{"id":4072,"date":"2019-09-09T14:39:44","date_gmt":"2019-09-09T17:39:44","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4072"},"modified":"2019-09-09T14:39:44","modified_gmt":"2019-09-09T17:39:44","slug":"o-campo-da-transferencia-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-campo-da-transferencia-hoje\/","title":{"rendered":"O campo da transfer\u00eancia hoje"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4067\" aria-describedby=\"caption-attachment-4067\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4067\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/tracos_005_005-1.png\" alt=\"Mareo @mareorodriguez\" width=\"400\" height=\"434\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/tracos_005_005-1.png 675w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/tracos_005_005-1-276x300.png 276w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4067\" class=\"wp-caption-text\">Mareo @mareorodriguez<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>Maria Helena Barbosa<br \/>\n<\/strong><strong>(EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<p>No argumento elaborado para as Jornadas da EBP-SP<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, Daniela Affonso apresentou uma das perspectivas poss\u00edveis do tema na topologia que d\u00e1 conta da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito \u2013 <em>\u00c9 tamb\u00e9m da dimens\u00e3o estrutural da solid\u00e3o que se trata na pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o do sujeito<\/em>.<\/p>\n<p>Aliena\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o s\u00e3o as duas opera\u00e7\u00f5es, em rela\u00e7\u00e3o a dois campos \u2013 do sujeito e do Outro, essencialmente envolvidas na constitui\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>Aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 a primeira opera\u00e7\u00e3o em que a conex\u00e3o dos dois campos, reunidos, \u201ccondena o sujeito a s\u00f3 aparecer nessa divis\u00e3o, (&#8230;) se ele aparece de um lado como sentido, produzido pelo significante, do outro ele aparece como af\u00e2nise\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Dela resulta um sujeito dividido, dois campos e ele, sujeito, n\u00e3o se encontra nem em um, nem em outro. Em um est\u00e1 petrificado, reduzido a um significante, e no outro, em <em>af\u00e2nise<\/em>, o movimento de desaparecimento qualificado como letal por Lacan.<\/p>\n<p>\u201cComo, desde este n\u00edvel, o sujeito ter\u00e1 de se procurar?\u201d, pergunta Lacan<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Ele responde a pergunta indicando que o sujeito, no estado original, \u00e9 conduzido por essa dial\u00e9tica a uma segunda opera\u00e7\u00e3o \u2013 separa\u00e7\u00e3o. Esta se funda na interse\u00e7\u00e3o dos dois campos, oriunda do recobrimento de duas faltas que, uma, no campo do Outro, \u00e9 encontrada nos intervalos do discurso e, outra, no campo do sujeito, \u00e9 ele mesmo como objeto perdido, seu pr\u00f3prio desaparecimento. Na interse\u00e7\u00e3o das duas faltas \u00e9 que reside a possibilidade de o sujeito interrogar-se e, ao se interrogar, engendrar-se.<\/p>\n<p>Nela, \u201cO sujeito \u2013 por um processo que n\u00e3o deixa de conter engano, representa essa tor\u00e7\u00e3o fundamental pela qual o que reencontra n\u00e3o \u00e9 o que anima seu movimento de tornar a achar \u2013 retorna ent\u00e3o ao ponto inicial, que \u00e9 o de sua falta como tal, da falta de sua <em>af\u00e2nise<\/em>\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Esta tor\u00e7\u00e3o fundamental produz a extra\u00e7\u00e3o do objeto <em>a.<\/em><\/p>\n<p>Lacan exemplifica com o <em>fort-da<\/em>: \u201cQuer dizer que n\u00e3o se tem escolha. Se o pequeno sujeito pode se exercitar nesse jogo do <em>fort-da<\/em>, \u00e9 justamente que ele n\u00e3o se exercita de modo algum, pois nenhum sujeito pode apreender essa articula\u00e7\u00e3o radical. Ele se exercita com a ajuda de um carretelzinho, quer dizer, com o objeto <em>a.