\u00f5es de vidas salvas ou em recupera\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cAfinal, pra que chorar os mortos?\u201d, fala sorrindo a atriz, ex-secret\u00e1ria da Cultura. E viva o futebol. S\u00f3 triunfo!<\/p>\n<p>Brasil \u2013 2\u00ba lugar mundial em n\u00famero de mortos e contamina\u00e7\u00f5es pelo coronav\u00edrus. Sem ministro da Sa\u00fade, um general ocupa a pasta e substitui centenas de t\u00e9cnicos da sa\u00fade por militares. O presidente \u00e9 o garoto-propaganda da cloroquina. Ao sabor dos ventos, as birutas sopram um punhado de medidas e informa\u00e7\u00f5es incompat\u00edveis. Os recursos destinados ao combate \u00e0 pandemia s\u00e3o desviados pela rede da corrup\u00e7\u00e3o. A pilha de mortos n\u00e3o para de crescer; a popularidade do governo tamb\u00e9m (subiu a 52%). Nas redes sociais, viraliza: \u201cNunca na hist\u00f3ria de um pa\u00eds, houve um grande amor por um presidente como est\u00e1 acontecendo com nosso presidente Bolsonaro.\u201d Esse \u201cgrande amor\u201d promete ser eterno enquanto durar o usufruto da \u201cbolsa corona\u201d nessa terra castigada com quase 4 milh\u00f5es de infectados pelo v\u00edrus, mais de cento e vinte mil mortos, uma m\u00e9dia de mil por dia durante os \u00faltimos tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>Gozando dos louros que n\u00e3o plantou, Bolsonaro considera a possibilidade de decretar vida longa ao aux\u00edlio emergencial. H\u00e1 chances de reelei\u00e7\u00e3o. Ele acena ao Congresso com uma nova alian\u00e7a. O Centr\u00e3o se regozija; a partilha do bolo segue inc\u00f3lume, enquanto 56 pedidos de <em>impeachment<\/em> se acumulam. E assim, para muitos, a chegada da peste \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o, gra\u00e7as ao Messias e seu rebanho. \u201cE da\u00ed?\u201d<\/p>\n<p><strong>\u201cCada povo tem o governo que merece?\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Sem conseguir se organizar como oposi\u00e7\u00e3o, uma parte da esquerda, ressentida, segue esperneando, brigando entre si e com o povo brasileiro, sem saber fazer com o furo que lhe concerne, entretida que est\u00e1 ainda em dividir o mundo entre n\u00f3s e eles. H\u00e1 tamb\u00e9m os que classificam o brasileiro como apol\u00edtico, agarrado a um gozo mort\u00edfero, alienado quanto a sua mis\u00e9ria e que segue feliz rumo \u00e0 sua ru\u00edna. Alguns teorizam sobre a necessidade do povo em fazer um pai existir, face a sua vacuidade, nomeando um <em>Capit\u00e3o dos pobres<\/em> para adorar e seguir, absorvendo-o como uma d\u00e1diva dos c\u00e9us que, no deserto do real, faz o milagre da precipita\u00e7\u00e3o do aux\u00edlio emergencial de seiscentos reais. Muitas elucubra\u00e7\u00f5es rondam esse povo.<\/p>\n<p>Sigo em outra dire\u00e7\u00e3o. Minha pr\u00e1tica anal\u00edtica na rede p\u00fablica acontece junto a pessoas sem renda, sem documentos, sem trabalho, sem fam\u00edlia, sem teto, sem lei, sem raz\u00e3o, sem muita coisa. Quando encontram um analista, elas t\u00eam o que dizer. Elas pensam, elas falam, elas sabem fazer com os buracos do real num mundo onde o Outro n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed. Diria que portam sem saber, um saber que n\u00e3o \u00e9 suposto. Um saber a for\u00e7ar suas escolhas, de forma irrecus\u00e1vel. Um saber desarticulado do Outro e referido ao Um do gozo. Um saber que n\u00e3o se conforma e deforma a informa\u00e7\u00e3o. Um saber que se sabe sozinho, irredut\u00edvel ao simb\u00f3lico. Um saber que ressona no corpo e o conduz. Seguir esse saber tem sido uma b\u00fassola. A solu\u00e7\u00e3o para o impasse da exist\u00eancia de cada um, em situa\u00e7\u00f5es sociologicamente das mais miser\u00e1veis e mais diversas, adv\u00e9m das amarra\u00e7\u00f5es que um <em>corpo falante <\/em>faz dos seus encontros na cena do seu mundo, com as palavras e as coisas a seu dispor, segundo a l\u00f3gica do seu saber fazer. A emerg\u00eancia do la\u00e7o social n\u00e3o se faz sem o saber que esse povo carrega como heran\u00e7a.