{"id":4129,"date":"2019-10-07T06:53:10","date_gmt":"2019-10-07T09:53:10","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4129"},"modified":"2019-10-07T06:53:10","modified_gmt":"2019-10-07T09:53:10","slug":"o-koan-e-a-solidao-do-sinthoma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-koan-e-a-solidao-do-sinthoma\/","title":{"rendered":"O Koan e a solid\u00e3o do Sinthoma"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4121\" aria-describedby=\"caption-attachment-4121\" style=\"width: 217px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4121\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/tracos_006_004-217x300.png\" alt=\"Imagem: koan. MoMa\" width=\"217\" height=\"300\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4121\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: koan. MoMa<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>Por<\/strong> <strong>F\u00e1tima Pinheiro<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>EBP\/AMP<\/strong><\/h6>\n<p>A psican\u00e1lise \u00e9 uma pr\u00e1tica que implica um modo inovador de habitar a linguagem. Lacan aponta que a dire\u00e7\u00e3o da cura requer que o analista se oriente rumo \u00e0 poesia, ao situar a interpreta\u00e7\u00e3o como po\u00e9tica, tendo como efeito o despertar. Na aula de 19 de abril de 1977, Lacan<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> diz: \u201cSe voc\u00eas s\u00e3o analistas, ver\u00e3o que \u00e9 o for\u00e7amento por onde um psicanalista pode fazer soar outra coisa que o sentido. O sentido \u00e9 o que ressoa com a ajuda do significante, mas o que ressoa, isso n\u00e3o vai longe, \u00e9 mais frouxo. O sentido, este obstrui. No entanto, com a ajuda do que se chama escritura po\u00e9tica, voc\u00eas podem ter a dimens\u00e3o do que poderia ser a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica&#8221;. Tr\u00eas dias ap\u00f3s esta aula, Lacan escreve a Fran\u00e7ois Cheng, em carta datada de 22 de abril de 1977: \u201cDestaquei o seu livro em meu \u00faltimo semin\u00e1rio, dizendo que a interpreta\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, o que deve fazer o analista \u2013 deve ser po\u00e9tica\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. O interesse de Lacan pelo pensamento, l\u00edngua e arte chinesa, \u00e9 elucidado por Fran\u00e7ois Cheng (2007), que acompanhou Lacan no in\u00edcio dos anos setenta, percorrendo esses campos. Cheng estudou, junto com Lacan, os textos em sua escritura original, detalhe por detalhe, numa busca tenaz de investiga\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas chinesas significantes. O que surpreendeu Lacan foi a no\u00e7\u00e3o de vazio-mediano, fundamental para o tao\u00edsmo, e que se equipara ao n\u00famero tr\u00eas. Essa no\u00e7\u00e3o transcende a oposi\u00e7\u00e3o do <em>Yin<\/em> e <em>Yang<\/em> (de dois elementos) da sabedoria chim, e interessa a Lacan, especialmente pelo fato de articular o vazio. O vazio mediano \u00e9 uma esp\u00e9cie de litoral<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, separador de dois campos, que n\u00e3o tem como se manterem unidos, e como se misturarem. O que chamou aten\u00e7\u00e3o de Lacan e o fez deter-se mais expressivamente no vazio-mediano, \u00e9 a maneira como a poesia chinesa lida com as met\u00e1foras. Na raz\u00e3o chinesa, a met\u00e1fora e a meton\u00edmia n\u00e3o se op\u00f5em, elas se originam uma da outra, como observa Cheng<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Esse interesse de Lacan pelo taoismo, o fez tamb\u00e9m se voltar para a pr\u00e1tica Zen, considerada por ele o que h\u00e1 de melhor no budismo, que implica na ren\u00fancia ao pr\u00f3prio pensamento. Esta pr\u00e1tica Zen, a qual Lacan aproxima da pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, no que concerne \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o, consiste como disse: \u201cEm te responder com um