{"id":3566,"date":"2018-10-21T09:06:28","date_gmt":"2018-10-21T11:06:28","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3566"},"modified":"2018-10-21T09:06:28","modified_gmt":"2018-10-21T11:06:28","slug":"relacoes-abertas-odisseias-contemporaneas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/relacoes-abertas-odisseias-contemporaneas\/","title":{"rendered":"Rela\u00e7\u00f5es abertas &#8211; odisseias contempor\u00e2neas"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3548\" aria-describedby=\"caption-attachment-3548\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3548\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/003-1.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"189\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3548\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Evolution, part II, Adey. Instagram: @avant.arte<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>Por Patricia Badari<\/strong><\/h6>\n<p>Se hoje encontramos in\u00fameras op\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, no que diz respeito \u00e0s rela\u00e7\u00f5es ou \u00e0s n\u00e3o rela\u00e7\u00f5es amorosas as op\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o m\u00faltiplas.<\/p>\n<p>Em uma pesquisa b\u00e1sica no Google \u00e9 poss\u00edvel encontrar algumas especifica\u00e7\u00f5es: pansexuais, vegansexuais, assexuais, otakus ou herb\u00edvoros, monogamish, poliamorosas, flexissexuais, rela\u00e7\u00f5es h\u00edbridas, LAT (living apart together), swingers, amigos coloridos, sexless&#8230; E vale dizer que cada uma destas tem suas varia\u00e7\u00f5es, muitas vezes se conjugam e dizem de rela\u00e7\u00f5es h\u00e9teros, homo e\/ou bissexuais.<\/p>\n<p>Varia\u00e7\u00f5es, formas mutantes e plurais. Estrat\u00e9gias para a constru\u00e7\u00e3o de novas rela\u00e7\u00f5es sexuais e, inclusive, de novos la\u00e7os amorosos que n\u00e3o se deixam capturar pelos ideais, pelos modos sociais estabelecidos, programados e cristalizadores.<\/p>\n<p>Retomarei alguns destes formatos de rela\u00e7\u00f5es citados acima, em especial, as rela\u00e7\u00f5es ditas monogamish (\u201cmonogamia aberta\u201d, na qual o casal decide o tipo de contato sexual, a frequ\u00eancia, etc. do encontro com outras pessoas), a rela\u00e7\u00e3o flexissexual (na quais se pode ter rela\u00e7\u00e3o com outras pessoas de diversos g\u00eaneros, com o consentimento do parceiro h\u00e9tero) e o swinger (rela\u00e7\u00e3o sexual com outras pessoas em lugares espec\u00edficos para isso).<\/p>\n<p>Retomo-as para formular uma quest\u00e3o, dentre muitas que poder\u00edamos fazer sobre essa variedade de rela\u00e7\u00f5es. Mas ser\u00e1 sobre o que tenho observado entre alguns casais h\u00e9teros e neur\u00f3ticos ao abrirem suas rela\u00e7\u00f5es que me centrarei neste texto. E, especialmente, no que chamarei de \u201csujeito-mulher\u201d nestes casais.<\/p>\n<p>Muitos deles, ao abrirem a rela\u00e7\u00e3o, seja para fazerem swing ou outro tipo de parceria, introduzem com certa frequ\u00eancia uma outra mulher e n\u00e3o um homem. Quando h\u00e1 tamb\u00e9m um homem \u00e9 comum que este venha quase como um pacote no acordo com o casal com o qual ir\u00e3o fazer o swing ou outro tipo de encontro. Poucos s\u00e3o os homens que dizem querer transar com o outro homem nestas circunst\u00e2ncias, geralmente s\u00e3o as mulheres que transam com ele, embora n\u00e3o seja seu interesse maior e sim a mulher em quest\u00e3o. E este interesse, muitas vezes, n\u00e3o \u00e9 por uma rela\u00e7\u00e3o amorosa com a outra mulher, nem por titubear ou colocar em quest\u00e3o sua escolha h\u00e9tero, homo ou bissexual. Algumas mulheres dizem que t\u00eam uma excita\u00e7\u00e3o sexual na presen\u00e7a de certas mulheres e querem experimentar. E, tampouco, trata-se para algumas delas de n\u00e3o terem desejo ou satisfa\u00e7\u00e3o com o homem parceiro. Amam e os desejam. Querem seguir com seus homens, com a satisfa\u00e7\u00e3o que obt\u00e9m na rela\u00e7\u00e3o sexual com estes e no amor, namoro, casamento, filhos&#8230; com eles.