{"id":3986,"date":"2019-07-17T06:04:08","date_gmt":"2019-07-17T09:04:08","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3986"},"modified":"2019-07-17T06:04:08","modified_gmt":"2019-07-17T09:04:08","slug":"do-um-ao-par-da-real-solidao-que-funda-e-preside-o-ser-falante-ao-desejo-do-analista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/do-um-ao-par-da-real-solidao-que-funda-e-preside-o-ser-falante-ao-desejo-do-analista\/","title":{"rendered":"Do Um ao par: da real-solid\u00e3o que funda e preside o ser falante ao desejo do analista"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>\u201cQuando o esp de um laps \u2013 ou seja, visto que s\u00f3 escrevo em franc\u00eas, o espa\u00e7o de um lapso \u2013 j\u00e1 n\u00e3o tem nenhum impacto de sentido ou interpreta\u00e7\u00e3o, s\u00f3 ent\u00e3o temos certeza de estar no inconsciente.\u201d<\/em><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_3972\" aria-describedby=\"caption-attachment-3972\" style=\"width: 458px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3972\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tracos003_004-1.png\" alt=\"por Luiz Bhering. Instagram @luizbhering\" width=\"458\" height=\"672\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tracos003_004-1.png 458w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tracos003_004-1-204x300.png 204w\" sizes=\"auto, (max-width: 458px) 100vw, 458px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3972\" class=\"wp-caption-text\">por Luiz Bhering. Instagram @luizbhering<\/figcaption><\/figure>\n<p>A tese de Jacques Lacan, em seu ultim\u00edssimo ensino, derivada da inven\u00e7\u00e3o do inconsciente freudiano, \u00e9 que o que preside a funda\u00e7\u00e3o do ser falante \u00e9 o inconsciente real. Este inconsciente, de radical solid\u00e3o, n\u00e3o se presta \u00e0 aten\u00e7\u00e3o, \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o, \u00e0 abordagem de uma verdade que se possa dizer a seu respeito. Tratar-se-ia, somente, de um consentimento do ser para que ele n\u00e3o se defenda dos efeitos deste real e o inclua no cora\u00e7\u00e3o de seu sinthoma, abrindo, assim, a possibilidade de uma inven\u00e7\u00e3o, um saber-fazer com esse insond\u00e1vel que ex-siste e insiste.<\/p>\n<p>O tratamento anal\u00edtico visa a este estado de ser ao percorrer os desfiladeiros das marcas significantes vividas, sendo que se corre atr\u00e1s desta verdade subjetiva, provocada pela associa\u00e7\u00e3o livre, mesmo que esta seja da ordem de uma \u201cverdade mentirosa\u201d, conforme afirma Miller<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> ao esclarecer a consequ\u00eancia que Lacan deriva deste inconsciente fundante para o ser: \u201cN\u00e3o h\u00e1 verdade que, ao passar pela aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o minta\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><em>, <\/em>pois esta verdade mesma, obtida atrav\u00e9s da associa\u00e7\u00e3o livre, \u00e9 uma verdade falhada, derivada da aten\u00e7\u00e3o. Operamos com o la\u00e7o entre o Um, em sua radical solid\u00e3o, e o Outro, que busca significantizar tal solid\u00e3o, ao pre\u00e7o de reduzir o ser falante a um objeto degradado. \u00c9 deste la\u00e7o que podemos extrair uma solu\u00e7\u00e3o mais digna, uma inven\u00e7\u00e3o, que pode fazer supl\u00eancia a aus\u00eancia de amizade, de rela\u00e7\u00e3o, caracter\u00edstica deste inconsciente real: \u201cN\u00e3o h\u00e1 amizade que este inconsciente suporte\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise se utiliza da cadeia significante: S1 (Um) &#8211; S2 (Outro), provocada pela associa\u00e7\u00e3o do analisante, para que o ser falante possa incluir, dar lugar, \u00e0 sua urg\u00eancia traum\u00e1tica fundante, que os significantes identificat\u00f3rios insistem em apagar. Este traumatismo est\u00e1 nas premissas da constitui\u00e7\u00e3o deste ser, que \u00e9 derivado do choque da l\u00edngua, da materialidade da l\u00edngua, com o corpo. \u00c9 este acontecimento traum\u00e1tico mesmo que o sujeito se esfor\u00e7a em deixar de fora em sua experi\u00eancia de vida, atrav\u00e9s de identifica\u00e7\u00f5es experimentadas em sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro\/mundo, \u00e0s custas de dar satisfa\u00e7\u00e3o a imperativos que barram sua singularidade. Justamente, \u00e9 a an\u00e1lise que busca fazer o sujeito se conectar com essa sua solid\u00e3o \u00edmpar, radical, para que ele possa tom\u00e1-la como ponto de partida e referencial\/causa para sua vida, assim como fez o solit\u00e1rio Freud na inven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, seguido por Lacan que, antes de decifr\u00e1-lo, tomou-o como causa de seu sintoma real: \u201cInventada por um solit\u00e1rio, teorizador incontest\u00e1vel do inconsciente (que s\u00f3 \u00e9 o que se cr\u00ea \u2013 digo: o inconsciente, seja, o real \u2013 caso se acredite em mim), ela \u00e9 agora praticada aos pares. Sejamos exatos, o solit\u00e1rio deu o exemplo\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o do tratamento anal\u00edtico visa o sujeito poder retificar seu modo de satisfa\u00e7\u00e3o, seu gozo. Satisfa\u00e7\u00e3o