{"id":4316,"date":"2020-04-30T16:15:02","date_gmt":"2020-04-30T19:15:02","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4316"},"modified":"2026-03-30T17:22:51","modified_gmt":"2026-03-30T20:22:51","slug":"perguntas-para-os-tempos-do-virus-o-que-podemos-extrair-de-reflexoes-para-os-tempos-de-guerra-e-morte-de-freud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/perguntas-para-os-tempos-do-virus-o-que-podemos-extrair-de-reflexoes-para-os-tempos-de-guerra-e-morte-de-freud\/","title":{"rendered":"PERGUNTAS PARA OS TEMPOS DO V\u00cdRUS &#8211; O QUE PODEMOS EXTRAIR DE \u201cREFLEX\u00d5ES PARA OS TEMPOS DE GUERRA E MORTE\u201d, DE FREUD"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4306\" aria-describedby=\"caption-attachment-4306\" style=\"width: 205px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4306\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/biblioteca_texto_fabiola-1.png\" alt=\"Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o Netflix\" width=\"205\" height=\"115\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4306\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o Netflix<\/figcaption><\/figure>\n<h6><em><strong>Fabiola Ramon &#8211; <\/strong><strong>EBP\/AMP<\/strong><\/em><\/h6>\n<blockquote><p><em>\u00a0<\/em><em>Aventuro-me, sob o impacto da guerra, a lembrar-lhe duas teses formuladas pela psican\u00e1lise e que, sem d\u00favida, contribu\u00edram para sua impopularidade. <\/em><\/p>\n<p><em>A psican\u00e1lise inferiu dos sonhos e das parapraxias das pessoas saud\u00e1veis, bem como dos sintomas dos neur\u00f3ticos, que os impulsos primitivos, selvagens e maus da humanidade n\u00e3o desaparecem em qualquer de seus membros individuais, mas persistem, embora num estado reprimido, no inconsciente e aguardam as oportunidades para se tornarem ativos mais uma vez. Ela nos ensinou, ainda, que nosso intelecto \u00e9 algo d\u00e9bil e dependente, um joguete e um instrumento de nossos instintos e afetos, e que todos n\u00f3s somos compelidos a nos comportar inteligente ou estupidamente, de acordo com as ordens de nossas atitudes [emocionais] e resist\u00eancias internas<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>. <\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse tempo de compreender sobre o impacto do coronav\u00edrus, experimentado por nossa comunidade anal\u00edtica, nos leva at\u00e9 alguns textos de Freud. Um deles \u00e9 \u201cReflex\u00f5es para os tempos de guerra e morte\u201d (1915), composto por dois ensaios: \u201cA desilus\u00e3o da guerra\u201d e \u201c Nossa atitude para com a morte\u201d, escritos seis meses ap\u00f3s o in\u00edcio da primeira guerra mundial (1914-1918), certamente tamb\u00e9m em um tempo de compreens\u00e3o da ruptura ocasionada pelo acontecimento mais brutal e mort\u00edfero vivido pela civiliza\u00e7\u00e3o ocidental desde o in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o industrial at\u00e9 aquele momento.<\/p>\n<p>Nesses ensaios, Freud faz uma leitura inicial atenta dos impactos da guerra e da presen\u00e7a ostensiva da morte advinda disso. Apesar de mostrar-se impactado pela devasta\u00e7\u00e3o de tal acontecimento, Freud se apresenta extremamente implicado em extrair consequ\u00eancias para a psican\u00e1lise. Sabemos a import\u00e2ncia dessas consequ\u00eancias para suas formula\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas, que seguiram sendo extra\u00eddas ao longo de muitos anos, uma delas \u00e9 o conceito de puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>No primeiro ensaio, Freud aborda sobre a civiliza\u00e7\u00e3o e as puls\u00f5es. Naquela mesma \u00e9poca ele estava \u00e0s voltas com seu trabalho primoroso sobre as puls\u00f5es, \u201cAs puls\u00f5es e seus destinos\u201d (1915).