{"id":4030,"date":"2019-08-08T19:24:16","date_gmt":"2019-08-08T22:24:16","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=4030"},"modified":"2019-08-08T19:24:16","modified_gmt":"2019-08-08T22:24:16","slug":"o-muro-do-isolamento-nos-casos-contemporaneos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-muro-do-isolamento-nos-casos-contemporaneos\/","title":{"rendered":"O muro do isolamento nos casos contempor\u00e2neos"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4010\" aria-describedby=\"caption-attachment-4010\" style=\"width: 241px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4010\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/boletim_tracos_004_006-241x300.png\" alt=\"Imagem: Instagram @moodygrams\" width=\"241\" height=\"300\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4010\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @moodygrams<\/figcaption><\/figure>\n<p>Partirei do isolamento, fen\u00f4meno frequente na cl\u00ednica com adolescentes, e que, no discurso normativo \u00e9 tomado como um efeito da solid\u00e3o contempor\u00e2nea. Como a psican\u00e1lise aborda essa quest\u00e3o?<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 solid\u00e3o contempor\u00e2nea, Brousse destaca em entrevista para as IX Jornadas da EBP-SP, que as modifica\u00e7\u00f5es no la\u00e7o social pelo discurso capitalista modificaram radicalmente o estatuto da solid\u00e3o, do Um sozinho. Uma das marcas do estilo de vida contempor\u00e2neo \u00e9 a autossegrega\u00e7\u00e3o, seja pelo isolamento, seja por meio de comunidades de gozo. As autodenomina\u00e7\u00f5es que marcam o campo da autossegrega\u00e7\u00e3o indicam novas formas de la\u00e7o, mais frouxos<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, que revelam e at\u00e9 d\u00e3o testemunho do imposs\u00edvel de articular todo o gozo no la\u00e7o. O contempor\u00e2neo nos faz perguntar: como fica o Outro nisso? Quais os la\u00e7os poss\u00edveis?<\/p>\n<p>Em minha pr\u00e1tica cl\u00ednica recebo muitos jovens que apresentam fen\u00f4menos de isolamento e que, clinicamente, n\u00e3o s\u00e3o autistas. Em sua maioria, apresentam alguma marca que se destaca e que faz anteparo ao la\u00e7o social, ponto este tomado, na rela\u00e7\u00e3o com os outros, como \u201cestranho\u201d, \u201cbizarro\u201d. Muitos deles s\u00e3o adictos em games e chegam com diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico de fobia social. Adolescentes que revelam a inconsist\u00eancia do Outro e o que fazem ou n\u00e3o fazem com isso. Jovens que chegam \u00e0 an\u00e1lise mostrando sua certeza de modo de gozo, uma esp\u00e9cie de \u201c\u00e9 assim que eu gozo\u201d. Essa certeza, em um primeiro momento, coloca limite bem marcado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 suposi\u00e7\u00e3o de saber e ao desejo, ou seja, ao inconsciente como discurso do Outro.<\/p>\n<p>Philippe La Sagna faz uma importante contribui\u00e7\u00e3o para entramos nessa discuss\u00e3o, a partir da diferencia\u00e7\u00e3o entre solid\u00e3o e isolamento, tomando como ponto de articula\u00e7\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o com o Outro<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Uma de suas ideias \u00e9 que em tempos do Outro que n\u00e3o existe, a solid\u00e3o, tomada como uma forma do sujeito se separar do Outro, \u00e9 um problema e n\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o. Alguns sujeitos buscam uma maneira de evitar a solid\u00e3o no isolamento. Nesse sentido, procuram uma solu\u00e7\u00e3o para evitar a solid\u00e3o na pr\u00f3pria autossegrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele parte da ideia lacaniana da separa\u00e7\u00e3o dos objetos de satisfa\u00e7\u00e3o a partir da incid\u00eancia do Outro, ou seja, a capacidade de se separar daquilo que nos d\u00e1 prazer por meio da aliena\u00e7\u00e3o no significante<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>A solid\u00e3o d\u00e1 mostras do trabalho que o sujeito, alienado no Outro, faz de separa\u00e7\u00e3o desse Outro. H\u00e1 uma fronteira comum entre o sujeito e o Outro<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Exemplos paradigm\u00e1ticos s\u00e3o o amor ideal, nunca realizado, mas sempre acompanhado da solid\u00e3o, e a solid\u00e3o feminina, bem descrita na literatura, que revela que a consist\u00eancia do Outro, e