{"id":4036,"date":"2019-08-08T19:28:59","date_gmt":"2019-08-08T22:28:59","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4036"},"modified":"2019-08-08T19:28:59","modified_gmt":"2019-08-08T22:28:59","slug":"homens-sem-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/homens-sem-mulheres\/","title":{"rendered":"\u201cHomens sem mulheres\u201d"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4007\" aria-describedby=\"caption-attachment-4007\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4007\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/boletim_tracos_004_003-300x298.png\" alt=\"Imagem: Instagram @kumicontemporaryjapaneseart\" width=\"300\" height=\"298\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4007\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @kumicontemporaryjapaneseart<\/figcaption><\/figure>\n<p>Trata-se de um livro que me foi apresentado para que eu pudesse melhor testemunhar a solid\u00e3o da qual este homem sofria. N\u00e3o se trata de homens literalmente sem mulheres, mas de homens que amaram e perderam uma mulher, ou que n\u00e3o ousaram fazer de uma mulher a causa do seu desejo. Suas figuras, no Jap\u00e3o de Haruki Murakami<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, s\u00e3o variadas, mas revelam uma particular sensibilidade ao inconsciente deste escritor cujas fic\u00e7\u00f5es revelam algo do real da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual na \u00e9poca do Outro que n\u00e3o existe, em que o gozo feminino n\u00e3o se at\u00e9m \u00e0s fronteiras entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>Seus contos surpreendem ao por em cena, para esses homens, o n\u00e3o-todo do gozo feminino e a impossibilidade de fazer existir A mulher, e mesmo a dificuldade de fazer de uma mulher o seu sintoma, trazendo o melhor problema, ou solu\u00e7\u00e3o, que cada um p\u00f4de obter a partir dos impasses do encontro com o Outro sexo.<\/p>\n<p>Um ator perde sua mulher e se aproxima daquele que sup\u00f5e ter sido seu \u00faltimo amante para saber porque ela precisava ter outro homem em sua vida. Havia um ponto cego na sua rela\u00e7\u00e3o com a mulher, algo dentro dela que ele n\u00e3o podia entender. Ele mesmo gosta de ser outra pessoa quando est\u00e1 atuando, mas o eu para o qual retorna nunca \u00e9 o mesmo que deixou para tr\u00e1s. N\u00e3o s\u00f3 o desejo do Outro permanece enigm\u00e1tico, mas seu pr\u00f3prio eu torna-se outro para ele.<\/p>\n<p>Um cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico bem-sucedido, celibat\u00e1rio convicto, s\u00f3 sai com mulheres comprometidas, com as quais n\u00e3o se compromete. Um dia, inesperadamente, se apaixona. Perde a vontade de sair com as outras, de comer, de trabalhar. Ele descobre seu \u00f3dio e sua vontade de destruir tudo. Essa mulher deixou o marido e o filho para ir embora com outro, mas n\u00e3o por ele. As mulheres t\u00eam um \u201c\u00f3rg\u00e3o independente\u201d para mentir e ele usou esse \u00f3rg\u00e3o para se apaixonar, leva-lo \u00e0s alturas e ao abismo. O gozo feminino, opaco, para al\u00e9m da medida f\u00e1lica que ele sabia usar t\u00e3o bem, \u00e9 encarnado em uma mulher e logo, nele mesmo, e o leva ao pior.<\/p>\n<p>Um representante comercial, ao voltar de uma viagem, encontra sua mulher com seu melhor amigo. Abaixa a cabe\u00e7a e vai embora, mas s\u00f3 encontra, pela frente, isolamento e abandono. Seu corpo vai perdendo consist\u00eancia, enquanto o gozo o invade sob a forma de cobras que o espreitam na vizinhan\u00e7a. O que \u00e9 recusado no simb\u00f3lico retorna no real. Ele ter\u00e1 que reconhecer seu cora\u00e7\u00e3o ferido e subjetivar a dor para recuperar seu corpo.<\/p>\n<p>A voz de um homem desconhecido anuncia ao autor que sua mulher cometeu suic\u00eddio: era uma antiga namorada, a terceira, com quem havia sa\u00eddo, que tinha se matado. Nela perdia a menina de 14 anos que amara, assim como sua vitalidade adolescente. Um buraco profundo se abria entre ele e o vi\u00favo que lhe dava aquela not\u00edcia. Uma mulher profundamente amada vai embora levada por \u201cmarinheiros\u201d, ou tira sua pr\u00f3pria vida. A solid\u00e3o \u00e9 como uma mancha de vinho em um tapete pastel. Pode desbotar, mas permanece. Pode-se encontrar outra mulher, mas sua perda est\u00e1 no horizonte. A est\u00e1tua de um unic\u00f3rnio \u00e9 o s\u00edmbolo da solid\u00e3o dos homens sem mulheres.