{"id":4034,"date":"2019-08-08T19:27:36","date_gmt":"2019-08-08T22:27:36","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4034"},"modified":"2019-08-08T19:27:36","modified_gmt":"2019-08-08T22:27:36","slug":"a-solidao-e-a-adolescencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-solidao-e-a-adolescencia\/","title":{"rendered":"A solid\u00e3o e a adolesc\u00eancia"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4008\" aria-describedby=\"caption-attachment-4008\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4008\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/boletim_tracos_004_004-300x193.png\" alt=\"Imagem: Instagram @mirmilamusse\" width=\"300\" height=\"193\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4008\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @mirmilamusse<\/figcaption><\/figure>\n<p>Fala-se sempre sozinho, diz Lacan, mas isso n\u00e3o quer dizer que falar da solid\u00e3o seja algo simples. Sua forma e mat\u00e9ria variam para cada um. Talvez por isso a encontremos com mais desenvoltura na poesia, essa forma de escrita que sabe que toda fala est\u00e1 aqu\u00e9m ou al\u00e9m da comunica\u00e7\u00e3o. Maurice Blanchot dizia que a solid\u00e3o \u00e9 uma ferida do mundo a qual est\u00e1 condenada toda forma de escrita po\u00e9tica porque esta transforma a l\u00edngua, porque o mundo \u00e9 completamente transformado nesta experi\u00eancia que se funda em uma \u201csolid\u00e3o essencial\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>. Em Blanchot conseguimos cernir uma solid\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 apenas da ordem do fen\u00f4meno, mas tamb\u00e9m um efeito da l\u00edngua, de sua metamorfose. Isto talvez seja mais f\u00e1cil de vislumbrar neste trecho de Alejandra Pizarnik em <em>La palabra del deseo<\/em>: \u201cLa soledad no es estar parada en el muelle, a la madrugada, mirando el agua con avidez. La soledad es no poder decirla por no poder circundarla por no poder darle un rostro por no poderla hacer sin\u00f3nimo de un paisaje. La soledad ser\u00eda esta melod\u00eda rota de mis frases\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. A solid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas estar sozinho, \u00e9 uma ruptura, uma fratura na frase. E, poder\u00edamos perguntar: uma fratura na l\u00edngua?<\/p>\n<p>Arrisco-me nessa hip\u00f3tese para pensar a solid\u00e3o como fratura na l\u00edngua a partir da adolesc\u00eancia. Percorrendo alguns pontos do Semin\u00e1rio 20 de Lacan, encontramos a solid\u00e3o e o ex\u00edlio articulados \u00e0 inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual e \u00e0 presen\u00e7a do gozo. S\u00e3o dois pontos, a solid\u00e3o e o ex\u00edlio, que podem ser lidos a partir da disjun\u00e7\u00e3o e n\u00e3o da conjun\u00e7\u00e3o, ou ainda, s\u00e3o lugares que indicam a inexist\u00eancia da equival\u00eancia, do complemento. Se pensarmos a solid\u00e3o como uma das figuras do ex\u00edlio, poder\u00edamos tom\u00e1-la em sua dimens\u00e3o estrangeira, mais pr\u00f3xima de um gozo que se agita e que deixa um sujeito sem lugar no seu mundo. Abordando-a a partir da adolesc\u00eancia, ent\u00e3o, ter\u00edamos um aparente paradoxo: a solid\u00e3o e o ex\u00edlio se produzem em um encontro. Como explica Laure Naveau: \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, por um lado; por outro, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel ao corpo, ao falo, ao sintoma, ao gozo. Esse designador da exist\u00eancia revela, entretanto, ao mesmo tempo, um impasse l\u00f3gico, aquele da solid\u00e3o. \u00c9 a tese lacaniana congruente com a primeira: a rela\u00e7\u00e3o ao gozo isola, o gozo que h\u00e1 sublinha a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o ao parceiro. A solid\u00e3o est\u00e1 em jogo\u201d.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Dentre as muitas que teremos na vida, a adolesc\u00eancia aponta para uma profunda experi\u00eancia de separa\u00e7\u00e3o: do corpo e dos significantes da inf\u00e2ncia, da autoridade dos pais. Essa separa\u00e7\u00e3o se produz, sobretudo, no encontro com o Outro sexo, com a diferen\u00e7a, com o Outro corpo. E uma das suas vers\u00f5es \u00e9 o pr\u00f3prio corpo no atravessamento de uma metamorfose &#8211; que \u00e9, de acordo com Freud, a puberdade, uma mudan\u00e7a no corpo que produz efeitos no modo de gozo.<\/p>\n<p>O despertar dos sonhos, como mostra Lacan, leva em conta o come\u00e7o do trabalho da fantasia como prepara\u00e7\u00e3o para esse encontro sempre faltoso<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Ora, se o encontro com o Outro sexo \u00e9 tamb\u00e9m o encontro com o real da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o, ele implica um ponto de solid\u00e3o. H\u00e1, ent\u00e3o, um paradoxo no encontro com o Outro sexo que \u00e9 dado pelo despertar desse gozo que, na impossibilidade de encontrar equival\u00eancia no Outro, exila o adolescente em um intraduz\u00edvel<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. O ex\u00edlio \u00e9 uma forma de existir para poder dar lugar a essa novidade do gozo.