{"id":3564,"date":"2018-10-21T09:05:14","date_gmt":"2018-10-21T11:05:14","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3564"},"modified":"2018-10-21T09:05:14","modified_gmt":"2018-10-21T11:05:14","slug":"amor-e-sexo-fazer-laco-fazer-par","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/amor-e-sexo-fazer-laco-fazer-par\/","title":{"rendered":"#Amor e Sexo \u2013 Fazer la\u00e7o, fazer par"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3549\" aria-describedby=\"caption-attachment-3549\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3549\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/004-1.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"182\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3549\" class=\"wp-caption-text\">Giambologna (detalhe). Instagram @avant.arte<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Por Lucila M. Darrigo<\/h6>\n<p>N\u00e3o se faz mais casal como antigamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de nostalgia mas de uma constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que mudou? O que mudou na civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea que afetou os diferentes semblantes de casal de outrora? Semblantes, claro, porque, em tempo algum, um casal de seres falantes se formou regido por leis naturais de encontro entre os sexos.<\/p>\n<p>A utopia heterossexual de \u201cantigamente\u201d se definia pela cren\u00e7a em um pai que distribu\u00eda os sexos e que garantia que ela, f\u00eamea, havia sido feita para ele, macho, em uma correla\u00e7\u00e3o direta com o princ\u00edpio da ordem natural ou mesmo de uma ordem justa, esclarece Laurent em \u201cSociedade do sintoma\u201d.(1)<\/p>\n<p>A ci\u00eancia desorientou nossa rela\u00e7\u00e3o com o outro. No contempor\u00e2neo, nenhuma norma consegue estabilizar o \u201cempuxo a gozar\u201d. N\u00e3o se busca mais a felicidade como queriam os iluministas. Hoje, as rela\u00e7\u00f5es est\u00e3o atravessadas pela busca de um gozo que seja o definitivo.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica da psican\u00e1lise se ocupa dos sujeitos em sua singularidade. Por isso mesmo, nos interessam as modalidades de encontro entre dois seres falantes, n\u00e3o importando qual seja o sexo deles.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 20, Lacan diz que quando se ama, n\u00e3o se trata de sexo e que a liga\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica entre um homem e uma mulher &#8211; o amor &#8211; vem suplementar a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual. S\u00e3o duas coloca\u00e7\u00f5es que nos provocam a pensar\u2026<\/p>\n<p>A ideia de parceria que aparece mais para o final do ensino de Lacan, e que \u00e9 levado adiante por Miller, nos orienta. Christine Alberti diz que fazer par vai mais longe do que o amor. \u201cN\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio amar ou desejar para fazer parceria. Podemos fazer par em torno de uma causa, de um objeto comum, do ci\u00fame, bem como de uma separa\u00e7\u00e3o.\u201d(2)<\/p>\n<p>Para dissimular a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o, cria-se uma multiplicidade de la\u00e7os e o parceiro do sujeito n\u00e3o \u00e9 o outro sexual enquanto tal. Desta forma, na cl\u00ednica, trata-se de se questionar e verificar o parceiro de gozo com o qual o sujeito joga sua partida.<\/p>\n<p>O real \u00e9 a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o e o encontro comporta sempre algo de auto-er\u00f3tico, solit\u00e1rio, aut\u00edstico. O gozo \u00e9 sempre auto-er\u00f3tico no sentido de que se goza no pr\u00f3prio corpo e n\u00e3o no corpo do outro.(3)<\/p>\n<p>Se o gozo \u00e9 auto-er\u00f3tico, como conceber o la\u00e7o com o outro?<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com o outro est\u00e1 sempre mediada e passa necessariamente, no melhor dos casos, por um sintoma.<\/p>\n<p>A novidade do \u00faltimo ensino de Lacan, retomado por Miller, \u00e9\u00a0\u00a0 que o sintoma se inscreve a partir da \u201cn\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d como \u201cacontecimento de corpo\u201d antes de mais nada.(4)<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o conceito parceiro-sintoma vem responder ao problema da inexist\u00eancia do outro pela via do corpo justamente porque a refer\u00eancia ao corpo \u00e9 inelimin\u00e1vel.(5)<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como tirar o corpo fora.<\/p>\n<p>Em seu curso \u201cParceiro-sintoma\u201d(6), Miller esclarece como Lacan chegou ao conceito de parl\u00eatre:<\/p>\n<p>Gozo do corpo e gozo do significante est\u00e3o conectados. S\u00e3o dois aspectos da mesma coisa. N\u00e3o existe, para o ser falante, gozo antes do significante. \u00c9 justamente esta concep\u00e7\u00e3o do significante conectado ao gozo do corpo que leva Lacan a substituir o sujeito por parl\u00eatre.<\/p>\n<p>O par sujeito-Outro de at\u00e9 ent\u00e3o \u00e9 substitu\u00eddo pelo par parl\u00eatre-parceiro-sintoma, um parceiro de gozo.