{"id":3498,"date":"2018-10-07T10:44:14","date_gmt":"2018-10-07T13:44:14","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3498"},"modified":"2018-10-07T10:44:14","modified_gmt":"2018-10-07T13:44:14","slug":"ecos-de-quarta-o-analista-e-o-mestre-uma-questao-de-politica-e-de-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/ecos-de-quarta-o-analista-e-o-mestre-uma-questao-de-politica-e-de-etica\/","title":{"rendered":"#Ecos de quarta \u2013 \u201cO Analista e o Mestre \u2013 Uma quest\u00e3o de Pol\u00edtica &#8230; e de \u00c9tica\u201d"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3485\" aria-describedby=\"caption-attachment-3485\" style=\"width: 220px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3485\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/boletim006_003-1.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/boletim006_003-1.jpg 220w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/boletim006_003-1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3485\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Instagram @artsheep<\/figcaption><\/figure>\n<h6><em><strong>Por Maria Bernadette Soares de Sant\u00b4Ana Pitteri<\/strong><\/em><\/h6>\n<p>\u201cS\u00f3 existe isso, o la\u00e7o social\u201d foi o t\u00edtulo extra\u00eddo de uma fala de Lacan no Semin\u00e1rio XX por Cristiane Alberti, nossa convidada para as Jornadas<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. No texto <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, a autora aborda a a\u00e7\u00e3o dos psicanalistas da ECF no debate p\u00fablico que envolveu as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais na Fran\u00e7a, e levou Miller a teorizar a \u201cescola sujeito\u201d <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Sem discutir programas e pol\u00edtica partid\u00e1ria, o que mobilizou a entrada dos psicanalistas franceses no debate foi o ponto de vista \u00e9tico: a discuss\u00e3o girou em torno das condi\u00e7\u00f5es concretas e pr\u00e1ticas acarretadas pela poss\u00edvel elei\u00e7\u00e3o de um presidente com um ide\u00e1rio de extrema direita, o que redunda necessariamente em limita\u00e7\u00e3o das liberdades civis.<\/p>\n<p>Alberti cita Hegel que, nos \u201cPrinc\u00edpios da Filosofia do Direito\u201d <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> afirma que o Estado \u00e9 a realidade em ato da ideia moral objetiva, ou seja, o \u201cEsp\u00edrito\u201d, a civiliza\u00e7\u00e3o se revela no Estado, realizando o que sabe e porque sabe, isto \u00e9, ao falar de ideia moral objetiva \u00e9 de \u00e9tica que se fala, deste significante t\u00e3o caro \u00e0 Psican\u00e1lise. A situa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a chamou cada cidad\u00e3o \u00e0 responsabilidade (como em qualquer estado de direito), pois se tratava de construir uma opini\u00e3o esclarecida, e diante de tal situa\u00e7\u00e3o, o posicionamento p\u00fablico fez-se necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os psicanalistas encaram o recalque em seu cotidiano no enfrentamento da inclina\u00e7\u00e3o natural para olvidar o passado, e isto os fez lutar contra o esquecimento e o obscurantismo da sociedade, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s propostas de um candidato de extrema direita. Tal luta encarou o populismo que, ao colocar os outros partidos pol\u00edticos como ileg\u00edtimos e corrompidos acabam por exclu\u00ed-los, excluindo tamb\u00e9m parte do povo ao levantar a suspeita de que esta parcela n\u00e3o pertence \u00e0 humanidade. Esta situa\u00e7\u00e3o destr\u00f3i qualquer possibilidade de oposi\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo, essencial ao andamento do estado de direito.<\/p>\n<p>Opondo-se ao populismo da extrema direita, os psicanalistas franceses entraram no debate na defesa de um estado assimilado ao direito e \u00e0 lei, obras humanas em constante movimento, mutantes ao sabor do tempo que incide sobre as civiliza\u00e7\u00f5es. Tais obras n\u00e3o pertencem a ningu\u00e9m em particular, mas a todos os cidad\u00e3os; e o estado de direito \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o por e para os indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>No caso n\u00e3o se tratava apenas de defender as liberdades civis, o que permite a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, mas tamb\u00e9m de fazer da psican\u00e1lise o campo de um exerc\u00edcio mais amplo do que aquele da solid\u00e3o dos consult\u00f3rios, campo para o exerc\u00edcio do analista cidad\u00e3o, como cunhou Eric Laurent.