{"id":4190,"date":"2019-10-14T07:32:38","date_gmt":"2019-10-14T10:32:38","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4190"},"modified":"2019-10-14T07:32:38","modified_gmt":"2019-10-14T10:32:38","slug":"pascal-quignard-entre-o-que-escapa-e-o-que-nao-se-realiza-a-solidao-na-ponta-da-lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/pascal-quignard-entre-o-que-escapa-e-o-que-nao-se-realiza-a-solidao-na-ponta-da-lingua\/","title":{"rendered":"Pascal Quignard: entre o que escapa e o que n\u00e3o se realiza \u2013 a solid\u00e3o na ponta da l\u00edngua"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4172\" aria-describedby=\"caption-attachment-4172\" style=\"width: 275px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4172\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/tracos007_003-1.png\" alt=\"Imagem: Carlotta Ikeda. 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Seu procedimento \u00e9 por ele identificado \u00e0 linhagem da ret\u00f3rica especulativa, por ele definida como o resgate de uma: \u201ctradi\u00e7\u00e3o antiga, marginal, recalcitrante, perseguida, para a qual a letra da linguagem deve ser tomada <em>\u00e0 la littera<\/em>. Essa tradi\u00e7\u00e3o esquecida \u00e9 a viol\u00eancia da literatura\u201d.<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>A \u2018viol\u00eancia da literatura\u2019 \u00e9 tamb\u00e9m sua grande pot\u00eancia, que permite fazer da linguagem um uso contr\u00e1rio ao <em>logos<\/em>, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o que visa a atrelar o saber \u00e0 raz\u00e3o. Esta concep\u00e7\u00e3o de literatura se aproxima em muito da psican\u00e1lise. Foi a descoberta, por Freud, de um saber inconsciente, que o levou a deslocar o predom\u00ednio da raz\u00e3o para \u2018outra cena\u2019, algo que se passava \u00e0 revelia da vontade do sujeito e que atendia a motiva\u00e7\u00f5es que lhe eram alheias, muitas vezes produzindo efeitos paradoxais, nem sempre prazerosos, o que permitiu a Freud desenvolver toda a teoria das puls\u00f5es e tamb\u00e9m considerar o desejo inextricavelmente relacionado a uma falta que n\u00e3o se extingue e impulsiona os interesses humanos.\u00a0 Essa descoberta \u00e9 insepar\u00e1vel do que constituiu para a psican\u00e1lise um esc\u00e2ndalo em rela\u00e7\u00e3o ao discurso corrente: a inadequa\u00e7\u00e3o do humano em rela\u00e7\u00e3o ao real do sexo, o que Lacan traduziu na express\u00e3o \u201ca rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe\u201d.<\/p>\n<p>Embora pare\u00e7a enigm\u00e1tica, o que esta frase designa \u00e9 o abismo que existe entre nossa condi\u00e7\u00e3o de seres de linguagem e a constitui\u00e7\u00e3o da sexualidade no humano. N\u00e3o h\u00e1 nada que estabele\u00e7a previamente para cada um o que seja um homem, o que seja uma mulher, ou como se dar\u00e1 o encontro com o corpo do outro. \u00c9 pela linguagem que tentamos estabelecer par\u00e2metros, mas os sinais que nos v\u00eam de nosso pr\u00f3prio corpo n\u00e3o encontram tradu\u00e7\u00e3o exata em nosso universo simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m essa inadequa\u00e7\u00e3o que o procedimento de Quignard desnuda. Sua defini\u00e7\u00e3o de literatura passa pelo esgar\u00e7amento desse furo, ao confrontar, atrav\u00e9s da ret\u00f3rica, o que a palavra alcan\u00e7a por fracassar, fisgando algo do corpo, que sempre escapa, contudo:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c(&#8230;) aquele que escreve \u00e9 um homem com o olhar suspenso, de corpo paralisado, as m\u00e3os estendidas em s\u00faplica na dire\u00e7\u00e3o das palavras que lhe escapam. Todos os nomes se mant\u00eam na ponta da l\u00edngua. A arte \u00e9 saber convoc\u00e1-los quando preciso e por uma causa que lhes revivifique os corpos min\u00fasculos e negros. A orelha, o olho e os dedos esperam em c\u00edrculo, como uma boca, essa palavra que o olhar busca ao mesmo tempo intensamente e em lugar nenhum, mais longe que o corpo, no fundo do ar. A m\u00e3o que escreve \u00e9 antes a m\u00e3o que vasculha a linguagem que falta, que tateia em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem sobrevivente, que se crispa, se irrita, que da ponta dos dedos a mendiga\u201d.