{"id":4188,"date":"2019-10-14T07:30:35","date_gmt":"2019-10-14T10:30:35","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4188"},"modified":"2019-10-14T07:30:35","modified_gmt":"2019-10-14T10:30:35","slug":"platao-e-lacan-encontro-da-verdade-na-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/platao-e-lacan-encontro-da-verdade-na-solidao\/","title":{"rendered":"Plat\u00e3o e Lacan: encontro da verdade na solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4173\" aria-describedby=\"caption-attachment-4173\" style=\"width: 424px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4173\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/tracos007_004-1.png\" alt=\"Imagem: Instagram @yoriyas\" width=\"424\" height=\"275\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/tracos007_004-1.png 424w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/tracos007_004-1-300x195.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 424px) 100vw, 424px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4173\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @yoriyas<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>Maria Bernadette Soares de Sant\u00b4Ana Pitteri<br \/>\n<\/strong><strong>EBP\/AMP<\/strong><\/h6>\n<p>Solid\u00e3o, enquanto conceito, est\u00e1 mais para a filosofia (desde seus prim\u00f3rdios), do que para a psican\u00e1lise, embora queixas constantes n\u00e3o deixem de pulular nos consult\u00f3rios psicanal\u00edticos. Do que se queixa aquele que se diz solit\u00e1rio?<\/p>\n<p>Plat\u00e3o, na Academia, dedicava-se a estudar o homem inserido na p\u00f3lis, na cidade<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, sua moral, sua \u00e9tica, seus relacionamentos sociais, quest\u00f5es cruciais que culminam em <em>A Rep\u00fablica<\/em> (<em>Politeia<\/em>)<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, di\u00e1logo que faz a apologia de um governo que estaria muito longe da democracia, do regime ateniense como nenhum outro depois dele, per\u00edodo no qual viveram Plat\u00e3o (*428\/427 \u2013 +348\/347 a.C) seu mestre S\u00f3crates (* 469\/470 &#8211; +399) e seu disc\u00edpulo Arist\u00f3teles (*384 \u2013 +322) <a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p><em>A Rep\u00fablica<\/em> figura uma sociedade estratificada, com papeis claramente delimitados, onde cada cidad\u00e3o (ou pol\u00edtico como eram chamados, por viver na p\u00f3lis) teria um lugar. Plat\u00e3o n\u00e3o deixa muito claro, no di\u00e1logo, se haveria fixidez de tais lugares, a n\u00e3o ser no caso dos guardi\u00e3es treinados desde muito cedo para a defesa da polis, sem distin\u00e7\u00e3o de sexo e que deveriam casar-se entre si.<\/p>\n<p>A tentativa de encontrar uma defini\u00e7\u00e3o para\u00a0o conceito de \u201cj<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Justi%C3%A7a\">usti\u00e7a<\/a>\u201d d\u00e1 in\u00edcio ao di\u00e1logo, que desenvolve um paralelo entre ser humano e polis, colocando ao lado de tr\u00eas faculdades da alma humana (apetitiva, irasc\u00edvel e racional), tr\u00eas classes de cidad\u00e3os (comerciantes, guerreiros \u2013 guardi\u00e3es \u2013 e governantes &#8211; os fil\u00f3sofos), o que \u00e9 colocado como essencial ao bom governo da cidade. Trata-se de uma proposta de harmonia entre as diferentes faculdades da alma e das diferentes classes propostas para a p\u00f3lis. H\u00e1 que se notar que indiv\u00edduo e estado devem dirigir-se aos aspectos racionais como orientadores de suas a\u00e7\u00f5es. Fazendo uso da argumenta\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica, Plat\u00e3o tenta apreender a realidade \u00e0 luz de posi\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias, na busca da verdade.<\/p>\n<p>A proposta de <em>A Rep\u00fablica<\/em> \u00e9 a de uma ascese espiritual que, partindo do mundo emp\u00edrico em dire\u00e7\u00e3o ao mundo racional, permitiria a possibilidade de vislumbrar a Verdade, mas n\u00e3o de falar a respeito dela. Interessante que o paralelo sup\u00f5e algo a mais, tanto para a p\u00f3lis \u2013 que dever\u00e1 alcan\u00e7ar a justi\u00e7a \u2013 quanto para o indiv\u00edduo que, no auge da racionalidade poder\u00e1 dar o salto em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Verdade. No lugar onde se aloja a Verdade, a dial\u00e9tica n\u00e3o tem mais serventia, n\u00e3o h\u00e1 mais linguagem, apenas contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo que contemplar a Verdade (o que seria dado a poucos), num movimento claramente m\u00edstico (de pura contempla\u00e7\u00e3o) \u00e9 o fil\u00f3sofo, que dever\u00e1 ser o governante da polis (rei-fil\u00f3sofo), mesmo que n\u00e3o o queira, ou melhor, exatamente por que n\u00e3o o quer. Este ser\u00e1 o mais apto para elaborar as leis, n\u00e3o que as mesmas sejam perfeitas, visto que dever\u00e3o converter-se em palavras, o que de imediato afasta da verdade pura.