<\/p>\n<p>Trata-se de gente como a gente, demasiadamente humana, simplesmente <em>parl\u00eatre<\/em>. Se pode parecer que se deixam levar como \u201cgado humano rumo ao matadouro\u201d, o que suspeito \u00e9 que esse parecer oculta uma estrat\u00e9gia do viver.<\/p>\n<p><strong>Um pa\u00eds compulsivamente desigual, como reza a tradi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da desigualdade no Brasil, escrita por Ferreira de Souza, confirma duas situa\u00e7\u00f5es: a concentra\u00e7\u00e3o de renda entre os ricos brasileiros \u201capresenta forte car\u00e1ter inercial\u201d<sup>1<\/sup> e, apesar das conquistas da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, uma toler\u00e2ncia inquebrant\u00e1vel mant\u00e9m os n\u00edveis de desigualdade em serena estabilidade. Os intervalos democr\u00e1ticos servem mais \u201cpara conter o aumento da nossa desigualdade do que para reduzi-la\u201d<sup>2<\/sup>, assim como a alian\u00e7a dos interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos, orquestrada por muitos poucos, \u201c\u00e9 fiadora da persist\u00eancia da concentra\u00e7\u00e3o no topo\u201d<sup>3<\/sup>. Desde os estudos de Thomas Piketty, \u00e9 consenso que a desigualdade despenca das alturas quando os cavaleiros do apocalipse entram em cena. Entretanto, no Brasil, eles parecem \u201ccavalgar na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria e elevar subitamente a desigualdade\u201d<sup>4<\/sup>.<\/p>\n<p>No Brasil recente, uma inibi\u00e7\u00e3o aturdida pesou sob a m\u00e3o da esquerda quando esta detinha a caneta da agenda distributiva, impedindo-a de estend\u00ea-la at\u00e9 o bolo e abocanhar o seu peda\u00e7o. Optaram por um \u201cgoverno de concilia\u00e7\u00e3o\u201d: os pobres ficariam menos pobres e os ricos mais ricos.<sup>5<\/sup> Uma pol\u00edtica prudente demais, acanhada demais, envergonhada de sua fome, constrangida por desejar ainda mais. Tudo como dantes no jardim de Abrantes \u2013 vence a compuls\u00e3o \u00e0 submiss\u00e3o, como reza a tradi\u00e7\u00e3o, tal como J.-A. Miller a exp\u00f5e ao ler a tese de Freud:<\/p>\n<p>\u201cSua tese \u00e9 que um pensamento imposto, um pensamento que somos obrigados a ter, um pensamento do qual n\u00e3o podemos nos desfazer, um pensamento que tem a modalidade do necess\u00e1rio, a do n\u00e3o cessa de, deve ter sido reprimido, deve ter passado pela repress\u00e3o, quer dizer, deve ter sido introduzido \u2018dentro do inconsciente\u2019 e que somente com essa condi\u00e7\u00e3o pode uma tradi\u00e7\u00e3o surgir, retornar de seu status de reprimida e, ent\u00e3o, \u2018constranger as massas em seu feiti\u00e7o\u2019. (Esta \u00e9 uma tese cl\u00ednica que concerne a cada um, um por um, uma tese sobre o Zwang subjetivo, mas que de maneira impactante se estende ao que chega a ser massa, povo.) \u2018\u00c9 preciso que tenha (havido uma) perman\u00eancia dentro do inconsciente\u2019: eis aqui a l\u00f3gica de Freud.\u201d<sup>6<\/sup><\/p>\n<p>A fome \u00e9 uma coisa assim que guarda perman\u00eancia dentro do inconsciente. Um real imposs\u00edvel de suportar da tradi\u00e7\u00e3o do Brasil. Quando surge no pensamento, tem a modalidade do necess\u00e1rio. No l\u00e9xico da maioria das fam\u00edlias brasileiras, a fome \u00e9 um dos nomes do trauma. Apenas em 2014 o pa\u00eds saiu do mapa da fome quando o Programa Fome Zero nomeiou esse furo e alavancou um <em>fazer com<\/em> junto a outras pol\u00edticas sociais. Se o <em>trou<\/em>matismo \u00e9 o guardi\u00e3o de um real do qual n\u00e3o se pode desfazer, nele est\u00e1 a fonte do for\u00e7amento de um saber fazer.