{"id":4078,"date":"2019-09-09T14:47:35","date_gmt":"2019-09-09T17:47:35","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4078"},"modified":"2019-09-09T14:47:35","modified_gmt":"2019-09-09T17:47:35","slug":"dona-flor-a-solidao-entre-doisi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/dona-flor-a-solidao-entre-doisi\/","title":{"rendered":"Dona Flor, a solid\u00e3o entre dois[i]"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4065\" aria-describedby=\"caption-attachment-4065\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4065\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/tracos_005_003-1.png\" alt=\"Instagram @ruybarrosphotos\" width=\"400\" height=\"401\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/tracos_005_003-1.png 562w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/tracos_005_003-1-300x300.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/tracos_005_003-1-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4065\" class=\"wp-caption-text\">Instagram @ruybarrosphotos<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>Fernanda Otoni Brisset<br \/>\n<\/strong><strong>(EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<p>Flor\u00edpedes Vargas fez de \u201c<em>dois mais um\u201d<\/em> seu sintoma de vida amorosa.<\/p>\n<p>\u00c9 o que ensina o romance, de Jorge Amado, \u201cDona Flor e seus dois maridos\u201d, cuja ousadia est\u00e1 em bem dizer como o tumulto da solid\u00e3o do gozo de uma mulher pode se arranjar com o imposs\u00edvel de um casal, ap\u00f3s dois casamentos.<\/p>\n<p><em>O primeiro lhe chegou como quem chega do bar<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong>[ii]<\/strong><\/a><\/em>. Com o bo\u00eamio Vadinho viveu uma paix\u00e3o arrebatadora. Do erotismo que a fazia subir pelas paredes ao desfiladeiro do ci\u00fame enlouquecedor, viveu uma paix\u00e3o sem limites tomada pela for\u00e7a de um comich\u00e3o fora da lei. Quando ele morreu vestido de baiana, numa quarta feira de cinzas, restou s\u00f3, vi\u00fava, num vivo desassossego.<\/p>\n<p><em>O segundo lhe chegou como quem v\u00eam do florista<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><strong>[iii]<\/strong><\/a><\/em>. Era o farmac\u00eautico Teodoro, com quem logo se casou. Conheceu com ele uma rotina segura e confort\u00e1vel, na paz cotidiana de um casal. Apreciava o que vivia, mas ainda latejava de suas entranhas uma inquietude sem paz, sem par.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia, <em>como quem chega do nada<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><strong>[iv]<\/strong><\/a><\/em>, o esp\u00edrito do falecido apareceu. Ele <em>se deitou na sua cama, <\/em>entre ela e o marido. <em>E<\/em><em> lhe chama de mulher<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><strong>[v]<\/strong><\/a><\/em>. Entre dois, sucumbiu, s\u00f3,\u00a0 a um gozo que n\u00e3o sabe dizer seu nome.\u00a0 E, <em>antes que dissesse n\u00e3o<\/em><a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\"><em><strong>[vi]<\/strong><\/em><\/a>, ela recorreu ao candombl\u00e9 e o amarrou no tetraedro de seu leito, experimentando a concilia\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel entre o fogo e a calmaria, a aventura e a seguran\u00e7a, o desatino e a gentileza, o gozo e o outro. Alojou tal arranjo em seu h\u00e1bito conjugal, conectando o real de um gozo, mudo e sem lei, \u00e0 rotina met\u00f3dica e disciplinada da vida cotidiana.<\/p>\n<p>Seu sintoma \u2013 Dona Flor e seus dois maridos \u2013\u00a0 sua solu\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Sua fama ganha o mundo. De jeito simples e inequ\u00edvoco ensina que a for\u00e7a material que perturba o corpo de uma mulher s\u00f3 pode conhecer algum sossego ao conjugar o infinito do gozo \u00e0 uma maneira de amar que o leve em conta, na forma do \u201ccar\u00e1ter autom\u00e1tico do amor\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>.<\/p>\n<p>A solid\u00e3o, parceira de uma mulher, n\u00e3o se engana: \u201co gozo do homem e o da mulher, n\u00e3o se conjugam organicamente\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a>.