{"id":3558,"date":"2018-10-21T08:59:41","date_gmt":"2018-10-21T10:59:41","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3558"},"modified":"2018-10-21T08:59:41","modified_gmt":"2018-10-21T10:59:41","slug":"do-desejo-que-resta-profanar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/do-desejo-que-resta-profanar\/","title":{"rendered":"Do desejo que resta profanar"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3552\" aria-describedby=\"caption-attachment-3552\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3552\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/007-1.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"249\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/007-1.jpg 250w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/007-1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3552\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @avant.arte<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Por Felipe Bier Nogueira<\/h6>\n<p>Os temas propostos pelas Jornadas 2018 da EBP, Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo, s\u00e3o ao mesmo tempo uma provoca\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m um diagn\u00f3stico sobre o que \u00e9 o contempor\u00e2neo e como a psican\u00e1lise se prop\u00f5e a encar\u00e1-lo. Algo deste diagn\u00f3stico passa pelo que \u00e9 expl\u00edcito no eixo das jornadas: o que \u00e9 la\u00e7o contempor\u00e2neo em tempos de hiper-conex\u00e3o? A saber, haveria uma outra margem \u00e0s infinitas possibilidades de v\u00ednculos, constru\u00e7\u00f5es, identidades que nossos tempos promovem? Em linha com o famoso dito de Lacan, a resposta parece ser positiva, pois a n\u00e3o-exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual se imp\u00f5e como marcador mais not\u00f3rio do vazio em torno do qual as ang\u00fastias contempor\u00e2neas circundam. A hip\u00f3tese forte do pensamento psicanal\u00edtico, portanto, se posiciona \u00e0 outra margem do problema quando se aferra ao que h\u00e1 de desconex\u00e3o no mercado de <em>links <\/em>contempor\u00e2neos. Vemos assim o problema a partir do la\u00e7o que foi desfeito, mais comumente traduzido como decl\u00ednio do Nome-do-pai. Todavia seria poss\u00edvel avan\u00e7armos para al\u00e9m desta segunda margem &#8211; para al\u00e9m do que est\u00e1 solto e do que n\u00e3o existe &#8211; em dire\u00e7\u00e3o ao que se afirma como esteira dos afetos contempor\u00e2neos, que talvez n\u00e3o esteja nem do lado do Pai, nem do lado do vazio? Nesta terceira margem, o que podemos ver daquilo que \u00e9 <em>re-ligado, <\/em>reativado de um dispositivo normativo, e que daria lastro \u00e0 experi\u00eancia contempor\u00e2nea ap\u00f3s a fal\u00eancia do mito familiar?<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1921, Walter Benjamin ensaiaria uma resposta no provocativo texto intitulado &#8220;O capitalismo como religi\u00e3o&#8221;. O escrito do autor faz parte de um largo legado sobre a rela\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica com seus pontos de exce\u00e7\u00e3o: o pr\u00f3prio nazismo, que vitimou o autor, enxergado desde ent\u00e3o como express\u00e3o m\u00e1xima de um <em>estado de exce\u00e7\u00e3o. <\/em>Pois bem, &#8220;O capitalismo como religi\u00e3o&#8221; antecede o nazismo e, ainda mais surpreendentemente, tamb\u00e9m \u00e9 anterior ao hiper-capitalismo que vivemos hoje. Mas, j\u00e1 na d\u00e9cada de 1920, Benjamin atentava ao mal-estar que se transformaria na norma em nossos tempos. Produzido na mesma d\u00e9cada em Freud operou sua virada em dire\u00e7\u00e3o ao tema, Benjamin ancora-se neste mal-estar e reflete sobre os rumos desta civiliza\u00e7\u00e3o que, ao inv\u00e9s de apontar para um futuro hiper-moderno, prometido pelas utopias burguesas, parece dar sobrevida ao arca\u00edsmo da religi\u00e3o na manuten\u00e7\u00e3o de seu mecanismo central &#8211; a sacraliza\u00e7\u00e3o &#8211; que agora incide na forma-mercadoria. Os sujeitos que se imaginavam libertos pelo capital veem-se sob o imp\u00e9rio de um deus sem miseric\u00f3rdia, que exige seu culto 24 horas por dia, 7 dias por semana, seja via trabalho, seja via consumo, para a gera\u00e7\u00e3o de objetos cujo usufruto, Benjamin argumenta, escapa \u00e0 l\u00f3gica do desejo.