<\/p>\n<p>Necess\u00e1rio fazer aqui uma distin\u00e7\u00e3o: ao indiv\u00edduo ser\u00e1 permitido alcan\u00e7ar a verdade na solid\u00e3o, mas n\u00e3o no isolamento<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, ele deve continuar inserido na p\u00f3lis. A alegoria da Caverna, veiculada neste di\u00e1logo, ser\u00e1 exemplo de busca e encontro da Verdade.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 abusivo pensar aqui em Lacan, quando em <em>Televis\u00e3o<\/em> diz \u201cdigo sempre a verdade, n\u00e3o-toda, porque diz\u00ea-la toda \u00e9 imposs\u00edvel, faltam palavras\u201d.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 solid\u00e3o da Verdade: como alcan\u00e7\u00e1-la, de qual ascese fazer uso? No caso da filosofia plat\u00f4nica h\u00e1 uma Verdade a ser contemplada na mais absoluta solid\u00e3o, que dever\u00e1 servir como ponto ideal para o governo dos cidad\u00e3os\/pol\u00edticos, dos habitantes da p\u00f3lis.<\/p>\n<p>No caso de Lacan vemos claramente a insufici\u00eancia da linguagem para dar conta da Verdade, sempre n\u00e3o-toda e, se quem fala, \u201cs\u00f3 tem a ver com a solid\u00e3o (&#8230;)\u201d,\u00a0 \u201c(&#8230;) essa solid\u00e3o de ruptura de saber, n\u00e3o somente ela pode se escrever, mas ela \u00e9 mesmo o que escreve por excel\u00eancia (&#8230;)\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>No entanto a psican\u00e1lise se v\u00ea \u00e0s voltas com a linguagem, \u00e9 seu instrumento. O sujeito do inconsciente (transferencial) constitui-se ao mesmo tempo que o Outro, o que faz com que nunca esteja s\u00f3. A companhia do Outro provoca inc\u00f4modo no neur\u00f3tico, que tenta se liberar, deixar de lado a companhia constante deste Outro alienante. H\u00e1 uma \u201cdoa\u00e7\u00e3o de sentido atrav\u00e9s da elucubra\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>, que acompanha o sujeito em sua vida, quer dizer, a fantasia sustenta o sujeito, dando a ele a ilus\u00e3o de que est\u00e1 s\u00f3.<\/p>\n<p>H\u00e1 necessidade do Outro para o sujeito existir, mas este \u00e9 um engodo e o sujeito \u00e9 o tolo do significante, tolo da linguagem, tolo do Outro.<\/p>\n<p>O Outro n\u00e3o existe, diz Lacan, e tal constata\u00e7\u00e3o s\u00f3 ocorre depois de uma an\u00e1lise conduzida at\u00e9 seu final, o que deixa o sujeito s\u00f3, frente ao peda\u00e7o de real opaco, do <em>sinthoma<\/em>, momento de \u201cdestitui\u00e7\u00e3o subjetiva\u201d, de separa\u00e7\u00e3o do Outro, ato que \u00e9 sem o Outro e deixa na solid\u00e3o quem o faz. Momento de entrada em jogo do Inconsciente Real, do \u201c<em>esp d\u00b4un laps<\/em>\u201d. Mas a partir da\u00ed se pode estabelecer um novo la\u00e7o com o Outro, estando advertido de sua inexist\u00eancia.<\/p>\n<p>No ato de Funda\u00e7\u00e3o da Escola, Lacan diz estar \u201cs\u00f3, como sempre estive, diante da causa anal\u00edtica\u201d, solid\u00e3o fundadora que se escreve a partir de um ato, que se faz sem o Outro e que, portanto, dessubjetiva, pura solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 poss\u00edvel pensar tamb\u00e9m na solid\u00e3o insuport\u00e1vel do recha\u00e7o do Outro. Solid\u00e3o da loucura. O louco \u00e9 livre, porque n\u00e3o precisa do Outro. Seria louco por que vislumbra a Verdade? A Verdade de que n\u00e3o existe o Outro, o que o remete \u00e0 absoluta liberdade?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Para os antigos gregos do per\u00edodo democr\u00e1tico, n\u00e3o parecia pens\u00e1vel a ideia de viver em isolamento.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Uma das mais complexas obras de Plat\u00e3o.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Percebe-se a cr\u00edtica acirrada \u00e0 democracia pelos fil\u00f3sofos, principalmente \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o crescente na polis. A democracia \u00e9 um regime que exige constante discuss\u00e3o e conversa\u00e7\u00f5es, pois tende a se autodestruir, a se fagocitar.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Arist\u00f3teles dir\u00e1 que o isolamento n\u00e3o \u00e9 coisa de humanos, mas de animais ou deuses.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, Livro 20, mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 163.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Miller, J-A, O Real no S\u00e9culo XXI, site da AMP \u2013 portugu\u00eas.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Bernadette Soares de Sant\u00b4Ana Pitteri EBP\/AMP Solid\u00e3o, enquanto conceito, est\u00e1 mais para a filosofia (desde seus prim\u00f3rdios), do que para a psican\u00e1lise, embora queixas constantes n\u00e3o deixem de pulular nos consult\u00f3rios psicanal\u00edticos. Do que se queixa aquele que se diz solit\u00e1rio? 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