{"id":4649,"date":"2020-08-31T18:16:25","date_gmt":"2020-08-31T21:16:25","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4649"},"modified":"2020-08-31T18:16:25","modified_gmt":"2020-08-31T21:16:25","slug":"uma-leitura-de-subversao-do-sujeito-e-dialetica-do-desejo-no-inconsciente-freudiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/uma-leitura-de-subversao-do-sujeito-e-dialetica-do-desejo-no-inconsciente-freudiano\/","title":{"rendered":"Uma leitura de \u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4375 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1.jpg 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-300x76.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/banner_jornada_2020-1-768x194.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<figure id=\"attachment_4638\" aria-describedby=\"caption-attachment-4638\" style=\"width: 162px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4638\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/boletim_fora_da_serie_002_002_001-1.png\" alt=\"Imagem: Instagram @psicologonline24\" width=\"162\" height=\"201\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4638\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @psicologonline24<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Heloisa Prado Telles (EBP\/AMP)<\/h6>\n<blockquote><p><em>\u201cEmpreitada de longo prazo que requer o conhecimento<\/em><\/p>\n<p><em>profundo da ordem que se trata de arruinar, de derrubar\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Qual a subvers\u00e3o anunciada por Lacan neste seu texto de 1960? Certamente a freudiana, a qual tratar\u00e1 de definir nesta comunica\u00e7\u00e3o proferida em um Congresso sobre a <em>Dial\u00e9tica,<\/em> em Royaumont<em>, <\/em>organizado por Jean Wahl, fil\u00f3sofo franc\u00eas notabilizado por seus estudos de Hegel.<\/p>\n<p>A leitura, por\u00e9m, instigou a localizar o que era menos evidente: formula\u00e7\u00f5es de Lacan que anunciassem pontos de virada ou mesmo subvers\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00f3prio ensino. O sujeito como efeito da articula\u00e7\u00e3o significante e o lugar do Outro s\u00e3o teses fortemente aqui afirmadas<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, e est\u00e3o constru\u00eddas de maneira tal que nos permitem ver com clareza um <em>work in progress<\/em> que Lacan imprime em seu escrito. Destacam-se: a l\u00f3gica hegeliana para elucidar o que est\u00e1 em jogo no inconsciente freudiano e ao mesmo tempo os limites desta l\u00f3gica revelados pela experi\u00eancia anal\u00edtica; a tentativa de Lacan de articular o sujeito ao Outro por meio da <em>puls\u00e3o<\/em>, fazendo desta uma cadeia significante; e as formula\u00e7\u00f5es acerca do gozo: mediado pelo complexo de castra\u00e7\u00e3o e com uma significa\u00e7\u00e3o, atribu\u00edda pelo falo, o gozo pode entrar na dial\u00e9tica anal\u00edtica<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>No entanto, uma subvers\u00e3o propriamente lacaniana, tal como J.-A. Miller nos ajuda a pensar, sobretudo com seu curso de 2011, poderia somente ser situada a partir do campo que se abre com as formula\u00e7\u00f5es acerca do inconsciente real, o novo estatuto dado ao resto da puls\u00e3o irredut\u00edvel ao sentido sexual e \u00e0 proposi\u00e7\u00e3o do gozo feminino como regime do gozo como tal.<\/p>\n<p>O in\u00edcio do ensino de Lacan geralmente \u00e9 lembrado pelo fato de ele isolar o significante como causa, o significante dominando tudo o que h\u00e1 de significa\u00e7\u00e3o para o sujeito<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Seria equivocado, no entanto, atribuirmos somente \u00e0 concep\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica do inconsciente o aporte fundamental de Lacan, uma vez que para ele estava em jogo a pr\u00f3pria <em>causalidade do sujeito<\/em>, o sujeito inserido na rela\u00e7\u00e3o de causalidade significante<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>.