{"id":3988,"date":"2019-07-17T06:06:04","date_gmt":"2019-07-17T09:06:04","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3988"},"modified":"2019-07-17T06:06:04","modified_gmt":"2019-07-17T09:06:04","slug":"a-solidao-do-ato-analitico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-solidao-do-ato-analitico\/","title":{"rendered":"A solid\u00e3o do ato anal\u00edtico"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3971\" aria-describedby=\"caption-attachment-3971\" style=\"width: 483px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3971\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tracos003_003-1.png\" alt=\"por Mauro Restiffe &amp; Valeska Soares. Instagram @carpintaria.rj\" width=\"483\" height=\"464\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tracos003_003-1.png 483w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tracos003_003-1-300x288.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 483px) 100vw, 483px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3971\" class=\"wp-caption-text\">por Mauro Restiffe &amp; Valeska Soares. Instagram @carpintaria.rj<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em seu Ato de Funda\u00e7\u00e3o, Jacques Lacan disse: \u201cfundo, t\u00e3o sozinho como sempre estive na minha rela\u00e7\u00e3o com a causa psicanal\u00edtica\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>. Este ponto j\u00e1 indicava a solid\u00e3o que todo ato comporta, indica\u00e7\u00e3o que nos remete \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do analista com a causa anal\u00edtica, que implica em uma escolha que n\u00e3o faz la\u00e7o, diz de uma particularidade radicalmente s\u00f3. Essa escolha me remete ao ato anal\u00edtico, na solid\u00e3o que o mesmo representa.<\/p>\n<p>Lacan pontuou que o ato anal\u00edtico implica a aus\u00eancia do Outro, de garantias e do sujeito do analista, na solid\u00e3o deste com sua causa anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Assim, o ato anal\u00edtico \u00e9 solit\u00e1rio e \u00e9 preciso consentir nesta solid\u00e3o, suportar esse lugar, do qual resiste e insiste em sua posi\u00e7\u00e3o de sujeito. A dificuldade se apresenta em fun\u00e7\u00e3o de que no ato h\u00e1 uma condi\u00e7\u00e3o inumana, onde ele n\u00e3o est\u00e1 ali enquanto sujeito, indicado por Lacan no des-ser do analista. \u201cNesse des-ser revela-se o inessencial do sujeito suposto saber, donde o futuro psicanalista entrega-se ao agalma da ess\u00eancia do desejo, disposto a pagar por ele em se reduzindo, ele e seu nome, ao significante qualquer\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>O lugar do des-ser diz da mais absoluta aus\u00eancia de refer\u00eancia. E diante deste insuport\u00e1vel, o analista recua de sua posi\u00e7\u00e3o de semblante, de objeto <em>a<\/em>. Consentir em sair deste lugar valorizado, idealizado e se colocar enquanto objeto que resta de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Entendo que esta pode ser uma das causas do horror ao seu ato, horror este pouco dito ou escrito, justamente pelo car\u00e1ter de nudez que o analista sente quando confrontado com seu ato.<\/p>\n<p>Esse ponto de horror traz consequ\u00eancias para a dire\u00e7\u00e3o do tratamento, servindo de entrave para a posi\u00e7\u00e3o de objeto que o analista deve ocupar. Furtar-se desse lugar abre a possibilidade para que outro ato se apresente, agora do lado do analisante, o <em>acting out<\/em> das mais diversas maneiras, podendo chegar ao rompimento do tratamento. Assim, quando o analista se ausenta, o <em>acting out<\/em> se apresenta.<\/p>\n<p>Graciela Brodsky pontua que o horror do analista ao ato anal\u00edtico est\u00e1 relacionado \u00e0 ang\u00fastia. O analista tem alguns \u201coutros com os quais lidamos para decidir o corte de uma sess\u00e3o, no caso, outros casos, livros, os cursos, a pr\u00f3pria an\u00e1lise, a supervis\u00e3o. [&#8230;] Apesar desses \u201coutros\u201d, h\u00e1 um ponto em que o analista, tendo feito um certo c\u00e1lculo, lan\u00e7a-se em seu ato, para depois ver no que dar\u00e1\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Da\u00ed a ang\u00fastia diante do incerto que este \u201cse lan\u00e7ar\u201d implica, apesar de um certo c\u00e1lculo n\u00e3o sabemos as consequ\u00eancias dele. Podemos tomar esta ang\u00fastia enquanto \u00edndice do real que comporta o ato, que implica a destitui\u00e7\u00e3o subjetiva e da posi\u00e7\u00e3o de objeto <em>a<\/em>, estando ausente a refer\u00eancia simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Lacan, ao