{"id":4651,"date":"2020-08-31T18:19:30","date_gmt":"2020-08-31T21:19:30","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4651"},"modified":"2020-08-31T18:19:30","modified_gmt":"2020-08-31T21:19:30","slug":"a-subversao-do-um","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-subversao-do-um\/","title":{"rendered":"A Subvers\u00e3o do Um"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4375 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-300x76.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-768x194.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<figure id=\"attachment_4639\" aria-describedby=\"caption-attachment-4639\" style=\"width: 189px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4639\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/boletim_fora_da_serie_002_002_002-1.png\" alt=\"Imagem: Instagram @adrianaschlabendorff\" width=\"189\" height=\"181\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4639\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @adrianaschlabendorff<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Bernardino Horne (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Em um instante, como sempre aconteceu com as grandes subvers\u00f5es, teve lugar esta que desejo comentar, quando Lacan, em 15 de mar\u00e7o de 1972 no seu Semin\u00e1rio 19, proferiu: Trata-se do Um!<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade que essas palavras se proferem em um instante, tal como foi com \u201cEureka!&#8221; ou a ma\u00e7\u00e3 de Newton, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que resultaram de uma longa reflex\u00e3o na qual todos eles estiveram submersos. Lacan inicia, de forma programada e sistem\u00e1tica, a sua pergunta sobre o Real, no semin\u00e1rio A \u00c9tica da Psican\u00e1lise. Deixa expl\u00edcito que inicia um programa que ter\u00e1 como objetivo \u201cum aprofundamento na no\u00e7\u00e3o do real\u201d. O trabalho que aqui se inicia \u2014 estamos falando do ano de 1960 \u2014 tem momentos not\u00e1veis at\u00e9 finalmente alcan\u00e7ar um ponto fixo no Semin\u00e1rio 23, quando estabelece o Sinthoma como a via cl\u00ednica privilegiada na dire\u00e7\u00e3o do tratamento, e afirma: &#8220;O analista \u00e9 o Sinthoma\u201d e \u201cO real \u00e9 sem lei\u201d. Mas, nesse interessante e riqu\u00edssimo caminho, o seu ponto culminante, o verdadeiro instante de corte epistemol\u00f3gico que produz um movimento de 180 graus, a rigor, encontra-se no Semin\u00e1rio 19. \u00c9 nele que se produz o novo: \u201cessa coisa incr\u00edvel que \u00e9 haver o Um\u201d, o que implica que o Outro n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Esse projeto \u00e9tico que abre Lacan n\u00e3o procura o caminho do Ideal, o que seria continuar com a cl\u00e1ssica procura do Bem, em especial na tradi\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica. Aponta ao lado escuro da Lua. \u201c<em>Acheronta movebo<\/em>\u201d. Se interessa por Sade, quem d\u00e1 seu nome \u00e0 pervers\u00e3o \u201csadismo\u201d e que teve uma vida pessoal profundamente masoquista.<\/p>\n<p>Aproximar-se do Real com a inten\u00e7\u00e3o de aprofundar nele, implica, segundo Lacan, alcan\u00e7ar o n\u00facleo do masoquismo er\u00f3geno prim\u00e1rio freudiano<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Partir do Um n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que partir do Outro. A dire\u00e7\u00e3o da cura n\u00e3o mais se orienta no sentido, mas no sem sentido. A leitura e o escrito tomam o lugar da interpreta\u00e7\u00e3o e da escuta do sentido. Mas de onde surge esse Um original? Pergunta-se Lacan.<\/p>\n<p>No final do cap\u00edtulo IX Lacan define esse Um fundador \u2014 j\u00e1 que \u00e9 ele que funda o Campo Uniano \u2014 dizendo que ele toma exist\u00eancia do pr\u00f3prio fato de deixar de ser significante. Lembro a frase de Lacan: \u201c<em>O que s\u00f3 existe ao n\u00e3o ser<\/em>: \u00e9 exatamente disso que se trata, e foi o que eu quis inaugurar hoje no cap\u00edtulo geral do Uniano\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Miller escreve o que resulta da exist\u00eancia do gozo um da seguinte forma:<\/p>\n<p>J &#8211; J Ste.<\/p>\n<p>H\u00e1 gozo sem Significante e h\u00e1 gozo com Significante<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. H\u00e1 um Significante Uniano que deixa de ser significante e existe como gozo, como puro existir, sem significante e, \u00e9 claro, h\u00e1 gozo com significante. Este gozo de simb\u00f3lico no real \u00e9 causado pelos significantes de al\u00edngua, que produzem gozo no corpo. S\u00e3o significantes sozinhos que n\u00e3o chamam o significante 2, apenas como resson\u00e2ncias produzem gozo no encontro com o corpo.<\/p>\n<p>A frase de Lacan tamb\u00e9m quer dizer que h\u00e1 um significante que, para poder existir, desiste de ser significante. Inaugura-se o campo de exist\u00eancia humana, que \u00e9 de gozo. Lacan diz que \u201cH\u00e1 algo do Um em cada Um\u201d. E nos d\u00e1 um conselho, \u201co primeiro passo da experi\u00eancia anal\u00edtica \u00e9 introduzir nela o Um, como analista que se \u00e9\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Da mesma forma em que o fio que escapa da cicatriz do umbigo do sonho traz gozos sobre os quais se construir\u00e1 a cena do sonho, sobre esses fios de gozo que chegam desde o Um se montar\u00e1 tamb\u00e9m toda a estrutura de linguagem que nos faz humanos.<\/p>\n<p>A Grande Subvers\u00e3o de Freud foi criar um dispositivo que parte do discurso do Outro. A Subvers\u00e3o de Lacan foi dizer que o discurso do Outro \u00e9 fundamental, mas n\u00e3o \u00e9 constitutivo. O constitutivo vem do Um.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, Livro 19: \u2026Ou pior<\/em>, Zahar, Rio de Janeiro, 2012, p.131.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Texto anteriormente publicado em <em>Lacan XXI<\/em><em>:<\/em> Revista electr\u00f3nica da FAPOL vol. 5, de maio de 2018, sobre o Semin\u00e1rio da \u00c9tica &#8211; Um aprofundamento na no\u00e7\u00e3o do real.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, Livro 19: \u2026Ou pior<\/em>, Zahar, Rio de Janeiro, 2012, p.131.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Miller, J A. <em>Piezas Sueltas,<\/em> Paid\u00f3s, Buenos Aires, 2013, p.113.<\/h6>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, Livro 19: \u2026Ou pior<\/em>, Zahar, Rio de Janeiro, 2012, p.123.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bernardino Horne (EBP\/AMP) Em um instante, como sempre aconteceu com as grandes subvers\u00f5es, teve lugar esta que desejo comentar, quando Lacan, em 15 de mar\u00e7o de 1972 no seu Semin\u00e1rio 19, proferiu: Trata-se do Um![1] Se \u00e9 verdade que essas palavras se proferem em um instante, tal como foi com \u201cEureka!&#8221; ou a ma\u00e7\u00e3 de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4651","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-fora-da-serie","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4651","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4651"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4651\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4651"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}