{"id":4131,"date":"2019-10-07T06:54:21","date_gmt":"2019-10-07T09:54:21","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4131"},"modified":"2019-10-07T06:54:21","modified_gmt":"2019-10-07T09:54:21","slug":"a-solidao-de-um-ato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-solidao-de-um-ato\/","title":{"rendered":"A solid\u00e3o de um ato"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4120\" aria-describedby=\"caption-attachment-4120\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4120\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/tracos_006_003-300x168.png\" alt=\"Imagem: variety.com\" width=\"300\" height=\"168\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4120\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: variety.com<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>Por Patricia Badari<br \/>\n<\/strong><strong>EBP\/AMP<\/strong><\/h6>\n<p>Era uma vez&#8230; Era uma vez&#8230; Era uma vez&#8230; Durante mil e uma noites. Assim, um reino da lenda persa, saiu de sua maldi\u00e7\u00e3o. Aquela que poderia ter sido mais uma esposa a ser morta ap\u00f3s a noite de n\u00fapcias, toma a palavra e o rei Shariar deixa-se iludir; se encanta com as hist\u00f3rias de Sherazade, essa que toca algo da causa de seu desejo e lhe abre a possibilidade de escolher uma outra sa\u00edda para si e para seu reino.<\/p>\n<p>E o jovem rapaz, personagem do filme <em>Sh\u00e9h\u00e9razade<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>,<\/em> ir\u00e1 em dire\u00e7\u00e3o ao destino muitas vezes anunciado, amaldi\u00e7oado e selado para os jovens das periferias das cidades ou escolher\u00e1 outra sa\u00edda, mesmo que prec\u00e1ria e\/ou tempor\u00e1ria?<\/p>\n<p>O filme inicia-se com um jovem saindo da pris\u00e3o. A m\u00e3e, envolta com suas pr\u00f3prias impossibilidades, n\u00e3o p\u00f4de estar ali para receb\u00ea-lo e um abrigo \u00e9 o que lhe \u00e9 ofertado pela assistente social. Ele foge imediatamente e sai pelas ruas da periferia de Marselha, lugar dos imigrantes que ali chegaram e onde cresceu &#8211; sua refer\u00eancia para tentar encontrar um lugar, um ponto de apoio.<\/p>\n<p>O chefe da turma de amigos de outrora, tamb\u00e9m, n\u00e3o poder\u00e1 acolh\u00ea-lo, pois levaria a pol\u00edcia at\u00e9 eles. O melhor amigo, em sua precariedade, tentar\u00e1. Leva-o para fumar haxixe e para escolher uma das meninas adolescentes das ruas para transar, j\u00e1 que estava saindo da pris\u00e3o.<\/p>\n<p>E \u00e9, justamente, nestas ruas da periferia que encontra e elege seu ponto de apoio &#8211; Sh\u00e9h\u00e9razade, jovem garota que se prostitui e que em um tempo anterior j\u00e1 havia fisgado algo da causa do desejo deste jovem. Ela \u00e9 \u201cdura na queda\u201d, mas \u201cn\u00e3o-toda\u201d. Com suas palavras e hist\u00f3rias por \u201cmil e uma noites\u201d, lhe indica um caminho para enla\u00e7ar a puls\u00e3o e a identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cafet\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o que este jovem rapaz inventa para tentar cifrar a rela\u00e7\u00e3o sexual, que n\u00e3o existe; para circunscrever algo do real ao qual \u00e9 confrontado. Um semblante f\u00e1lico do qual se serve, ali onde o vazio da inexist\u00eancia do Outro se faz presente. Com este semblante se virar\u00e1 nas ruas, ter\u00e1 um lugar perante o grupo de velhos amigos e lhe servir\u00e1 para reconfigurar seu gozo e servir-se desta menina-mulher. Mas n\u00e3o bastar\u00e1 para sempre.<\/p>\n<p>Um novo impasse surge. Seu melhor amigo quer transar com Sh\u00e9h\u00e9razade e ela n\u00e3o consente. E ele, enquanto cafet\u00e3o, proteger\u00e1 sua puta? Uma puta tem o direito de aceitar ou n\u00e3o alguns clientes. Ela \u00e9 uma prostituta para ele? Ou mulher-menina sintoma? Ela o convoca enquanto homem e n\u00e3o como cafet\u00e3o? O que sou para voc\u00ea? Ele insistir\u00e1 no rebaixamento do valor er\u00f3tico do que ro\u00e7a o seu desejo?<\/p>\n<p>Este jovem titubeia, nem cafet\u00e3o, nem menino-homem para ela &#8211; procrastina sua decis\u00e3o e o estupro \u00e9 consumado. E agora meu jovem rapaz?