{"id":4032,"date":"2019-08-08T19:26:07","date_gmt":"2019-08-08T22:26:07","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4032"},"modified":"2019-08-08T19:26:07","modified_gmt":"2019-08-08T22:26:07","slug":"histeria-e-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/histeria-e-solidao\/","title":{"rendered":"Histeria e solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4009\" aria-describedby=\"caption-attachment-4009\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4009\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/boletim_tracos_004_005-300x223.png\" alt=\"Imagem: Instagram @indigobcn\" width=\"300\" height=\"223\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4009\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @indigobcn<\/figcaption><\/figure>\n<p>Como j\u00e1 se assinalou em textos anteriores neste boletim, a dimens\u00e3o da solid\u00e3o nos seres falantes nos coloca diante de um destino inexor\u00e1vel e, aparentemente, contradit\u00f3rio: se, de certa maneira, nunca estamos totalmente s\u00f3s, em fun\u00e7\u00e3o da incid\u00eancia do Outro da linguagem, no n\u00edvel do gozo, estamos condenados \u00e0 solid\u00e3o, ao gozo do Um, considerando que a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o se escreve. Quanto \u00e0 solid\u00e3o, sim, ela se escreve<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Sem esquecer a li\u00e7\u00e3o de que o amor \u00e9 o que permite ao gozo condescender ao desejo e que, no Semin\u00e1rio 20, Lacan delimita o amor e o gozo apontando, por um lado, que \u201co Gozo do Outro, do corpo do Outro n\u00e3o \u00e9 signo do amor\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> e, por outro, que \u201co amor \u00e9 impotente, ainda que seja rec\u00edproco, porque ele ignora que \u00e9 apenas o desejo de ser Um, o que nos conduz ao imposs\u00edvel de estabelecer a rela\u00e7\u00e3o dos [&#8230;] dois sexos\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, retomo a frase de La Sagna \u2013 \u201cisolar-se \u00e9 evitar a solid\u00e3o\u201d, citada por Heloisa Telles<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> \u2013, que funcionou como alavanca para o trabalho de leitura de queixas frequentes de sujeitos neur\u00f3ticos, sobretudo das mulheres hist\u00e9ricas, em torno da solid\u00e3o. Trata-se da expectativa da efetiva\u00e7\u00e3o da parceria amorosa e do lamento pela repeti\u00e7\u00e3o do seu fracasso.<\/p>\n<p>Lucila Darrigo destaca a importante diferen\u00e7a entre se sentir s\u00f3 e ter a experi\u00eancia da solid\u00e3o<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>. Partirei do princ\u00edpio de que a queixa n\u00e3o rara, tal qual mencionada acima, repousa sobre o substrato da solid\u00e3o do <em>falasser<\/em>, ao n\u00edvel do gozo, aparecendo revestida, transmutada na queixa do n\u00e3o encontro de um parceiro sob medida. O que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que, de in\u00edcio, a demanda aparece em sua face de baixa exig\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00e9-requisitos do poss\u00edvel candidato \u00e0 parceria amorosa, \u00e0s vezes, explicitado por um \u201cbasta que seja uma pessoa legal, que me ame\u201d. Quando o encontro amoroso acontece, \u00e9 interessante acompanhar a rapidez com que as pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias ao parceiro, antes n\u00e3o explicitadas (n\u00e3o sabidas?), se apresentam. A insatisfa\u00e7\u00e3o se infiltra e isso deixa evidente o trabalho para dar consist\u00eancia aos obst\u00e1culos para que o desencontro amoroso se mantenha. Creio tratar-se do vislumbre do real da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual, que se mostra em sua faceta ing\u00eanua, ao passo que a desimplica\u00e7\u00e3o subjetiva se consolida na falta do outro, do Outro. O sofrimento se desloca para detalhes muitas vezes ris\u00edveis \u2013 \u201c\u00e9 jovem demais, velho demais, trabalha demais ou de menos, tem aqueles filhos&#8230;\u201d \u2013 e, na atual conjuntura pol\u00edtica, acrescentou-se um novo ingrediente: a necessidade de saber rapidamente se o \u201ccandidato\u201d tem ideias de direita ou de esquerda, se \u00e9 machista, etc. Trata-se aqui da cl\u00e1ssica capacidade da hist\u00e9rica de colocar os olhos na dificuldade, no que rateia. \u00c9 a constata\u00e7\u00e3o dessa pressa para terminar o que n\u00e3o foi f\u00e1cil de come\u00e7ar, esse desconforto ao dar provas de que se quer o que se deseja que se ligou a hip\u00f3tese de La Sagna, ou seja, do isolamento como defesa \u00e0 solid\u00e3o. Algo se tranquiliza quando o sujeito se isola, mantendo-se na companhia dos ideais da rela\u00e7\u00e3o que poderia existir, no del\u00edrio do parceiro \u00e0 altura, como complemento ao gozo do sujeito. Isso p\u00f5e em reserva o desafio de se enfrentar com a radicalidade da solid\u00e3o, ao n\u00edvel do gozo, estando a dois. O que se evidencia aos olhos advertidos \u00e9 a invers\u00e3o que se realiza quando se coloca o que \u00e9 contingente como necess\u00e1rio: as condi\u00e7\u00f5es f\u00e1licas que sustentam o desejo e permitem gozar na fantasia, a s\u00f3s, mas n\u00e3o sem o Outro. Trata-se aqui do gozo f\u00e1lico que, engendrado pelas marcas dos significantes da hist\u00f3ria do sujeito, surge como sustent\u00e1culo das condi\u00e7\u00f5es do engessamento, do del\u00edrio do encontro com objeto, que n\u00e3o h\u00e1. Sorte que, em