<\/em> A fun\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio com esse objeto se refere a uma aliena\u00e7\u00e3o, (&#8230;) [e] a repeti\u00e7\u00e3o indefinida de que se trata, manifesta \u00e0s claras a vacila\u00e7\u00e3o radical do sujeito\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Por outro lado, sabemos que, quando n\u00e3o h\u00e1 falta, quando n\u00e3o h\u00e1 intervalo entre S1 e S2, h\u00e1 solidez. A cadeia significante primitiva em massa pro\u00edbe a abertura dial\u00e9tica. Lacan afirma que \u201cChegaria at\u00e9 a formular que, quando n\u00e3o h\u00e1 intervalo entre S1 e S2, quando a primeira dupla de significantes se solidifica, se holofraseia, temos o modelo de toda uma s\u00e9rie de casos \u2013 ainda que, em cada um, o sujeito n\u00e3o ocupe o mesmo lugar\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Neste semin\u00e1rio, na experi\u00eancia, Lacan localiza o campo da transfer\u00eancia na opera\u00e7\u00e3o separa\u00e7\u00e3o \u2013 \u201cEsta opera\u00e7\u00e3o segunda \u00e9 t\u00e3o essencial de ser definida quanto a primeira, porque \u00e9 a\u00ed que vamos ver despontar o campo da transfer\u00eancia\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Lacan postula que \u201cA transfer\u00eancia \u00e9 impens\u00e1vel, a n\u00e3o ser tomando-se partida do sujeito suposto saber\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>. Pressup\u00f5e a presen\u00e7a do recalque prim\u00e1rio, da met\u00e1fora paterna, do Nome-do-Pai, do inconsciente estruturado como uma linguagem.<\/p>\n<p>Neste semin\u00e1rio, Lacan n\u00e3o abordou a quest\u00e3o da transfer\u00eancia nas psicoses. No entanto, ele deixou algumas pistas que, articuladas, podem nos ajudar a pensar o campo da transfer\u00eancia hoje.<\/p>\n<p>No <em>Semin\u00e1rio XI<\/em>, a defini\u00e7\u00e3o de inconsciente como inadvert\u00eancia se aproxima do engano, \u00e9 da ordem da tapea\u00e7\u00e3o e tem uma finalidade significante, acrescenta significa\u00e7\u00e3o. Na rela\u00e7\u00e3o analista\/analisando, o analista espera \u201cesse efeito ocorrer na transfer\u00eancia no que ele se repete presentemente aqui e agora\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>, para ent\u00e3o interpretar visando \u201ca qual significante (&#8230;) ele [analisando] est\u00e1, como sujeito, assujeitado\u201d<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>. O inconsciente enquanto tal se localiza no tempo da segunda opera\u00e7\u00e3o separa\u00e7\u00e3o, assim como a transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Por outro lado, E. Laurent, em seu pronunciamento<em> Disrup\u00e7\u00e3o do gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia,<\/em> no X Congresso da AMP, destacou um trecho de aula em que J-A. Miller marca a diferen\u00e7a na defini\u00e7\u00e3o do inconsciente como inadvert\u00eancia, j\u00e1 no \u00faltimo ensino. Nele, a no\u00e7\u00e3o de inconsciente pressup\u00f5e \u201cum tempo anterior \u00e0quele em que [ele] o inconsciente pode aparecer, [tempo em que se situa] o bloqueio ou o deslizamento de palavra a palavra\u201d<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>Laurent prop\u00f5e que \u201c\u00c9 neste contexto que uma nova vers\u00e3o da transfer\u00eancia positiva se introduz. (&#8230;) um novo uso do parceiro de gozo para ultrapassar os bloqueios da Inadvert\u00eancia (<em>Une-b\u00e9vue<\/em>) do sujeito confrontado com <em>lalingua <\/em>e com sua instabilidade, com seus deslizamentos permanentes: Lacan (&#8230;) a designa como um fazer-de-verdade (<em>faire-vrai<\/em>) \u2013 \u2018<em>A psican\u00e1lise \u00e9 o que faz de verdade (fait vrai) <\/em>(&#8230;) o analista (&#8230;). \u00c9 ele quem \u2018faz de verdade\u2019 o bloqueio\u2019\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese que proponho \u00e9 a de que, ao seguirmos por esta l\u00f3gica, podemos concluir que o campo da transfer\u00eancia, no \u00faltimo ensino de Lacan, tamb\u00e9m se modificou. Ele, tamb\u00e9m, passaria a ser considerado em um tempo anterior, tempo que na topologia da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito corresponde ao da opera\u00e7\u00e3o aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a de campo seria o que aplaina a transfer\u00eancia. Nele n\u00e3o h\u00e1 Outro enquanto tal e o sujeito se encontra no que Lacan nomeou de <em>fading<\/em>.