\u00a0 O car\u00e1ter primordial da rela\u00e7\u00e3o com o Outro, presente em suas formula\u00e7\u00f5es acerca do \u201cest\u00e1dio do espelho\u201d, ser\u00e1 determinante para o modo de entrada de Lacan na pr\u00f3pria psican\u00e1lise, tal como nos indica Miller: \u201cSe Lacan complementa a Freud, se ele o reformula e \u00e9, por excel\u00eancia, quem retorna a Freud, deve-se ao ponto pelo qual entrou na experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Lacan dirige-se ao p\u00fablico deste congresso para demonstrar \u201co que acontece com a quest\u00e3o do sujeito, tal como a psican\u00e1lise propriamente a subverte\u201d; ou seja, \u00e9 a subvers\u00e3o promovida por Freud que Lacan visa recuperar recorrendo, inicialmente, \u00e0s refer\u00eancias hegelianas: \u201cN\u00e3o \u00e9 \u00e0 amplitude de um questionamento social que nos referimos aqui, ou seja, ao reservat\u00f3rio das conclus\u00f5es que tivemos de tirar contra os not\u00f3rios desvios, na Inglaterra e na Am\u00e9rica, da pr\u00e1xis que se autoriza do nome psican\u00e1lise. [&#8230;.] \u00c9 propriamente a subvers\u00e3o que tentaremos definir\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Hegel \u00e9 a ferramenta utilizada por Lacan para tirar a psican\u00e1lise do atoleiro da <em>egopsychology<\/em><a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>: \u201c[&#8230;]o servi\u00e7o que esperamos da fenomenologia de Hegel [&#8230;] \u00e9 o de marcar ali uma solu\u00e7\u00e3o ideal, a de, por assim dizer, um revisionismo permanente, no qual a verdade est\u00e1 em constante reabsor\u00e7\u00e3o naquilo que tem de perturbador, n\u00e3o sendo em si mesma o que falta na realiza\u00e7\u00e3o do saber\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>O <em>Aufhebung <\/em>hegeliano implica um processo e ao mesmo tempo tr\u00eas acep\u00e7\u00f5es: negar, conservar e elevar<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a> \u2013 e foi traduzido por suprassun\u00e7\u00e3o em nossa l\u00edngua. Lacan refere-se ao <em>Aufhebung<\/em>, fundamento do saber hegeliano, como <em>logicizante<\/em>, indicando a raz\u00e3o de ele ser, neste momento, a refer\u00eancia para esclarecer o que interessa: \u201cSe conduz\u00edamos o sujeito a algum lugar, \u00e9 a uma decifra\u00e7\u00e3o que j\u00e1 pressup\u00f5e no inconsciente esta <em>esp\u00e9cie de l\u00f3gica em que se reconhece<\/em>\u201d<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a> \u2013 trata-se de se opor, portanto, a uma naturaliza\u00e7\u00e3o do inconsciente ou \u00e0s tentativas de integr\u00e1-lo a uma teoria do conhecimento, reafirmando-o estruturado como uma linguagem.<\/p>\n<p>Em Hegel, a nega\u00e7\u00e3o \u00e9 o princ\u00edpio vivificante, aquele que estimula, move e anima o pr\u00f3prio sistema. Ela n\u00e3o est\u00e1 fora do ser negado, mas no pr\u00f3prio ser, considerando os limites de sua natureza ou em suas rela\u00e7\u00f5es \u2013 \u201co ser que representamos como negativo n\u00e3o \u00e9 puramente um ser negativo, mas \u00e9 um ser negativo e afirmativo ao mesmo tempo \u2013 \u00e9 um ser concreto\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a>; a nega\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o deve ser tomada como um elemento acidental ou estranho, mas como um elemento necess\u00e1rio e integrante.<\/p>\n<p><em>Aufhebung<\/em> \u00e9 a palavra dial\u00e9tica de Hegel, tal como lembra Jean Hyppolite<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a>, e \u00e9 retomada por Freud a prop\u00f3sito de suas elabora\u00e7\u00f5es acerca da <em>Verneinung. <\/em>Est\u00e1 referida por Lacan a prop\u00f3sito do falo: \u201csigno da lat\u00eancia com que \u00e9 cunhado tudo que \u00e9 signific\u00e1vel, a partir do momento que \u00e9 al\u00e7ado (<em>aufgehoben<\/em>) \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de significante\u201d<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p>A <em>dial\u00e9tica<\/em> \u00e9 afins ao significante uma vez que este comporta a propriedade da nega\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia, permite combinat\u00f3rias, e que se diga algo e ao mesmo tempo o seu contr\u00e1rio \u2013 no entanto, isto \u00e9 aplic\u00e1vel especialmente ao significante enquanto unido a seus efeitos de significa\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[15]<\/a>; a dial\u00e9tica hegeliana nestes termos se mostrar\u00e1 alheia \u00e0 opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n<p>O grafo do desejo evidenciar\u00e1 que, ao contr\u00e1rio de uma realiza\u00e7\u00e3o infinita que poder\u00edamos supor ao sujeito hegeliano \u2013 aquele \u201csujeito consumado em sua identidade consigo mesmo\u201d<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[17]<\/a> -, n\u00e3o somente h\u00e1 a aus\u00eancia de uma inscri\u00e7\u00e3o (sujeito como falta-a-ser), como o sujeito do inconsciente ser\u00e1 situado por meio do <em>corte<\/em> da cadeia significante &#8211; \u201c\u00fanico para verificar a estrutura do sujeito como <em>descontinuidade no real<\/em>. Se a lingu\u00edstica nos promove o significante, ao ver nele o determinante do significado, <em>a an\u00e1lise revela a verdade desta rela\u00e7\u00e3o, ao fazer dos furos do sentido os determinantes de seu discurso<\/em>\u201d<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\">[18]<\/a> \u2013 enfatizando-se, uma vez mais, que a psican\u00e1lise \u00e9 uma experi\u00eancia com a palavra, \u00fanica maneira de tocar o real que lhe concerne<a href=\"#_edn19\" name=\"_ednref19\">[19]<\/a>; e a hi\u00e2ncia, o que h\u00e1 de mais real no inconsciente.<\/p>\n<p>Se a psican\u00e1lise funda-se com o conceito de representa\u00e7\u00e3o, necess\u00e1rio para situar o elemento material do inconsciente, o psiquismo, no entanto, \u201cfracassa ao representar a puls\u00e3o como causa do sexual \u2013 h\u00e1 um hiato, resta uma falha entre a representa\u00e7\u00e3o faltante e a que substitui\u201d<a href=\"#_edn20\" name=\"_ednref20\">[20]<\/a>. O aparato ps\u00edquico proposto por Freud carece de algo para representar esta hi\u00e2ncia, h\u00e1 o esfor\u00e7o para dar sentido, tal como escreve Cottet: \u201cH\u00e1 um furo entre a puls\u00e3o (a excita\u00e7\u00e3o corporal) e sua representa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica: Freud chama \u201cinconsciente\u201d o trabalho de substitui\u00e7\u00e3o que suplanta um imposs\u00edvel de pensar\u201d<a href=\"#_edn21\" name=\"_ednref21\">[21]<\/a> \u2013 disto depreende-se que a representa\u00e7\u00e3o somente pode ser parcial, uma vez que somente pode ser representado aquilo que se presta a uma tradu\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica<a href=\"#_edn22\" name=\"_ednref22\">[22]<\/a>.<\/p>\n<p>E Lacan busca uma solu\u00e7\u00e3o a este impasse, uma vez que pode ler, a partir do seu \u201cinconsciente estruturado como uma linguagem\u201d, esta hi\u00e2ncia no pr\u00f3prio inconsciente freudiano; impasse que se traduz pela pergunta que efetivamente interessa \u00e0 experi\u00eancia anal\u00edtica: como a palavra pode tocar o real da puls\u00e3o? Como dar tratamento ao gozo heterog\u00eaneo \u00e0 linguagem?<\/p>\n<p>Lacan escrever\u00e1 a puls\u00e3o como demanda ($ \u25ca D), ou seja, em termos de uma cadeia significante, estabelecendo, na escritura do seu grafo do desejo, um paralelismo entre fala e puls\u00e3o<a href=\"#_edn23\" name=\"_ednref23\">[23]<\/a> &#8211; como demanda, a puls\u00e3o \u00e9 exig\u00eancia, reivindica\u00e7\u00e3o, podendo, desta maneira, ser atribu\u00edda ao campo da linguagem.<\/p>\n<p>No entanto, no grafo h\u00e1 algo essencial: ser\u00e1 em articula\u00e7\u00e3o com a puls\u00e3o que Lacan escrever\u00e1 um novo ponto de basta: S(\u023a), indicando que \u201ca puls\u00e3o tem outro vocabul\u00e1rio\u201d<a href=\"#_edn24\" name=\"_ednref24\">[24]<\/a>; mesmo tentando fazer da puls\u00e3o uma fala, Lacan propor\u00e1 que o sujeito, a partir da puls\u00e3o, \u201c\u00e9 designado por uma localiza\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, oral, anal\u201d. E esta designa\u00e7\u00e3o \u201csatisfaz \u00e0 exig\u00eancia de estar t\u00e3o mais longe do falar quanto mais ele fala\u201d<a href=\"#_edn25\" name=\"_ednref25\">[25]<\/a> &#8211; a puls\u00e3o sendo, portanto, apresentada como um outro tipo de enunciado para demonstrar que o \u201csujeito n\u00e3o tem nenhuma ideia de que, na puls\u00e3o, ele fala\u201d<a href=\"#_edn26\" name=\"_ednref26\">[26]<\/a>. Assim, \u201cno n\u00edvel da puls\u00e3o, o Outro da fala, o Outro do saber, o Outro da linguagem\u201d est\u00e1 ausente<a href=\"#_edn27\" name=\"_ednref27\">[27]<\/a> &#8211; o que n\u00e3o deixa de produzir \u00e0 primeira vista um paradoxo mediante a proposi\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o como cadeia significante.