\u00a0 Quando o gozo entra em cena, a uni\u00e3o entre um homem e uma mulher fracassa. Entre um e outro, esbarra-se num obst\u00e1culo, esbarra-se no \u201cosso\u201d. \u201cH\u00e1 um osso faltante\u201d, dir\u00e1 Lacan, que \u00e9 pr\u00f3prio do desejo e seu funcionamento<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a>.<\/p>\n<p>Desse v\u00e1cuo, que n\u00e3o se faz recobrir por nada, ali onde h\u00e1 um osso faltante, uma mulher ter\u00e1 que inventar uma forma de amor que valha a pena, que fa\u00e7a supl\u00eancia a rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>E assim aconteceu no sert\u00e3o da Bahia! Entre uma rotina confort\u00e1vel e um gozo sem sossego, uma fresta se abriu e deu passagem a <em>Vadinho<\/em> \u2013 uma imagem, um artif\u00edcio conector \u2013 que se instalou entre os dois. Uma presen\u00e7a vadia que invade e se evade, por um triz, no compasso da v\u00e1lvula pulsante do gozo feminino, no interior da vidinha de um casal.<\/p>\n<p>Dona Flor transmite como o gozo feminino, <em>tout seul,<\/em> p\u00f4de encontrar entre dois maridos uma satisfa\u00e7\u00e3o \u00edmpar. Ao grampear uma imagem a uma rotina conseguiu aceder a um gozo sem igual, enquanto o fez parecer normal.<\/p>\n<p>Jorge, o Amado, pouco antes de Lacan, parecia j\u00e1 intuir que \u201cmesmo que se satisfa\u00e7a a exig\u00eancia de amor, o gozo que se tem da mulher a divide, fazendo-a parceira de sua \u00a0solid\u00e3o, enquanto a uni\u00e3o permanece na soleira\u201d<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a>.<\/p>\n<p>Dona Flor parece \u00a0saber viv\u00ea-lo ao bem dizer:\u00a0 \u2013 Enfim s\u00f3s!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Esse texto foi publicado pela primeira vez no Boletim das 45\u00aa Journ\u00e9es de l\u2019ECF \u2013 <em>Faire Couple<\/em>, em 2015. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.fairecouple.fr\/dona-flor-et-ses-deux-maris1-par-fernanda-otoni-brisset\/\">https:\/\/www.fairecouple.fr\/dona-flor-et-ses-deux-maris1-par-fernanda-otoni-brisset\/<\/a>&gt;<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Parodiando, Chico BUARQUE DE HOLLANDA, a partir de sua can\u00e7\u00e3o \u201cTerezinha\u201d, composta entre 1977\/1978,\u00a0 para sua pe\u00e7a teatral \u00d3pera do Malandro.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Idem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Idem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> Idem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> Idem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> MILLER, J-A (1992) Sobre fen\u00f4menos de amor e \u00f3dio em psican\u00e1lise. Interven\u00e7\u00e3o em Bilbao. In: <em>Introduccion a la clinica lacaniana<\/em>. ELP, 2007.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> LACAN, J. (2005[1962-1963]). <em>O Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. p.290.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> LACAN, J. (2009[1971]). <em>O <\/em><em>Semin\u00e1rio, <\/em><em>livro <\/em><em>18: de um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/em>. p. 65.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a> LACAN, J. (2003[1972]). O aturdido. In:\u00a0<em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. p. 467.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernanda Otoni Brisset (EBP\/AMP) Flor\u00edpedes Vargas fez de \u201cdois mais um\u201d seu sintoma de vida amorosa. \u00c9 o que ensina o romance, de Jorge Amado, \u201cDona Flor e seus dois maridos\u201d, cuja ousadia est\u00e1 em bem dizer como o tumulto da solid\u00e3o do gozo de uma mulher pode se arranjar com o imposs\u00edvel de um&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4078","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornada-2019","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4078","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4078"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4078\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4078"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4078"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4078"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4078"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}