{"id":3922,"date":"2019-06-10T09:12:52","date_gmt":"2019-06-10T12:12:52","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3922"},"modified":"2019-06-10T09:12:52","modified_gmt":"2019-06-10T12:12:52","slug":"uns-tracos-tres-mulheres-e-suas-solucoes-para-a-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/uns-tracos-tres-mulheres-e-suas-solucoes-para-a-solidao\/","title":{"rendered":"Uns tra\u00e7os &#8211; Tr\u00eas mulheres e suas solu\u00e7\u00f5es para a solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3923\" aria-describedby=\"caption-attachment-3923\" style=\"width: 472px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3923\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/boletim002_005-1.png\" alt=\"\" width=\"472\" height=\"472\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/boletim002_005-1.png 472w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/boletim002_005-1-300x300.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/boletim002_005-1-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 472px) 100vw, 472px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3923\" class=\"wp-caption-text\">Instagram: @behemothmoth<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>Blanca Musachi &#8211;\u00a0<\/strong><strong>EBP\/AMP<\/strong><\/h6>\n<blockquote><p>\u201cEssa solid\u00e3o (..) de ruptura do saber, n\u00e3o somente ela se pode escrever,<\/p>\n<p>mas ela \u00e9 mesmo o que se escreve por excel\u00eancia,<\/p>\n<p>pois ela \u00e9 o que, de uma ruptura do ser, deixa tra\u00e7o.<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>\u201d<em>\u00a0<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"color: #003366;\"><strong>Uma escrita sem Outro em Marguerite Duras<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Duras ensina, no caminho que transita desde um desamparo radical \u00e0 vida do livro, como a escrita \u00e9 seu parceiro-sinthoma, que se apresenta como uma solu\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo necess\u00e1ria e dif\u00edcil de suportar. Ent\u00e3o a solid\u00e3o \u201cse torna trivial, finalmente se transforma em algo vulgar\u201d.<\/p>\n<p>No livro <em>Escrever<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>,<\/em> desde a primeira p\u00e1gina, \u00e9 recorrente a refer\u00eancia \u00e0 solid\u00e3o. A solid\u00e3o \u00e9 invas\u00e3o, \u00e9 a loucura, \u00e9 tamb\u00e9m o \u00e1lcool, antes de ser a solid\u00e3o do autor.<\/p>\n<p>Fala da solid\u00e3o, \u201cuma imensid\u00e3o vazia\u201d, \u201cuma solid\u00e3o quase total\u201d que experimenta \u201cno fundo de um buraco\u201d como um desamparo radical, e da qual pensa, desde sempre, que s\u00f3 a escritura a salvar\u00e1.<\/p>\n<p>Dir\u00e1 que chega um momento na vida em que tudo se coloca em d\u00favida. Todo sentido vacila. Essa d\u00favida, o sem sentido da vida, \u201c\u00e9 a solid\u00e3o. Nasceu dela, da solid\u00e3o\u201d. Mas sem essa d\u00favida primeira n\u00e3o resulta poss\u00edvel a escrita. Trata-se de uma solid\u00e3o angustiante, assim como a solid\u00e3o do \u00e1lcool: \u201cA solid\u00e3o tamb\u00e9m significa ou a morte ou o livro. Mas, antes, significa o \u00e1lcool\u201d. Bebe para esquecer, para esquecer-se de si. Para anestesiar uma imensid\u00e3o que a invade. Beber tem essa fun\u00e7\u00e3o: escapar de si, para anestesiar o insuport\u00e1vel de um gozo. Afastada do mundo ela bebe para esquecer o insuport\u00e1vel. O \u00e1lcool tem por fun\u00e7\u00e3o substituir a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual: \u201cOcupa seu corpo, toma o lugar deixado pelos homens, substitui, diz ela, \u201ca aventura do gozo\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>O \u00e1lcool tamb\u00e9m tem por fun\u00e7\u00e3o suportar o vazio de Deus. \u201cEst\u00e1 no lugar da cria\u00e7\u00e3o capital\u201d, mas M.D. n\u00e3o se engana. O \u00e1lcool \u00e9 est\u00e9ril, n\u00e3o vai bem com o significante, trata-se de uma ilus\u00e3o. Em \u201c<em>Escrever<\/em>\u201d, Dur\u00e1s \u00e9 definitiva: \u201cSe n\u00e3o tivesse escrito teria me convertido numa incur\u00e1vel do \u00e1lcool\u201d.