<\/p>\n<p><strong>As ra\u00edzes do trauma<\/strong><\/p>\n<p>Rachel de Queiroz, em seu primeiro romance, <em>O Quinze<\/em>, que se refere \u00e0 grande seca de 1915, vivida em sua inf\u00e2ncia, relata a saga de uma fam\u00edlia que, para fugir da seca, partiu em retirada, a p\u00e9, de Quixad\u00e1 a Fortaleza, com a meninada a tiracolo. Arrastavam suas vidas secas, <em>lalangueando<\/em> nessa terra de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u201cO intestino vazio se enroscava como uma cobra faminta, e em roncos surdos resfolegava furioso: rum, rum, rum&#8230; (&#8230;) Vagueava \u00e0 toa, enganando a fome e enganando a lembran\u00e7a que lhe vinha constante e impertinente, da meninada chorando e gemendo. \u2018T\u00f4 tum fome! D\u00e1 tum\u00ea!\u2019 Chico Bento estendeu seu olhar faminto para a lata onde o leite subia, branco e fofo como um capucho&#8230; E a m\u00e3o servil, acostumada \u00e0 sujei\u00e7\u00e3o do trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido&#8230; mas a l\u00edngua ainda orgulhosa endureceu na boca e n\u00e3o articulou a palavra humilhante. A vergonha da atitude nova o cobriu todo; o gesto esbo\u00e7ado se retraiu, passadas nervosas o afastaram. Sentiu a cara ardendo e um engasgo angustioso na garganta. Mas dentro da sua turba\u00e7\u00e3o lhe zunia ainda os ouvidos: \u2018M\u00e3e, d\u00e1 tum\u00ea!\u2019&#8230; E o homenzinho ficou espichando os peitos secos de sua vaca, sem ter a menor ideia daquela mis\u00e9ria que passara t\u00e3o perto, e fugira, quase correndo.&#8221;<sup>7<\/sup><\/p>\n<p>O esfor\u00e7o do enganar a fome, a inibi\u00e7\u00e3o do gesto, o recuo, a vergonha na cara ardendo, o engasgo e o sil\u00eancio. O que guarda seu ato? Um desejo na forma de defesa, diz Lacan<sup>8<\/sup>. Se a m\u00e3o de Chico Bento estendeu-se maquinalmente num pedido, a l\u00edngua guardou-se inibida. Algo lhe constrange, recua recoberta de vergonha, rende-se ao vazio da fome em si. Na inibi\u00e7\u00e3o um desejo se oculta em sua turba\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 a verdade do que esse desejo foi em sua hist\u00f3ria que o sujeito grita atrav\u00e9s do seu sintoma\u201d<sup>9<\/sup>, como uma compuls\u00e3o silenciosa se contorce na ang\u00fastia de um engasgo. Resist\u00eancia!<\/p>\n<p>Na cultura brasileira, faz parte da tradi\u00e7\u00e3o e dos bons costumes uma certa prud\u00eancia e reserva diante da comida. Por exemplo, evita-se esvaziar o prato completamente. Faz bem deixar um resto de comida. Jamais sair com fome de casa, antes \u00e9 recomend\u00e1vel <em>forrar o est\u00f4mago<\/em>. Mostrar-se guloso \u00e9 obsceno. Comer sempre devagar e sem pressa. Recomenda\u00e7\u00f5es para n\u00e3o passar vergonha. Tal vergonha recobre e comemora um saber traumatizado que se guarda encarnado. Trauma da l\u00edngua! Isso fala, transmite e se estende impactante para al\u00e9m de Chico Bento e que se det\u00e9m, em muitos entre n\u00f3s, analistas e analisantes, como um zunido que ressoa na pele do povo brasileiro.<\/p>\n<p>Sigo a pluma\u2026<\/p>\n<p><strong>Quem \u00e9 esse povo brasileiro? Ele tem fome de qu\u00ea? <\/strong><\/p>\n<p>Pobres, negros e \u00edndios, de todos os g\u00eaneros, gente que tem fome. \u201cVoc\u00ea tem fome de qu\u00ea?