<\/p>\n<p>Na exig\u00eancia por uma decis\u00e3o, insiste na sa\u00edda f\u00e1lica. Do lugar de cafet\u00e3o desrespeitado e de macho ferido faz um ato tresloucado: atira no amigo que estuprou sua garota. Mas, se cafet\u00e3o e macho emolduram o que se v\u00ea, vale dizer que s\u00e3o apenas duas das variedades da representa\u00e7\u00e3o, que ser\u00e1 sempre parcial. Novamente algo que diz de seu encontro com o sexo, retira seu desejo da calmaria e lhe exige um mais al\u00e9m das representa\u00e7\u00f5es que eram dadas. Um encontro com o real \u00e9 sempre pass\u00edvel de existir e a cada vez \u00e9 preciso saber fazer com ele.<\/p>\n<p>Haver\u00e1 outra significa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel? Um S1 singular poder\u00e1 advir e lhe deixar aberta a via do desejo? Ele testemunhar\u00e1 que foi um estupro ou seguir\u00e1 no pacto silencioso com a puls\u00e3o de morte, como tantos outros jovens das periferias das cidades, aos quais muitas vezes s\u00f3 resta irem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 morte precocemente?<\/p>\n<p>Sua m\u00e3e demanda seu sil\u00eancio, que tudo continue como sempre esteve. Estas s\u00e3o as regras de sobreviv\u00eancia. No entanto, ele sair\u00e1 do lugar de falo imagin\u00e1rio da m\u00e3e. M\u00e3e e puta s\u00e3o significantes<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> que podem se equivaler ou serem disjuntos, mas tanto um quanto outro n\u00e3o respondem ao impasse sobre como gozar de uma mulher. N\u00e3o se trata de salvar a m\u00e3e e tampouco salvar uma mulher. \u201c(&#8230;) para o homem, a menos que haja castra\u00e7\u00e3o, quer dizer, alguma coisa que diga n\u00e3o \u00e0 fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma chance de que ele goze do corpo da mulher, ou dito de outro modo, de que ele fa\u00e7a amor\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>A solid\u00e3o de um ato lhe \u00e9 requerida. O ato da palavra, onde um sujeito pode advir. E ele o faz. Acede \u00e0 sua pr\u00f3pria palavra que pode lhe servir como um ponto de apoio e orienta\u00e7\u00e3o singular para uma posi\u00e7\u00e3o de desejo, a partir da qual poder\u00e1 bascular suas escolhas.<\/p>\n<p>Ele testemunha que foi um estupro e se responsabiliza pelas consequ\u00eancias que da\u00ed adv\u00e9m. Vai preso novamente, pois atirou em uma pessoa, o amigo estuprador.<\/p>\n<p>No entanto, este rapaz, com seu ato de \u201cpalavra de amor\u201d deixou entrever \u201cum nome pr\u00f3prio ao <em>a<\/em>\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, algo do objeto <em>a<\/em> encontrado naquela garota \u2013 a causa de seu desejo.<\/p>\n<p>Zach, Zachary \u00e9 o nome deste jovem-menino-homem, que por ora p\u00f4de dar um outro destino \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o que assolava sua vida. Um sopro de vida. A solid\u00e3o de um ato \u201cque alivia da vida, sem aliviar de viver<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Zachary seguir\u00e1 com sua solid\u00e3o subjetiva, mas n\u00e3o sem o la\u00e7o com esta tamb\u00e9m menina- garota- mulher Sh\u00e9h\u00e9razade!<\/p>\n<p>Se na lenda persa um homem e um povo p\u00f4de ter outro destino, por que n\u00e3o o <em>falasser<\/em>? Eis a aposta! \u00c0 cada um, seu era uma vez. Uma exist\u00eancia com nome e com um discurso. Fic\u00e7\u00f5es, semblantes, objeto <em>a<\/em>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> MARLIN, J.-B. <em>Sh\u00e9h\u00e9razade<\/em>. Filme. Fran\u00e7a. 2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> MILLER, J.-A. \u201cUma conversa sobre o amor\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana online. N. 2, p. 11.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> LACAN, J. <em>Semin\u00e1rio, livro<\/em> 20, <em>mais, ainda. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar. p. 97.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> MILLER, J-A. \u201cO amor entre repeti\u00e7\u00e3o e inven\u00e7\u00e3o\u201d. Ibid. p. 16.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> PESSOA, F. <em>Livro do desassossego. <\/em>S\u00e3o Paulo: Companhia das letras.\u00a0 2003, p. 53.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Patricia Badari EBP\/AMP Era uma vez&#8230; Era uma vez&#8230; Era uma vez&#8230; Durante mil e uma noites. 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