o trabalho para separar-se dele, \u00e9 o que imprime dramaticidade \u00e0 solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele destaca que no trabalho de separa\u00e7\u00e3o, o sujeito encontra, em si, com algo fora do campo do Outro, do qual \u00e9 imposs\u00edvel colocar em rela\u00e7\u00e3o, \u201caquilo que n\u00e3o podemos falar quando somos confrontados n\u00e3o somente com a falta do Outro, sua aus\u00eancia, mas tamb\u00e9m sentimos falta deste companheiro permanente que \u00e9 o Eu\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>. Ou seja, a solid\u00e3o toca no ponto onde o Eu se abala. Numa an\u00e1lise, sabemos o quanto isso \u00e9 operativo. \u00c9 preciso passar pelo Outro, fur\u00e1-lo, para poder tocar em algo fora do campo do Outro, o mais singular do gozo.<\/p>\n<p>No isolamento, diferente da solid\u00e3o, se trata da exclus\u00e3o do Outro<em>. <\/em>A posi\u00e7\u00e3o subjetiva radical de isolamento \u00e9 o autismo. O isolamento refuta a fronteira comum entre o sujeito e o Outro, trata-se de um muro, de isolar-se com o pr\u00f3prio gozo, com a satisfa\u00e7\u00e3o. \u00c9 o sujeito de posse de seus objetos de satisfa\u00e7\u00e3o, prescindindo do Outro, o sujeito isolado no seu gozo: \u201co isolamento pode muito bem ser feito com um objeto que estimula o sujeito, um t\u00f3xico, uma fantasia, um del\u00edrio, sem a menor presen\u00e7a da solid\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Podemos nos isolar dos outros para nos protegermos da solid\u00e3o: \u201cser socialmente isolado \u00e9 muitas vezes o sinal de que alguma solid\u00e3o n\u00e3o foi constru\u00edda\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. Estamos numa \u00e9poca de constru\u00e7\u00e3o de isolados, pois cada um n\u00e3o sabe mais onde come\u00e7a e onde termina a fronteira comum entre o sujeito e o Outro. No lugar dessa fronteira, se constr\u00f3i um muro.<\/p>\n<p>Muitos casos contempor\u00e2neos de isolamento revelam, de entrada, a inconsist\u00eancia do Outro. O trabalho anal\u00edtico se inicia a partir deste ponto. Em finais de an\u00e1lise encontramos testemunhos do longo trabalho tecido at\u00e9 se encontrarem com uma solid\u00e3o real, verificada a partir da inexist\u00eancia do Outro. Ambos testemunham a n\u00e3o exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9 importante diferenciarmos esses dois caminhos.<\/p>\n<p>Em muitos casos de isolamento, o sujeito, quando se implica no dispositivo anal\u00edtico, \u201cmostra\u201d o trabalho que empreende para dar inconsist\u00eancia ao Outro. Essa inconsist\u00eancia parece ser o \u00edndice de uma resposta defensiva do sujeito frente ao Outro, da tentativa de exclus\u00e3o do Outro, de erguer um muro, dando, por vezes, lugar a uma posi\u00e7\u00e3o de t\u00e9dio, cinismo, indiferen\u00e7a, apatia e desinvestimento.<\/p>\n<p>Marcus Andr\u00e9 Vieira nos ajuda a diferenciar essa posi\u00e7\u00e3o defensiva frente ao Outro da posi\u00e7\u00e3o no final de sua an\u00e1lise. Sobre este \u00faltimo ponto afirma que se trata de se deparar com a solid\u00e3o no final de an\u00e1lise, mas com um estatuto diferente do rompimento com o la\u00e7o. Desconsistir o Outro \u00e9 diferente de romper com este, ou de estar em trabalho constante de rompimento com o Outro<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>O fato do Outro ser inconsistente para alguns sujeitos n\u00e3o necessariamente al\u00e7a o Outro a uma posi\u00e7\u00e3o privilegiada, ao contr\u00e1rio, geralmente isso \u00e9 desalentador. Por outro lado, alguns finais de an\u00e1lise d\u00e3o mostras de como o sujeito relan\u00e7ou suas quest\u00f5es frente ao desejo do Outro a partir da inexist\u00eancia deste.<\/p>\n<p>R\u00f4mulo Ferrreira da Silva relata em seu final de an\u00e1lise que a inconsist\u00eancia do Outro o levou a atravessar o \u00faltimo anteparo para \u201ctocar um peda\u00e7o de real\u201d, o amor de si, narcisismo. O desaparecimento desse amor levou-o ao final de an\u00e1lise: \u201cmomento de solid\u00e3o absoluta e radical, certeza de estar diante de um gozo indiz\u00edvel que n\u00e3o comunica nada ao outro, nem mesmo ao pr\u00f3prio sujeito. \u00c9 a experi\u00eancia do <em>falasser<\/em> mudo! \u00c9 gozo que n\u00e3o se veicula pela palavra\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>. E segue: \u201cde qualquer maneira, para sair do momento de concluir de uma an\u00e1lise, \u00e9 preciso um passo a mais para se rearticular com o Outro\u201d<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>. Essa rearticula\u00e7\u00e3o com o Outro ao final n\u00e3o se d\u00e1 da mesma maneira como se d\u00e1 no in\u00edcio.