\u201d, pergunta os Tit\u00e3s em sua can\u00e7\u00e3o <em>Comida<\/em>. A falta de leitos, de respiradouros, a peste, a fome, a seca, a guerra e a morte n\u00e3o s\u00e3o um assombro que chega com a pandemia. Est\u00e1 presente no estado de apocalipse em que muitos nasceram. Uma heran\u00e7a com a qual tem que se virar. \u00c9 \u201ca\u00ed que conv\u00e9m lembrar\u201d, diz Lacan, \u201co <em>inter urinas et faeces nascimur<\/em> de santo Agostinho. O importante n\u00e3o \u00e9 tanto nascermos entre a urina e as fezes, pelo menos para n\u00f3s analistas, mas sim que \u00e9 entre a urina e as fezes que fazemos amor. Fazemos xixi antes e coc\u00f4 depois, ou vice e versa.\u201d<sup>10<\/sup> N\u00e3o \u00e9 sem poesia a fome do viver. Gemer, calar, enganar a fome n\u00e3o \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 um vazio soante que s\u00f3 se sabe sozinho. Os que atravessaram o rubic\u00e3o guardam a morte como uma sa\u00edda. A vida que segue, s\u00f3 se segue de trope\u00e7o em trope\u00e7o, pelas veredas desse insabido. Isso \u00e9 o que se sabe, consigo.<\/p>\n<p>Para Eliane Brum, escritora e jornalista brasileira:<\/p>\n<p>\u201cO que chamamos de povo brasileiro \u00e9 composto, em sua maioria, por pessoas que s\u00f3 vivem porque teimam. (&#8230;) popula\u00e7\u00e3o de corpos escravizados e depois brutalmente explorados. O que se transmite de pai e m\u00e3e para filhos e filhas \u00e9 que a sobreviv\u00eancia n\u00e3o \u00e9 garantida, ela \u00e9 arrancada. A morte \u00e9 normalizada. A hist\u00f3ria das fam\u00edlias mais pobres \u00e9 uma hist\u00f3ria em que os filhos mortos s\u00e3o contados junto com os vivos. As mulheres sabem que parte de sua prole pode morrer pelas condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias da vida (&#8230;) tamb\u00e9m sabem que morrer por viol\u00eancia \u00e9 uma probabilidade, especialmente se seu filho for negro. (&#8230;) H\u00e1 periferias do Brasil em que voc\u00ea pode bater aleatoriamente em uma fileira de portas e todos ter\u00e3o uma morte ou mais para contar (&#8230;). A trag\u00e9dia cr\u00f4nica do Brasil \u00e9 ter um povo (&#8230;) colocado na condi\u00e7\u00e3o de mat\u00e1vel e morr\u00edvel desde a forma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds (&#8230;) que vem resistindo h\u00e1 s\u00e9culos contra todas as formas de exterm\u00ednio. (&#8230;) Essa \u00e9 uma das faces mais horrendas da desigualdade, mas o horror dessa face nunca a impediu de ser aceita como normal. Nesse sentido, a covid-19 \u00e9 mais uma forma de morte.\u201d<sup>11<\/sup><\/p>\n<p>Para quem s\u00f3 vive porque teima, a pol\u00edtica que interessa \u00e9 a pol\u00edtica do <em>sinthoma<\/em>, a economia que conta \u00e9 a economia do gozo, seja onde for. N\u00f3s, analistas, temos algo em comum com essa gente, e alguns entre n\u00f3s se oferta para uma conversa entre dois parceiros. A leitura do sintoma desse pa\u00eds da peste s\u00f3 pode advir do saber que sua gente transmite, um por um. Um saber fazer com o <em>trou<\/em>ma que o constitui pela greta de um tronco de equ\u00edvocos.<\/p>\n<p>Um corpo falante se vira com as palavras e as coisas que chovem em sua horta ou nela se secam. \u00c9 a\u00ed que o trabalho e seus trambiques, as religi\u00f5es de todos os santos e as parcerias amorosas das mais diversas participam da originalidade do cen\u00e1rio onde cada um se serve para montagem de sua singularidade <em>sinthom\u00e1tica<\/em>. Na corda bamba e em prociss\u00e3o, segue em crescimento uma popula\u00e7\u00e3o de trabalhadores cada vez mais evang\u00e9lica, onde a fala do presidente ressoa como um salmo conhecido. A maioria do <em>povo brasileiro<\/em> tem se arranjado na vida desse jeito. O elemento novo nesse contexto foi ter 