{"id":4701,"date":"2020-08-31T20:46:57","date_gmt":"2020-08-31T23:46:57","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4701"},"modified":"2020-08-31T20:46:57","modified_gmt":"2020-08-31T23:46:57","slug":"a-subversao-na-feminizacao-do-gozo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-subversao-na-feminizacao-do-gozo\/","title":{"rendered":"A subvers\u00e3o na feminiza\u00e7\u00e3o do gozo (Encontrar-se com Outra leitura e satisfa\u00e7\u00e3o)"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4375 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-300x76.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-768x194.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<figure id=\"attachment_4702\" aria-describedby=\"caption-attachment-4702\" style=\"width: 161px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4702\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/boletim_fora_da_serie_002_002_003-1.png\" alt=\"Imagem: Instagram @overist_curation\" width=\"161\" height=\"203\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4702\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @overist_curation<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Eduardo Benedicto (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Ao aceitar o convite para contribuir, colocar meu gr\u00e3o de sal, no trabalho empreendido para as pr\u00f3ximas Jornadas da EBP-SP, fora da s\u00e9rie &#8211; \u201cSubvers\u00f5es\u201d, diante do ato da EBP-SP de fazer esta jornada, ela mesma, uma subvers\u00e3o diante do momento de isolamento dos corpos, sem a presen\u00e7a deles, mas com muito trabalho produzido por cada um em seu canto, me perguntei, de imediato, qual o lugar da subvers\u00e3o nos \u00faltimos desenvolvimentos do ensino de Lacan e como pode o retorno a este campo de estudo, bastante caracter\u00edstico do primeiro momento do ensino lacaniano com o cl\u00e1ssico \u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> estar em conson\u00e2ncia com a no\u00e7\u00e3o de cl\u00ednica do real? Por consequ\u00eancia, poder\u00edamos nos servir deste conceito no \u00faltimo ensino de Lacan, onde h\u00e1 uma extens\u00e3o e radicaliza\u00e7\u00e3o do conceito de gozo que temos experimentado e discutido no \u00e2mbito da forma\u00e7\u00e3o do psicanalista na Escola e que, principalmente, tem nos servido para operar com os sujeitos que nos procuram em nossa pr\u00e1tica cl\u00ednica cotidiana, notadamente nestes tempos que correm?<\/p>\n<p>N\u00e3o seria a subvers\u00e3o um conceito eminentemente simb\u00f3lico e, portanto, n\u00e3o mais a altura dos desenvolvimentos do real do gozo do corpo falante, caracter\u00edstica da segunda cl\u00ednica lacaniana? Nesta perspectiva, os conceitos cl\u00e1ssicos de sujeito do inconsciente, a puls\u00e3o, o pr\u00f3prio gozo, o ato, a interpreta\u00e7\u00e3o, o desejo do analista, que est\u00e3o presentes nas vers\u00f5es 1 e 2 da orienta\u00e7\u00e3o epist\u00eamica para os trabalhos desta Jornada, n\u00e3o estariam tamb\u00e9m referidos a uma orienta\u00e7\u00e3o \u2018simb\u00f3lica\u2019 da teoria e da cl\u00ednica psicanal\u00edtica lacaniana?<\/p>\n<p>Pois bem, poder\u00edamos ficar fixados neste sentido se fiz\u00e9ssemos uma leitura bin\u00e1ria, caracter\u00edstica da interpreta\u00e7\u00e3o significante, pois a palavra pede sempre algum complemento, algo do saber, da significa\u00e7\u00e3o, que venha preencher o sem sentido em si do significante, quando este n\u00e3o est\u00e1 mais encadeado, associado. \u00c9 nesta perspectiva que poder\u00edamos dividir duas ou mais cl\u00ednicas\/ensinos lacanianos, atrav\u00e9s de pontos de corte que delimitam conceitos te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos. Em outra perspectiva, por\u00e9m, dentro de uma outra leitura, que denominamos de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, o binarismo j\u00e1 n\u00e3o se sustenta mais como \u00fanica refer\u00eancia, sendo necess\u00e1rio nos deixar tocar e nos servirmos de uma outra leitura do sintoma na cl\u00ednica psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>Ao partimos da tese da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe apresentada no semin\u00e1rio XX<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> de Lacan, poder\u00edamos pensar o feminino, o suplementar, como uma outra chave de leitura e interpreta\u00e7\u00e3o para o praticante da psican\u00e1lise, ao mesmo tempo em que \u00e9 uma maneira espec\u00edfica do ser falante gozar, obter uma outra satisfa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Dominique Laurent, no texto publicado no boletim do XXIII Encontro da EBP<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> vai nos dizer que o mundo feminino \u00e9 como uma anamorfose em um quadro. Enquanto a representa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica obedece a uma ordem de satisfa\u00e7\u00e3o, uma Outra satisfa\u00e7\u00e3o a atravessa, provocando uma inquietante estranheza diante de um Outro gozo sem sentido\/ (sur) real.<\/p>\n<p>O que temos a falar deste gozo? Um gozo Outro que no semin\u00e1rio XX \u00e9 denominado de feminino, mas que est\u00e1 atravessado em todos os seres falantes, em seus corpos, seus poros. Um gozo feminino, fendido, como diz Dominique, que abre espa\u00e7o em buracos extremos no corpo, onde Lacan j\u00e1 localizou o pequeno objeto \u201ca\u201d que a puls\u00e3o\/gozo circunda. Este corpo continente, que instrumentaliza os objetos mais de gozar, em refer\u00eancia a l\u00f3gica f\u00e1lica e mais al\u00e9m dela, \u00e9 tamb\u00e9m a sede das bordas dos limites litorais do corpo, ele mesmo um furo, um vazio, onde o gozo feminino se aloja paradoxalmente na conting\u00eancia, num espa\u00e7o de lapso, experimentado no encontro com esta estrutura infinita, que caracteriza as experi\u00eancias femininas, desembocando em exist\u00eancias mescladas de \u00eaxtase e ru\u00edna.