<\/p>\n<p>E Lacan, mesmo assim, avan\u00e7a em seu pr\u00f3ximo passo: inserir o gozo neste sistema, na mesma dial\u00e9tica que o desejo; para tanto, recorre ao complexo de castra\u00e7\u00e3o. E por que este \u00e9 o artif\u00edcio? A castra\u00e7\u00e3o permitir\u00e1 tomar o gozo na vertente da interdi\u00e7\u00e3o, ou seja, a partir de uma problem\u00e1tica edipiana<a href=\"#_edn28\" name=\"_ednref28\">[28]<\/a>.\u00a0 Desta maneira podemos entender que ao falo est\u00e1 predestinado dar corpo ao gozo<a href=\"#_edn29\" name=\"_ednref29\">[29]<\/a> <em>na dial\u00e9tica anal\u00edtica<\/em>, como sublinha Miller: \u201ctrata-se de o falo dar ao gozo uma significa\u00e7\u00e3o muito precisa, uma significa\u00e7\u00e3o de transgress\u00e3o, correlativa \u00e0 interdi\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn30\" name=\"_ednref30\">[30]<\/a>. E esta \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o lacaniana uma vez que Lacan atribui ao falo simb\u00f3lico a propriedade de ser o significante do gozo <em>imposs\u00edvel de negativar <\/em>&#8211; o desafio torna-se, ent\u00e3o, fazer entrar este elemento em um sistema todo baseado na nega\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn31\" name=\"_ednref31\">[31]<\/a> .<\/p>\n<p>Esta indica\u00e7\u00e3o de Miller, quando encontrada, tal como estes achados inesquec\u00edveis, foi o que iluminou o texto e as v\u00e1rias passagens onde os termos <em>negar\/negativizar\/recusar\/alcan\u00e7ar<\/em> est\u00e3o presentes. O que visa, afinal, esta inven\u00e7\u00e3o lacaniana ao se apropriar da nega\u00e7\u00e3o tal como vislumbrada na dial\u00e9tica hegeliana? \u201cNegar as categorias imagin\u00e1rias a fim de lhes dar seu estatuto sublimado no simb\u00f3lico\u201d<a href=\"#_edn32\" name=\"_ednref32\">[32]<\/a> \u2013\u00a0 ou seja, nega-se para que, suspenso, algo seja elevado a outra coisa posteriormente, conservando em si a pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o. Na at\u00e9 ent\u00e3o sempre enigm\u00e1tica frase: \u201cA castra\u00e7\u00e3o significa que \u00e9 preciso que o gozo seja recusado, para que possa ser alcan\u00e7ado na escala invertida da Lei do desejo\u201d<a href=\"#_edn33\" name=\"_ednref33\">[33]<\/a> que finaliza o texto, podemos ler, com Miller, a pr\u00f3pria dial\u00e9tica: \u00e9 necess\u00e1rio dizer n\u00e3o ao gozo (aquele dito pelo Outro) para que o gozo possa posteriormente ser alcan\u00e7ado &#8211; fora do dom\u00ednio do sacrif\u00edcio f\u00e1lico. Importante ressaltar que \u00e9 a prop\u00f3sito do gozo, tal como o grafo indica, que Lacan escreve a falta do significante no Outro. No entanto, ser\u00e1 somente com seu \u00faltimo ensino, que retirar\u00e1 o gozo da dial\u00e9tica interdi\u00e7\u00e3o-permiss\u00e3o ao prop\u00f4-lo como um acontecimento de corpo; a castra\u00e7\u00e3o ser\u00e1 a castra\u00e7\u00e3o l\u00f3gica: o fato de n\u00e3o se poder manter todos os significantes juntos<a href=\"#_edn34\" name=\"_ednref34\">[34]<\/a>.<\/p>\n<p>Ler Lacan com Miller, como sabemos, produz entusiasmo e o desejo de transmitir os pequenos achados e as pr\u00f3prias conjecturas, mesmo se j\u00e1 notadamente ditos e escritos \u2013 efeito pr\u00f3prio \u00e0 transfer\u00eancia de trabalho. E neste percurso, estando \u00e0 busca de <em>Subvers\u00f5es<\/em>, tema da Jornada Fora da S\u00e9rie da EBP- Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo neste inusitado 2020, concluo que Lacan, na valiosa empreitada de restituir e elevar o lugar da descoberta freudiana, foi digna e apaixonadamente subversivo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Uma defini\u00e7\u00e3o de Miller sobre subvers\u00e3o. Miller, J.