fun\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o pela ignor\u00e2ncia, o drama humano \u00e9 uma com\u00e9dia e n\u00e3o uma trag\u00e9dia<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Os requisitos exigidos ao parceiro, que vemos brotar rapidamente em certas hist\u00e9ricas, permitem ver como elas trabalham para encontrar mais adiante aquilo que j\u00e1 estava dado de partida: ao n\u00edvel do gozo, sempre se est\u00e1 s\u00f3 e cada um se goza do UM. O outro \u00e9 s\u00f3 um parceiro poss\u00edvel que favorece a aposta no la\u00e7o social, que, por sua vez, \u00e9 m\u00faltiplo, limitado, j\u00e1 que depende das condi\u00e7\u00f5es de cada sujeito para sustentar um discurso<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. Nessa via, o isolado, bem acompanhado por um <em>gadget<\/em>, uma subst\u00e2ncia ou um del\u00edrio, p\u00f5e em ato a recusa a consentir com a presen\u00e7a do outro em sua diferen\u00e7a mesma.<\/p>\n<p>Em Clarice Lispector lemos:<\/p>\n<blockquote><p>Fiquei sozinho um domingo inteiro. N\u00e3o telefonei para ningu\u00e9m e ningu\u00e9m me telefonou. Estava totalmente s\u00f3. Fiquei sentado num sof\u00e1 com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia at\u00e9 a hora de dormir tive umas tr\u00eas vezes um s\u00fabito reconhecimento de mim mesmo do mundo que me assombrou e me fez mergulhar em profundezas obscuras de onde sai para uma luz de ouro. Era o encontro do eu com o eu. A solid\u00e3o \u00e9 um luxo<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>.<em>\u00a0<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>No recurso ao assombro e \u00e0 obscuridade, esse personagem criado por Clarice em seu \u00faltimo escrito permite ver a solid\u00e3o como efeito do real da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual. Por outro lado, tamb\u00e9m s\u00e3o evidentes o velamento e o apaziguamento que v\u00eam com a suposta possibilidade do encontro do eu com o eu, luz de ouro, permitindo ao personagem concluir com a apologia \u00e0 solid\u00e3o: um luxo.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo da solid\u00e3o do <em>parl\u00eatre<\/em> que nos faria poder concordar com o uso do termo luxo? Poder\u00edamos pensar em um saldo de saber sobre essa radicalidade obtido no final da an\u00e1lise? Seria a solid\u00e3o dos uns-sozinhos em torno da causa anal\u00edtica, como um-a-mais, na comunidade Escola, como prop\u00f5e JAM<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>?<\/p>\n<h6>Por Laureci Nunes &#8211; EBP\/AMP<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Lacan, J. O semin\u00e1rio, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: JZE, 1985, p. 178.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Lacan, J. <em>Op cit<\/em>, p. 12.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Lacan, J. <em>Op. cit<\/em>, p. 14.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Telles H. Solid\u00e3o \u2013 Perspectivas do tema, dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/ix-jornadas\/boletim-tracos-ix-jornadas\/boletim-tracos-01\/\">https:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/ix-jornadas\/boletim-tracos-ix-jornadas\/boletim-tracos-01\/<\/a> Visitado em 30.06.19<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Darrigo, L. <em>Op. cit<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Lacan, J. O semin\u00e1rio, livro 10: A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: JZE, 2005, p. 360: \u201cEles tem olhos para n\u00e3o ver, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que os arranquem [&#8230;] por isso que o drama humano n\u00e3o \u00e9 uma trag\u00e9dia, mas uma com\u00e9dia\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Laurent, E. Loucuras, sintomas e fantasias da vida cotidiana. Belo Horizonte: Scriptum, 2011, p. 51.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Lispector, C. Um sopro de vida \u2013 Pulsa\u00e7\u00f5es. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978, p. 45-46.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Miller, J-A. Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola, citado por Daniela Affonso em Argumento, dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/ix-jornadas\/boletim-tracos-ix-jornadas\/boletim-tracos-01\/\">https:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/ix-jornadas\/boletim-tracos-ix-jornadas\/boletim-tracos-01\/<\/a> visitado em 30.06.19<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como j\u00e1 se assinalou em textos anteriores neste boletim, a dimens\u00e3o da solid\u00e3o nos seres falantes nos coloca diante de um destino inexor\u00e1vel e, aparentemente, contradit\u00f3rio: se, de certa maneira, nunca estamos totalmente s\u00f3s, em fun\u00e7\u00e3o da incid\u00eancia do Outro da linguagem, no n\u00edvel do gozo, estamos condenados \u00e0 solid\u00e3o, ao gozo do Um, considerando&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4032","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornada-2019","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4032","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4032"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4032\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4032"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4032"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4032"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4032"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}