<\/p>\n<p>Um homem em reclus\u00e3o domiciliar tem como \u00fanico contato uma enfermeira que vem v\u00ea-lo regularmente. Ela lhe traz comida, faz sexo com ele e lhe conta hist\u00f3rias que, estas, vivificam seus corpos. Ele aguenta bem o isolamento, mas n\u00e3o suporta a ideia de ser privado das hist\u00f3rias de Scheherazade. Ele havia encontrado, com ela, uma outra satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um \u00faltimo e surpreendente conto, o personagem acorda para descobrir que passara por uma metamorfose e se tornara Gregor Samsa. Nu, desprotegido, sem carapa\u00e7a e sem ferr\u00f5es. Uma mulher toca a campainha na casa onde se encontra sozinho, ela veio reparar a fechadura de uma porta. Era uma mulher corcunda e seu caminhar capenga lembra-lhe algo, despertando sua simpatia e logo, a ere\u00e7\u00e3o de todo o seu corpo gelado, aquecendo-o. Numa inusitada fic\u00e7\u00e3o de metamorfose ao avesso, Murakami nos aponta o encontro, contingente, no parceiro, dos sintomas que marcam o exilio, para cada ser falante, da rela\u00e7\u00e3o sexual<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Se Lacan p\u00f4de dizer que o gozo que se tem de uma mulher a divide, tornando-a parceira de sua solid\u00e3o<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, o que dizer dessas figuras da solid\u00e3o masculina? H\u00e1 aqueles que perderam a mulher para outro, seja com resigna\u00e7\u00e3o ou revolta, seja devastados pelo Outro gozo, \u201c\u00f3rg\u00e3o independente\u201d da mulher. O isolamento ora aparece na figura do homem abandonado, sem desejo, ora daquele que n\u00e3o conseguiu ser aquilo que falta ao Outro, ou daquele que deu tudo de si para fazer existir A mulher, mas n\u00e3o soube fazer de uma mulher seu sintoma.<\/p>\n<p>Lacan disse que uma mulher \u00e9 para todo homem um sintoma, enquanto o homem seria para uma mulher uma devasta\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, mas vemos aqui, justamente, uma invers\u00e3o. Se \u201cHomens sem mulheres\u201d poderia nos fazer pensar no isolamento de um sujeito fechado em sua bolha narc\u00edsica, o que vemos nessas figuras de fic\u00e7\u00e3o constru\u00eddas por Murakami \u00e9 a maneira como o encontro com o Outro sexo pode ser devastador para um homem, que se refugia no isolamento fantasm\u00e1tico dos homens sem mulheres. E o que abre um horizonte humano \u00e9 justamente o encontro, em uma parceira, de um tra\u00e7o que lhe permite fazer de uma mulher a causa do seu desejo. Ou a subjetiva\u00e7\u00e3o do objeto perdido permite a um homem recuperar seu corpo.<\/p>\n<p>Com Philippe La Sagna<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> podemos distinguir o isolamento, do registro da aliena\u00e7\u00e3o, ou da fantasia, a tratar, da solid\u00e3o, articulada \u00e0 separa\u00e7\u00e3o, ou ao <em>sinthoma<\/em>, a construir. Na psican\u00e1lise, trata-se de entrar em rela\u00e7\u00e3o com seu inconsciente, com o que se tem de mais pr\u00f3prio, para aceder \u00e0s coisas das quais se \u00e9 separado e fabricar uma nova solid\u00e3o, uma base de opera\u00e7\u00e3o para encontrar os outros, saindo do isolamento. A descoberta de que o Outro n\u00e3o existe n\u00e3o retira do sujeito o gosto pelo desejo do Outro, ao contr\u00e1rio. N\u00e3o h\u00e1 acesso ao Outro, mas aos efeitos do inconsciente como furo, o que d\u00e1 a ideia de uma verdadeira solid\u00e3o, com satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h6>Por Elisa Alvarenga &#8211; EBP\/AMP<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> MURAKAMI. H. <em>Man without women. <\/em>New York, Vintage International, 2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Cf. LACAN, J. <em>Mais, ainda. <\/em>Rio de Janeiro, Zahar, 1985, p. 198.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> LACAN, J. O aturdito, in <em>Outros Escritos. <\/em>Rio de Janeiro, Zahar, 2003, p. 467.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> LACAN, J. <em>O Sinthoma. <\/em>Rio de Janeiro, Zahar, 2007, p. 98.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> LA SAGNA, P. De l\u2019isolement \u00e0 la solitude, in <em>La Cause freudienne 66. <\/em>Paris, Navarin, 2007, p. 43-49.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trata-se de um livro que me foi apresentado para que eu pudesse melhor testemunhar a solid\u00e3o da qual este homem sofria. N\u00e3o se trata de homens literalmente sem mulheres, mas de homens que amaram e perderam uma mulher, ou que n\u00e3o ousaram fazer de uma mulher a causa do seu desejo. 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