{"id":3916,"date":"2019-06-10T09:03:09","date_gmt":"2019-06-10T12:03:09","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3916"},"modified":"2019-06-10T09:03:09","modified_gmt":"2019-06-10T12:03:09","slug":"uns-tracos-a-histeria-solitaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/uns-tracos-a-histeria-solitaria\/","title":{"rendered":"Uns Tra\u00e7os &#8211; A histeria solit\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3917\" aria-describedby=\"caption-attachment-3917\" style=\"width: 449px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3917\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/boletim002_003-1.png\" alt=\"\" width=\"449\" height=\"356\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/boletim002_003-1.png 449w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/boletim002_003-1-300x238.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 449px) 100vw, 449px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3917\" class=\"wp-caption-text\">Tarsila do Amaral \u2013 Em exposi\u00e7\u00e3o no MASP<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>K\u00e1tia Ribeiro Nadeau &#8211;\u00a0<\/strong><strong>Associada da CLIPP<\/strong><\/h6>\n<blockquote><p>\u201cMinha alma tem o peso da luz. Tem o peso da m\u00fasica. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembran\u00e7a. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma aus\u00eancia. E a l\u00e1grima que n\u00e3o se chorou. Tem o imaterial peso da solid\u00e3o no meio dos outros\u201d<\/p>\n<p>(Clarice Lispector)<\/p><\/blockquote>\n<p>O sintoma hist\u00e9rico tem nos orientado a partir de Freud, que segue no caminho dos tra\u00e7os e das marcas do surgimento do gozo como efeitos da marcas da linguagem no corpo.<\/p>\n<p>Com Lacan, a partir das elabora\u00e7\u00f5es em seus \u00faltimos semin\u00e1rios, a histeria ganha novos rumos.<\/p>\n<p>Se o sintoma hist\u00e9rico tem seu eixo central ancorado e organizado no amor ao pai, como repensar e atualizar a histeria hoje, orientando-se pelo real? Como pensar a l\u00f3gica da histeria que n\u00e3o seja exclusivamente definida pela sua rela\u00e7\u00e3o ao amor ao pai, mas pelos diferentes v\u00ednculos com o significante?<\/p>\n<p>Se a refer\u00eancia paterna servia para velar o poder do significante, a histeria hoje est\u00e1 mais perto do acesso aos poderes do significante.<\/p>\n<p>Como fazer de um trauma um sintoma? Seria no percurso do sofrimento indiz\u00edvel que se vale do corpo para falar. O sujeito hist\u00e9rico faz um uso muito interessante da estrutura\u00e7\u00e3o de um corpo que sustenta o pai, como defesa frente ao real do gozo feminino. Se o sintoma hist\u00e9rico coloca em quest\u00e3o a confronta\u00e7\u00e3o sem media\u00e7\u00e3o com o gozo f\u00e1lico, o sintoma se vale do corpo para falar.<\/p>\n<p>O problema, e tamb\u00e9m o novo sobre a histeria, come\u00e7a onde j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 cren\u00e7a no pai, no amor ao pai como aquele que porta um sentido capaz de resolver o enigma do gozo e do desejo, deslocando o sujeito hist\u00e9rico de sua posi\u00e7\u00e3o de fazer existir o pai ideal pela via do amor.<\/p>\n<p>A estrutura hist\u00e9rica hoje, desconectada do sentido, nos convoca a repensar o sintoma sexual desprovido de sentido e reduzido \u00e0 pura repeti\u00e7\u00e3o de UM gozo.<\/p>\n<p>Seguindo Miller<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, trata-se de uma tor\u00e7\u00e3o do significante, que assume n\u00e3o mais sua vertente de significa\u00e7\u00e3o, de sentido, de met\u00e1fora, mas passa a ser significante do gozo. Deste modo, a fun\u00e7\u00e3o do significante \u00e9 aparelhar o gozo, lhe dar subst\u00e2ncia, lhe conferir materialidade.