{"id":4314,"date":"2020-04-30T16:14:08","date_gmt":"2020-04-30T19:14:08","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4314"},"modified":"2026-03-30T17:21:20","modified_gmt":"2026-03-30T20:21:20","slug":"5-centimetros-por-segundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/5-centimetros-por-segundo\/","title":{"rendered":"5 CENT\u00cdMETROS POR SEGUNDO"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-4303 size-medium\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_6769_Original-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/p>\n<h6><strong>Niraldo de Oliveira Santos &#8211; <\/strong>EBP\/AMP<\/h6>\n<p>A Comiss\u00e3o de Biblioteca da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo, determinada a manter palpitante nossa rela\u00e7\u00e3o com os livros em tempos de isolamento social decorrente do Covid-19, lan\u00e7ou a tarefa de escolhermos um texto e coment\u00e1-lo a partir do momento atual. Prontamente, escolhi o texto \u201c<em>Transitoriedade<\/em>\u201d (Freud, 1916), inserido no volume \u201cArte, literatura e os artistas\u201d, da editora Aut\u00eantica<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Trata-se de um pequeno texto no qual Freud descreve um passeio \u201cem meio a uma florescente paisagem de ver\u00e3o\u201d, na companhia de um conhecido poeta e de um amigo. Hoje sabemos que se tratava do poeta Rainer Maria Rilke, e que o amigo \u201ctaciturno\u201d era, na verdade, Lou Andreas Salom\u00e9, a companheira de Rilke, que tempos depois se tornou psicanalista. Este acontecimento se d\u00e1 em agosto de 1913, um ano antes da eclos\u00e3o da primeira guerra mundial.<\/p>\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o de Freud o fato de o poeta admirar a beleza da natureza ao redor, sem poder retirar satisfa\u00e7\u00e3o disso. Perturbava-o a ideia da efemeridade daquela beleza, destinada a desaparecer com a chegada do inverno, \u201cassim como toda beleza humana e tudo o que \u00e9 belo e nobre que o homem criou e poderia criar\u201d. O que desanimava o poeta era o destino determinante da transitoriedade.<\/p>\n<p>Freud aponta dois movimentos ps\u00edquicos diante de tal circunst\u00e2ncia: um doloroso fastio diante do mundo e a rebeli\u00e3o contra a realidade existente. Para ele, \u201ca exig\u00eancia de eternidade deve claramente ser um \u00eaxito da nossa vida desejante\u201d. Apesar da transitoriedade em geral ser um fato, Freud contesta o poeta pessimista, que desvaloriza o belo pela sua condi\u00e7\u00e3o transit\u00f3ria: \u201cA limita\u00e7\u00e3o das possibilidades de frui\u00e7\u00e3o eleva sua preciosidade\u201d; e acrescenta: \u201cSe existe uma flor que brota apenas uma \u00fanica noite, ent\u00e3o seu florescimento nos parece n\u00e3o menos vistoso, suntuoso\u201d.<\/p>\n<p>Estamos no m\u00eas de abril. \u00c9 primavera no hemisf\u00e9rio norte e, no Jap\u00e3o, um fen\u00f4meno transit\u00f3rio \u00e9 vivido em toda a sua plenitude: o tempo de apreciar as flores das cerejeiras, chamadas de <em>sakura<\/em>. De um rosa p\u00e1lido, fr\u00e1geis e de vida curta, as <em>sakura<\/em> \u00a0tornaram-se um s\u00edmbolo do Jap\u00e3o. Os japoneses divulgam, a cada ano, o dia e a hora exata para cada regi\u00e3o do pa\u00eds em que ocorre o \u00e1pice da flora\u00e7\u00e3o das cerejeiras. Na cidade de Kyoto, o ritual de visitar as flores do monte Yoshino, coberto por mil p\u00e9s de cerejeiras, \u00e9 repetido anualmente desde o s\u00e9culo VIII<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. Em regi\u00f5es de muita neve, as \u00e1rvores chegam a ser protegidas no inverno por uma esp\u00e9cie de capa em forma de cone feita de palha, para evitar que os galhos se quebrem com o peso da neve. Eles n\u00e3o s\u00e3o apenas apaixonados pela beleza emanada, \u00a0mas tamb\u00e9m pelo que o <em>hanami<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a> <\/em>representa. \u00c9 precisamente porque as flores delicadas murcham e caem f\u00e1cil e rapidamente que s\u00e3o t\u00e3o amadas. \u00c9 uma no\u00e7\u00e3o chamada <em>mono no aware,<\/em> algo como uma &#8220;agridoce consci\u00eancia da imperman\u00eancia das coisas&#8221;<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Cren\u00e7a de que essa imperman\u00eancia precisa ser valorizada e n\u00e3o lamentada.<\/p>\n<p>A enorme quantidade de cerejeiras plantadas no Jap\u00e3o atesta esse amor \u2013 s\u00e3o\u00a0 igualmente belas as \u00e1rvores de <em>ume<\/em>, um tipo de ameixa japonesa, que florescem no mesmo per\u00edodo. Quando as cerejeiras florescem, as pessoas param de olhar para baixo e olham constantemente para cima; os trabalhadores, normalmente com pressa, param para tirar uma foto. As flores de cerejeira tamb\u00e9m desaparecem com encanto &#8211; primeiro com as flores chovendo lentamente no ar, ou como apresentado de modo po\u00e9tico em um filme de anime &#8220;as flores de cerejeira caem a uma velocidade de 5 cent\u00edmetros por segundo<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>&#8220;. O est\u00e1gio final das <em>sakura<\/em> termina com tapetes ros\u00e1ceos \u200b\u200bnas ruas e a superf\u00edcies das \u00e1guas cobertas com mantas igualmente em cor-de-rosa, que fluem levando as p\u00e9talas. Luto que se repete?