<\/p>\n<p>Neste campo a palavra n\u00e3o tem finalidade significante, o que explicaria considerar a interpreta\u00e7\u00e3o como efeito de sugest\u00e3o, um m\u00ednimo restante de efeito de linguagem, como desenvolve Miller, na nona li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio<em> Perspectivas do Semin\u00e1rio 23 de Lacan<\/em>.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o visa ao significante novo como explicitado no trecho que Laurent extrai do <em>Semin\u00e1rio XXIV <\/em>de Lacan: \u201cQuando se apela a um significante novo, trata-se, de fato, de um significante que poderia ter outro uso, (&#8230;) um significante que seria novo n\u00e3o simplesmente porque assim haveria um significante a mais, mas porque, em vez de ser contaminado pelo sono, esse significante novo desencadearia um despertar\u201d<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>A perspectiva do tema, \u201cQuem fala s\u00f3 tem a ver com a solid\u00e3o\u201d, aborda a quest\u00e3o da solid\u00e3o como intr\u00ednseca ao <em>parl\u00eatre<\/em>. Se tomarmos a solid\u00e3o do Um como ponto de partida daquele que chega a uma an\u00e1lise, a entrada do campo do Outro pela presen\u00e7a do analista, em ato, produz um efeito real de sentido. Da mesma forma, Laurent aponta que o efeito de sentido real exig\u00edvel da interpreta\u00e7\u00e3o \u201cpresentifica um mais al\u00e9m da fala (&#8230;). Ela se vale da nova perspectiva do fechamento do n\u00f3 em torno do acontecimento de corpo e da inscri\u00e7\u00e3o que pode ser notada como em um uso renovado\u201d<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> http:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/ix-jornadas\/boletim-tracos-ix-jornadas\/boletim-tracos-01\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Lacan, J. (1986[1964]). <em>O Semin\u00e1rio, livro XI, os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. <\/em>Rio de Janeiro: J. Zahar Ed., p.199.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> idem, <em>ibidem<\/em>, p.202.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> idem, <em>ibidem<\/em>, p.207.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> idem, <em>ibidem<\/em>, p.226.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> idem, <em>ibidem<\/em>, p.225.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> idem, <em>ibidem<\/em>, p.202.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> idem, <em>ibidem<\/em>, p.239.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> idem, <em>ibidem<\/em>, p.240.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> idem, <em>ibidem, <\/em>p.237.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Laurent, E. (2018). <em>Disrup\u00e7\u00e3o do gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia.<\/em> Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n\u00ba79. S\u00e3o Paulo: Ed. Eolia, p.58.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> idem, <em>ibidem<\/em>,p.58\/59.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a> idem, <em>ibidem<\/em>, p.61.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a> idem, <em>ibidem<\/em>, p. 60.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Helena Barbosa (EBP\/AMP) No argumento elaborado para as Jornadas da EBP-SP[1], Daniela Affonso apresentou uma das perspectivas poss\u00edveis do tema na topologia que d\u00e1 conta da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito \u2013 \u00c9 tamb\u00e9m da dimens\u00e3o estrutural da solid\u00e3o que se trata na pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o do sujeito. 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