que inclui o \u2018saber e fazer\u2019 em rela\u00e7\u00e3o a este furo traum\u00e1tico e que s\u00f3 pode ser encontrada, com algum efeito de verdade e de inven\u00e7\u00e3o, ao final da experi\u00eancia:<\/p>\n<p>\u201cA miragem da verdade, da qual s\u00f3 se pode esperar a mentira (\u00e9 a isso que se chama resist\u00eancia, em termos polidos), n\u00e3o tem ouro limite sen\u00e3o a satisfa\u00e7\u00e3o que marca o fim da an\u00e1lise. Posto que dar essa satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 a urg\u00eancia que a an\u00e1lise preside, interroguemos como pode algu\u00e9m se dedicar a satisfazer esses casos de urg\u00eancia\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Satisfa\u00e7\u00e3o da urg\u00eancia subjetiva, dar satisfa\u00e7\u00e3o a um ponto de partida anterior ao estabelecimento do significante da transfer\u00eancia (St-S1) em sua rela\u00e7\u00e3o com o significante qualquer (Sq-S2). Esta urg\u00eancia \u00e9 tomada por Lacan, segundo Miller, como uma modalidade temporal que responde \u00e0 inser\u00e7\u00e3o de um traumatismo, o que corresponderia \u00e0 demanda do analisante em potencial, como uma peti\u00e7\u00e3o de uma urg\u00eancia<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. Mesmo que a situa\u00e7\u00e3o anal\u00edtica seja feita de um encontro e suponha um Outro a quem se dirige esta suposi\u00e7\u00e3o de saber responder, \u00e9 a este Um fundamental, urgente, que o pedido do analisante se dirige em potencial, o que ultrapassa a perspectiva da fala sustentada na verdade mentirosa, pois urge esta satisfa\u00e7\u00e3o que a fala n\u00e3o alcan\u00e7a.<\/p>\n<p>A resposta a tais urg\u00eancias, ou melhor, o estar \u00e0 altura destes casos de urg\u00eancia, desde sempre foi o caracter\u00edstico do psicanalista lacaniano, que est\u00e1 advertido de suas forma\u00e7\u00f5es do inconsciente e orientado pela radical solid\u00e3o do inconsciente real. Ainda mais na contemporaneidade, verificamos que o psicanalista \u00e9 o que est\u00e1 mais apto a responder em tais situa\u00e7\u00f5es graves e emergenciais, na medida em que ele disp\u00f5e, justamente, de um arsenal e referencial para suas interven\u00e7\u00f5es calcado em seu pr\u00f3prio inconsciente real, seu sinthoma, que \u00e9 derivado dos restos n\u00e3o assimil\u00e1veis e que se constitui como o desejo do analista. Na condu\u00e7\u00e3o dos tratamentos, este analista, \u00e0 altura de Freud, Lacan e de sua real solid\u00e3o, toma a urg\u00eancia como a demanda em potencial que pede uma satisfa\u00e7\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o do tratamento. O alcance desta satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 visado como fim e finalidade de um tratamento\/experi\u00eancia anal\u00edtica e o analista, para ser o suporte do Outro que isola o Um e o coloca como causa mais digna do ser falante, tem de se servir do isolamento deste real \u00fanico em si, para estar \u00e0 altura de se emprestar como parceiro, como par, nestes casos de urg\u00eancia: \u201cAssinalo que, como sempre, os casos de urg\u00eancia me atrapalhavam enquanto eu escrevia isto. Mas escrevo, na medida em que creio dever faz\u00ea-lo, para ficar a par desses casos, fazer com eles par\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<h6><strong>por Eduardo Benedicto &#8211;\u00a0<\/strong><strong>(EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Lacan, J. (1976). \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do semin\u00e1rio 11\u201d. In: <em>Outros Escritos<\/em>, Rio de Janeiro: Zahar, p. 567.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Miller, J.-A. (2006). <em>Perspectivas do semin\u00e1rio 23 de Lacan. O Sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Lacan, J. <em>Op cit<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Idem. <em>Ibid<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Idem. <em>Ibid<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Idem. <em>ibid<\/em>. pp 568-569.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Miller, J.-A. <em>Op cit<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Lacan, J. <em>Op cit<\/em>. p. 569.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQuando o esp de um laps \u2013 ou seja, visto que s\u00f3 escrevo em franc\u00eas, o espa\u00e7o de um lapso \u2013 j\u00e1 n\u00e3o tem nenhum impacto de sentido ou interpreta\u00e7\u00e3o, s\u00f3 ent\u00e3o temos certeza de estar no inconsciente.\u201d[1] A tese de Jacques Lacan, em seu ultim\u00edssimo ensino, derivada da inven\u00e7\u00e3o do inconsciente freudiano, \u00e9 que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3986","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornada-2019","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3986","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3986"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3986\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3986"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3986"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3986"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3986"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}