<\/p>\n<p>As discuss\u00f5es trouxeram \u00e0 luz aquilo que \u00e9 patente: com sua emerg\u00eancia a psican\u00e1lise mudou o mundo, e os psicanalistas n\u00e3o podem ignorar tal coisa por fazerem parte desta mudan\u00e7a. Lembrando Lacan, aquele que n\u00e3o estiver imbu\u00eddo do esp\u00edrito de seu tempo, que abandone a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>A partir da experi\u00eancia de uma an\u00e1lise pode-se apostar nos recursos dos discursos, \u201co la\u00e7o entre os que falam\u201d e Lacan sublinha que \u201cs\u00f3 existe isso, o la\u00e7o social\u201d <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> a manter juntos os corpos, enquanto que ao contr\u00e1rio, o puro gozo (que \u00e9 solit\u00e1rio) gera a segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da an\u00e1lise distancia o sujeito das identifica\u00e7\u00f5es de massa, considerando, no entanto, as m\u00faltiplas escolhas do desejo ou do gozo. A psican\u00e1lise quer o pol\u00edtico e isso porque, na experi\u00eancia anal\u00edtica, chega-se ao ponto em que o Outro n\u00e3o existe, momento no qual os recursos simb\u00f3licos empalidecem. Atingido tal ponto, tem-se um retorno ao la\u00e7o social com o Outro, na inven\u00e7\u00e3o de um Outro.<\/p>\n<p>Os psicanalistas sabem disso por sua experi\u00eancia, o que os leva \u00e0 responsabilidade no contexto de dilui\u00e7\u00e3o de um la\u00e7o social que se valia da met\u00e1fora paterna e do falocentrismo, num modelo verticalizado de sociedade. Tal la\u00e7o, baseado na autoridade do pai, n\u00e3o desapareceu totalmente, mas o esgar\u00e7amento da met\u00e1fora paterna e o rearranjo do falocentrismo na atualidade em tempo de (des)conex\u00f5es leva \u00e0 percep\u00e7\u00e3o do surgimento de novas parcerias as quais os psicanalistas n\u00e3o podem deixar de encarar. Estamos falando das novas formas de amor e sexo que surgem a cada passo em nosso caminhar atual.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica psicanal\u00edtica deve contribuir para o exerc\u00edcio de um discurso do mestre \u201cum pouco menos idiota\u201d, como disse Lacan na Confer\u00eancia de Mil\u00e3o em 12 de maio de 1972 <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. O discurso do analista, enquanto avesso do discurso do mestre, pode atuar sobre este, tentar fazer com que \u201cseja um pouco menos idiota\u201d, ou seja, que n\u00e3o espalhe a segrega\u00e7\u00e3o com suas senten\u00e7as fechadas, ou com o tudo-saber do discurso universit\u00e1rio, o mestre moderno, que produz sujeitos divididos e angustiados, em constante busca, obedientes ao consumo, fascinados pelos S1s da avalia\u00e7\u00e3o e do cientificismo.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise n\u00e3o leva do pai (p\u00e8re) ao pior (pire), ao contr\u00e1rio do que presentifica um regime ditatorial. O desejo de saber que uma an\u00e1lise permite e provoca, na transmuta\u00e7\u00e3o do amor ao saber, \u00e9 essencial para os tempos atuais, para a civiliza\u00e7\u00e3o que a cada momento recebe novos sopros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> VIII Jornadas da EBP-SP, Amor e Sexo em tempos de (Des)Conex\u00f5es &#8211; 26 e 27 de outubro\/2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Alberti, Cristiane. \u201cS\u00f3 existe isso, o la\u00e7o social\u201d, In: Lacan Cotidiano &#8211; Sobre o Populismo, 15\/8\/2017 \u2013 ampblog2006.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Aula de 24\/6\/2017.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Hegel, Princ\u00edpios da Filosofia do Direito. S\u00e3o Paulo: Icone, 1977 \u2013 3\u00aa se\u00e7\u00e3o \u201cO Estado\u201d, item 257, p. 204.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Lacan, J., O Semin\u00e1rio livro 20: Mais Ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985 &#8211; p. 74.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Discurso publicado em obra bil\u00edngue: Lacan In Italia 1953-1978. Em Italie Lacan, La Salamandra, 1978.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maria Bernadette Soares de Sant\u00b4Ana Pitteri \u201cS\u00f3 existe isso, o la\u00e7o social\u201d foi o t\u00edtulo extra\u00eddo de uma fala de Lacan no Semin\u00e1rio XX por Cristiane Alberti, nossa convidada para as Jornadas[1]. No texto [2], a autora aborda a a\u00e7\u00e3o dos psicanalistas da ECF no debate p\u00fablico que envolveu as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais na&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3498","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornada-2018","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3498","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3498"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3498\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3498"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3498"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3498"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3498"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}