600 reais por m\u00eas. Integrar esse aux\u00edlio ao seu conjunto ficcional, longe de dar mostras de sua ignor\u00e2ncia, diz mais de um saber fazer com os objetos e discursos que alcan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Um vazio comum! <\/strong><\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds cujas estacas significantes separam as comunidades demarcando os que est\u00e3o no topo e os de periferia. No centro, um grande vazio. A experi\u00eancia de um vazio \u00e9 o que todos temos em comum. Se comungamos do princ\u00edpio que a exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 o lugar da pol\u00edtica em cada um, o lugar comum \u00e9 esse vazio donde cada um toma a palavra e realiza o desejo de express\u00e3o e de disc\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Se esse lugar anda desabitado, como dizem, talvez seja porque a l\u00edngua ainda se contrai e endurece e a m\u00e3o recua e n\u00e3o toma. Faz parte da reza da tradi\u00e7\u00e3o! Contudo, reduzir o povo \u00e0 met\u00e1fora do <em>gado<\/em> s\u00f3 reverbera a arcaica compuls\u00e3o dos donos da lavoura a separar n\u00f3s e eles, cultos e ignorantes, brancos e negros, ricos e pobres, civilizados e \u00edndios, patr\u00f5es e empregados, vivos e mortos, casa grande e senzala. A cren\u00e7a nessa divis\u00e3o tamb\u00e9m faz parte da tradi\u00e7\u00e3o. Na leitura da dial\u00e9tica hegeliana do senhor e do escravo Lacan nos orienta a procurar o saber do lado daquele que sabe fazer com um vazio comum em torno do qual escoa um gozo desigual.<\/p>\n<p>Freud n\u00e3o guardava ilus\u00f5es quanto a uma pol\u00edtica distributiva igualit\u00e1ria. A desigualdade \u00e9 inata e nos constitui. O que n\u00e3o quer dizer que a transforma\u00e7\u00e3o cultural dos membros da comunidade n\u00e3o possa advir<sup>12<\/sup>, provocando a imiscui\u00e7\u00e3o de significantes novos na fic\u00e7\u00e3o do existir a fim de volatizar ou pelo menos deslocar os significantes mestres da heran\u00e7a arcaica. O Programa Fome Zero \u00e9 exemplo de uma jaculat\u00f3ria que surge soprada da goela seca dos <em>troumains<\/em><sup>13<\/sup>, com consequ\u00eancias de vida no campo social e nas pol\u00edticas p\u00fablicas, <em>en corps et encore..<\/em>.<\/p>\n<p>A amplia\u00e7\u00e3o das ofertas para conex\u00f5es culturais e societ\u00e1rias s\u00e3o bem-vindas como material para o saber fazer do <em>parl\u00eatre <\/em>na parti\u00e7\u00e3o do gozo como tal. Ler o sintoma de uma \u00e9poca requer seguir o ressoar do saber que segue guardado em cada corpo falante de uma comunidade. Tomar as palavras e as coisas, a partir da fome do desejo, junto a mais alguns outros, faz existir um lugar e o la\u00e7o para alojar o vazio comum a cada um, espa\u00e7o de trocas irregulares e liga\u00e7\u00f5es singulares em condi\u00e7\u00f5es de provocar uma \u201crebeli\u00e3o contra a identifica\u00e7\u00e3o conformista\u201d<sup>14<\/sup>.<\/p>\n<p>Freud em resposta a Einstein, afirma que investir na cultura \u00e9 trabalhar contra a guerra. A cultura instaura na sociedade \u201cuma dial\u00e9tica, que deixa aberta uma hi\u00e2ncia igual \u00e0quela no interior da qual situamos a fun\u00e7\u00e3o do desejo\u201d<sup>15<\/sup>. O movimento que adv\u00e9m desse vazio comum pode provocar, tal como insiste Lacan, \u00a0\u201co remanejamento dos conformismos anteriormente instaurados, ou at\u00e9 sua explos\u00e3o\u201d<sup>16<\/sup>. Um gr\u00e3o que a psican\u00e1lise entrega \u00e0 pol\u00edtica, desde Freud, pois a psican\u00e1lise do individual \u00e9 ela mesma uma aplica\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise social.