<\/p>\n<p>O segundo ensaio localiza a pergunta que Freud est\u00e1 a fazer sobre o lugar da morte para o ser falante e a forma como essa quest\u00e3o se reordena em uma situa\u00e7\u00e3o de guerra. Trata-se da morte em larga escala, sendo produzida pela guerra. A guerra traz uma dimens\u00e3o da morte como algo furtuito, presen\u00e7a constante, o que se op\u00f5e \u00e0 ideia civilizat\u00f3ria. A assun\u00e7\u00e3o da morte na guerra faz Freud se perguntar sobre o lugar desta no inconsciente e no desejo humano, que segundo ele, \u00e9 um desejo de assassinato.<\/p>\n<p>Nosso inconsciente \u00e9 t\u00e3o inacess\u00edvel \u00e0 ideia de nossa pr\u00f3pria morte, t\u00e3o inclinado ao assassinato em rela\u00e7\u00e3o a estranhos, t\u00e3o dividido (isto \u00e9, ambivalente) para com aqueles que amamos, como era o homem primevo. Contudo, como nos distanciamos desse estado primevo em nossa atitude convencional e cultural para com a morte!<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Freud destaca que a guerra traz \u00e0 luz a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o, no caso a n\u00e3o possibilidade de rela\u00e7\u00f5es entre na\u00e7\u00f5es ditas civilizadas, fazendo irromper o \u00f3dio e o asco entre elas. O mal, que habita cada ser falante, \u00e9 encarnado no Estado, nesse Outro que \u201cn\u00e3o pode abster-se de praticar o mal, de uma vez que isso o colocaria em desvantagem\u201d <a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Ele nos mostra que o impacto da baixa moralidade revelada pelo Estado e a brutalidade dos indiv\u00edduos que, legitimados pelo Estado, agem na contram\u00e3o da civilidade, despertam a desilus\u00e3o. Freud escancara que a ideia de que a civiliza\u00e7\u00e3o \u201cpacifica\u201d a puls\u00e3o \u00e9 furada, \u00e9 uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Freud articula ilus\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o da morte. Quando a morte aparece sem v\u00e9u, a desilus\u00e3o aparece tamb\u00e9m, uma desilus\u00e3o frente aos semblantes que sustentavam a ideia de progresso e desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o, que esteavam a ideia de Estado civilizado, calcados na ci\u00eancia, na moral e na raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Um ponto importante que podemos extrair desse texto \u00e9 que a guerra coloca em jogo o campo do Outro, em sua radicalidade, expondo a fragilidade dos semblantes que sustentam o lugar do Outro na civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Podemos resumir a quest\u00e3o que o texto traz a partir de uma frase de \u00c9ric Laurent em \u201cA sociedade do sintoma\u201d. Freud identifica que o que est\u00e1 em jogo naquele momento \u00e9 \u201co sentimento de inutilidade da civiliza\u00e7\u00e3o em face desse suic\u00eddio coletivo europeu\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Se havia ilus\u00e3o, era porque o Outro se mostrava bem consistido e Freud assinalava algo da inconsist\u00eancia do Outro, exposta pela guerra.<\/p>\n<p>Ele apontou a fragilidade dos semblantes e a guerra como uma maquinaria de morte produzida pela pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o, destacando que os sujeitos est\u00e3o concernidos nisso. Se est\u00e3o concernidos, \u00e9 porque a dimens\u00e3o do desejo estava em jogo.<\/p>\n<p>Em uma guerra, o inimigo, este Outro encarnado e, ao mesmo tempo, reflexo do Eu, tem uma inscri\u00e7\u00e3o, encarna uma alteridade e uma identidade. Esse Outro deseja, e, se ele deseja, possibilita a assun\u00e7\u00e3o da angustia e a coloca\u00e7\u00e3o do sintoma. A guerra deu uma face para a morte. E Freud seguiu perseguindo isso.