<\/p>\n<p>Na escrita do livro o escritor \u201cest\u00e1 sozinho, inclusive em sua pr\u00f3pria solid\u00e3o. Estar sozinha com o livro \u201c\u00e9 estar sozinha num ref\u00fagio. Mas sem reza, sem Deus\u201d. No lugar onde n\u00e3o h\u00e1 mais nada, onde \u00e9 insuport\u00e1vel, imposs\u00edvel, nesse lugar M.D. escreve. Escreve \u201capesar do desespero; com o desespero\u201d do inomin\u00e1vel. Uma escrita sem Outro. \u201cA escrita: A escrita chega como o vento, est\u00e1 nua, \u00e9 a tinta, \u00e9 o escrito, e passa como nada passa na vida, nada, exceto isso, a vida\u201d. Como bem diz Gabriela Camaly<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, M. Duras escreve nas bordas das profundezas do gozo que abisma uma mulher. Finalmente, concordamos com esta autora que \u201ca escrita de Duras d\u00e1 conta do esfor\u00e7o do artista por fazer fic\u00e7\u00e3o com o que do gozo obscuro, ilimitado quando se trata do gozo feminino, n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever\u201d.<\/p>\n<p><span style=\"color: #003366;\"><strong>Uma solid\u00e3o como meio sem fim, na experi\u00eancia religiosa de Sor Maria<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Na experi\u00eancia religiosa de Sor Maria, da comunidade de monjas Dominicas do Mosteiro de Santa Catalina de Buenos Aires, referida por Bassols<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>, \u00e9 poss\u00edvel isolar tr\u00eas registros da solid\u00e3o que d\u00e3o conta de distintos momentos de inflex\u00e3o. a) Uma solid\u00e3o como meio: Uma solid\u00e3o no registro imagin\u00e1rio, do eu consigo mesmo. \u00c9 uma solid\u00e3o sem o outro da realidade familiar e social \u00e0 qual o sujeito renunciara (trata-se de uma monja reclusa). Essa solid\u00e3o que Sor Maria escolhe em sua certeza inicial, \u00e9 uma solid\u00e3o que se basta a si mesma, onde ela n\u00e3o goza de nada, de nada que n\u00e3o seja Deus. Trata-se de uma solid\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 um fim, \u00e9 um meio para outra coisa; que como observa Bassols, podemos fazer equivaler \u00e0 \u201ccoisa religiosa\u201d.\u00a0 A solid\u00e3o como um meio \u201cpara obter um gozo suplementar com o verdadeiro parceiro da sua vida\u201d. b) Trata-se de um segundo momento da solid\u00e3o como meio, onde primeiro se d\u00e1 uma ren\u00fancia intelectual, no registro do saber, que ir\u00e1 dar uma nova significa\u00e7\u00e3o ao primeiro momento. Depois se inclui um terceiro momento onde a ren\u00fancia toma a forma de uma ren\u00fancia de gozo para consagrar-se a Deus, quando ela percebe que \u201cnaturalmente\u201d foi feita para ter um marido e formar uma fam\u00edlia, o que implica o gozo do corpo. Aqui, nos diz Bassols, temos uma solid\u00e3o que se abre ao Outro do simb\u00f3lico. Onde o sujeito est\u00e1 a s\u00f3s com o Outro da linguagem. Uma solid\u00e3o acompanhada pelo Outro da linguagem, com o significante como ponte para estar com o Outro. Uma solid\u00e3o que passa pelo gozo f\u00e1lico. c) A solid\u00e3o como meio sem fim. Uma solid\u00e3o no registro do real. Trata-se de uma solid\u00e3o diferente, onde j\u00e1 n\u00e3o se trata de uma solid\u00e3o do intimismo, da rela\u00e7\u00e3o \u201ceu e Deus\u201d, mas de uma solid\u00e3o do \u201cextimismo\u201d. \u00c9 um meio infinito; um espa\u00e7o de solid\u00e3o que n\u00e3o tem bordas nem limites. Uma solid\u00e3o sem Outro. Momento em que \u00e9 preciso fazer falar esse Deus, Outro que n\u00e3o existe, para faz\u00ea-lo existir. N\u00e3o \u00e9 uma solid\u00e3o com o Outro, mas a solid\u00e3o do Um. \u00c9 a solid\u00e3o do gozo da puls\u00e3o sem Outro.<\/p>\n<p><span style=\"color: #003366;\"><strong>De uma triste solid\u00e3o \u00e0 solid\u00e3o do analista, numa experi\u00eancia de an\u00e1lise<\/strong><\/span><\/p>\n<p>O testemunho de final de an\u00e1lise de Dalila Arpin<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> ensina sobre a passagem de uma triste solid\u00e3o, a solid\u00e3o do gozo do Um do fantasma, a uma solid\u00e3o sem Outro, da inexist\u00eancia do Outro, segundo o discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Desde a inf\u00e2ncia, uma profunda solid\u00e3o a acossava. Tratava-se da solid\u00e3o ante o primeiro confronto com a inexist\u00eancia do Outro, na qual se experimentava como exclu\u00edda do amor parental. O fantasma de abandono que responde a essa primeira experi\u00eancia da inexist\u00eancia do Outro, ser\u00e1 a matriz a partir da qual o sujeito recorre ao amor dos parceiros, como um meio para fazer existir esse Outro que n\u00e3o existe, numa rela\u00e7\u00e3o, com frequ\u00eancia de \u201csimbiose como rem\u00e9dio \u00e0 solid\u00e3o\u201d. A