{"id":3711,"date":"2018-12-19T06:43:21","date_gmt":"2018-12-19T08:43:21","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3711"},"modified":"2018-12-19T06:43:21","modified_gmt":"2018-12-19T08:43:21","slug":"um-pequeno-ensaio-sobre-o-odio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/um-pequeno-ensaio-sobre-o-odio\/","title":{"rendered":"Um pequeno ensaio sobre o \u00f3dio"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3688 size-medium\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Maria-de-Fatima-277x300.jpg\" alt=\"\" width=\"277\" height=\"300\" \/><strong>Maria de F\u00e1tima S. Luzia (Associada ao CLIN-a)<\/strong><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: right;\">\u201cN\u00e3o se odiaria, se n\u00e3o se tivesse que se odiar a si mesmo ao mesmo tempo\u201d<\/h4>\n<h4 style=\"text-align: right;\">Nimier 1951<\/h4>\n<h4>O que nos faz odiar?<\/h4>\n<h4>Amar e odiar demais, signos de um tempo que nos mostram o quanto podemos ser mort\u00edferos na rela\u00e7\u00e3o com esses afetos.<\/h4>\n<h4>Em sua \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o ao Narcisismo\u201d, Freud desenvolve sua teoria ao redor de um lugar m\u00edtico de puro prazer, onde as puls\u00f5es se satisfazem autoeroticamente. Mas logo nos convoca a pensar que este lugar aloja tamb\u00e9m o desprazer e \u00e9 atrav\u00e9s dele que o dentro e o fora se estabelece, esse excesso hostil de libido liberada retorna e \u00e9 percebida como estranha e invasiva.<\/h4>\n<h4>Lacan aponta que o \u00f3dio tem um excedente que vai al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, dizendo que ele \u00e9 mesmo o que mais se aproxima do ser onde se situa a ex-sist\u00eancia; nasce juntamente com o sujeito na sua entrada na linguagem, que \u00e9 traum\u00e1tica e que o marca em sua exist\u00eancia de ser na forma de repeti\u00e7\u00e3o.<\/h4>\n<h4>O sentido original do \u00f3dio designa essa rela\u00e7\u00e3o com o mundo exterior alheio e portador de est\u00edmulos; assim o exterior, o objeto, o odiado, seriam id\u00eanticos no in\u00edcio, se depois o objeto \u00e9 fonte de prazer, podendo ser amado, novamente vai coincidir com o alheio e odiado. O amor antes derivado do Eu origin\u00e1rio de prazer, aqui \u00e9 pensado como posterior ao \u00f3dio na rela\u00e7\u00e3o narc\u00edsica com o Outro.<\/h4>\n<h4>Freud nos relata que quando a rela\u00e7\u00e3o com um objeto de amor \u00e9 rompida, n\u00e3o \u00e9 raro o \u00f3dio tomar o seu lugar, como objeto estranho e invasivo.<\/h4>\n<h4>Como podemos articular os modos de gozo e seus afetos excessivos com o Outro da modernidade?<\/h4>\n<h4>Lacan nos dir\u00e1 que o la\u00e7o social \u00e9 realizado pela via de quatro discursos; no entanto, o discurso capitalista apresenta um funcionamento diferente, o sujeito se consome completado pelo objeto <em>a<\/em>, n\u00e3o h\u00e1 resto, n\u00e3o passa pelo circuito pulsional.<\/h4>\n<h4>Que consequ\u00eancias tem esse discurso no modo de gozo atual?<\/h4>\n<h4>Amar e odiar demais s\u00e3o premissas modernas que deixam o sujeito no transbordamento de seu gozo e cada qual vai dar um tratamento singular a isso.<\/h4>\n<h4>Aniquilar, humilhar o outro, tem sido comportamentos corriqueiros de adolescentes atendidos num Capsi. O prazer em ver o outro fragilizado, atemorizado, se torna um objeto precioso para seu ato de terror.<\/h4>\n<h4>Suic\u00eddio, anorexia, viol\u00eancia, toxicomania, games: s\u00e3o modos de gozo que esses adolescentes buscam para estar no mundo, ou fora dele?<\/h4>\n<h4>Rafael, menino abandonado na ca\u00e7amba quando beb\u00ea; ser esse resto se torna o seu dito. Menino fot\u00f3grafo, que tem em suas imagens destorcidas algo de singular, estranho e belo, mas sua satisfa\u00e7\u00e3o pulsional n\u00e3o se encontra a\u00ed.<\/h4>\n<h4>Roubar, bater, humilhar, estuprar&#8230; o colocam no lugar do objeto resto da ca\u00e7amba que insiste em repetir de forma mort\u00edfera, mas ao tentar destruir o outro \u00e9 a si mesmo que destr\u00f3i.<\/h4>\n<h4>Indagado sobre esse lugar, produz um desenho onde, entre uma cadeira e um banco para duas pessoas, h\u00e1 uma fogueira; o seu lugar \u00e9 o do Um, n\u00e3o sentaria no banco pois h\u00e1 o risco do outro ocupar o lugar ao lado. A fogueira arde entre o lugar do Um e o do Outro, que se encontra vazio. Refrat\u00e1rio \u00e0 palavra, o lugar do Um parece ser sua escolha. Hoje vive nas ruas de S\u00e3o Paulo.<\/h4>\n<h4>Lacan toma a ideia do discurso que deve ser considerado um la\u00e7o, que aponta uma rede articulada de significantes e, portanto, faz refer\u00eancia a construir algo sobre uma falta.<\/h4>\n<h4>Como podemos pensar o \u00f3dio na rela\u00e7\u00e3o de um discurso totalizante, que n\u00e3o \u00e9 constru\u00eddo sobre uma falta?<\/h4>\n<p>_____________________________<\/p>\n<p>Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 20 mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/p>\n<p>Freud,S. \u201cSobre narcisismo: uma introdu\u00e7\u00e3o\u201d. Obras Completas de Freud. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.<\/p>\n<p>_______ \u201cOs instintos e suas vicissitudes\u201d. Ibid.<\/p>\n<p>_______ \u201cO mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. Ibid. Vol. XXI.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria de F\u00e1tima S. Luzia (Associada ao CLIN-a) \u201cN\u00e3o se odiaria, se n\u00e3o se tivesse que se odiar a si mesmo ao mesmo tempo\u201d Nimier 1951 O que nos faz odiar? Amar e odiar demais, signos de um tempo que nos mostram o quanto podemos ser mort\u00edferos na rela\u00e7\u00e3o com esses afetos. 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