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Quignard op\u00f5e a literatura \u00e0s falas cotidianas, \u201csem consequ\u00eancias vitais\u201d, que \u201cs\u00e3o como roupas que dissimulam, enquanto a linguagem liter\u00e1ria \u00e9 a l\u00edngua desnudada at\u00e9 o assombro\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> . A tarefa do escritor \u00e9 para ele a do retor (o ret\u00f3rico), que \u201cnunca demonstra: ele mostra; e o que mostra \u00e9 a janela aberta. Ele sabe que a linguagem abre a janela\u201d.\u00a0 Abre para o qu\u00ea? Para um saber poss\u00edvel atrav\u00e9s do que escapa, que permita fisgar algo da Coisa desde sempre perdida, do real do corpo em seu gozo, alusivamente, muitas vezes atrav\u00e9s de imagens constru\u00eddas pelo deslizar metaf\u00f3rico-meton\u00edmico das palavras, como neste belo trecho em que se conjugam <strong>bout<\/strong> (ponta); de<strong>bout<\/strong> (de p\u00e9); <strong>bout<\/strong>er (expulsar) e <strong>bout<\/strong>on (espinha), algo que a tradu\u00e7\u00e3o, infelizmente, n\u00e3o permite capturar:\u00a0 \u201cA agonia \u00e9 que a espinha brote na ponta do rosto. Os brotos nas \u00e1rvores s\u00e3o bot\u00f5es de flores. Os bot\u00f5es dos casacos s\u00e3o gemas de madrep\u00e9rola\u201d.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Sua busca se dirige a um \u2018antes\u2019 que, no entanto, n\u00e3o se define por uma progress\u00e3o cronol\u00f3gica, sucessiva (<em>Chronos<\/em>), mas pelo que ele denomina \u201c<em>l\u2019instant qui tombe \u00e0 pic<\/em>\u201d, o momento oportuno (<em>Kair\u00f3s<\/em>)<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. E para mostrar isto, Quignard se serve das imagens. Em <em>O sexo e o assombro<\/em>, a representa\u00e7\u00e3o pictural dos afrescos romanos \u00e9 descrita como representa\u00e7\u00e3o que condensa um \u201cinstante \u00e9tico\u201d do mito que ele denomina <em>augmentum<\/em>: o momento exatamente anterior \u00e0quele em que se produzir\u00e1 a cat\u00e1strofe tr\u00e1gica, momento anterior \u00e0quele em que se dar\u00e1 a passagem ao ato. Essa representa\u00e7\u00e3o aparece no v\u00eddeo em que que o autor l\u00ea seu texto enquanto a dan\u00e7arina de but\u00f4 Carlotta Ikeda representa o momento de desespero de Medeia, \u201ca olhar seus filhos, prestes a assassin\u00e1-los, mas ainda entrincheirada no sil\u00eancio que precede o acesso de loucura\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>A literatura de Quignard parece buscar o ponto de incid\u00eancia do \u2018acontecimento de corpo\u2019, momento em que o <em>infans<\/em>, ainda mergulhado em <em>lal\u00edngua<\/em>, mistura de sons variados que n\u00e3o fazem sentido especial, em determinado momento, inapreens\u00edvel como tal, por ser intraduz\u00edvel, mas que pode ser atingido por coalesc\u00eancia, por meio desse Kair\u00f3s, momento oportuno, que a literatura pode forjar, com esse momento em que a palavra, ainda sem sentido, fisgara o corpo, ali cristalizando algo que ao mesmo tempo se revelou traum\u00e1tico, um n\u00facleo de gozo opaco e irredut\u00edvel, produzido pelo encontro desse corpo com o parasita linguageiro. Nesse ponto se desenha o que da sexualidade no humano se d\u00e1 necessariamente como inadequado: uma sensa\u00e7\u00e3o no corpo se produz, mas a partir de um incorp\u00f3reo que, no entanto, comparece a\u00ed em sua materialidade (sonora, associada a algo da imagem, da cena vivida e depois constru\u00edda de outros modos, em diferentes momentos), o encontro do corpo com o osso da palavra.<\/p>\n<p>Algo que faz evocar parcialmente o modo como Walter Benjamin descreve a entrada da crian\u00e7a no uso das palavras: diante de \u201c(&#8230;) sons a serem explorados (&#8230;) como quem entra em cavernas, entre as quais cria caminhos estranhos\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>.