solid\u00e3o aparece ent\u00e3o como uma modalidade particular da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o Outro, onde o sujeito se sacrifica ao desejo do Outro, ficando em uma posi\u00e7\u00e3o de priva\u00e7\u00e3o. \u201cEstar sozinha com\u201d foi a forma privilegiada das rela\u00e7\u00f5es a dois, cultivando ser a \u00fanica e portanto uma solid\u00e3o narc\u00edsica e f\u00e1lica. Esse \u201cestar sozinha com\u201d recobria a solid\u00e3o do Um, solid\u00e3o que \u201cnas mulheres pode entrar em resson\u00e2ncia com a demanda de amor. Essa demanda d\u00e1 conta da solid\u00e3o feminina em rela\u00e7\u00e3o com o gozo\u201d; e, como ensina Lacan no Aturdito, as mulheres n\u00e3o podem sen\u00e3o estar sozinhas quando experimentam o gozo Outro.<\/p>\n<p>Tomada nas redes de um abandono fantasm\u00e1tico, com o amor como meio-rem\u00e9dio, o sujeito inventara um Outro n\u00e3o barrado, que podia responder da inexist\u00eancia do Outro na estrutura. A via do amor de transfer\u00eancia, instalada a suposi\u00e7\u00e3o de saber na experi\u00eancia anal\u00edtica, ser\u00e1 outro meio para uma conex\u00e3o com o Outro. Dita conex\u00e3o permitir\u00e1 o acesso ao Outro gozo de uma mulher, para saber fazer com isso, uma vez produzida a queda do Sujeito suposto Saber, que Dalila Arpin apresenta em tr\u00eas tempos de separa\u00e7\u00e3o do analista, at\u00e9 um \u00faltimo sonho, interpretado como de final de an\u00e1lise.<\/p>\n<p>O final da an\u00e1lise se apresenta como a solid\u00e3o de um ato que abre a via para a solid\u00e3o do ato como analista. \u201cA solid\u00e3o do final da an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 a solid\u00e3o da realidade, sen\u00e3o a solid\u00e3o do sujeito advertido da inexist\u00eancia do Outro e do lugar faltante do objeto.\u00a0 Depois disso, e apostando no passe, o sujeito se presta a compartilhar o banquete dos analistas, como no sonho do final, onde tamb\u00e9m compartilha sua solu\u00e7\u00e3o com os outros. Talvez Dalila estaria de acordo com as palavras da Clarice Lispector<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>, quando disse \u201cO que nos salva da solid\u00e3o \u00e9 a solid\u00e3o de cada um dos outros\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Lacan, J. \u201cO Semin\u00e1rio \u2013 Livro 20: Mais, ainda\u201d (1972-1973). Rio de Janeiro: Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Dur\u00e1s, M. \u201cEscribir\u201d. Buenos Aires: Tusquets Editores , 2010.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Lebelley, F. \u201cMarguerite Dur\u00e1s, uma vida por escrito\u201d. S\u00e3o Paulo: Scritta, 1994.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Camaly, G. \u201cEscrituras posibles\u201d. In: \u201cLos impasses de la feminidad. Goces y escrituras. Buenos\u00a0\u00a0 Airres: Grama ediciones, 2017.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Bassols, M. \u201cSor Maria y la soledad como m\u00e9dio\u201d. In: \u201cLo feminino, entre centro y aus\u00eancia\u201d. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2017.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Arpin, D. \u201cUna muy triste soledad\u201d. Revista El psicoan\u00e1lisis 30\/31. Barcelona, 2017.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Lispector, C. \u201cA comunica\u00e7\u00e3o muda. Cr\u00f3nica no Caderno B do Jornal do Brasil. Rio de janeiro, maio de 1970.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Blanca Musachi &#8211;\u00a0EBP\/AMP \u201cEssa solid\u00e3o (..) de ruptura do saber, n\u00e3o somente ela se pode escrever, mas ela \u00e9 mesmo o que se escreve por excel\u00eancia, pois ela \u00e9 o que, de uma ruptura do ser, deixa tra\u00e7o.[1]\u201d\u00a0 Uma escrita sem Outro em Marguerite Duras Duras ensina, no caminho que transita desde um desamparo radical&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3922","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornada-2019","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3922","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3922"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3922\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3922"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3922"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3922"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3922"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}