{"id":3562,"date":"2018-10-21T09:02:28","date_gmt":"2018-10-21T11:02:28","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3562"},"modified":"2018-10-21T09:02:28","modified_gmt":"2018-10-21T11:02:28","slug":"conversa-com-flavio-ricardo-vassoler-por-marcelo-augusto-fabri-de-carvalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/conversa-com-flavio-ricardo-vassoler-por-marcelo-augusto-fabri-de-carvalho\/","title":{"rendered":"#Conversa.com &#8211; Fl\u00e1vio Ricardo Vassoler por Marcelo Augusto Fabri de Carvalho"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3550\" aria-describedby=\"caption-attachment-3550\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3550\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/005-1.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"246\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3550\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @artsheep<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Fl\u00e1vio Ricardo Vassoler<\/strong>, escritor e professor, \u00e9 doutor em Teoria Liter\u00e1ria e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com p\u00f3s-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA). \u00c9 autor das obras <em>O evangelho segundo Tali\u00e3o <\/em>(nVersos, 2013), <em>Tiro de miseric\u00f3rdia <\/em>(nVersos, 2014) e <em>Dostoi\u00e9vski e a dial\u00e9tica: Fetichismo da forma, utopia como conte\u00fado <\/em>(Hedra, 2018), al\u00e9m de ter organizado o livro de ensaios <em>Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade <\/em>(Intermeios, 2012) e, ao lado de Alexandre Rosa e Ieda Lebensztayn, o livro <em>Pai contra m\u00e3e e outros contos <\/em>(Hedra, 2018), de Machado de Assis.<\/p>\n<p><strong>Marcelo de Carvalho: Em artigo publicado no jornal <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em> (01\/07\/18), voc\u00ea comenta a tradu\u00e7\u00e3o de novas edi\u00e7\u00f5es de textos cl\u00e1ssicos da literatura er\u00f3tica: <em>120 dias de Sodoma<\/em> (Sade), <em>Hist\u00f3ria do olho<\/em> (George Bataille) e <em>Tr\u00eas filhas da m\u00e3e<\/em> (Pierre Louys), articulando a sexualidade e a viol\u00eancia. Bataille escreve, em outra obra sua (<em>O erotismo<\/em>), que \u201co sentido \u00faltimo do erotismo \u00e9 a morte\u201d. S\u00e3o textos de diferentes momentos hist\u00f3ricos, cuidam de gozo, fantasia, viol\u00eancia, morte e interessam \u00e0 psican\u00e1lise. Pensando no tema das Jornadas da EBP (Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/se\u00e7\u00e3o SP), \u201cAmor e sexo em tempos de (des)conex\u00f5es\u201d, qual seria, na sua opini\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o entre o erotismo\/morte e o amor\/la\u00e7o social?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1vio Ricardo Vassoler<\/strong>: Quando desvelamos os segredos das camarilhas dos poderosos atrav\u00e9s do buraco da fechadura, deparamos com uma associa\u00e7\u00e3o umbilical entre sexo e poder. Levantamos a saia, ent\u00e3o, de Cal\u00edgula, Lu\u00eds XIV, Beria (bra\u00e7o direito de St\u00e1lin), Kennedy, o filho de Saddam Hussein, entre tantos outros exemplos t\u00e3o pervertidos quanto paradigm\u00e1ticos.<\/p>\n<p>O sexo, historicamente, tende a ejacular uma verdadeira microf\u00edsica do poder \u2013 o poder sobre o pr\u00f3prio corpo e, principalmente, sobre o corpo alheio. O poder da submiss\u00e3o que, no limite (com ou sem consenso), se irradia at\u00e9 pr\u00e1ticas de aviltamento radical da alteridade: dor, humilha\u00e7\u00e3o, prostra\u00e7\u00e3o e flagelamento para se chegar \u00e0 <em>petite mort<\/em>, express\u00e3o sintom\u00e1tica de que os franceses lan\u00e7am m\u00e3o para falar sobre o <em>gozo <\/em>como uma fus\u00e3o entre \u00eaxtase e viol\u00eancia esbaforida \u2013 e m\u00f3rbida. Temos aqui uma s\u00edntese vertiginosa da empiria org\u00edaca em Sade, Bataille e Lou\u00ffs.<\/p>\n<p>O amor, por sua vez, pressup\u00f5e, ao menos arquetipicamente, o entrela\u00e7amento entre o eu e o tu. Pit\u00e1goras, certa vez, disse que o amigo \u00e9 um segundo eu. Kierkegaard redarguiu, s\u00e9culos depois, que o amigo \u00e9 o primeiro tu. Com a competi\u00e7\u00e3o encarni\u00e7ada que nos socializa, o amor desponta sob o prisma da excepcionalidade. N\u00e3o \u00e0 toa, ent\u00e3o, o car\u00e1ter emancipat\u00f3rio do ato sexual \u2013 uma bela oportunidade de comunh\u00e3o \u2013 se v\u00ea revertido em sadismo e achincalhamento do outro quando a deforma\u00e7\u00e3o do poder revela sua capilaridade microf\u00edsica.<\/p>\n<p><strong>Marcelo de Carvalho: Voc\u00ea menciona, ao final do artigo, que, aqui no Brasil, segundo a ONG <em>Transgender Europe<\/em>, vivemos no pa\u00eds que mais mata transexuais no mundo, sendo que tamb\u00e9m, segundo o <em>site<\/em> de v\u00eddeos er\u00f3ticos <em>Redtube<\/em>, o Brasil lidera o <em>ranking <\/em>de buscas por pornografia transexual (dados de 2017). Como poder\u00edamos relacionar estas duas informa\u00e7\u00f5es? Seria exato pensarmos que n\u00e3o existe diferen\u00e7a entre aquilo que \u00e9 do mundo virtual e do mundo dito \u201creal\u201d?