mugido<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>, e isso \u00e9 o que h\u00e1 de melhor quando se quer naturalmente sair desse neg\u00f3cio infernal, como dizia Freud\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. Este \u00e9 o ponto que separa a po\u00e9tica, o mugido, a quebra de sentido \u2013 da lingu\u00edstica, considerada por Lacan como uma ci\u00eancia mal orientada. \u00c9 a po\u00e9tica que permite a Lacan situar o lugar e a fun\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, em que se situa a maneira de falar <em>lal\u00edngua<\/em> do corpo. \u00c9 a po\u00e9tica que instiga a uma ruptura na cadeia infernal do encadeamento significante, \u00e9 ela que permite fazer com que o sujeito possa se desfazer do assujeitamento aos significantes mestres e isolar os significantes assem\u00e2nticos moldados pelo impacto de <em>lal\u00edngua<\/em>. Os significantes assem\u00e2nticos s\u00e3o produto de encontros contingentes, no curso da vida, entre um dizer e um corpo. As marcas produzidas por esse encontro n\u00e3o se referem aos significados ca\u00eddos sob a barra do recalque, nem \u00e0s representa\u00e7\u00f5es inconscientes a serem decifradas, mas aos significantes separados da cadeia, significantes primeiros sedimentados por <em>lal\u00edngua<\/em> e abertos \u00e0s modalidades de gozo. Uns-sozinhos, solit\u00e1rios e fora de sentido, que se recusam a serem capturados nas cadeias significantes: <em>un aboiement, <\/em>como mostra Lacan, jogando com o equ\u00edvoco e o corte na interpreta\u00e7\u00e3o. Por <em>lal\u00edngua <\/em>ser constitu\u00edda de \u201caluvi\u00f5es em que se acumulam os mal-entendidos\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>, ela se abre para o equ\u00edvoco, possibilitando que a interpreta\u00e7\u00e3o fa\u00e7a ressoar (<em>r\u00e9son<\/em>) algo do significante, em sua dimens\u00e3o fora do sentido, que afeta o corpo.<\/p>\n<p>H\u00e1 na pr\u00e1tica Zen, no tocante ao que a faz \u201czombar\u201d da significa\u00e7\u00e3o, uma sabedoria, ou seja, um saber-fazer com o gozo e o sentido, que foi evidenciado por Cleyton Andrade<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>, ao se utilizar do paradoxo do <em>Koan<\/em>. O \u201c<em>aboiement<\/em>\u201d, o mugido, \u00e9 um <em>Koan<\/em>, e ele se apresenta, n\u00e3o como um outro significante que vem dar sequ\u00eancia \u00e0 cadeia significante, ou como mais um significado ou sentido que contribua para o ciclo infernal e poliss\u00eamico da linguagem. O <em>Koan<\/em> \u00e9 o corte, a interrup\u00e7\u00e3o da cadeia poliss\u00eamica, \u00e9 a via que se dirige para o confronto direto com o gozo e a puls\u00e3o. Contudo, o <em>Koan<\/em> n\u00e3o se dirige para a absurdez, e sim para a isen\u00e7\u00e3o de sentido. Roland Barthes<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a> marca esta diferen\u00e7a com precis\u00e3o: \u201ca isen\u00e7\u00e3o de sentido \u00e9 um estado de sentido infinitamente mais dif\u00edcil de realizar, \u00e9 uma esp\u00e9cie de vazio de sentido, ou melhor, o sentido lido como vazio, o que n\u00e3o \u00e9 o caso do absurdo\u201d. Portanto, o que est\u00e1 em jogo no <em>Koan<\/em> (\u201cenigma quase insol\u00favel\u201d, em japon\u00eas) \u00e9 o vazio de sentido. O <em>Koan <\/em>traz em si uma contradi\u00e7\u00e3o: diz o que n\u00e3o \u00e9. O <em>Koan<\/em> apresenta a solid\u00e3o de uma palavra \u00e0 solid\u00e3o de outra palavra<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>O praticante desta arte tem como princ\u00edpio abdicar de todo o saber pr\u00e9vio, assim como transcender os limites do dualismo l\u00f3gico, ao despertar um processo que permite ao praticante uma vis\u00e3o do aut\u00eantico funcionamento das coisas. O <em>Koan <\/em>pode ser equiparado a um rel\u00e2mpago, ao fazer surgir o <em>Satori<\/em> (a ilumina\u00e7\u00e3o) que \u00e9 a raz\u00e3o de ser do Zen, e sem a conquista do <em>Satori<\/em>, provocado