{"id":4038,"date":"2019-08-08T19:30:30","date_gmt":"2019-08-08T22:30:30","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4038"},"modified":"2019-08-08T19:30:30","modified_gmt":"2019-08-08T22:30:30","slug":"uma-falsa-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/uma-falsa-solidao\/","title":{"rendered":"Uma falsa solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>\u201cE os escritores criativos s\u00e3o aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda vasta gama de coisas entre o c\u00e9u e a terra com as quais a nossa filosofia ainda n\u00e3o nos deixou sonhar\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_4006\" aria-describedby=\"caption-attachment-4006\" style=\"width: 272px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4006\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/boletim_tracos_004_002-272x300.png\" alt=\"Imagem: Instagram @mrsamher\" width=\"272\" height=\"300\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4006\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @mrsamher<\/figcaption><\/figure>\n<p>O tema de nossa IX jornada deu-me a oportunidade de resgatar, em minha mem\u00f3ria de leitora, o prazer que foi a leitura do livro <em>Cem Anos de Solid\u00e3o,<\/em> de Garc\u00eda Marques<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, \u00a0livro \u00a0que se colocou, n\u00e3o sem insist\u00eancia, para ser relido na solid\u00e3o que cabe a todo leitor.<\/p>\n<p>A solid\u00e3o, no livro, j\u00e1 est\u00e1 marcada como tema central desde o t\u00edtulo dado pelo autor. Sua narrativa vai se dar em torno da solid\u00e3o social, que caracteriza o povoado de Macondo, <em>\u201cPero si lo piensas con cuidado, ver\u00e1s que el libro que yo estoy escribiendo no es el libro de Macondo, sino el libro de la soledad\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n<p>Falar da solid\u00e3o para Garc\u00eda Marques \u00e9 falar da verdade humana, de sua ess\u00eancia, de uma solid\u00e3o que requer um saber fazer com ela e assim atingir o seu oposto, a solidariedade, que para ele \u00e9 o que torna poss\u00edvel o la\u00e7o familiar, social e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho a pretens\u00e3o, neste artigo, de dar consequ\u00eancia a toda riqueza do tema feito pelo autor em rela\u00e7\u00e3o a esta solid\u00e3o social no seu vi\u00e9s pol\u00edtico, mas sim o de buscar tirar consequ\u00eancias desta solid\u00e3o, que impede o la\u00e7o com o outro, por ser uma falsa solid\u00e3o, ainda que aut\u00eantica<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, pois \u00e9 \u00a0falsa apenas naquilo que oculta que o sujeito est\u00e1 acompanhado do objeto de seu fantasma.<\/p>\n<p>S\u00e3o as falsas solu\u00e7\u00f5es neur\u00f3ticas frente ao desejo do Outro, usando do isolamento, como forma de evitar entrar em contato com uma solid\u00e3o inicial inerente a todo ser humano. Bassols vai trabalhar esta solid\u00e3o inicial como estrutural, pertinente a todo sujeito da linguagem: \u00a0\u00e9 a solid\u00e3o do ser no mundo, a solid\u00e3o da <em>falta-em-ser<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Goldemberg se refere a esta solid\u00e3o inicial como uma solid\u00e3o entre desamparo e defesa, que \u00e9 distinta das solid\u00f5es dos casos cl\u00ednicos, da solid\u00e3o de \u00e9poca e das \u00e9pocas<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Esta falsa solid\u00e3o \u00e9 descrita em alguns personagens: Melqu\u00edades, Jos\u00e9 Arc\u00e1dio Buend\u00eda e, principalmente, o Coronel Aureliano Buend\u00eda, que compreendem a solid\u00e3o como isolamento f\u00edsico nas suas rela\u00e7\u00f5es com o outro.