<\/p>\n<h3><span style=\"color: #993300;\">Cada um tece seu n\u00f3(*)<\/span><\/h3>\n<p>Orientada pelo desenvolvimento de Patricia Bosquin-Caroz(7), vamos pensar no que faz la\u00e7o, no que conecta dois parl\u00eatres.<\/p>\n<p>Alguma coisa da ordem do real, do imposs\u00edvel, faz obst\u00e1culo ao acesso direto ao outro. Desta maneira, cada um passa necessariamente por um terceiro termo que faz media\u00e7\u00e3o, jun\u00e7\u00e3o, conex\u00e3o entre um e outro.<\/p>\n<p>Dentre os conectores, temos especialmente:<\/p>\n<p>&#8211; o falo, o mais cl\u00e1ssico, quando homem e mulher se relacionam com o significante f\u00e1lico mas de maneiras diferentes: o homem na vertente do ter e a mulher do ser. Esta \u00e9 uma media\u00e7\u00e3o sempre manca, al\u00e9m de o falo ser um obst\u00e1culo ao encontro;<\/p>\n<p>&#8211; um objeto pulsional, onde cada um se ligar\u00e1 ao objeto pulsional de seu fantasma, do qual o parceiro ser\u00e1 o suporte. A melhor express\u00e3o deste tipo de conex\u00e3o encontramos no Semin\u00e1rio 11: \u201cEu te amo mas porque, inexplicavelmente, amo em ti algo mais do que tu &#8211; o objeto a min\u00fasculo, eu te mutilo.\u201d(8)<\/p>\n<p>Atualmente, podemos fazer par com objetos de uma natureza totalmente diversa, esp\u00e9cies de derivados dos objetos pulsionais. Diferentemente do objeto pulsional que assegura um modo de rela\u00e7\u00e3o de um com outro, o objeto gadget revela cruamente o irredut\u00edvel da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel fazer par &#8211; isso que tem sempre um car\u00e1ter enigm\u00e1tico para cada um &#8211; pela inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o, a psican\u00e1lise reintroduz o amor no centro de seu discurso. Fala-se de amor em uma an\u00e1lise e \u00e9 falando que temos a oportunidade de inventar um la\u00e7o com o outro.<\/p>\n<p>A f\u00f3rmula de cada casal\/par \u00e9 inventada uma a uma.<\/p>\n<p>Fazer par passa por uma conting\u00eancia pois, como destaca Lacan no Semin\u00e1rio 20, \u201ca\u00ed n\u00e3o h\u00e1 outra coisa sen\u00e3o encontro, o encontro, no parceiro, dos sintomas, dos afetos, de tudo que em cada um marca o tra\u00e7o do seu ex\u00edlio da rela\u00e7\u00e3o sexual.\u201d(9)<\/p>\n<p>Dois parl\u00eatres fazem par, cada um\u00a0 falando a l\u00edngua de seu inconsciente. H\u00e1 encontro quando as l\u00ednguas singulares ressoam. S\u00e3o liga\u00e7\u00f5es inconscientes. Quando o n\u00f3 sintom\u00e1tico se tece, o par se faz.<\/p>\n<p>Dito de outro modo, o par se faz a partir de seu sinthoma, com aquilo que de lalangue marcou cada um. Se a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe, se n\u00e3o h\u00e1 f\u00f3rmula que a escreva, a liga\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica, esta sim, existe. O sintoma faz la\u00e7o.<\/p>\n<p>No texto \u201cO la\u00e7o entre o amor e a coragem\u201d(10), Fernanda Otoni esclarece de forma clara e articulada o que faz la\u00e7o: \u201cao encontro do real do gozo com a miragem do objeto \u00e9 preciso incluir um ponto de basta &#8211; o selo de um significante qualquer que o localize, o fixe, o ordene junto a um corpo que tende a escapar.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO falo \u00e9 esse conector privilegiado mas qualquer gambiarra que venha no lugar tem fun\u00e7\u00e3o de amarra\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que a cl\u00ednica do parl\u00eatre nos ensina.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>(*)a partir da tradu\u00e7\u00e3o livre de \u201ctisser son noeud\u201d. Lacan introduz essa ideia no Semin\u00e1rio 21, ainda in\u00e9dito (li\u00e7\u00e3o 18\/12\/73)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>(1)Laurent, E. \u201cA sociedade do sintoma\u201d, 2007, Rio de Janeiro:Contra Capa livraria<\/h6>\n<h6>(2)Alberti, C. \u201cMais longe que o amor\u201d texto publicado no boletim das VIII Jornadas da Se\u00e7\u00e3o SP &#8211; Cupid3)<\/h6>\n<h6>(3)Miller, J.A. \u201cuma conversa sobre o amor\u201d in Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie, ano 1, n 2, julho 2010, p.27<\/h6>\n<h6>(4)Mandil,R. Editorial in \u201cO sexo e seus furos\u201d; 2002; Revista\u00a0 Clique n2; Belo Horizonte:Instituto de psican\u00e1lise e sa\u00fade mental de MG, p.6-8<\/h6>\n<h6>(5)Miller, J.A. \u201cUma partilha sexual\u201d in op.cit. p.15<\/h6>\n<h6>(6)Miller, J.A. \u201cEl partenaire-s\u00edntoma\u201d(curso de 1997-1998);2008; Buenos Aires: Paid\u00f3s<\/h6>\n<h6>(7)Bosquin-Caroz, P. \u201cTisser son noeud\u201d in La cause du d\u00e9sir n92; revue de psychanayse; 2015; France:Navarin editeur, p.19-21<\/h6>\n<h6>(8)Lacan, J. \u201cO semin\u00e1rio\u201d livro 11:<em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise; <\/em>Rio de Janeiro:Jorge Zahar ed.; 2008,p. 255<\/h6>\n<h6>(9)Lacan, J. \u201cO semin\u00e1rio\u201d livro 20: <em>Mais, ainda. <\/em>Rio de Janeiro:Jorge Zahar ed., 2008 p.156<\/h6>\n<h6>(10)Otoni-Brisset, F. \u201cO la\u00e7o entre o amor e a coragem\u201d in<\/h6>\n<h6>http:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-laco-entre-o-amor-e-a-coragem-fernanda-otoni-brisset. p.5<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Lucila M. 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