{"id":4080,"date":"2019-09-09T14:49:53","date_gmt":"2019-09-09T17:49:53","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4080"},"modified":"2019-09-09T14:49:53","modified_gmt":"2019-09-09T17:49:53","slug":"recusa-do-nao-lugar-a-construcao-de-uma-solidao-fecunda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/recusa-do-nao-lugar-a-construcao-de-uma-solidao-fecunda\/","title":{"rendered":"Recusa do n\u00e3o-lugar: a constru\u00e7\u00e3o de uma solid\u00e3o fecunda"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4064\" aria-describedby=\"caption-attachment-4064\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4064\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/tracos_005_002-1.png\" alt=\"Duane Michals Em: dcmooregallery.com\" width=\"400\" height=\"305\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/tracos_005_002-1.png 666w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/tracos_005_002-1-300x229.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4064\" class=\"wp-caption-text\">Duane Michals Em: dcmooregallery.com<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>Bianca Coutinho Dias<br \/>\n<\/strong><strong>(Psicanalista e cr\u00edtica de arte)<\/strong><\/h6>\n<p>Juliano Garcia Pessanha \u00e9 um escritor \u00e0 margem de qualquer classifica\u00e7\u00e3o, que mistura di\u00e1rios, teoria liter\u00e1ria, filosofia, poesia e todo o embara\u00e7o de uma escrita assombrada. Escreveu livros que s\u00e3o puro desenraizamento, esp\u00e9cie de despertencimento radical, com uma escrita brilhante, feita com o pr\u00f3prio corpo \u00e0 beira do abismo.<\/p>\n<p>Ocorre que em \u201cRecusa do n\u00e3o-lugar\u201d, Juliano Pessanha resolveu \u201cdignificar o abismo\u201d e emprestar-lhe consequ\u00eancia mundana: neste seu \u00faltimo livro encontrei uma preciosa elabora\u00e7\u00e3o sobre a solid\u00e3o, mais precisamente sobre a ideia de \u201csolid\u00e3o fecunda\u201d que aparece na contribui\u00e7\u00e3o de Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse para esta jornada.<\/p>\n<p>Pessanha inicia o livro dedicando-o \u00e0s goteiras e rachaduras que escancaram a urg\u00eancia. E aquilo que se apresenta como urgente \u00e9 vivido tamb\u00e9m em seu pr\u00f3prio corpo e na rela\u00e7\u00e3o com o outro de forma violenta: a quest\u00e3o central de sua escrita \u00e9 a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, o fato de n\u00e3o existir um outro que possa completar o buraco onde se instala a linguagem. Resta ent\u00e3o inventar esse outro da linguagem, falar, escrever, recusar o isolamento e o n\u00e3o-lugar, uma atopia que at\u00e9 ent\u00e3o havia lhe causado algo da ordem da devasta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele localiza com acuidade sua prematuridade de ser humano que foi lan\u00e7ado ao mundo numa condi\u00e7\u00e3o de desamparo mas, agora, n\u00e3o mais inebriado pelo negativo, sua escrita ir\u00e1 operar um efeito de corte e, assim, como Lacan exp\u00f5e no Semin\u00e1rio 11, a linguagem estar\u00e1 ent\u00e3o a servi\u00e7o para tratar algo, tanto da aliena\u00e7\u00e3o, quanto da separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da atopia decidida \u00e0 passagem tr\u00eamula e \u00e0 iman\u00eancia do mundo, Juliano Pessanha desenha uma nova rela\u00e7\u00e3o com a teoria, com a escrita e com a vida, emprestando a pr\u00f3pria carne viva para tal exerc\u00edcio, fazendo desta uma possibilidade de ir do fora ao dentro e, com isso, atingir o osso da exist\u00eancia: da exclus\u00e3o \u00e0 inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Se antes assumia o lugar de algu\u00e9m que foi jogado para fora e a\u00ed deveria permanecer, agora ele decide investigar e perscrutar o caminho de uma intimidade nova \u2013 transi\u00e7\u00e3o do fora ao dentro \u2013 que d\u00e1 novos tons \u00e0 sua literatura testemunhal.