<\/p>\n<p>Em alguns casos, esta mulher do casal de rela\u00e7\u00e3o aberta n\u00e3o exige que seja a \u00fanica a se adaptar \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de satisfa\u00e7\u00e3o desse homem. Algumas vezes s\u00f3 exige que seja a \u00fanica amada: uma mulher e um homem para o amor e muitas mulheres para o sexo \u00e9 o que pode comportar algumas dessas rela\u00e7\u00f5es atuais. Don Juan de cal\u00e7as e de saias; em dire\u00e7\u00e3o ao sem limite; tentativa de livrar-se da exig\u00eancia que pode ali surgir de que seja toda para ele; exig\u00eancia de amor, estrutural ao gozo feminino; ou at\u00e9 mesmo um gozo que n\u00e3o se compartilha com o homem, pois se trata de um outro gozo&#8230; O que est\u00e1 colocado a\u00ed, para o casal, para cada um dos sujeitos e, em especial, para o \u201csujeito-mulher\u201d?<\/p>\n<p>Podemos dizer que h\u00e1 prefer\u00eancia por outra(s) mulher(es), tanto por parte do \u201csujeito-homem\u201d como por parte do \u201csujeito-mulher\u201d do casal. E interrogo o porqu\u00ea disto, para al\u00e9m da cole\u00e7\u00e3o de conquistas, e levanto algumas hip\u00f3teses a serem verificadas no caso a caso.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos come\u00e7ar com uma hip\u00f3tese, retomando alguns aspectos de dois casos de Freud e o que Lacan trabalhou sobre eles &#8211; o caso Dora e da Bela A\u00e7ougueira &#8211; e nos perguntar em que medida isto tem a ver com a quest\u00e3o da Outra mulher para uma mulher? Ou mais precisamente para a hist\u00e9rica. Trata-se menos, para a hist\u00e9rica, da rela\u00e7\u00e3o com o outro enquanto objeto e de uma escolha decidida pela homossexualidade e sim uma pergunta ao outro sobre a causa de seu desejo, sobre o feminino, tal como o fez Dora \u00e0 sra. K e a Bela A\u00e7ougueira \u00e0 amiga. Trata-se mais de uma rela\u00e7\u00e3o com o desejo do Outro, pois na medida em que se identifica com a outra mulher identifica e localiza seu pr\u00f3prio desejo, sobretudo seu desejo como insatisfeito para que o casal, em alguns casos, siga se amando loucamente como nos disse Lacan no <em>Semin\u00e1rio 5<\/em>.<\/p>\n<p>E o \u201csujeito-homem\u201d ou obsessivo, em nossa hip\u00f3tese inicial? Qual a parte que lhe cabe nesse jogo? Talvez este homem do casal, tal qual o amado a\u00e7ougueiro, tenha seu desejo secreto &#8211; um pequeno detalhe, um belo traseiro, um fetiche&#8230; \u2013 um peda\u00e7o de corpo apartado do pr\u00f3prio corpo da mulher, um peda\u00e7o de corpo que condensa, circunscreve e localiza seu gozo. E um sujeito pode encontrar-se com este objeto que lhe satisfaz sob o corpo de uma ou de certas mulheres, pois o verdadeiro parceiro do homem \u00e9 o objeto de que uma mulher, como um peda\u00e7o de corpo, \u00e9 o representante. No entanto, este tra\u00e7o de algo que uma dada mulher porta e que resvala no desejo de um homem pode ser o que lhe desarranja a vida e lhe causa ang\u00fastia ao lhe remeter ao que h\u00e1 para al\u00e9m do peda\u00e7o de corpo.<\/p>\n<p>Mas, em que medida esse arranjo do casal \u00e9 objeto de uma fantasia masculina e refor\u00e7a o desejo masculino: \u201csonho de corpos femininos enla\u00e7ados que n\u00e3o demandariam nada aos homens, e por essa raz\u00e3o, os liberaria de um dever que viria pesar sobre o desejo\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>? Isto pode sustentar para ele uma imagem viril e sem nenhum inc\u00f4modo. Introduzir outro homem a\u00ed lhe colocaria em risco ou confundido com uma escolha decidida homo ou bissexual? Ou, estaria este homem submetido ao supereu feminino, goze!<\/p>\n<p>Entretanto, ao seguirmos nossa hip\u00f3tese inicial, em se tratando da pergunta sobre o desejo, quais as diferen\u00e7as que poder\u00edamos pensar sobre essa mulher, no casal que abre sua rela\u00e7\u00e3o, em compara\u00e7\u00e3o a Dora e a Bela a\u00e7ougueira? Por que elas passam ao ato sexual e as hist\u00e9ricas de Freud n\u00e3o? Estariam atuando suas fantasias? Muitas delas se engancham nesta fantasia masculina para acessarem a outra mulher. Outras, n\u00e3o fazem uma escolha decidida pela homossexualidade, tal como o fez \u201cA jovem homossexual\u201d \u2013 outro caso de Freud que nos serve de paradigma, mas podemos pensar que mesmo assim, pode estar colocada a quest\u00e3o de desafio ao Pai, em alguns casos.<\/p>\n<p>Nossas hist\u00e9ricas de hoje jogam sua partida a c\u00e9u aberto. Podemos dizer, como nos aponta M. H\u00e8l\u00e9ne Brousse, que muitas das nossas hist\u00e9ricas contempor\u00e2neas n\u00e3o precisam de seus homens, n\u00e3o precisam de um Sr. K, um a\u00e7ougueiro, um pequeno outro suporte de sua identifica\u00e7\u00e3o para a\u00ed se reconhecer, para na posi\u00e7\u00e3o deles endere\u00e7arem a pergunta sobre o seu desejo \u00e0 Outra mulher. Elas n\u00e3o precisam \u201cpassar por eles, pelo amor e pelo desejo deles por outra para ter acesso a uma feminilidade idealizada\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Acessam diretamente a outra mulher, mas muitas vezes sem formularem uma pergunta. Seguem diretamente a uma resposta, depois outra, e outra, e outra sem fim. Provavelmente se o \u201csujeito-homem\u201d deste casal dissesse: \u201cesta mulher n\u00e3o \u00e9 nada para mim\u201d, tal como disse o Sr. K outrora, n\u00e3o levaria uma bofetada.