<\/p>\n<p><strong>A rebeli\u00e3o dos <em>troumains<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Uma conclus\u00e3o me toma de assalto: a revolu\u00e7\u00e3o que interessa ao <em>parl\u00eatre<\/em> n\u00e3o ser\u00e1 feita pela direita que tem compromisso hist\u00f3rico com a manuten\u00e7\u00e3o do <em>status quo<\/em> distributivo. Tampouco vir\u00e1 do proletariado conduzido pelos intelectuais de esquerda intoxicados no curto-circuito de discursos e ideologias que os afastam dos corpos falantes e das suas solu\u00e7\u00f5es <em>sinthom\u00e1ticas<\/em>. As ideias n\u00e3o entram em combate, j\u00e1 era tempo de sabermos, s\u00f3 os corpos. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 representante do povo. A cadeira da representa\u00e7\u00e3o seguir\u00e1 vazia, \u00e9 l\u00f3gico. O povo n\u00e3o existe e seu representante <em>idem<\/em>. E a suposta cren\u00e7a no pai evaporou-se faz tempo: muitos j\u00e1 caem no mundo esclarecidos quanto a sua orfandade. Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conduzir o povo como uma boiada rumo ao matadouro, tampouco ser\u00e1 conduzido ao estado do bem-estar social.<\/p>\n<p>O povo \u00e9 um conjunto de <em>troumains<\/em> que teimam em viver! Sua arma \u00e9 a cultura, a arte, a palavra. Ampliar o conv\u00edvio entre os desiguais a partir do seu vazio comum faz parte da aposta anal\u00edtica, pois \u00e9 no quintal de casa ou no terreiro do vizinho que a l\u00edngua se solta e toma a palavra junto a uma assembleia em aut\u00eantica pol\u00edtica. \u201c\u00c9 o viver contando com a boca seca e os meios \u00e0 m\u00e3o para saci\u00e1-la. \u00c9 a inven\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida.\u201d<sup>17<\/sup><\/p>\n<p>O saber dizer que brota desse lugar alavanca a insurrei\u00e7\u00e3o do desejo que n\u00e3o se conforma e se exp\u00f5e em ato na comunidade \u00e0 qual se engendra: \u201cver\u00e1s que um filho teu n\u00e3o foge \u00e0 luta\u201d. Pol\u00edtica original que, engajada ao <em>sinthoma<\/em>, se faz todos os dias em cada greta de barro ruivo desse pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como transmitir aos governantes a pol\u00edtica desse saber fazer que, h\u00e1 s\u00e9culos, com seu gingado num corpo de poucas palavras, extrai alguma alegria do infinito de sua falta a ser? \u00a0Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que nos cabe perseguir. Cabe ao analista, onde quer que ele se encontre neste mundo, tomar a pol\u00edtica em sua dimens\u00e3o de emerg\u00eancia e com seu ato perturbar a defesa, na sess\u00e3o e na cidade, seguindo o saber de sua experi\u00eancia: a liberdade de express\u00e3o \u00e9 a ferramenta do corpo falante para extrair a muni\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria da sua <em>ex-sist\u00eancia<\/em> e seguir armado com seu desejo para o bom combate, junto a mais alguns outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 peste&#8230;e da\u00ed?<\/p>\n<p>\u201cTodos esses que a\u00ed est\u00e3o<\/p>\n<p>atravancando meu caminho,<\/p>\n<p>eles passar\u00e3o,<\/p>\n<p>eu passarinho.\u201d<sup>18<\/sup><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>* texto publicado na revista on-line La Liberdad de Pluma.<br \/>\nhttp:\/\/lalibertaddepluma.org\/fernanda-otoni-brisset-o-povo-e-a-peste\/?fbclid=IwAR280LttEJ9LAXjdRuZpGEguaXhekxy78qCvyc3ao-msceIL1wYLUZMfgOQ#.X2GMGLHE6ss.facebook<\/h6>\n<h6><strong>** Fernanda Otoni<\/strong> <strong>Brisset <\/strong>\u00e9 psicanalista, reside em Belo Horizonte.<\/h6>\n<h6>Membro da EBP-AMP. Editora da revista <em>Correio<\/em> da EBP. Supervisora Cl\u00ednica da Rede Municipal de Sa\u00fade Mental de Belo Horizonte. Coordenadora Cl\u00ednica do PAI-PJ \u2013 Programa de Aten\u00e7\u00e3o Integral ao Paciente Judici\u00e1rio do Tribunal de Justi\u00e7a de Minas Gerais.