<\/p>\n<p>A escrita continua pura incandesc\u00eancia, mas agora borrada por experi\u00eancias radicais no corpo, \u00e0s quais Pessanha responde de maneira completamente nova: ao inv\u00e9s de sustentar o antigo estado de atrofia e enfermidade, ele decide \u201catravessar a parede embolorada de seu primeiro endere\u00e7o\u201d, decide perfurar o caminho da negatividade que havia percorrido at\u00e9 ent\u00e3o e sair de um estado por ele nomeado de \u201cum p\u00e2nico est\u00e9ril\u201d.<\/p>\n<p>O estopim para o giro te\u00f3rico do escritor foi o encontro com Peter Sloterdijk, o pensador dos interiores que lhe permitiu se apropriar de algo no mundo, de um lugar onde foi poss\u00edvel retirar-se da plena suspens\u00e3o na perplexidade e do espa\u00e7o do desastre, e misturar-se ao mundo num processo de enraizamento e alguma conforma\u00e7\u00e3o, caminhar do isolamento \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o de uma solid\u00e3o onde algo do outro pode se incluir, onde um la\u00e7o poss\u00edvel se esbo\u00e7a.<\/p>\n<p>Na medida em que, como assinala Juliano Pessanha, quem tem uma rela\u00e7\u00e3o com a arte est\u00e1 mais tocado pela desapari\u00e7\u00e3o e pelo tremor que pela estabilidade, \u201cRecusa do n\u00e3o-lugar\u201d foi, a mim, um exerc\u00edcio de leitura e cr\u00edtica no sentido mais agudo. E \u2013 como uma leitora de Lacan que procura sustentar a palavra po\u00e9tica num limiar entre o sil\u00eancio e a letra \u2013 fincar os p\u00e9s em busca de um solo est\u00e1vel, e n\u00e3o movedi\u00e7o, foi tarefa das mais dif\u00edceis, um encontro com a alteridade onde ela interroga sobre uma radicalidade da singularidade.<\/p>\n<p>Juliano Pessanha encontrou um novo modo de fazer diante do seu intenso \u201cdesajuste de d\u00e1divas\u201d e, se a m\u00e3e era, nas suas palavras, \u201cum riacho clandestino que ele avistou de longe\u201d lan\u00e7ando-o \u00e0 l\u00edngua da atopia extrema com sua \u201cm\u00e3o cega e fria\u201d, e seu pai \u201cpagou uma viagem s\u00f3 de ida para fora do mundo\u201d, sem ancestrais e sem descendentes, foi ele mesmo quem agora decidira brotar e nascer para dentro: buscar alguma origem que o realocasse na exist\u00eancia, numa esp\u00e9cie de ontologia do \u00edntimo, um mergulho menos aterrador nas \u00e1guas do dentro, embora tenha que entrever aqui uma disson\u00e2ncia fundamental em nossas maneiras de enxergar e ler a rela\u00e7\u00e3o dentro-fora pois, para Lacan, estas duas dimens\u00f5es se embaralham numa l\u00f3gica menos estanque. Num certo sentido, podemos pensar a id\u00e9ia de extimidade como o correlato freudiano do conceito de \u201cUnheimlich\u201d: o estranhamente familiar, o familiarmente estranho. Do mesmo modo, podemos dizer que a topologia que Lacan prop\u00f5e para a extimidade \u00e9 hom\u00f3loga a essa. Aquilo que \u00e9 mais exterior e, no entanto, mais interior; que est\u00e1 mais longe e, contudo, mais perto; que \u00e9 mais estranho e ao mesmo tempo mais familiar, d\u00e1-nos uma mostra do que est\u00e1 em jogo na complexa rela\u00e7\u00e3o entre intimidade e extimidade.