pelo <em>Koan,<\/em> n\u00e3o se pode aceder ao Zen. O <em>Koan<\/em>, ao quebrar o sentido, tem como efeito provocar a ilumina\u00e7\u00e3o e o despertar da vida. Na experi\u00eancia da an\u00e1lise, a interpreta\u00e7\u00e3o tem a fun\u00e7\u00e3o do despertar, de levar o sujeito a se defrontar com o primado do Um, mais al\u00e9m do inconsciente, at\u00e9 ao <em>une-b\u00e9vue<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\"><strong>[11]<\/strong><\/a><\/em> que o funda, fazendo escavar nele o vazio do <em>Koan<\/em>, o Um sozinho que reitera em seu <em>sinthoma<\/em>. O <em>Koan<\/em> permite, portanto, uma leitura diferente daquela do significante, e no exerc\u00edcio di\u00e1rio de minha escrita, experimento a partir de sua pr\u00e1tica, algo novo que me faz habitar a linguagem, a psican\u00e1lise, e a vida como poeta.<\/p>\n<p><em>feminino o\u00e1sis<\/em><\/p>\n<p><em>para acender o balaio de siris<\/em><\/p>\n<p><em>a n\u00e9voa lavanda da \u00e1gua<\/em><\/p>\n<p><em>salta no herb\u00e1rio de cinzas<\/em><\/p>\n<p><em>da rocha v\u00edtrea mar\u00e9 sem colo<\/em><\/p>\n<p><em>quebra-mar de ala\u00fades a ver navios<\/em><\/p>\n<p><em>na selva fugaz de tua boca<\/em><\/p>\n<p><em>s\u00f3 o vigor velado do dia<\/em><\/p>\n<p><em>saber\u00e1 de quantas luas eu <\/em><\/p>\n<p><em>vou acender at\u00e9 amanh\u00e3 de manh\u00e3<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\"><strong>[12]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><em><a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\"><\/a><\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Lacan-Semin\u00e1rio 24- in\u00e9dito<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Cheng, F. Lacan: el escrito, la imagem. Buenos Aires: Ediciones del Cifrado, \u00a02007, p.169.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Laurent, E. A carta roubada e o voo da letra. Correio, S\u00e3o Paulo, n.65, abril de 2010, p.83.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Ibidem, p.53.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> No lugar da palavra \u201cmugido\u201d, da tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas, pode ser encontrada a vers\u00e3o em franc\u00eas \u201c<em>aboiement<\/em>\u201d, que quer dizer \u201clatido\u201d, de acordo com Cleyton Sidney de Andrade em seu texto \u201cO analista e o mestre Zen\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Lacan, J. Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar Ed, 2007, p.157.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Miller, J. A. O mon\u00f3logo de <em>apparola<\/em>. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 23. On line: www.opcaolacaniana.com.br<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Andrade, C. O analista e o mestre Zen: http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/pdf\/rel\/v1n2\/v1n2a16.pdfhttp:\/\/pepsic.bvsalud.org\/pdf\/rel\/v1n2\/v1n2a16.pd<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Barthes, R. (2004) In\u00e9ditos, I: teoria. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, p.117.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Excerto de Fernando Jos\u00e9 Karl em sua Oficina da Palavra Selvagem para o VII Encontro Catarinense de Escritores\/ setembro de 2019.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> <a href=\"http:\/\/www.radiolacan.com\/pt\/topic\/219\/2\">http:\/\/www.radiolacan.com\/pt\/topic\/219\/2<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> <em>Koan <\/em>de autoria de F\u00e1tima Pinheiro.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por F\u00e1tima Pinheiro EBP\/AMP A psican\u00e1lise \u00e9 uma pr\u00e1tica que implica um modo inovador de habitar a linguagem. Lacan aponta que a dire\u00e7\u00e3o da cura requer que o analista se oriente rumo \u00e0 poesia, ao situar a interpreta\u00e7\u00e3o como po\u00e9tica, tendo como efeito o despertar. 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