<\/p>\n<p>Clarice Lispector o diz lindamente em seu conto <em>O primeiro beijo<\/em>: \u201cSofreu um tremor que n\u00e3o se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para tr\u00e1s ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, at\u00f4nito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tens\u00e3o agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido. Estava de p\u00e9, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de cora\u00e7\u00e3o batendo fundo, espa\u00e7ado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equil\u00edbrio fr\u00e1gil\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Esse equil\u00edbrio fr\u00e1gil pode ser encontrado na formula\u00e7\u00e3o de Lacan que diz: n\u00e3o somos um corpo, mas temos um corpo<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. \u00c9 preciso, ent\u00e3o, torna-lo habit\u00e1vel. O que n\u00e3o \u00e9 simples, porque h\u00e1 algo do corpo que sempre resta como estranho, como fora da imagem que o unifica. N\u00e3o se trata ent\u00e3o de domesticar um corpo, mas de habit\u00e1-lo nesse lugar equ\u00edvoco entre a l\u00edngua e a imagem. A puberdade aprofunda essa rela\u00e7\u00e3o de estranhamento colocando em crise o corpo, sua imagem, as identifica\u00e7\u00f5es e os recursos simb\u00f3licos que se tinha para dar conta das hip\u00f3teses sobre a sexualidade. N\u00e3o \u00e9 por acaso que os adolescentes criam uma l\u00edngua pr\u00f3pria, uma l\u00edngua estrangeira dentro da pr\u00f3pria l\u00edngua. Justamente porque falar, tomar a palavra, implica um risco: o risco de experimentar a l\u00edngua de uma forma in\u00e9dita.<\/p>\n<p>A adolesc\u00eancia \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> muito singular porque se trata, podemos dizer com Lacan<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>, de uma nova montagem pulsional: quando ela deixa de ser predominantemente auto-er\u00f3tica, como explica Freud nos <em>Tr\u00eas ensaios<\/em>, e encontra, ou melhor, reencontra o objeto sexual<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>. Seguindo a leitura do texto de Daniel Roy<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>, podemos dizer que esse reencontro \u00e9 com o furo que marca a impossibilidade de uma plenitude m\u00edtica que foi encoberto pelo amor dos pais na inf\u00e2ncia, em suma, o encontro com o real da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o, com a inconsist\u00eancia do Outro, com o enigma do feminino. Ou seja, a sexualidade faz furo no real em torno do qual o ser falante ter\u00e1 que montar suas hip\u00f3teses, construir seu corpo e sua l\u00edngua, uma vez que as constru\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia n\u00e3o contemplam essa nova posi\u00e7\u00e3o. Como diz um poema de Joan Brossa: \u201cEsta palavra, tantas vezes \/ aplicada sem pensar, preciso dela aqui \/ e j\u00e1 n\u00e3o me serve\u201d.<\/p>\n<p>Hoje poder\u00edamos nos perguntar de que ordem s\u00e3o os encontros que podem prescindir da presen\u00e7a dos corpos? Seriam encontros? O mundo acontece tamb\u00e9m nas redes sociais e essa virtualiza\u00e7\u00e3o dos corpos, por exemplo, implicaria o curto-circuito dessa passagem que o adolescente pode fazer no corpo do Outro deixando-o mais a s\u00f3s com seu corpo? Ainda estamos recolhendo as consequ\u00eancias dessas mudan\u00e7as e as respostas n\u00e3o parecem nada simples. Mas ainda podemos afirmar que, sozinho no meio dos outros, a adolesc\u00eancia porta um corpo que n\u00e3o tem lugar na l\u00edngua. Essa metamorfose, esse corpo estranho que solicita uma nova rela\u00e7\u00e3o com a imagem, o gozo estrangeiro que se funda, inicia o turbulento debate dos corpos. O que o encontro com um analista pode criar \u00e9 uma parceira que pode ouvir as experi\u00eancias desses seres falantes, suas frases rompidas de solid\u00e3o e, assim, ir construindo lugares, acompanhando-os na inven\u00e7\u00e3o de uma l\u00edngua, para que n\u00e3o haja apenas a vertigem do que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever, mas o contorno de linhas tortas e t\u00eanues por onde poder\u00e1 caminhar o desejo na complexa tessitura da vida.<\/p>\n<h6>Por Fl\u00e1via C\u00eara &#8211; EBP\/AMP<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Blanchot, M.<em> O espa\u00e7o liter\u00e1rio<\/em>. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Pizarnik, A. La palabra del deseo. <em>Obras completas<\/em>. Poes\u00eda completa y prosa selecta. Corregidor, Buenos Aires, 1993.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Naveau, L. A solid\u00e3o do ser falante. <em>Almanaque<\/em>. Revista Eletr\u00f4nica do IPSM-MG, n. 16. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/solidao-do-ser-falante\/\">http:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/solidao-do-ser-falante\/<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Lacan, J. \u201cPref\u00e1cio a O despertar da primavera\u201d. <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Lacad\u00e9e, P. <em>O despertar e o ex\u00edlio<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Lispector, C. O primeiro beijo. <em>Felicidade Clandestina<\/em>. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.159.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Lacan, J. \u201cJoyce, o Sinthoma\u201d (1975). <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Miller, J-A. <em>Em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia<\/em> (2015). Dispon\u00edvel em http:\/\/minascomlacan.com.br\/blog\/em-direcao-a-adolescencia\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, Livro 11, os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em> (1963-1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Freud, S. \u201cTr\u00eas ensaios sobre a sexualidade\u201d (1905). <em>Obras Completas<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, v. VII, 1996. p. 163-195.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Roy, Daniel. <em>Metamorfose<\/em> (2016). Dispon\u00edvel em: http:\/\/minascomlacan.com.br\/blog\/qqpega-03-metamorfose-daniel-roy\/<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fala-se sempre sozinho, diz Lacan, mas isso n\u00e3o quer dizer que falar da solid\u00e3o seja algo simples. Sua forma e mat\u00e9ria variam para cada um. 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