{"id":3648,"date":"2018-11-20T10:18:51","date_gmt":"2018-11-20T12:18:51","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3648"},"modified":"2018-11-20T10:18:51","modified_gmt":"2018-11-20T12:18:51","slug":"o-passe-a-escola-a-ciencia%c2%b9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-passe-a-escola-a-ciencia%c2%b9\/","title":{"rendered":"O passe, a Escola, a ci\u00eancia\u00b9"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3612 size-medium\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Gustavo-2-272x300.jpg\" alt=\"\" width=\"272\" height=\"300\" \/><strong>Gustavo Oliveira Menezes (associado CLIN-a)<\/strong><\/h4>\n<h4>Em \u201cO banquete dos analistas\u201d(2), Miller indaga a possibilidade de uma abordagem cient\u00edfica da Psican\u00e1lise, ambi\u00e7\u00e3o de Freud e Lacan. A pr\u00f3pria Psican\u00e1lise nasce no contexto do cientificismo do s\u00e9culo XIX e toda a tradi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-freudiana parece ter partido desse ponto para se dirigir \u00e0 ortodoxia institucional. Desta pr\u00e1tica <em>cient\u00edfico-religiosa<\/em>, chegou-se ao tema fundamental do final de an\u00e1lise, o qual Lacan tamb\u00e9m aborda e se coloca frente a uma tradi\u00e7\u00e3o incapaz de formular a quest\u00e3o.<\/h4>\n<h4>Miller ressalta que, para Lacan, o meio pelo qual se opera a an\u00e1lise \u00e9 pela a\u00e7\u00e3o da palavra e desta tiram-se os resultados. Lacan far\u00e1 assim uma cr\u00edtica \u00e0 posi\u00e7\u00e3o do analista, o que depende de uma elabora\u00e7\u00e3o de seu meio e resultado anal\u00edtico. Exemplo disso \u00e9 toda a formula\u00e7\u00e3o do conceito de desejo do analista.<\/h4>\n<h4>A palavra atua sobre o inconsciente, sobre o n\u00e3o saber, ao passo que o saber est\u00e1 na estrutura da palavra. Uma vez que o inconsciente se apresenta como significante sem sentido, ao associar-se \u00e0 palavra, esta lhe d\u00e1 o sentido do qual estava privado, o que leva Lacan \u00e0 formula\u00e7\u00e3o do <em>inconsciente estruturado como uma linguagem<\/em>. Assim, desde Freud percebe-se o deciframento infinito do inconsciente, sendo este uma <em>transfinitiza\u00e7\u00e3o<\/em> da palavra. Nesse ponto, Miller ligar\u00e1 ao passe enquanto \u201ctransfinitiza\u00e7\u00e3o do dito\u201d e dir\u00e1 que o inconsciente transfinitizado \u00e9 marcado por uma mudan\u00e7a de registro que leva da inscri\u00e7\u00e3o \u00e0 escritura.<\/h4>\n<h4>O sujeito suposto saber que se instaura em uma an\u00e1lise \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 transfinitiza\u00e7\u00e3o. Sendo o inconsciente ligado a um n\u00e3o-dito, o sujeito suposto saber \u00e9 o que liga ao n\u00e3o sabido que permanece ativo pela infinitiza\u00e7\u00e3o da palavra, do deciframento do inconsciente. Para a Psican\u00e1lise, o que se visa \u00e9 a dissolu\u00e7\u00e3o desta suposi\u00e7\u00e3o e sua redu\u00e7\u00e3o ao que lhe dava consist\u00eancia. Os que levaram sua an\u00e1lise at\u00e9 o final testemunham essa opera\u00e7\u00e3o.<\/h4>\n<h4>H\u00e1 sempre implicado uma falta de significante, o que descompleta sempre a cadeia. A escritura \u00e9 o que designa a s\u00e9rie significante como sempre insuficiente \u2013 sempre falta ao menos um \u2013 o que \u00e9 traduzido por S(\u023a). Encontra-se assim um significante fora da s\u00e9rie, que s\u00f3 aparece a partir de um marco que a encerra, mesmo que continue sua produ\u00e7\u00e3o. H\u00e1 ali uma inven\u00e7\u00e3o que liga ao passe, ao atravessamento e instaura\u00e7\u00e3o de um marco. Portanto, a transfinitiza\u00e7\u00e3o do inconsciente remete a algo que da associa\u00e7\u00e3o j\u00e1 caiu, como no final de an\u00e1lise. Vemos isso no exemplo de Domenico Cosenza: \u201ccaio porque a terra treme\u201d(3).<\/h4>\n<h4>Tem-se, portanto, que a solu\u00e7\u00e3o significante que se extrai da experi\u00eancia anal\u00edtica \u00e9 um saber, \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o que pode ser transmitida, ponto do qual Miller afirma que Lacan apela \u00e0 \u201cverifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do final de an\u00e1lise\u201d. Por\u00e9m, Miller ressalta que essa solu\u00e7\u00e3o em termos de saber n\u00e3o diz nada da solu\u00e7\u00e3o em termos de desejo, de uma modifica\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/h4>\n<h4>Lacan colocou em evid\u00eancia que o analista \u00e9 parte do contexto da experi\u00eancia anal\u00edtica, o que o passe comporta: ao final, t\u00eam-se um analista. Isso se op\u00f5e radicalmente \u00e0 demanda did\u00e1tica para se tornar um analista, direcionando automaticamente o candidato do consult\u00f3rio \u00e0 institui\u00e7\u00e3o. Para Lacan, essa demanda, inclusive no in\u00edcio da an\u00e1lise, deve desaparecer, o que o leva a estabelecer outro la\u00e7o com a comunidade anal\u00edtica. O passe seria, portanto, a <em>contrapartida<\/em> dessa entrada institucional. O peso recai sobre a sa\u00edda da an\u00e1lise, o que depende de uma Escola. Dali em diante, se abre ao p\u00fablico <em>cient\u00edfico<\/em>, onde se \u00e9 poss\u00edvel ensinar, transmitir. Estariam colocadas assim as condi\u00e7\u00f5es para uma ci\u00eancia?<\/h4>\n<p>__________________________________<\/p>\n<p>1 Pontua\u00e7\u00f5es a partir da atividade \u201cConversa\u00e7\u00f5es da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana\u201d de 19\/09\/2018 sobre os cap\u00edtulos XXI e XXII do texto \u201cO banquete dos analistas\u201d de Jacques-Alain Miller.<\/p>\n<p>2 MILLER, J-A. \u201cEl banquete de los analistas\u201d. Buenos Aires, Paid\u00f3s, 2010.<\/p>\n<p>3COSENZA, D. \u201cOui\u201d. Testemunho de passe realizado em 29\/08\/2018 na EBP \u2013 Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Oliveira Menezes (associado CLIN-a) Em \u201cO banquete dos analistas\u201d(2), Miller indaga a possibilidade de uma abordagem cient\u00edfica da Psican\u00e1lise, ambi\u00e7\u00e3o de Freud e Lacan. A pr\u00f3pria Psican\u00e1lise nasce no contexto do cientificismo do s\u00e9culo XIX e toda a tradi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-freudiana parece ter partido desse ponto para se dirigir \u00e0 ortodoxia institucional. 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