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1vio Ricardo Vassoler<\/strong>: A subjetividade \u00e9 pl\u00e1stica e ind\u00f4mita, a despeito dos discursos e pr\u00e1ticas identit\u00e1rios que se querem (e nos querem) estanques e unidimensionais. O resultado da pesquisa divulgada pelo <em>site <\/em>er\u00f3tico <em>Redtube <\/em>nos revela que, sob o respeito diurno, autorit\u00e1rio e hip\u00f3crita \u00e0 identidade historicamente hegem\u00f4nica, h\u00e1 toda uma gama de pr\u00e1ticas desviantes e noturnas que, longe do olhar\/ju\u00edzo alheio, busca, com sofreguid\u00e3o, suas formas de express\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, \u00e9 bem poss\u00edvel encontrar homoerotismo sob a farda e a batina \u2013 se os militares e o clero proscrevem a homossexualidade, os desviantes uniformizados bem podem tornar sorrateiras suas pr\u00e1ticas nas antec\u00e2maras de casernas e sacristias. O mesmo racioc\u00ednio vale para a hipocrisia matrimonial, institui\u00e7\u00e3o que tanto vem municiando a ironia liter\u00e1ria. Maridos\/pais s\u00e3o tidos como arqu\u00e9tipos de poder\/sexualidade, mas, como bem nos mostra o <em>Redtube<\/em>, o aviltamento do feminino em si mesmo \u2013 a no\u00e7\u00e3o de que o eu precisa reproduzir o arqu\u00e9tipo autorit\u00e1rio <em>in toto <\/em>para ser aceito \u2013 pode levar o indiv\u00edduo a exprimir sua subjetividade ind\u00f4mita como o reverso de seu papel social diurno. \u00c9 assim que garotas de programa e transexuais relatam que muitos homens casados e com filhos querem ocupar o polo tido como passivo \u2013 tradicionalmente, o \u201cfeminino\u201d \u2013 nas rela\u00e7\u00f5es sexuais contratadas.<\/p>\n<p><strong>Marcelo de Carvalho: A contemporaneidade traz desafios para a psican\u00e1lise, a come\u00e7ar pela radical transforma\u00e7\u00e3o de um supereu que, se na passagem do s\u00e9culo 19 para o s\u00e9culo 20, era interditor (\u201cN\u00e3o goze!\u201d), hoje traz, ao contr\u00e1rio, o imperativo oposto (\u201cGoze!\u201d). Lacan inclusive associa este imperativo superegoico, no seu texto \u201cKant com Sade\u201d (<em>Escritos<\/em>, 1966), com o que Kant chama \u201cimperativo categ\u00f3rico\u201d. Qual a sua opini\u00e3o sobre os efeitos deste empuxo ao gozo e do discurso capitalista nos seres humanos?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1vio Ricardo Vassoler<\/strong>: H\u00e1 um teor emancipat\u00f3rio na revers\u00e3o da interdi\u00e7\u00e3o para a sanha por prazer, sobretudo se pensarmos nas proibi\u00e7\u00f5es historicamente configuradas para o prazer feminino. Ainda assim, como a sua quest\u00e3o bem trouxe \u00e0 tona, a no\u00e7\u00e3o imperativa do gozo n\u00e3o pode deixar de ser associada \u00e0s tend\u00eancias do turbocapitalismo contempor\u00e2neo, que, em sua sociopatologia, coisifica o prazer como um nicho de mercado e fustiga o desejo como ciranda de consumo.<\/p>\n<p>Se, como pensou Jos\u00e9 Ortega y Gasset, \u201ceu sou eu e minhas circunst\u00e2ncias\u201d, a liberdade sexual desponta como a possibilidade de o ser acompanhar a n\u00e9voa de sua condi\u00e7\u00e3o. No entanto, se passamos a ser sujeitados por um processo de gozo coercitivo que baliza a nossa possibilidade de felicidade, o desejo se torna cativo do labirinto de sua express\u00e3o imperativa. Mais uma vez, a express\u00e3o francesa <em>petite mort <\/em>d\u00e1 o tom para que pensemos sobre o car\u00e1ter m\u00f3rbido da sexualidade coisificada, de modo que, em meio \u00e0 sociedade gozosa, os crescentes \u00edndices de depress\u00e3o e infelicidade nos apresentem as metamorfoses da castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fl\u00e1vio Ricardo Vassoler, escritor e professor, \u00e9 doutor em Teoria Liter\u00e1ria e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com p\u00f3s-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA). \u00c9 autor das obras O evangelho segundo Tali\u00e3o (nVersos, 2013), Tiro de miseric\u00f3rdia (nVersos, 2014) e Dostoi\u00e9vski e a dial\u00e9tica: Fetichismo da forma, utopia como conte\u00fado (Hedra, 2018), al\u00e9m de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3562","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornada-2018","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3562","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3562"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3562\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3562"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3562"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3562"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3562"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}