-A. \u201cComo rebelar-se\u201d. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, <\/em>n. 80\/81, maio 2019, p. 11.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Lacan, J. \u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano\u201d. <em>Escritos, <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 807-842.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Miller, J.-A. <em>Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana III, 13<\/em>. \u201cO ser e o Um\u201d. Aula de 09\/02\/2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Miller, J.-A. <em>Idem<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A. <em>Causa y consentimento<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2019. p. 85. Aula de 09\/12\/1987.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Miller, J.-A. <em>Idem<\/em>, p. 83.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Lacan, J. \u201cSubvers\u00e3o do sujeito&#8230;\u201d. <em>Escritos, op. cit. <\/em>p. 808.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Cottet, S. \u201cSur artre avec Lacan, par Clotilde Leguil\u201d. In: <em>Lacan Quotidien<\/em>, 183. Paris, 2012. Dispon\u00edvel: <a href=\"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/2012\/03\/lacan-quotidien-n183-serge-cottet-sur-sartre-avec-lacan-par-clotilde-leguil\/\">https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/2012\/03\/lacan-quotidien-n183-serge-cottet-sur-sartre-avec-lacan-par-clotilde-leguil\/<\/a>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Lacan, J. \u201cSubvers\u00e3o do sujeito&#8230;\u201d. <em>Escritos, op. cit<\/em>. p. 814.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> \u201cUm u\u0301nico termo alema\u0303o <em>[Aufhebung<\/em>, <em>aufheben] <\/em>abrange, portanto, duas significac\u0327o\u0303es contra\u0301rias, que, conjugadas, produzem ainda uma terceira acepc\u0327a\u0303o, esta reveladora do paradoxo interno: negar <em>[nier]<\/em>, acrescido de conservar <em>[conserver]<\/em>, resulta em elevar <em>[e\u0301lever]<\/em>. Quando o verbo <em>aufheben <\/em>reu\u0301ne os sentidos de: <em>aufbewahren [conserver] <\/em>e <em>aufho\u0308ren lassen [supprimer<\/em>, <em>faire cesser]<\/em>, este paradoxo resulta numa elevac\u0327a\u0303o <em>[e\u0301levation]<\/em>, passagem a um esta\u0301gio mais alto\u201d. In: Tavora, L. <em>Ra\u00edzes hegelianas no pensamento de Freud<\/em>.\u00a0 Teses de doutorado Departamento de Filosofia da PUC Rio de Janeiro, 1994.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Lacan, J. \u201cSubvers\u00e3o do sujeito&#8230;\u201d. <em>Escritos, op. cit. <\/em>p. 810. (grifos nossos).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> Vera, A. \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 Enciclop\u00e9dia das ci\u00eancias filos\u00f3ficas de Hegel &#8211; Filosofia do Esp\u00edrito de Hegel\u201d.\u00a0 Tradu\u00e7\u00e3o de L. A. Cabral a partir do original em franc\u00eas editado em 1859. Clube de autores, 2019, vers\u00e3o Ebook Kindle, Cap. 2.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a> In: <em>Escritos, op. cit. <\/em>p. 893-902. Ap\u00eandice I: \u201cComent\u00e1rio falado sobre a \u201cVerneinung\u201d de Freud, por Jean Hyppolite.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a> Lacan, J. \u201cA significa\u00e7\u00e3o do falo\u201d. <em>Escritos, op. cit. <\/em>p. 699.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[15]<\/a> Miller, J.-A. \u201cO ser e o Um\u201d, aula de 16\/03\/2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[16]<\/a> Ver Lacan, J. \u201cSubvers\u00e3o do sujeito&#8230;.\u201d. <em>Escritos, op. cit<\/em>. p. 818: \u201cCabe-nos dizer agora que, a se conceber o tipo de apoio que fomos buscar em Hegel para criticar uma degrada\u00e7\u00e3o t\u00e3o inepta da psican\u00e1lise [&#8230;], \u00e9 inadmiss\u00edvel que nos imputem ser enganado por um esgotamento puramente dial\u00e9tico do ser\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[17]<\/a> Lacan, J. \u201cSubvers\u00e3o do sujeito&#8230;.