<\/p>\n<p>Da\u00ed a import\u00e2ncia de o fil\u00f3sofo Giorgio Agamben retomar a quest\u00e3o no texto &#8220;Elogio da profana\u00e7\u00e3o&#8221;, recolocando-a perante oitenta anos de reflex\u00f5es sobre nosso mal-estar. Profanar, afirma o autor, desde a jurisprud\u00eancia romana, est\u00e1 em oposi\u00e7\u00e3o ao sagrado, <em>\u00e0 religio, <\/em>que em sua raiz etimol\u00f3gica &#8211; <em>religare &#8211; <\/em>carrega a ideia de um tipo espec\u00edfico de liga\u00e7\u00e3o. Profanar, portanto, atentaria menos contra a transcend\u00eancia e mais contra o que h\u00e1, na religi\u00e3o, como opera\u00e7\u00e3o fundamental, que \u00e9: retirar algo da esfera humana e posicionar esta coisa al\u00e9m dos limites de seu usufruto. A provoca\u00e7\u00e3o de comparar o capitalismo com uma religi\u00e3o estaria portanto em fase com o entendimento mais preciso de nosso modo de produ\u00e7\u00e3o, no qual mercadorias s\u00e3o produzidas n\u00e3o para o uso, mas para sua circula\u00e7\u00e3o como portadoras de valor. O capitalismo como religi\u00e3o n\u00e3o tem transcend\u00eancia &#8211; portanto n\u00e3o tem um deus -, mas se apoia sobre o mecanismo mais profundamente vinculado \u00e0 religi\u00e3o: a subtra\u00e7\u00e3o das formas de <em>usar do que \u00e9 humano. <\/em>Aqui tocamos numa terceira margem, que corre abaixo da queda do Pai e sustenta o contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Profanar seria um ato de <em>desejo, <\/em>na medida em que reclama um objeto subtra\u00eddo. Quando Agamben afirma que o dispositivo moderno que mais se apresenta como improfan\u00e1vel talvez seja a pornografia, algo disso ressoa no campo da psican\u00e1lise e torna o argumento mais claro: o autor aponta para a contradi\u00e7\u00e3o entre infinita oferta de produtos, identidades e pr\u00e1ticas, e um apagamento do sujeito e decl\u00ednio do desejo. No argumento, o erotismo tem papel central: uma mudan\u00e7a estrutural \u00e9 sentida na pr\u00f3pria pornografia enquanto forma. A transi\u00e7\u00e3o \u00e9 patente se comparamos a fotografia er\u00f3tica de finais do s\u00e9culo XIX, em que as modelos agem como se &#8220;a objetiva as tivesse surpreendido [&#8230;] na intimidade do seu <em>boudoir<\/em>&#8221; (AGAMBEN, 2007, p.77) \u00e0 situa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, quando as <em>pornstars <\/em>oferecem seu corpo como telas em branco. Nestas telas \u00e9 dif\u00edcil distinguir <em>do que se goza: <\/em>o pornogr\u00e1fico contempor\u00e2neo faz gozar por revelar algo recalcado, ou por colocar-se como corpo-mercadoria, aberto \u00e0 inscri\u00e7\u00e3o de qualquer gozo?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o se liga \u00e0 ideia de <em>semblante <\/em>em Lacan, e mesmo esta varia\u00e7\u00e3o na pornografia acompanha a oscila\u00e7\u00e3o do conceito em sua obra: primeiro, algo do jogo de mascarada do feminino &#8211; e portanto ligado aos tr\u00e2mites do desejo cal\u00e7ado no simbolismo -; depois, aquilo que vem \u00e0 tona a partir do semin\u00e1rio <em>De um discurso que n\u00e3o fosse semblante, <\/em>no qual o conceito de verdade j\u00e1 n\u00e3o se op\u00f5e ao semblante. Este movimento em sua obra, sabemos, acompanha o decl\u00ednio da hegemonia do simb\u00f3lico na cl\u00ednica; mas, em face dos coment\u00e1rios de Agamben, faz pensar: o mal-estar n\u00e3o teria causa no fato de que, como as <em>pornstars, <\/em>o contempor\u00e2neo oferece uma experi\u00eancia que n\u00e3o esconde nada, e portanto torna imposs\u00edvel o desejo?<\/p>\n<p>Ao colocar a pornografia e o corpo feminino em discuss\u00e3o, Agamben tem em mente o que da Lei cai com a nova religi\u00e3o capitalista neste tr\u00e2nsito de um semblante a outro: no fundo, trata-se de afirmar que hoje \u00e9 imposs\u00edvel o Nome-do-pai agir em uma sociedade em que o semblante nada esconde, apenas revela. Ou seja, coloca-se em quest\u00e3o o estatuto central da castra\u00e7\u00e3o como operador do inconsciente nos tempos em que qualquer tipo de encontro est\u00e1 a um clique de dist\u00e2ncia. Em termos claros, falamos da castra\u00e7\u00e3o e de sua capacidade de nortear a fantasia <em>a partir <\/em>de uma subtra\u00e7\u00e3o do gozo. Os tempos de hiper-exposi\u00e7\u00e3o e hiper-consumo afirmam o corpo como mercadoria, e portanto o mercado aberto de possibilidades no qual um corpo que n\u00e3o se p\u00f5e ao uso, mas \u00e9 plataforma perform\u00e1tica dedicada a um Outro que n\u00e3o existe. A quest\u00e3o que emerge \u00e9: n\u00e3o seria a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de inconsciente que vacila e que nos impele a cogitar um inconsciente real?