<\/p>\n<p>O sintoma hist\u00e9rico se sustenta hoje muito mais na materialidade do significante do que na produ\u00e7\u00e3o de sentido; ao se separar dele, segue sozinho ao sustentar enla\u00e7ados os registros do Real-Simb\u00f3lico-Imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Lacan<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> em sua refer\u00eancia no <em>Semin\u00e1rio 23<\/em>, ilustra, a partir da personagem de uma pe\u00e7a de teatro inspirada no caso Dora \u201cO retrato de Dora\u201d de Hel\u00e9ne Cixous, algo muito interessante e diferente. Trata-se do conceito de histeria r\u00edgida, uma histeria j\u00e1 sem o apoio do sentido, sem um parceiro e sem um Outro interpretante. O conceito precisa um ponto de amarra\u00e7\u00e3o que prescinde do amor paterno, sem um enodamento suplementar.<\/p>\n<p>Na histeria sem o Nome-do-Pai encontraremos um corpo que fala sem interpreta\u00e7\u00e3o ou deciframento sobre a condi\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual. A histeria solit\u00e1ria e r\u00edgida ainda possui formas de responder ao trauma sexual pela via do significante, mas sem o Outro como int\u00e9rprete, usando da palavra, do corpo e da fala em seu limite.<\/p>\n<p>A histeria, que ainda porta os segredos do desejo, j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 necessariamente referenciada a um Outro, \u00e0 met\u00e1fora ou \u00e0 meton\u00edmia.<\/p>\n<p>Freud funda a psican\u00e1lise com a histeria e Lacan o segue em seu primeiro ensino, privilegiando o pai e o simb\u00f3lico. A partir de seu \u00faltimo ensino, separa-se de Freud e o real entra jogo na histeria, o gozo escapa ao falo como significante, ressitua o lugar do pai como semblante e o lugar do falo que como significante s\u00f3 pode dar conta parcial do gozo.<\/p>\n<p>A histeria hoje se apresenta em sua solid\u00e3o de acontecimento de corpo, de um sintoma n\u00e3o mais articulado como significa\u00e7\u00e3o do Outro, desligado do simb\u00f3lico e sustentado no real. \u201cO ESP DE UM LAPS\u201d sem nenhum alcance de sentido ou interpreta\u00e7\u00e3o, mais distante do simb\u00f3lico, mais perto do corpo: isso n\u00e3o quer dizer, isso goza. Sustentado no real, se satisfaz sozinho.<\/p>\n<p>Se o ensino de Lacan vai do sujeito do inconsciente ao ser falante, nosso desafio e esfor\u00e7o est\u00e3o sempre relan\u00e7ados no trabalho de respondermos, \u00e0 altura de nossa \u00e9poca, como analisar, como fazer com esses seres falantes solit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Como abordar os \u201csolit\u00e1rios\u201d em seu ponto de gozo pulsional sem o Outro?<\/p>\n<p>Que a psican\u00e1lise possa a\u00ed nomear e reconhecer o mais \u00edntimo e pr\u00f3prio de cada ser falante em sua diferen\u00e7a absoluta, mobilizando a paix\u00e3o hist\u00e9rica pela solid\u00e3o, a paix\u00e3o de ser \u00fanica(o), a paix\u00e3o de ser exce\u00e7\u00e3o at\u00e9 o la\u00e7o poss\u00edvel que inclui a diferen\u00e7a de cada UM.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Miller, J.A.\u00a0 \u201cO Inconsciente e o corpo falante\u201d. Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do X congresso da AMP \/2016. In: Scilicet: O corpo falante \u2013 Sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2016.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Lacan, J. \u201cO Semin\u00e1rio, livro 23 &#8211; O Sinthome\u201d (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 1007.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>K\u00e1tia Ribeiro Nadeau &#8211;\u00a0Associada da CLIPP \u201cMinha alma tem o peso da luz. Tem o peso da m\u00fasica. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembran\u00e7a. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma aus\u00eancia. 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