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o que vivemos com o coronav\u00edrus n\u00e3o \u00e9 exatamente uma guerra, mas uma outra experi\u00eancia. Apesar de chamarmos o v\u00edrus de inimigo, ele n\u00e3o se coloca como alteridade, n\u00e3o \u00e9 o reflexo de n\u00f3s mesmo, n\u00e3o deseja, apesar de fazermos algumas tentativas, um tanto quanto complicadas, de dar um corpo e uma inscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica a isso que n\u00e3o deseja. A morte nos invade vindo por meio de um v\u00edrus, que toma o nosso corpo, pois somos seu hospedeiro. Qual \u00e9 a cara da morte que o v\u00edrus faz aparecer? <em>\u00a0<\/em>Como a marca da morte em tempos de pandemia nos afeta hoje?<\/p>\n<p>Ante a esse v\u00edrus que nada deseja e que apenas faz uso do nosso corpo, h\u00e1 possibilidade do sujeito se implicar nisso de alguma forma?<\/p>\n<p>Lembrou-me do epis\u00f3dio <em>Metalhead<\/em>, da s\u00e9rie dist\u00f3pica inglesa \u201cBlack Mirror\u201d, que um c\u00e3o-rob\u00f4 amoral persegue uma sobrevivente solit\u00e1ria. Parece n\u00e3o haver nenhuma sa\u00edda, nada a fazer frente ao rob\u00f4. <em>Metalhead<\/em> \u00e9 programado para ca\u00e7ar e matar. De forma surpresiva, a sobrevivente consegue livrar-se do primeiro rob\u00f4, mas assim que o faz, uma s\u00e9rie deles, tal qual v\u00edrus, aparece para extermin\u00e1-la. Estavam l\u00e1 desde o in\u00edcio, programados para isso. <em>Metalhead<\/em> \u00e9 o encontro certo com a morte.<\/p>\n<p>Em tempos do Outro que n\u00e3o existe, do Outro desconsistido, n\u00e3o \u00e9 a desilus\u00e3o o sentimento que compartilhamos. Do que se trata, ent\u00e3o? Apatia? P\u00e2nico? Depress\u00e3o? Indiferen\u00e7a? Impot\u00eancia?<\/p>\n<p>O que a presen\u00e7a fortuita da morte de hoje nos traz de perguntas e como essas perguntas poder\u00e3o incidir sobre a psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>Quais sa\u00eddas a civiliza\u00e7\u00e3o encontrar\u00e1 para se haver com seu mal atual? Quais sa\u00eddas estamos buscando para n\u00e3o ficarmos, tal como no epis\u00f3dio de <em>Black Mirror<\/em>, assujeitados frente a isso que nada deseja, mas que porta em si o signo da morte? Por quais vias buscaremos sa\u00eddas? Faremos disso sintoma?<\/p>\n<p>Se seguirmos com Freud e Lacan, o melhor a fazer \u00e9 n\u00e3o paralisarmos frente a esse <em>Metalhead<\/em>, mas acompanharmos esse tempo fazendo perguntas sem pressa para encontrar respostas.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Carta de Freud a Frederik Van Eeden, elaborada alguns meses antes de escrever seus ensaios. Dr. Van Eeden era um psicopatologista holand\u00eas que n\u00e3o aceitava as hip\u00f3teses de Freud. Esta carta foi publicada como ap\u00eandice do texto principal. In: Freud, S. (1914). Obras completas. Rio de Janeiro: Ed Imago, 1996, vol. XIV, p.311.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0 Freud, S. (1914). Obras completas. Rio de Janeiro: Ed Imago, 1996, vol. XIV, p. 309.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Ibid, p. 289.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Laurent, \u00c9. A sociedade do sintoma. Rio de Janeiro: contracapa, 2007, p. 164.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabiola Ramon &#8211; EBP\/AMP \u00a0Aventuro-me, sob o impacto da guerra, a lembrar-lhe duas teses formuladas pela psican\u00e1lise e que, sem d\u00favida, contribu\u00edram para sua impopularidade. 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