<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o de uma no\u00e7\u00e3o de semblante a outra &#8211; da mascarada para a esteira do gozo &#8211; mostra-se assim n\u00e3o s\u00f3 um movimento te\u00f3rico, mas tamb\u00e9m um acompanhamento do sintoma contempor\u00e2neo. Neste sentido, o <em>che vuoi<\/em> cl\u00e1ssico do neur\u00f3tico tamb\u00e9m se transforma em <em>che fare, <\/em>o que fazer ante o oceano de <em>objetos a <\/em>que n\u00e3o s\u00e3o mais causa de desejo? A queda do Nome-do-pai, portanto, revela uma forma de esposamento do real, fazendo ressoar o que em 1921 apontava Benjamin, &#8220;Deus n\u00e3o est\u00e1 morto, mas foi incorporado ao destino do homem&#8221; (AGAMBEN, 2007, p.70): a saber, o que o Pai da horda escondia por tr\u00e1s da castra\u00e7\u00e3o &#8211; o gozo &#8211; agora est\u00e1 a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>Da\u00ed, talvez, a provoca\u00e7\u00e3o de Lacan: <em>a psican\u00e1lise funciona?<\/em> Com Miller, devemos entender a quest\u00e3o envolvendo uma nova posi\u00e7\u00e3o do inconsciente no contempor\u00e2neo: um inconsciente que, sob an\u00e1lise, n\u00e3o mais descobre uma verdade, mas sim um gozo<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Aqui tamb\u00e9m fazem sentido as mudan\u00e7as nos sintomas: n\u00e3o mais a velha ang\u00fastia, mas processos de conten\u00e7\u00e3o e marca\u00e7\u00e3o deste gozo em um corpo que mal e mal pertence ao sujeito ou revela algo de seu ser. Deste \u00e2ngulo, o corpo da <em>pornstar <\/em>e o corpo do <em>cutting <\/em>adolescente s\u00e3o quase dois lados da mesma moeda.<\/p>\n<p>Diante da rota\u00e7\u00e3o que sofre o conceito de semblante, \u00e9 curioso voltar a um dos cap\u00edtulos essenciais de Lacan sobre o problema do falso: no &#8220;Bezerro de Ouro&#8221; do <em>Semin\u00e1rio 5, <\/em>Lacan se utiliza da passagem b\u00edblica para afirmar a necessidade de se encarar o falo como significante para al\u00e9m de seu componente imagin\u00e1rio. O mito edipiano, naquele momento, era sustentado pela capacidade de profanar o \u00eddolo paterno e assim fundar o desejo. Assim, se podemos falar em decad\u00eancia, que seja a do sentido e, quem sabe, do pr\u00f3prio desejo em benef\u00edcio de gram\u00e1ticas do gozo. O falo, por sua vez, parece ter dado uma volta em seu eixo e, em plenos tempos hiper-contempor\u00e2neos, voltado \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o de \u00eddolo &#8211; como o bezerro de ouro b\u00edblico -, afirmando performaticamente seu poder extraordin\u00e1rio de capturar corpos, tal qual o Pai da horda primitiva. Seria nesta prec\u00e1ria captura de corpos que se constituir\u00edam os fr\u00e1geis la\u00e7os do moderno? Em alguma medida, as psicologias comportamentais, as teorias identit\u00e1rias &#8211; como a <em>queer <\/em>e\/ou o feminismo -, ao ancorarem-se sobre o direito por uma pluralidade de gozos, n\u00e3o estariam assumindo que o \u00eddolo f\u00e1lico \u00e9 realidade, que a premissa de que o cerco de mercantiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel e que, neste horizonte fechado, \u00e9 melhor que encontremos os corpos que mais nos apetecem?<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico de Benjamin e Agamben passa pela grave constata\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 algo de radicalmente diferente no sistema capitalista: ao envolver trabalho e consumo num ciclo infernal, o capital sequestra o desejo. A pergunta que resta para a psican\u00e1lise \u00e9: como denunciar o culto ao bezerro de ouro sem o recurso nost\u00e1lgico \u00e0 figura do Pai simb\u00f3lico? Tanto Lacan quanto, posteriormente, Agamben, apontam para um <em>uso espec\u00edfico<\/em> do sintoma contempor\u00e2neo como solu\u00e7\u00e3o: seria interessante pensar, com ambos, o <em>sinthoma <\/em>como a maneira com que Joyce profanou o la\u00e7o provido pelo Nome-do-pai. Ao inv\u00e9s de refundar miticamente o desejo, a psican\u00e1lise talvez precise afirmar formas de desejar que n\u00e3o passem pelo Nome-do-pai e tampouco pela mercadoria: ou seja, profanar seria extrair algo &#8211; tomar de assalto &#8211; da tela branca do semblante contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Ver &#8220;Os seis paradigmas do gozo&#8221;, p.42.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Felipe Bier Nogueira Os temas propostos pelas Jornadas 2018 da EBP, Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo, s\u00e3o ao mesmo tempo uma provoca\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m um diagn\u00f3stico sobre o que \u00e9 o contempor\u00e2neo e como a psican\u00e1lise se prop\u00f5e a encar\u00e1-lo. 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