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante tamb\u00e9m uma outra forma como Garc\u00eda Marques apresenta a solid\u00e3o: como uma solid\u00e3o transmitida de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o, solid\u00e3o transgeracional, uma solid\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o, em que n\u00e3o s\u00f3 os nomes dos personagens da fam\u00edlia Buend\u00eda \u00a0repetem-se de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, assim como se repete em cada um a incapacidade de solucionar, de dar outra resposta ao primeiro desejo, o da matriarca, que abre o in\u00edcio da saga familiar. Desejo este com a marca da culpa, por ser um desejo proibido, um desejo incestuoso e gerador de castigo. A matriarca \u00darsula, est\u00e1 sempre \u00e0 espera do advento, da realiza\u00e7\u00e3o deste castigo: o nascimento de um rebento com rabo de porco.<\/p>\n<p>Esta maldi\u00e7\u00e3o condena a cem anos de solid\u00e3o, onde o amor n\u00e3o ter\u00e1 \u00eaxito em fazer la\u00e7o, falha em abrir novos caminhos, restando ent\u00e3o ser vivido como um amor que corrompe e destr\u00f3i.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o \u00e9 do isolamento geogr\u00e1fico do povoado de Macondo que o autor apresenta como causa da solid\u00e3o que acomete seus personagens, a causa est\u00e1 na impossibilidade do amor, na falta de solidariedade dos personagens.<\/p>\n<p>E ser\u00e1 por esta impossibilidade que Maced\u00f4nio vai sofrer um processo de desapari\u00e7\u00e3o: o isolamento n\u00e3o permitiu ir al\u00e9m das individualidades pr\u00f3prias e atomizadas.<\/p>\n<p>Desde Freud a solid\u00e3o tem sua raiz no desamparo e isso marca para o homem o destino de ligar-se ao outro, como ser dependente um do outro. Por\u00e9m, a solid\u00e3o vivida como isolamento s\u00f3 faz acentuar a unidade imagin\u00e1ria de ser o \u00fanico (<em>le seul<\/em>)<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Na solid\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 exclus\u00e3o do Outro, mas separa\u00e7\u00e3o, permanecendo uma fronteira com o Outro. No isolamento h\u00e1 a recusa da fronteira com o Outro. O isolamento pode existir para tentar evitar a solid\u00e3o. \u00c9 porque o Um e o Outro se op\u00f5em \u00e9 que se evita o Outro. H\u00e1 v\u00e1rias maneiras de se isolar<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>, e \u00e9 o que Garc\u00eda Marques nos descreve na constru\u00e7\u00e3o de seus personagens.<\/p>\n<p>E, por \u00faltimo, h\u00e1 a solid\u00e3o do artista, que assim como a solid\u00e3o do analista, \u00e9 uma verdadeira solid\u00e3o: <em>\u201cno encontro com o real, h\u00e1 um saber fazer com a solid\u00e3o\u201d<\/em><\/p>\n<h6>Por C\u00e1ssia Goncalves Gindro &#8211; EBP\/AMP<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Freud, S. <em>Del\u00edrios e Sonho na Gradiva de Jensen<\/em>.\u00a0 Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda., vol. IX, 1976.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> M\u00e1rquez, G. G. <em>Cem<\/em><em> anos de solid\u00e3o<\/em>. Grupo editorial Record, Rio de Janeiro, 2014.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Bermejo, EG. <em>Cosas de Escritores<\/em>. Entrevista concedida por Garc\u00eda M\u00e1rquez a Ernesto Gonz\u00e1lez Bermejo. Biblioteca de Marcha: Montevideo, 1971.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Morel, G. <em>Dos soledades<\/em>. Revista Freudiana n\u00b0 11, Paid\u00f3s, Barcelona, 1994.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Bassols, M. <em>Revista Freudiana<\/em> n\u00b0 12, Paid\u00f3s, Barcelona, 1994.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Goldenberg, M. <em>Interpretando los nuevos estilos de vida y la sociedad que crea la tecnolog\u00eda<\/em>. Letra Urbana &#8211; Revista digital de cultura, ciencia y pensamiento. N\u00b01.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Lacan, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> La Sagna, P. <em>Do isolamento \u00e0 solid\u00e3o pela via da ironia<\/em>. Revista Curinga, n\u00ba 44, EBP-MG.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cE os escritores criativos s\u00e3o aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda vasta gama de coisas entre o c\u00e9u e a terra com as quais a nossa filosofia ainda n\u00e3o nos deixou sonhar\u201d[1]. 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