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o o exerc\u00edcio singular da inven\u00e7\u00e3o de Juliano Pessanha, que abandona o que ele nomeia de \u201cmessianismo heiddegeriano\u201d para encontrar ancoragem em Sloterdijk, em que \u00e9 visitado por h\u00f3spedes menos \u00e9tereos e mais duradoros, visto que \u201cse n\u00e3o h\u00e1 um outro que, na condi\u00e7\u00e3o de anfitri\u00e3o, nos d\u00ea as boas-vindas e fa\u00e7a um bilu-bilu na aletheia, inserindo-nos pouco a pouco no mundo, ficamos resfriados no susto e no pavor exterior\u201d. Sloterdijk o retira de l\u00e1: da flutua\u00e7\u00e3o que o mantinha em resid\u00eancia perp\u00e9tua no espanto e na s\u00faplica, foi o autor tamb\u00e9m quem permitiu que ele se deslocasse dos arrabaldes \u2013 onde sentia-se exposto e violentado \u2013 para adentrar um pouco o dentro sem a sidera\u00e7\u00e3o plena no del\u00edrio encant\u00f3rio do fora. Foi este encontro que o fez driblar a escassez e se engajar no emaranhado da exist\u00eancia, tomar tanto a cicatriz como o abismo nas m\u00e3os, rearranjando corpo e mist\u00e9rio, perda e encontro.<\/p>\n<p>Pessanha abandonou os autores do culto ao extremo, deixou de acender velas para coisas obscuras, infiltrou a negatividade nas coisas do mundo de maneira a lidar com ela de forma menos devastadora. Do extremo e inegoci\u00e1vel desenraizamento e da pura dispers\u00e3o, ele cava um lugar novo, renasce n\u00e3o mais como um infante heiddegeriano e amante do n\u00e3o, mas circunscrevendo algo do imposs\u00edvel da exist\u00eancia. Um caminho e uma apreens\u00e3o que n\u00e3o deixam de dialogar com a \u00e9tica lacaniana: da impot\u00eancia ao imposs\u00edvel, uma maneira outra de manejar o dentro e o fora: \u201ceu j\u00e1 n\u00e3o olhava mais o dentro pelo fora, mas sim o fora pelo dentro\u201d.<\/p>\n<p>Ao recusar o n\u00e3o-lugar, Juliano Pessanha instaura um sentido novo e surpreendente e tamb\u00e9m retoma sua pr\u00f3pria escrita para apropriar-se e desapropriar-se do eu, separando o objeto de seu pr\u00f3prio corpo e atravessando a opacidade de sua fantasia fundamental:<em> \u201c<\/em>o escritor real muitas vezes tem apenas uma ferida cujo nome desconhece mas que lhe concede sil\u00eancio e uma palavra gaga e balbuciante\u201d. Deste ponto e conduzido pelas marcas de uma nova solid\u00e3o, ele mergulha no estranhamento com intensa coragem e rigor, num modo de exercer a escrita onde o tempo se esculpe em seu corpo e no corpo do mundo, fazendo letra para o imposs\u00edvel, inventando seu compasso, seu ritmo e sua intensidade, um \u201cFort-Da\u201d: onde a aus\u00eancia \u00e9 evocada na presen\u00e7a e a presen\u00e7a na aus\u00eancia, n\u00e3o mais uma estetiza\u00e7\u00e3o da cat\u00e1strofe, mas um caminhar um pouco menos aterrorizado pela exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Se a aus\u00eancia do outro est\u00e1 sempre em quest\u00e3o, a escrita est\u00e1 l\u00e1 para que a incessante altern\u00e2ncia entre dentro e fora, entre aus\u00eancia e presen\u00e7a possa fazer vicejar aquilo que h\u00e1 de singular em sua ferida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bianca Coutinho Dias (Psicanalista e cr\u00edtica de arte) Juliano Garcia Pessanha \u00e9 um escritor \u00e0 margem de qualquer classifica\u00e7\u00e3o, que mistura di\u00e1rios, teoria liter\u00e1ria, filosofia, poesia e todo o embara\u00e7o de uma escrita assombrada. 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