<\/p>\n<p>Entretanto, minha quest\u00e3o que segue sem resposta \u00e9 sobre o que est\u00e1 colocado a\u00ed, mesmo quando uma mulher passa pelo amor e pelo desejo de um homem, mas se endere\u00e7a \u00e0 outra mulher. Tratar-se-ia de um novo sintoma hist\u00e9rico? Em alguns casos sim. Seria uma \u201cresposta pelo modo de gozo \u00e0 falta a ser do sujeito\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Em outros, pode tratar-se de uma precariedade da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica e o sujeito pode ficar perdido entre o que poderia vir organizar: o falo e A mulher. E, dada a desordem, saem em uma err\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos, tamb\u00e9m, levantar como hip\u00f3tese a ser verificada na cl\u00ednica se, em alguns casos, se trataria da outra mulher n\u00e3o como suporte da feminilidade idealizada e sim como o acesso a um gozo Outro, tal qual o homem pode ser para uma mulher? Algumas mulheres passariam pelo corpo de outra mulher para ter acesso ao gozo Outro? Isto seria poss\u00edvel? Tratar-se-ia do corpo do Outro<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> \u2013 passar pelo corpo do Outro, seja ele de que g\u00eanero for? Passar pelo corpo do Outro, seja ele homem ou mulher por n\u00e3o se tratar da anatomia, para a\u00ed encontrar algo da causa do desejo, o que poderia retirar o sujeito do gozo do corpo pr\u00f3prio ou do gozo da fantasia e aceder a um gozo Outro?<\/p>\n<p>Sabemos que nunca encontramos o que fomos buscar e, sim, algo que sempre nos ultrapassa \u2013 um desencontro, a aus\u00eancia de uma programa\u00e7\u00e3o natural que uniria, por exemplo, um homem e uma mulher, tr\u00eas, quatro&#8230; pessoas. A surpresa pode emergir e atrapalhar, perturbar e apagar as condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias e fazer com o que escapa do sentido dessas rela\u00e7\u00f5es abertas, o determinante de um ato \u2013 o que faz desse ato um ato bem sucedido. \u201cSe nada acontece como estava previsto \u00e9 porque, pelo contr\u00e1rio, as coisas caminham bem\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>No entanto, que \u201ccartas de amor\u201d podem ser escritas? O amor n\u00e3o existe sem a palavra e \u00e9 preciso compor uma escrita e um dizer com valor de exce\u00e7\u00e3o; registrar uma escritura, um amor como um ato ou efeito de excetuar-se da regra geral, apesar de este amor muito singular n\u00e3o poder, jamais, ser usado como um bom exemplo ou modelo universal de amor. Podem ser escritas \u201cCartas\u201d que s\u00e3o signos de que trocamos de lugar, de posi\u00e7\u00e3o em nosso discursar e que deixamos de ser uns desterrados do amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> BROUSSE, M.-H. \u201cA homossexualidade feminina no plural ou quando as hist\u00e9ricas prescindem de seus homens testas de ferro\u201d. Dispon\u00edvel em: <u><a href=\"http:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/brousse.pdf\">http:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/brousse.pdf<\/a><\/u>. P. 2.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.____________ <em>Op. cit. <\/em>\u00a0p. 3.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> ____________ <em>Op. cit. <\/em>p. 8.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> MILLER, J.-A. \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d. Dispon\u00edvel em: http:\/\/minascomlacan.com.br\/publicacoes\/em-direcao-a-adolescencia\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> BRODSKY, G. \u201cO princ\u00edpio da dissimetria\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 37. S\u00e3o Paulo: Eolia, setembro de 2003. P. 35.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Patricia Badari Se hoje encontramos in\u00fameras op\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, no que diz respeito \u00e0s rela\u00e7\u00f5es ou \u00e0s n\u00e3o rela\u00e7\u00f5es amorosas as op\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o m\u00faltiplas. 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