<\/p>\n<p>Freud, em seu texto, mostra-nos o quanto uma interfer\u00eancia afetiva pode perturbar o julgamento diante do belo, como aconteceu com seu amigo poeta, e atribui isso a uma \u201crevolta ps\u00edquica contra o luto\u201d, que desvaloriza a frui\u00e7\u00e3o do que \u00e9 belo. De acordo com Freud, ao final do luto, quando os objetos nos quais investimos nossa libido s\u00e3o destru\u00eddos ou perdidos, nossa capacidade de amor (libido) \u00e9 liberada novamente. Mas, para isso, o tempo de elabora\u00e7\u00e3o \u00e9 um fator fundamental para que seja poss\u00edvel substituirmos esses objetos por outros, n\u00e3o sem dor: \u201cVemos que a libido se prende aos seus objetos e tamb\u00e9m n\u00e3o quer desistir dos perdidos, mesmo quando j\u00e1 preparou o substituto. Eis a\u00ed o luto\u201d. Nos dias atuais, em alguma medida, estamos em luto. Alguns dentre n\u00f3s temos a clareza de que (j\u00e1) perdemos a liberdade de ir e vir; outros, nem tanto.<\/p>\n<p>A ef\u00eamera flora\u00e7\u00e3o das cerejeiras \u2013 que t\u00eam seu retorno, pontualmente, a cada in\u00edcio da primavera &#8211; \u00e9 um fen\u00f4meno da natureza que segue suas leis. E quanto ao Covid-19, que ainda n\u00e3o nos parece transit\u00f3rio, trata-se de um real sem lei? Para Bassols<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>, \u201co real do ser falante, (&#8230;) seguindo o \u00faltimo ensino de Lacan, \u00e9 um real sem lei\u201d. J\u00e1 o Covid-19, \u201ceste segue uma lei implac\u00e1vel, ele segue a lei da natureza que \u00e9 preciso saber decifrar para enfrent\u00e1-lo\u201d. Para tanto, afirma Bassols, h\u00e1 um real do tempo que \u00e9 decisivo para que isto se d\u00ea.<\/p>\n<p>Antes de encerrar seu texto otimista a respeito da transitoriedade, Freud nos lembra que, apesar de nossa libido ficar empobrecida em rela\u00e7\u00e3o aos objetos em algumas circunst\u00e2ncias, ela ocupa com tanta intensidade o que ficou em n\u00f3s, permitindo que \u201c(&#8230;) o carinho por quem \u00e9 pr\u00f3ximo e o orgulho pelo que temos em comum subitamente se fortale\u00e7am\u201d. E acrescenta: \u201c(&#8230;) pois ainda somos jovens e cheios de vida para substituir os objetos perdidos por novos objetos poss\u00edveis, preciosos ou mais preciosos ainda\u201d.<\/p>\n<p>Para concluir, vejamos o que diz Lacan em uma aula dada quando do seu retorno do Jap\u00e3o &#8211; uma viagem que lhe trouxe \u201calgumas experi\u00eancias\u201d: \u201cO desejo, com efeito, \u00e9 o fundo essencial, o objetivo, a meta e tamb\u00e9m a pr\u00e1tica de tudo que se anuncia aqui, neste ensino, acerca da mensagem freudiana\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. Podemos dizer, com Freud e com Lacan, que sim, somos jovens, o desejo rejuvenesce e h\u00e1 muitas coisas que desejamos que, assim como as <em>sakura<\/em>, sejam transit\u00f3rias.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Freud, S. \u201cTransitoriedade<em>\u201d<\/em> (1916). In: <em>Arte, literatura e os artistas<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Sakurai, C. \u201c<em>Os japoneses\u201d<\/em>. S\u00e3o Paulo: Contexto, 2014. p, 18.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Literalmente, significa \u201cver flores\u201d; por\u00e9m, o termo alude ao h\u00e1bito de apreciar as flores das cerejeiras, sentados sob as \u00e1rvores.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> \u201c<em>Cherry blossom season in Japan: the love of the ephemeral<\/em>\u201d. Wonderland Japan \u2013 Wattention. Acessado em 14.04.2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> \u201c<em>5 centimeters per second<\/em>\u201d. Dirigido, produzido e escrito por Makoto Shinkai. Lan\u00e7amento, 2007. <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/5_Centimeters_per_Second\">https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/5_Centimeters_per_Second<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Bassols, M. \u201c<em>A lei da natureza e o real sem lei\u201d<\/em>. Correio Express Extra. Revista Eletr\u00f4nica da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Publicado em 26\/03\/2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Lacan, J. \u201c<em>O Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/em>\u201d. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p. 236.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Niraldo de Oliveira Santos &#8211; EBP\/AMP A Comiss\u00e3o de Biblioteca da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo, determinada a manter palpitante nossa rela\u00e7\u00e3o com os livros em tempos de isolamento social decorrente do Covid-19, lan\u00e7ou a tarefa de escolhermos um texto e coment\u00e1-lo a partir do momento atual. 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