<\/p>\n<p>No caso dos sujeitos que j\u00e1 chegam com o Outro desconsistido, poder\u00edamos pensar que o caminho seria fazer consistir um Outro para desconsiti-lo posteriormente. Esse seria o caminho de reconstitui\u00e7\u00e3o do Pai. Os casos contempor\u00e2neos nos mostram que esse saudosismo em rela\u00e7\u00e3o ao Pai pode levar ao pior. Minha experi\u00eancia cl\u00ednica tem me mostrado que n\u00e3o podemos j\u00e1 de partida e sem um c\u00e1lculo preciso, mesmo em se tratando de casos em que n\u00e3o supomos uma clara psicose, fazer uma aposta no Pai e na suposi\u00e7\u00e3o de saber inconsciente. \u00c9 preciso fazer um c\u00e1lculo sobre a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o estatuto do Outro.<\/p>\n<p>Quando parte-se do Pai, muitas vezes, o muro erguido pelo sujeito fica ainda maior e ele abandona o tratamento. N\u00e3o necessariamente se trata o isolamento fazendo consistir o Outro, caso isso se d\u00ea, \u00e9 preciso que seja por acr\u00e9scimo.<\/p>\n<p>Alguns casos v\u00eam me mostrando que se trata de fazer parceria, na transfer\u00eancia, com o sujeito em sua rela\u00e7\u00e3o com seu gozo \u201cestranho\u201d, \u201cbizarro\u201d. Parceria no sentido de acolher esse modo de gozo, interessar-se por ele, e n\u00e3o no sentido adaptativo de terapeutiz\u00e1-lo, tomando-o como um desajuste. Muitas vezes \u00e9 necess\u00e1rio o contr\u00e1rio disso, trivializar o modo de gozo. Na medida em que o sujeito pode deslocar da mostra\u00e7\u00e3o, do \u201c\u00e9 assim que eu gozo\u201d e falar disso, \u201co estranho\u201d do gozo passa para um registro mais ordin\u00e1rio, efeito do dispositivo. A desconsist\u00eancia do estranho se d\u00e1 como efeito da fala, pois deixa de ser o mais precioso, no qual o sujeito est\u00e1 aferrado e que sustenta o muro de exclus\u00e3o do Outro, e passa a ser colocado na transfer\u00eancia, em um novo la\u00e7o.<\/p>\n<p>Em alguns casos, a queixa inicial do isolamento, como games, tornou-se secund\u00e1ria, pois quando o sujeito passou a falar do seu mundo \u201cestranho e escondido\u201d, o que apareceu, para ele mesmo, foi a maneira como vem construindo seu muro, o trabalho que empreende para desconsistir o Outro.<\/p>\n<p>Esse movimento pode engendrar uma possibilidade do sujeito avan\u00e7ar mais profundamente em si mesmo, e quem sabe at\u00e9 produzir algum tipo de solid\u00e3o. Essa pode ser uma aposta que somente no caso a caso \u00e9 que podemos verificar.<\/p>\n<h6>Por Fabiola Ramon &#8211; Correspondente da EBP-SP<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Brousse, M.H. Entrevista IX Jornadas EBP-SP. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WFjmP6nSk9o&amp;feature=youtu.be\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WFjmP6nSk9o&amp;feature=youtu.be<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> La Sagna, P. \u201cD l\u2019isolement \u00e0 la solitude\u201d.\u00a0<em>La Cause freudienne, n.\u00a0<\/em>66. Paris: ECF, 2007, Tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, Livro 11<\/em>. RJ: Jorge Zahar ed, 1998.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> La Sagna, P. Ibid.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Idem, Ibid, p. 45<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Idem, Ibid, p. 46<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Idem, Ibid, p. 45<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Vieira, M., A. Anota\u00e7\u00f5es feitas a partir de um relato de passe de Marcus Andr\u00e9 Vieira.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Silva, R. F. <em>O destino do amor no final da an\u00e1lise<\/em>. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 70, Jun 2015. P. 43<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Ibid, p. 44.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Partirei do isolamento, fen\u00f4meno frequente na cl\u00ednica com adolescentes, e que, no discurso normativo \u00e9 tomado como um efeito da solid\u00e3o contempor\u00e2nea. Como a psican\u00e1lise aborda essa quest\u00e3o? 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