fazer refer\u00eancia ao lugar ocupado pelo analista na dire\u00e7\u00e3o do tratamento, utilizando enquanto met\u00e1fora o jogo de <em>bridge, <\/em>pontua que este lugar \u00e9 o do morto:<\/p>\n<p>\u201co analista convoca a ajuda do que nesse jogo \u00e9 chamado de morto, mas para fazer surgir o quarto jogador que do analisado ser\u00e1 parceiro, e cuja m\u00e3o, atrav\u00e9s de seus lances, o analista se esfor\u00e7ar\u00e1 por faz\u00ea-lo adivinhar: \u00e9 esse o v\u00ednculo, digamos, de abnega\u00e7\u00e3o, imposto ao analista pelo cacife da partida na an\u00e1lise [&#8230;] os sentimentos do analista s\u00f3 t\u00eam um lugar poss\u00edvel nesse jogo: o do morto; e que, ao ressuscit\u00e1-lo, o jogo prossegue sem que se saiba quem o conduz\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>O lugar de morto pode ser um dos nomes do horror.<\/p>\n<p>Lacan prop\u00f5e que o analista s\u00f3 se autoriza de si mesmo<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> e esta indica\u00e7\u00e3o revela, tamb\u00e9m, a solid\u00e3o deste ato: nesta autoriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 Outro, nem garantia, estando \u2013 o analista \u2013 confrontado com a singularidade de seu ato.<\/p>\n<p>O ato psicanal\u00edtico \u00e9 portador da falta, onde sua topologia envolve um vazio, ponto de aus\u00eancia de resposta do Outro, que conduz \u00e0 queda do sujeito suposto saber, marcado pela barra no Outro (S(\u023a)), desembocando no des-ser do analista.<\/p>\n<p>Diante da solid\u00e3o do analista com sua causa, Lacan nos indica a Escola enquanto lugar que se averigua o desejo do analista, onde este vai \u201cpoder dispor de sua rela\u00e7\u00e3o com esse ato\u201d <a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. A Escola seria o Outro para quem o analista se dirige, n\u00e3o mais o Outro da garantia, mas sim enquanto lugar que dar\u00e1 suporte \u00e0 sua solid\u00e3o. \u201cDispor de sua rela\u00e7\u00e3o com seu ato\u201d implica se dirigir ao Outro Escola com sua fala, seus escritos sobre sua pr\u00e1tica anal\u00edtica e, finalmente, com o passe. \u00c9 para a Escola que o analista vai poder endere\u00e7ar seu embara\u00e7o nas tramas da consist\u00eancia do Outro e tratar as defesas que elege para n\u00e3o se avir com a solid\u00e3o de seu ato.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da Escola, o analista disp\u00f5e de sua pr\u00f3pria an\u00e1lise para suportar a posi\u00e7\u00e3o de objeto <em>a<\/em> e de desejo. \u201cSustentar essa posi\u00e7\u00e3o de desejo \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o fundamental para vir a sustentar uma posi\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, que \u00e9 essencialmente solit\u00e1ria, pois \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o do sujeito diante do \u2018si mesmo\u2019 \u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<h6><strong>por Maria C\u00e9lia Reinaldo Kato\u00a0<\/strong><strong>(EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> LACAN, J. \u201cAto de funda\u00e7\u00e3o\u201d. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> LACAN, J. \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola\u201d. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, pag. 259.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> BRODSKY, G. <em>Short Story: os princ\u00edpios do ato psicanal\u00edtico<\/em>. Rio de janeiro: Contra Capa, 2004.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> LACAN, J. \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios do seu poder\u201d. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998, pag. 595.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> LACAN, J. \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola\u201d. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, pag. 248.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> LACAN, J. \u201cDiscurso na Escola Freudiana de Paris\u201d. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, pag. 267.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> GUIMAR\u00c3ES, L. \u201cA Escola como quarto p\u00e9 da forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica\u201d. In: <em>Latusa Digital<\/em>, n. 47, ano 8, dezembro de 2011.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu Ato de Funda\u00e7\u00e3o, Jacques Lacan disse: \u201cfundo, t\u00e3o sozinho como sempre estive na minha rela\u00e7\u00e3o com a causa psicanal\u00edtica\u201d[1]. 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