{"id":3698,"date":"2018-12-18T13:35:24","date_gmt":"2018-12-18T15:35:24","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3698"},"modified":"2018-12-18T13:35:24","modified_gmt":"2018-12-18T15:35:24","slug":"o-cartel-e-a-psicologia-das-redes-sociais1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-cartel-e-a-psicologia-das-redes-sociais1\/","title":{"rendered":"O cartel e a psicologia das redes sociais(1)"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3683 size-full\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Rodrigo-Lyra-2-1.jpg\" alt=\"\" width=\"249\" height=\"220\" \/><strong>Rodrigo Lyra Carvalho (EBP\/AMP)<\/strong><\/h4>\n<h4>O t\u00edtulo dessa Jornada traz tr\u00eas termos objetos usuais de nossa aten\u00e7\u00e3o: massas, grupos e cart\u00e9is. <em>Rede social<\/em> \u00e9 o que perturba a lista, o <em>unheimlich<\/em>, o estranho familiar.<\/h4>\n<h4>A ideia de rede ocupou lugar central no ensino de Lacan. Em 1968 ele afirmou que havia entrado \u201cna psican\u00e1lise com uma vassourinha que se chamava est\u00e1dio do espelho\u201d (10\/1\/1968). A fun\u00e7\u00e3o era varrer as tend\u00eancias que essencializavam a subjetividade e transmitir o eu como uma montagem m\u00faltipla, uma conex\u00e3o de distintos elementos. O ser falante s\u00f3 existe em rede que poder\u00edamos chamar de <em>social<\/em>, pois n\u00e3o \u00e9 apenas biol\u00f3gica.<\/h4>\n<h4>O termo rede social nos convoca por um motivo suplementar, menos <em>familiar<\/em> e mais <em>estranho<\/em>: as \u00faltimas d\u00e9cadas foram marcadas, com a dissemina\u00e7\u00e3o da internet, por um exponencial desenvolvimento de <em>hardwares<\/em> e <em>softwares<\/em> que impactaram o modo como as redes se constituem, como, nelas, os seres falantes se constituem e se organizam.<\/h4>\n<h4>Dentre os aspectos das novas redes, destaco a disputa pela aten\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios, o que se chama no Vale do Sil\u00edcio <em>engajamento<\/em>. Trata-se de aumentar o tempo que passamos <em>on line<\/em> e a <em>quantidade<\/em> de dados fornecidos. Nessa disputa, s\u00e3o empregados todos os recursos dispon\u00edveis para a produ\u00e7\u00e3o da adi\u00e7\u00e3o.<\/h4>\n<h4>Sentimos participar de uma rede aberta, n\u00e3o editada, composta pela voz daqueles que escolhemos seguir. Contudo, a media\u00e7\u00e3o est\u00e1 em cada gesto de comunica\u00e7\u00e3o e passa a ser comercializada. Entre n\u00f3s e cada amigo, not\u00edcia, propaganda, postagem de um movimento social ou pol\u00edtico, h\u00e1 uma media\u00e7\u00e3o invis\u00edvel.<\/h4>\n<h4>Um fator vem sendo documentado sobre o esfor\u00e7o das redes sociais de aumentar o engajamento. Na vers\u00e3o light, isso seria obtido na medida em que os algoritmos oferecem mais material que d\u00ea prazer. Na pr\u00e1tica, o conte\u00fado alarmista e a radicaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o estrat\u00e9gias mais eficazes.<\/h4>\n<h4>\u00c9 um cen\u00e1rio para o qual contribuem tanto um longo processo cultural \u2013 o enfraquecimento da fun\u00e7\u00e3o paterna \u2013, quanto o advento das tecnologias. O la\u00e7o social e a pol\u00edtica tendem \u00e0 horizontalidade e \u00e0 busca de acomoda\u00e7\u00e3o entre grupos identit\u00e1rios. N\u00e3o cabe a n\u00f3s, psicanalistas, abra\u00e7ar a nostalgia ou festejar as boas novas, mas refletir sobre as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para que as dificuldades estruturais sejam encaradas com o saber fazer mais sens\u00edvel poss\u00edvel.<\/h4>\n<h4>\u00c9 nesse ponto que o cartel pode nos orientar. Ele tem em sua base a ideia freudiana que se revela na \u201cPsicologia das massas\u201d, mas est\u00e1 em toda a obra: n\u00e3o existe diferen\u00e7a essencial entre a psicologia do eu e a psicologia do grupo.