{"id":4367,"date":"2020-07-16T10:42:54","date_gmt":"2020-07-16T13:42:54","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4367"},"modified":"2026-03-30T17:22:11","modified_gmt":"2026-03-30T20:22:11","slug":"reinventar-a-ideia-de-contagio-uma-convocacao-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/reinventar-a-ideia-de-contagio-uma-convocacao-etica\/","title":{"rendered":"Reinventar a ideia de cont\u00e1gio: uma convoca\u00e7\u00e3o \u00e9tica"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4368\" aria-describedby=\"caption-attachment-4368\" style=\"width: 206px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4368\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/foto_reiventar_a_ideia_de_contagem-1.png\" alt=\"Foto: Mauricio Sakamoto\" width=\"206\" height=\"206\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/foto_reiventar_a_ideia_de_contagem-1.png 206w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/foto_reiventar_a_ideia_de_contagem-1-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 206px) 100vw, 206px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4368\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Mauricio Sakamoto<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>Bianca Dias<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[*]<\/a><\/strong><\/h6>\n<p>Diante das imagens de horror que nos s\u00e3o arremessadas cotidianamente desde o in\u00edcio da pandemia, cabe uma pergunta que \u00e9 um chamado e um desvio: invocar o que h\u00e1 de sil\u00eancio nessas imagens e recuar frente ao excesso que delas prov\u00e9m, de forma a n\u00e3o sermos por elas destru\u00eddos.<\/p>\n<p>No ensaio \u201cSidera\u00e7\u00e3o\u201d, Marie-Jos\u00e9 Mondzain localiza o que ela chama de uma ind\u00fastria do espet\u00e1culo que anuncia e teatraliza o apocalipse. Como resistir estando diante do terror do inomin\u00e1vel ao que a autora denomina <em>uma esp\u00e9cie de imagem epil\u00e9ptica da pr\u00f3pria sociedade<\/em>?<\/p>\n<p>Penso na palavra <em>cont\u00e1gio<\/em> e numa forma de subverter a linguagem e recriar uma contamina\u00e7\u00e3o pelo desejo, pelo pensamento, pela poesia. Como habitar o espanto sem deixar de valorizar a fun\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica da palavra, a fun\u00e7\u00e3o da palavra em sua espessura que recria o mundo, a exist\u00eancia e as imagens?<\/p>\n<p>Uma sa\u00edda seria lidar com a ambival\u00eancia do pr\u00f3prio lugar po\u00e9tico de onde a palavra se erige \u2013 metade luz, metade sombra, metade natureza, metade artif\u00edcio \u2013 no corpo a corpo com uma nova e traum\u00e1tica dimens\u00e3o do tempo.<\/p>\n<p>Um trabalho de luto passa pelo pr\u00f3prio tempo que sobrevive a si mesmo, como no ensaio \u201cO arco e a lira\u201d de Octavio Paz, em que a articula\u00e7\u00e3o entre mito, poesia, temporalidade e hist\u00f3ria cria um pensamento que busca, na tens\u00e3o dos opostos, a chave-mestra da poesia que cria e recria a linguagem, reconfigurando, atrav\u00e9s dos m\u00faltiplos sentidos que emergem da palavra viva, uma \u00e9tica e uma est\u00e9tica. Assim como para Lacan, o pr\u00f3prio homem \u00e9 aquele que traz o sentido \u00e0 fala. E \u00e9 pela aposta viva na psican\u00e1lise que podemos expandir, transfigurar e transgredir qualquer aprisionamento na imagem e assumir uma condi\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima da poesia que aceita o risco, o corte, o rasgo, um grito para al\u00e9m do sentido.<\/p>\n<p>Como, diante das imagens do fim do mundo, encontrarmos recursos para aquilo que seria imposs\u00edvel de suportar? Na semana que se passou ainda assimilava a imagem da nuvem de gafanhotos como s\u00edmbolo inequ\u00edvoco do desastre de uma \u00e9poca, quando fui acordada por fortes rajadas de vento que pareciam fazer tremer o mundo. Na internet, a forma oracular de um mundo caduco, a vertigem furiosa de um final de mundo se esbo\u00e7ava: lanchas e barcos afundando no litoral de S\u00e3o Paulo, telhados voando como folhas de papel pelos c\u00e9us de Londrina, \u00e1rvores arrancadas com imensa viol\u00eancia pela raiz, tamanha a for\u00e7a destrutiva de uma nova cat\u00e1strofe que, agora, se sobrepunha aos gafanhotos.