\u201d. <em>Escritos, op. cit.<\/em> p. 812.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[18]<\/a> Lacan, J. <em>Idem<\/em>, p. 815.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref19\" name=\"_edn19\">[19]<\/a> Cottet, S. \u201cEl inconsciente\u201d. In: <em>12 estudios freudianos<\/em>. Buenos Aires: Unsam Edita, 2013, p. 104.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref20\" name=\"_edn20\">[20]<\/a> Cottet, S. <em>Idem<\/em>, p. 102.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref21\" name=\"_edn21\">[21]<\/a> Cottet, S. <em>Idem<\/em>, p. 102.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref22\" name=\"_edn22\">[22]<\/a> Cottet, S. <em>Idem<\/em>, p. 103.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref23\" name=\"_edn23\">[23]<\/a> Miller, J.-A. \u201cO ser o Um\u201d. Aula de 09\/03\/2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref24\" name=\"_edn24\">[24]<\/a> Miller, J.-A. <em>Idem<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref25\" name=\"_edn25\">[25]<\/a> Lacan, J. \u201cSubvers\u00e3o do sujeito&#8230;\u201d. <em>Escritos, op. cit, <\/em>p. 831.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref26\" name=\"_edn26\">[26]<\/a> Miller, J.-A. \u201cO ser e o Um\u201d, aula de 09\/02\/2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref27\" name=\"_edn27\">[27]<\/a> Miller, J.-A. <em>Idem.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref28\" name=\"_edn28\">[28]<\/a> Miller, J.-A. <em>Idem<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref29\" name=\"_edn29\">[29]<\/a> Lacan, J. \u201cSubvers\u00e3o do sujeito&#8230;\u201d. <em>Escritos, op. cit.<\/em> p. 836.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref30\" name=\"_edn30\">[30]<\/a> Miller, J.-A. \u201cO ser e o Um\u201d. Aula de 09\/02\/2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref31\" name=\"_edn31\">[31]<\/a> Miller, J.-A. <em>Idem.<\/em> Eis a passagem da aula de Miller que traduz a complexidade do problema e a solu\u00e7\u00e3o a encontrar: \u201c\u00c9 preciso que Lacan, de todo modo, reserve um lugar para : <em>ha\u0301 um gozo para o qual a negac\u0327a\u0303o na\u0303o tem nenhum efeito. <\/em>Trata-se de um gozo fora da negac\u0327a\u0303o, o que ele chama de \u2013 ja\u0301 o disse outrora \u2013 <em>falo simbo\u0301lico, <\/em>significante do gozo impossi\u0301vel de negativizar. Enta\u0303o, como tratar do impossi\u0301vel de negativizar em um sistema todo articulado em torno da negac\u0327a\u0303o?\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref32\" name=\"_edn32\">[32]<\/a> Miller, J.-A. \u201cO ser e o Um\u201d. Aula de 02\/03\/2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref33\" name=\"_edn33\">[33]<\/a> Lacan, J. \u201cSubvers\u00e3o do sujeito\u2026\u201d, p. 841.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref34\" name=\"_edn34\">[34]<\/a> Miller, J. \u201cO ser e o Um\u201d, aula de 02\/03\/2011.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Heloisa Prado Telles (EBP\/AMP) \u201cEmpreitada de longo prazo que requer o conhecimento profundo da ordem que se trata de arruinar, de derrubar\u201d[1]. Qual a subvers\u00e3o anunciada por Lacan neste seu texto de 1960? Certamente a freudiana, a qual tratar\u00e1 de definir nesta comunica\u00e7\u00e3o proferida em um Congresso sobre a Dial\u00e9tica, em Royaumont, organizado por Jean&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4649","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-fora-da-serie","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4649","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4649"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4649\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4649"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4649"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4649"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4649"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}