\u00a0 \u00c9, de certo modo, o que encontramos em Quignard quando fala do \u201cnome na ponta da l\u00edngua\u201d, a artificialidade da linguagem, do parasita linguageiro que, no entanto, nos constitui:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c\u00c9 o desamparo pr\u00f3prio \u00e0 linguagem humana. \u00c9 o desamparo diante do que \u00e9 adquirido. O nome na ponta da l\u00edngua nos lembra que a linguagem n\u00e3o \u00e9 em n\u00f3s um ato reflexo. Que n\u00e3o somos animais que falam assim como veem. (&#8230;) Que uma palavra possa ser perdida, isto quer dizer: a l\u00edngua n\u00e3o somos n\u00f3s. Que a linguagem seja em n\u00f3s adquirida, significa que podemos conhecer seu abandono, que a totalidade da linguagem pode refluir para a ponta da l\u00edngua. Isto quer dizer que podemos reencontrar o est\u00e1bulo, ou a selva, ou o antes da inf\u00e2ncia ou a morte\u201d.<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Ao descrever esse desamparo inerente ao humano, Quignard nos revela tamb\u00e9m os fundamentos de sua escrita liter\u00e1ria, que parte da solid\u00e3o fundamental do ser humano na inadapta\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 inerente, numa busca que se sabe fracassada, mas reconhece nesse fracasso a possibilidade, bem-sucedida, de algo desse imposs\u00edvel que se deixa fisgar por uma conting\u00eancia.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Lacan, J. (1998 [1958]). \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d. In <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.621.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Quignard, P. (1995). <em>Rh\u00e9torique <\/em>sp\u00e9culative. Paris\u00a0: Gallimard, 1995. \u00ab\u00a0J&#8217;appelle rh\u00e9torique sp\u00e9culative la tradition lettr\u00e9e antiphilosophique qui court sur toute l&#8217;histoire occidentale d\u00e8s l&#8217;invention de la philosophie. J&#8217;en date l&#8217;av\u00e8nement th\u00e9orique \u00e0 Rome, en 139. Le th\u00e9oricien en fut Fronton. \u00a7 L&#8217;expression courante : &#8220;C&#8217;est un litt\u00e9raire&#8221; n&#8217;est pas une insulte. Elle est dot\u00e9e de sens. Elle renvoie \u00e0 une tradition ancienne, marginale, r\u00e9calcitrante, pers\u00e9cut\u00e9e, pour laquelle la lettre du langage doit \u00eatre prise \u00e0 la littera. \u00a7 Cette tradition oubli\u00e9e est la violence de la litt\u00e9rature\u00a0\u00bb.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Quignard, P. (1993). <em>Le mot sur le bout de la langue<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Cf. <em>O sexo e o assombro <\/em>(fr: 1994), conferir p\u00e1gina e termos da trad. Brasileira.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Quignard, P. (1993). <em>Le mot sur le bout de la langue<\/em>, <em>op.cit.<\/em>, p.12-13. \u201cL\u2019agonie est le bouton qu\u2019il boute contre le bout de leur visage. Les bourgeons sur les arbres sont des boutons de fleurs. Les boutons sur les manteaux sont des bourgeons de nacre.\u201d<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Cf. Irina De Herdt. (2009). \u00ab\u00a0Le\u00a0r\u00f4le du kairos\u00a0dans les &#8220;petits trait\u00e9s&#8221; de\u00a0Pascal Quignard\u00a0\u00bb. Dispon\u00edvel em periodicals.narr.de\/index.php\/Lendemains\/article\/viewFile\/&#8230;\/18.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Dispon\u00edvel em: \u00a0<a href=\"https:\/\/vimeo.com\/31846123\">https:\/\/vimeo.com\/31846123<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Cf. Gagnebin, J. M.\u00a0 (1997). <em>Sete aulas sobre linguagem, mem\u00f3ria e hist\u00f3ria<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, p.99.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Quignard, P. (1993). \u00ab\u00a0Petit trait\u00e9 sur M\u00e9duse\u00a0\u00bb. In <em>Le mot sur le bout de la langue<\/em>, <em>op.cit.<\/em>, p.59-60<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Teresinha N. Meirelles do Prado EBP\/AMP \u201cMuitas vezes, mais vale n\u00e3o compreender para pensar, e \u00e9 poss\u00edvel percorrer l\u00e9guas compreendendo sem que disso resulte o menor pensamento\u201d[1]. Pascal Quignard possui uma obra vasta. 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