{"id":3704,"date":"2018-12-19T06:29:11","date_gmt":"2018-12-19T08:29:11","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3704"},"modified":"2018-12-19T06:29:11","modified_gmt":"2018-12-19T08:29:11","slug":"a-psicanalise-na-era-do-homem-empresa-e-do-significante-neuro1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-psicanalise-na-era-do-homem-empresa-e-do-significante-neuro1\/","title":{"rendered":"A psican\u00e1lise na era do homem-empresa e do significante \u201cneuro\u201d(1)"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3605 size-medium\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Daniela-Affonso-2-206x300.jpg\" alt=\"\" width=\"206\" height=\"300\" \/><strong>Daniela de Camargo Barros Affonso (EBP\/AMP)<\/strong><\/h4>\n<h4>A quest\u00e3o que me propus trabalhar neste cartel \u2013 \u201cA psican\u00e1lise nos tempos das novas formas de autoritarismo\u201d \u2013 origina-se da ideia de que as formas conhecidas do autoritarismo se tornaram insuficientes para explicar o enfraquecimento da democracia. Para Laval e Dardot, em <em>A nova raz\u00e3o do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal(<\/em>2), apesar de existirem mais pa\u00edses formalmente democr\u00e1ticos, h\u00e1 uma desconfian\u00e7a generalizada entre governantes e governados. Se a democracia liberal estava longe de ser perfeita, ainda havia disparidade entre a express\u00e3o da vontade popular e a l\u00f3gica econ\u00f4mica da acumula\u00e7\u00e3o do capital. O neoliberalismo produz a liquida\u00e7\u00e3o deste jogo, que permitia a\u00e7\u00f5es limitantes dos efeitos negativos do capitalismo.<\/h4>\n<h4>Parte da\u00ed o interesse da psican\u00e1lise neste debate. Pensar que a psican\u00e1lise \u00e9 exclusivamente uma experi\u00eancia do um a um, alheia ao mal-estar do social, \u00e9 um erro, diz Miller(3), lembrando que a pr\u00f3pria exist\u00eancia da psican\u00e1lise vincula-se \u00e0 democracia, \u00fanico regime garantidor da liberdade de express\u00e3o.<\/h4>\n<h4>O neoliberalismo n\u00e3o se reduz a uma pol\u00edtica econ\u00f4mica, \u00e9 uma racionalidade que incide na exist\u00eancia, transformando a subjetividade. Se &#8220;deve renunciar \u00e0 pr\u00e1tica da psican\u00e1lise todo analista que n\u00e3o conseguir alcan\u00e7ar em seu horizonte a subjetividade de sua \u00e9poca&#8221;(4), \u00e9 imperativo pensar as formas desta neo-subjetividade. Cabe ressalvar que o termo subjetividade n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de sujeito: \u201c(&#8230;) \u00e9 necess\u00e1rio distinguir a subjetividade historicamente produzida pelos dispositivos de poder, lugar de onde a pol\u00edtica adv\u00e9m, e o surgimento da exist\u00eancia sexuada, falante e mortal, que por estrutura n\u00e3o pode ser produto de nada\u201d(5). O conceito de sujeito do inconsciente \u00e9 a chave que abre a possibilidade de localizar a psican\u00e1lise como instrumento para pensar os impasses da civiliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que h\u00e1 algo irredut\u00edvel a qualquer representa\u00e7\u00e3o.<\/h4>\n<h4>Ao liquidar o conflito entre as exig\u00eancias da puls\u00e3o e as da civiliza\u00e7\u00e3o, esta nova gest\u00e3o ambicionaria superar a contradi\u00e7\u00e3o entre os valores hedonistas do consumo e os asc\u00e9ticos do trabalho. A empresa passa a ser \u201cuma maneira de ser\u201d, em que toda a atividade do indiv\u00edduo \u00e9 concebida como um processo de valoriza\u00e7\u00e3o do eu a ser transposto para todos os \u00e2mbitos da exist\u00eancia.<\/h4>\n<h4>Este sujeito requer um discurso que implica t\u00e9cnicas cujo objetivo \u00e9 fazer eclodir o homem-empresa \u2013 as \u201casceses do desempenho\u201d: <em>coaching<\/em>, programa\u00e7\u00e3o neurolingu\u00edstica, an\u00e1lise transacional. Identifica-se o desempenho ao gozo. O indiv\u00edduo \u00e9 confrontado com o universo da disfun\u00e7\u00e3o sempre que se v\u00ea incapaz de se \u201csuperar\u201d e se \u201cautorrealizar\u201d. A tecnologia entra para resgatar o homem-empresa. As novas formas de autoritarismo estariam, assim, bem delineadas.