<\/p>\n<p>Imagens s\u00e3o reviradas por dentro, devassadas, vasculhadas pela incid\u00eancia feroz de um real que insiste. Diante de nossos olhos, o fim de um mundo se erige: uma desapari\u00e7\u00e3o e uma apari\u00e7\u00e3o. Se Freud revelou em \u201cO mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d que aquilo que fixa o ponto origin\u00e1rio de uma sociedade aponta tamb\u00e9m o lugar das rupturas, conv\u00e9m perseguirmos poeticamente o mist\u00e9rio dos escombros, das ru\u00ednas e dos ventos para que, do tremor, possamos renascer como sujeitos.<\/p>\n<p>O poeta e ensa\u00edsta Christian Prigent diz que a poesia \u00e9 a simboliza\u00e7\u00e3o de um buraco, de uma perda, de um fim. E acrescenta: <em>esse buraco, eu o nomeio real<\/em>. Real entendido aqui no sentido lacaniano: o que come\u00e7a onde o sentido para. Em uma aproxima\u00e7\u00e3o com a psican\u00e1lise, revisita o conceito lacaniano do real. No poema de Prigent \u201cLucr\u00e9cio na janela\u201d o real \u00e9 parte fundamental. \u00c9 um poema que percorre o vazio das coisas do mundo \u201cem via de nascer\u201d. \u00c9 como ele explica, de forma enigm\u00e1tica, a palavra em seus desmoronamentos, como an\u00fancios obscuros de um novo mundo de conflito e tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Do territ\u00f3rio vertiginoso de uma pandemia que nos atinge e de dentro de um tempo de desencantamento, no qual n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel construir uma imagem do mundo orientada por pontos fixos cabe-nos a tarefa de sustentar a chama do desejo nessa fissura inst\u00e1vel, quase intoler\u00e1vel. Cabe-nos a tarefa de articular o inarticulado, recuperando uma experi\u00eancia de beleza por meio da palavra, como nos lembra G\u00e9rard Wajcman no livro \u201cLacan: o escrito, a imagem\u201d:<\/p>\n<p><em>\u00c9 que Lacan, ao inscrever o objeto <\/em>a<em>, inscreveu no discurso anal\u00edtico aquilo que responde ao impens\u00e1vel do pensamento, e fez o irrepresent\u00e1vel entrar na representa\u00e7\u00e3o, a aus\u00eancia entrar na presen\u00e7a. O objeto <\/em>a<em> \u00e9 a resposta, uma pequena letra com a qual Lacan inscreveu, na psican\u00e1lise, que o irrepresent\u00e1vel, que o impens\u00e1vel aconteceu nesse s\u00e9culo<\/em>.<\/p>\n<p>Um novo mundo tamb\u00e9m se esbo\u00e7a nos contornos daquilo que ainda n\u00e3o se pode nomear, mas \u00e9 no encontro-limite com a impossibilidade de dizer que a palavra instaura a diferen\u00e7a, a diverg\u00eancia, a irrup\u00e7\u00e3o de algo para al\u00e9m da cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ados \u00e0 vertigem de imagens t\u00e3o absurdas, podemos paradoxalmente ser despertados para o mais agudo e essencial da condi\u00e7\u00e3o humana, para a brecha que nos faz sujeitos. S\u00e3o imagens que fazem ressurgir o mundo e denunciam a ilus\u00e3o de dom\u00ednio que t\u00ednhamos de n\u00f3s mesmos e da exist\u00eancia.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">FREUD, Sigmund. <em>O mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o, novas confer\u00eancias introdut\u00f3rias e outros textos. <\/em>Obras completas vol. 18. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MONDZAIN, Marie-Jos\u00e9. <em>Sidera\u00e7\u00e3o. <\/em>Pequena Biblioteca de Ensaios. Tradu\u00e7\u00e3o de Laura Erber. In<a href=\"http:\/\/www.zazie.com.br\/pequena-biblioteca-de-ensaios\">http:\/\/www.zazie.com.br\/pequena-biblioteca-de-ensaios<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">PAZ, Octavio. <em>O arco e a lira. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Ari Roitman e Paulina Wacht. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">PRIGENT, Christian. <em>Para que poetas ainda? <\/em>Organiza\u00e7\u00e3o e Tradu\u00e7\u00e3o de In\u00eas Oseki-D\u00e9pr\u00e9 e Marcelo Jacques de Moraes. Florian\u00f3polis: Cultura e Barb\u00e1rie, 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">WAJCMAN, G\u00e9rard. <em>A arte, a psican\u00e1lise, o s\u00e9culo. <\/em>In: <em>Lacan, o escrito, a imagem. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Yolanda Vilela. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2012.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[*]<\/a> Escritora, psicanalista e cr\u00edtica de arte<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bianca Dias[*] Diante das imagens de horror que nos s\u00e3o arremessadas cotidianamente desde o in\u00edcio da pandemia, cabe uma pergunta que \u00e9 um chamado e um desvio: invocar o que h\u00e1 de sil\u00eancio nessas imagens e recuar frente ao excesso que delas prov\u00e9m, de forma a n\u00e3o sermos por elas destru\u00eddos. 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