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>Notas:<\/h6>\n<h6><sup>1<\/sup> Ferreira de Souza, P.H.G., <em>Uma hist\u00f3ria de desigualdade<\/em>: a concentra\u00e7\u00e3o de renda entre ricos no Brasil 1926-2013, Hucitec, Anpocs, S\u00e3o Paulo, 2018, p. 377.<\/h6>\n<h6><sup>2<\/sup> <em>Idem<\/em>, p. 379.<\/h6>\n<h6><sup>3<\/sup> <em>Idem<\/em>, p. 379.<\/h6>\n<h6><sup>4<\/sup> <em>Idem<\/em>, p. 16.<\/h6>\n<h6><sup>5<\/sup> Brum, E., \u201cO gado humano\u201d que Bolsonaro leva ao matadouro, <em>El Pa\u00eds Brasil<\/em>, 20 de agosto de 2020, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-08-19\/o-gado-humano-que-bolsonaro-leva-ao-matadouro.html\">https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-08-19\/o-gado-humano-que-bolsonaro-leva-ao-matadouro.html<\/a><\/h6>\n<h6><sup>6<\/sup> Miller, J.-A., <em>Un esfuerzo de poesia<\/em>, Paid\u00f3s, Buenos Aires, 2016, p. 260.<\/h6>\n<h6><sup>7<\/sup> Queiroz, R. de, <em>O Quinze<\/em>, Siciliano, S\u00e3o Paulo, 1993, p. 48-49.<\/h6>\n<h6><sup>8<\/sup> Lacan, J., <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 10: <em>A ang\u00fastia<\/em>, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 2005, p. 343.<\/h6>\n<h6><sup>9<\/sup> Lacan, J., <em>A inst\u00e2ncia da letra no inconsciente<\/em>, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 1998, p. 522.<\/h6>\n<h6><sup>10<\/sup> Lacan, J., <em>Op. cit<\/em>., 2005, p. 345.<\/h6>\n<h6><sup>11<\/sup> Brum, E., <em>Op. cit<\/em>., 20 de agosto 2020.<\/h6>\n<h6><sup>12 <\/sup>Freud, S., <em>Cultura, sociedade, religi\u00e3o<\/em>: o mal estar na cultura e outros escritos, Aut\u00eantica, Belo Horizonte, 2020, p. 430.<\/h6>\n<h6><sup>13<\/sup> \u201cOs <em>troumains<\/em> isso \u00e9 aparafusado, a sociologia de Lacan se aparafusa neles\u201d. (Os troumains &#8211; les \u00eatres humains) In: Miller, J.-A.. Os trumains, \u00a0<a href=\"https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/articulos.php?sec=el-tema&amp;sub=textos-de-orientacion&amp;file=el-tema\/textos-de-orientacion\/20-03-02_los-trumanos.html\">https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/articulos.php?sec=el-tema&amp;sub=textos-de-orientacion&amp;file=el-tema\/textos-de-orientacion\/20-03-02_los-trumanos.html<\/a><\/h6>\n<h6><sup>14<\/sup> Miller, J.-A., Lacan, professor de desejo, <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana on-line<\/em>, S\u00e3o Paulo, ano 4, n. 12, nov. 2013, <a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_12\/lacan_professor_desejo.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_12\/lacan_professor_desejo.pdf<\/a><\/h6>\n<h6><sup>15<\/sup> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 6: <em>O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 2016, p. 516.<\/h6>\n<h6><sup>16<\/sup> <em>Idem<\/em>, p. 518.<\/h6>\n<h6><sup>17<\/sup> Soprou-me, hoje, minha amiga Ana L\u00facia Lutterbach, numa conversa de fim de tarde.<\/h6>\n<h6><sup>18<\/sup> Quintana, M., Poeminho do contra. In: <em>Poesia completa<\/em>, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 2006, p. 257.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Fernanda Otoni Brisset (EBP\/AMP)** Se n\u00e3o fosse uma raiz de mucun\u00e3 arrancada aqui e al\u00e9m, ou alguma batata-branca que a seca ensina a comer, teriam ficado todos pelo caminho, nessas estradas de barro ruivo, semeado de pedras, por onde trotavam se arrastando e gemendo . (Rachel de Queiroz) Que pa\u00eds \u00e9 este? 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