<\/p>\n<p>Tratar-se-ia, no percurso de uma an\u00e1lise de um ser falante, de abrir a via de um consentimento em rela\u00e7\u00e3o a este gozo, para saber fazer algo a\u00ed, posto que este seria o gozo propriamente dito, sendo o f\u00e1lico apenas um dialeto ou o que faz barreira ao encontro contingente com este feminino: <em>\u201cO sintoma \u00e9 irrup\u00e7\u00e3o dessa anomalia na qual consiste o gozo f\u00e1lico, na medida em que a\u00ed se desdobra, se expande essa falta fundamental que qualifico de n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d<\/em> <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> dir\u00e1 Lacan em A Terceira.<\/p>\n<p>Miller<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> vai dizer que aquilo que Lacan chama de rela\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 o que constitui a refer\u00eancia freudiana da libido e das puls\u00f5es, com seus regimes de satisfa\u00e7\u00e3o e substitui\u00e7\u00f5es de gozo: uma teoria edipiana das puls\u00f5es. J\u00e1 a teoria lacaniana do gozo vai responder ao regime do <em>n\u00e3otodo<\/em>, onde n\u00e3o h\u00e1 o primado do falo e nem o Todo das puls\u00f5es. Da\u00ed que ter\u00edamos, com Lacan, que <em>desedipianizar<\/em> o gozo, pois este n\u00e3o conv\u00e9m \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual e por isso faz sinthoma.<\/p>\n<p>Da significa\u00e7\u00e3o \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o, abrindo para uma outra dimens\u00e3o do dizer sobre o lugar onde isso goza, pois o significante \u00e9 tamb\u00e9m causa de gozo, lal\u00edngua. Miller falando ainda sobre o gozo no \u00faltimo ensino de Lacan, pari passo com a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, sustenta a passagem necess\u00e1ria do regime da primazia da fantasia em an\u00e1lise, do gozo da interpreta\u00e7\u00e3o do sujeito pela fantasia, mais al\u00e9m do \u00c9dipo, mas referida a ele, para o regime do sinthoma, onde a rela\u00e7\u00e3o fundamental com o gozo n\u00e3o est\u00e1 mais somente na fantasia. Da\u00ed que o gozo n\u00e3o \u00e9 mais apenas aprisionado pelo objeto \u201ca\u201d, mas alastra-se por toda a extens\u00e3o significante, sendo a sustenta\u00e7\u00e3o do falasser &#8211; sujeito do significante mais o corpo Outro &#8211; justamente a pr\u00f3pria obten\u00e7\u00e3o de gozo: Penso, logo <em>go(z)sou<\/em><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>!<\/p>\n<p>Restaria, ent\u00e3o, ao falasser, ao final de sua an\u00e1lise, encontrar-se com o radical de sua singularidade de gozo, identificar-se ao <em>go(z)sou<\/em>, de forma contingente e n\u00e3o toda, lan\u00e7ando-se ao encontro com o feminino, com o que do gozo \u00e9 feminino.<\/p>\n<p>Conclui Miller: \u201c<em>O passe do sinthoma \u00e9 tamb\u00e9m querer o eterno retorno de sua singularidade no gozo. Tal como o guerreiro aplicado, trata-se de um falasser que n\u00e3o mais seria atormentado pela verdade. Quanto a esse final, deve-se dizer que ele pr\u00f3prio \u00e9 contingente. Pode ser que o final da an\u00e1lise tenha a estrutura do encontro.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup><strong>[7]<\/strong><\/sup><\/a>\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Ent\u00e3o, subverter e identificar-se ao sinthoma\/gozo, mais al\u00e9m do sujeito, num encontro com o feminino, que \u00e9 a satisfa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do falasser, poderia traduzir-se num paradigma para a leitura e interven\u00e7\u00e3o do analista lacaniano, enquanto signo do desejo do analista, nos tempos do real do gozo?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Lacan, J. (1960) \u201c<strong>Subvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo<\/strong>\u201d. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Lacan, J. (1972-73) O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Miller, D: \u201cAs duas margens da feminilidade\u201d Boletim do XXIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, 2020<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Lacan, J., \u00ab A terceira \u00bb (1974), em <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, <\/em>n. 62, S\u00e3o Paulo, Ed. Eolia, dezembro de 2011, p. 31.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. (2011) Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Lacan, J., \u00ab A terceira \u00bb (1974), em <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, <\/em>n. 62, S\u00e3o Paulo, Ed. Eolia, dezembro de 2011, p. 11.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>\u00a0 Miller, J.-A. (2011) Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, p\u00e1g 226<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduardo Benedicto (EBP\/AMP) Ao aceitar o convite para contribuir, colocar meu gr\u00e3o de sal, no trabalho empreendido para as pr\u00f3ximas Jornadas da EBP-SP, fora da s\u00e9rie &#8211; \u201cSubvers\u00f5es\u201d, diante do ato da EBP-SP de fazer esta jornada, ela mesma, uma subvers\u00e3o diante do momento de isolamento dos corpos, sem a presen\u00e7a deles, mas com muito&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4701","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-fora-da-serie","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4701","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4701"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4701\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4701"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4701"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4701"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4701"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}