<\/h4>\n<h4>Lacan radicaliza essa no\u00e7\u00e3o ao mostrar que n\u00e3o se trata apenas de aproximar a psicologia do eu \u00e0 psicologia do grupo, mas de perceber que nem um nem outro s\u00e3o processos aut\u00f4nomos, n\u00e3o existem \u201cem si\u201d. Um ser falante n\u00e3o se define por sua subst\u00e2ncia, mas por seu lugar em uma complexa rede de rela\u00e7\u00f5es.<\/h4>\n<h4>O cartel \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o institucional e epist\u00eamica dessa perspectiva. Traduz a convic\u00e7\u00e3o de que o sujeito e seu saber n\u00e3o s\u00e3o entidades fechadas, separadas de sua rede. O saber que interessa, capaz de colonizar algo do real da experi\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 propriedade de um indiv\u00edduo, nem tem a fei\u00e7\u00e3o abstrata de uma informa\u00e7\u00e3o incorp\u00f3rea.<\/h4>\n<h4>Habituamo-nos a pensar o cartel como poderosa ferramenta contra o discurso do mestre. Mas se o discurso da psican\u00e1lise foi constru\u00eddo por Lacan como o avesso do discurso do mestre, \u00e9 preciso perceber que o discurso dominante, que serve como Outro da psican\u00e1lise, n\u00e3o se organiza de forma oposta \u00e0 sua, como Miller sustentou em \u201cUma fantasia\u201d(2).<\/h4>\n<h4>\u00c9 necess\u00e1rio pensar nas muta\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas da propaga\u00e7\u00e3o do saber e buscar no ensino de Lacan as pistas para enxergar formas distintas de manej\u00e1-lo, para que seja poss\u00edvel subverter n\u00e3o o discurso do mestre, mas a degrada\u00e7\u00e3o e a mercantiliza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia de fazer rede. Embora em apar\u00eancia o cartel seja hom\u00f3logo ao tipo de reuni\u00e3o promovida de forma corriqueira nos la\u00e7os sociais atuais \u2013 inst\u00e1vel, tem\u00e1tico, provis\u00f3rio, sem hierarquia -, ele preserva a pot\u00eancia subversiva ao apontar um modo de fazer rede que serve como condutor das pequenas constru\u00e7\u00f5es singulares.<\/h4>\n<h4>Os frutos de um cartel s\u00e3o feitos em nome pr\u00f3prio, pois o saber n\u00e3o \u00e9 an\u00f4nimo, mas nem por isso ser\u00e3o a revela\u00e7\u00e3o do que reside na mente isolada do psicanalista. O produto de um cartel \u00e9 a narrativa de uma experi\u00eancia de intera\u00e7\u00e3o das conex\u00f5es feitas ao longo dos encontros. Penso que essa dimens\u00e3o deveria fazer parte dos trabalhos produzidos: que n\u00e3o se falasse apenas dos temas estudados, mas da pr\u00f3pria experi\u00eancia de t\u00ea-los estudado no dispositivo.<\/h4>\n<h4>O cartel \u00e9 hoje nossa grande refer\u00eancia, campo de estudos sobre modos de experimentar a rede e, ainda assim, produzir uma singularidade que n\u00e3o possa ser rapidamente absorvida, vendida e manipulada pela l\u00f3gica dos algoritmos. N\u00e3o \u00e9 apenas um dispositivo que favorece o estudo e as atividades institucionais, \u00e9 a pesquisa, em ato, de um novo modo de tecer o la\u00e7o. O cartel \u00e9 a nossa rede social.<\/h4>\n<p>____________________________<\/p>\n<p>1 N.E.: Este texto \u00e9 um resumo da Confer\u00eancia proferida na Jornada de Cart\u00e9is da EBP-Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo, em 29.09.2018.<\/p>\n<p>2 MILLER, J.-A. \u201cUma fantasia\u201d. Dispon\u00edvel em: http:\/\/2012.congresoamp.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Conferencia-de-Jacques-Alain-Miller-en-Comandatuba.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodrigo Lyra Carvalho (EBP\/AMP) O t\u00edtulo dessa Jornada traz tr\u00eas termos objetos usuais de nossa aten\u00e7\u00e3o: massas, grupos e cart\u00e9is. Rede social \u00e9 o que perturba a lista, o unheimlich, o estranho familiar. A ideia de rede ocupou lugar central no ensino de Lacan. 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