<\/h4>\n<h4>Por que caminhos a ci\u00eancia se aliou a esta tecnologia e como a psican\u00e1lise se posiciona neste contexto? Miller(6) retrata como a psicologia adotou um simulacro do discurso da ci\u00eancia transformando-se em cognitivista. Passou da observa\u00e7\u00e3o dos comportamentos \u00e0 dos neur\u00f4nios, atrav\u00e9s da resson\u00e2ncia magn\u00e9tica. Somos dotados de um imagin\u00e1rio poderoso do simb\u00f3lico, em que o significante mestre \u00e9 \u201cneuro\u201d. O real se tornou neuro-real.<\/h4>\n<h4>A mistura explosiva do discurso da ci\u00eancia e do capitalismo rompeu os fundamentos mais profundos da tradi\u00e7\u00e3o(7). \u00c9 sob a forma de cientificismo e do com\u00e9rcio aberto por suas tecnologias que a ci\u00eancia pode fazer la\u00e7o com o s\u00e9culo XXI(8).<\/h4>\n<h4>H\u00e1 toda uma linha da neuroci\u00eancia que tenta provar as teses psicanal\u00edticas, sob o slogan \u201cFreud est\u00e1 de volta!\u201d. Mark Solms, criador da \u201cneuropsican\u00e1lise\u201d, \u00e9 o principal expoente dessa tentativa de localizar os conceitos freudianos no sistema nervoso central. Para Bassols(9) esta extens\u00e3o dos pressupostos da ci\u00eancia a todo o \u00e2mbito do humano \u00e9 uma ideologia reducionista, a \u201cfantasia da \u00e9poca\u201d.<\/h4>\n<h4>H\u00e1 duas correntes nas neuroci\u00eancias: a que quer localizar as fun\u00e7\u00f5es subjetivas em alguma parte do c\u00e9rebro e outra \u2013 com a qual a psican\u00e1lise pode dialogar \u2013 que est\u00e1 descobrindo a impossibilidade de efetuar tal localiza\u00e7\u00e3o. Haveria um \u201creal\u201d de certa<\/h4>\n<h4>parte da ci\u00eancia que cr\u00ea na exist\u00eancia de um saber j\u00e1 inscrito no real gen\u00e9tico e neuronal, e outro real, de outra parte da ci\u00eancia, cuja ideia se aproxima \u00e0quela da psican\u00e1lise.<\/h4>\n<h4>Se certo cientificismo negligencia a incid\u00eancia da linguagem sobre o falasser, cabe \u00e0 psican\u00e1lise n\u00e3o tergiversar quanto a isso. Advertidos de que as irrup\u00e7\u00f5es do real n\u00e3o podem ser reabsorvidas por nenhuma constru\u00e7\u00e3o discursiva, os psicanalistas podem direcionar sua escuta mais al\u00e9m dos enunciados do homem-empresa. A psican\u00e1lise se v\u00ea diante do desafio de n\u00e3o se deixar engolir pelo cientificismo reducionista do significante \u201cneuro\u201d. Cabe estabelecer um debate vivo com o campo cient\u00edfico, na busca permanente de desnaturalizar a subjetividade atual, apontando para seu car\u00e1ter contingente.<\/h4>\n<p>__________________________________<\/p>\n<p>1 N.A.: Vers\u00e3o reduzida do trabalho fruto do cartel \u201cA posi\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise diante da pol\u00edtica na atualidade\u201d, apresentado nas Jornadas de Carteis da EBP-SP em 29\/9\/2018.<\/p>\n<p>2 Dardot, P. e Laval, C. A nova raz\u00e3o do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. SP: Boitempo, 2016.<\/p>\n<p>3 Miller, J.-A. \u201cConfer\u00eancia de Madrid\u201d. In Lacan Cotidiano N\u00b0 700.<\/p>\n<p>4 Lacan, J. \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem\u201d. In Escritos. RJ: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 322.<\/p>\n<p>5 Entrevista com Jorge Alem\u00e1n em http:\/\/subversos.com.br\/uma-esquerda-lacaniana-entrevista-com-jorge-aleman\/.<\/p>\n<p>6 Miller, J.-A. \u201cNeuro, le nouveau r\u00e9el\u201d.In La cause du d\u00e9sir, 98 \u2013 Folies dans la civilisation.<\/p>\n<p>7 ________ \u201cO real no s\u00e9culo XXI\u201d. In Scilicet \u2013 Um real para o s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>8________ \u201cCientificismo, ru\u00edna da ci\u00eancia\u201d. In Scilicet \u2013 Um real para o s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>9 Bassols, M.. \u201cAs neuroci\u00eancias e o sujeito do inconsciente\u201d. In Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie, n\u00ba 17.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniela de Camargo Barros Affonso (EBP\/AMP) A quest\u00e3o que me propus trabalhar neste cartel \u2013 \u201cA psican\u00e1lise nos tempos das novas formas de autoritarismo\u201d \u2013 origina-se da ideia de que as formas conhecidas do autoritarismo se tornaram insuficientes para explicar o enfraquecimento da democracia. 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