{"id":3436,"date":"2018-09-16T07:35:06","date_gmt":"2018-09-16T10:35:06","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3436"},"modified":"2018-09-16T07:35:06","modified_gmt":"2018-09-16T10:35:06","slug":"freud-e-a-vida-amorosa-a-vida-amorosa-e-o-caso-do-homem-dos-lobos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/freud-e-a-vida-amorosa-a-vida-amorosa-e-o-caso-do-homem-dos-lobos\/","title":{"rendered":"#Freud e a vida amorosa \u2013 A \u201cvida amorosa\u201d e o caso do Homem dos Lobos"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3417\" aria-describedby=\"caption-attachment-3417\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3417\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/boletim005_008-1.png\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"135\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3417\" class=\"wp-caption-text\">The Wolf Man\u2019s Dream by Sergei Pankejeff<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Por Andr\u00e9 Antunes da Costa<\/h6>\n<p>\u201cContribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do amor\u201d \u00e9 sob este t\u00edtulo que Freud agrupa tr\u00eas textos escritos com um intervalo de oito anos entre eles. Para quem ainda n\u00e3o os conhece, eu os apresento: \u201cUm tipo especial de escolha de objeto feita pelo homem\u201d (1910), \u201cSobre a mais comum deprecia\u00e7\u00e3o na vida amorosa\u201d (1912), e \u201cO tabu da virgindade\u201d (1918). Em 1914 Freud redige o texto \u201cHist\u00f3ria de uma neurose infantil &#8211; o Homem dos Lobos\u201d que ser\u00e1 publicado apenas em 1918, portanto, os textos sobre a psicologia do amor s\u00e3o contempor\u00e2neos ao famoso caso cl\u00ednico. Pretendo extrair uma particularidade das \u201cContribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do amor\u201d e compar\u00e1-la com o caso cl\u00ednico em quest\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>Liebenslebens<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O mesmo termo em alem\u00e3o <em>Liebenslebens<\/em> \u00e9 traduzido ora por \u201cvida amorosa\u201d, como no t\u00edtulo do artigo de 1912, ou apenas por \u201cdo amor\u201d, como no t\u00edtulo que re\u00fane os tr\u00eas textos. N\u00e3o se trata aqui de comentar a escolha da tradu\u00e7\u00e3o, gostaria simplesmente de sublinhar uma diferen\u00e7a entre \u201cpsicologia da vida amorosa\u201d e \u201cpsicologia do amor\u201d tal como o fez Jean Pierre Deffieux<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.\u00a0 A \u201cvida amorosa\u201d em Freud abrange o estudo sobre o amor, claro, mas n\u00e3o se reduz a isso, visto que ela contempla igualmente o desejo e o gozo. Segundo J-A. Miller<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, o termo <em>Liebe<\/em> em alem\u00e3o<em>, <\/em>recobre ao mesmo tempo amor e desejo, no entanto, os textos de Freud apontam para uma separa\u00e7\u00e3o entre as condi\u00e7\u00f5es de amor e as condi\u00e7\u00f5es do desejo sexual.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cpsicologia da vida amorosa\u201d tem um sentido preciso em Freud, que n\u00e3o \u00e9 o da compreens\u00e3o dos sentimentos, tal como poder\u00edamos supor num primeiro momento. Freud utiliza o termo psicologia em sua acep\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVIII, ou seja, um estudo cient\u00edfico dos fen\u00f4menos da alma. Se a tarefa de escrever sobre as condi\u00e7\u00f5es amorosas foram deixadas aos poetas por serem mais sens\u00edveis para capturar os movimentos ps\u00edquicos ocultos em outras pessoas, Freud nota que para produzir o prazer est\u00e9tico e intelectual visado pelas obras de arte \u00e9 necess\u00e1rio alterar o material da realidade, altera\u00e7\u00e3o esta que chamamos de \u201clicen\u00e7a po\u00e9tica\u201d. J\u00e1 o psicanalista, com uma m\u00e3o mais pesada e n\u00e3o tendo como alvo a obten\u00e7\u00e3o do prazer est\u00e9tico, pode submeter a vida amorosa a uma explora\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p><strong>O complexo de \u00c9dipo e a vida amorosa<\/strong><\/p>\n<p>Freud ao acumular algumas observa\u00e7\u00f5es sobre a vida amorosa dos homens destaca duas condi\u00e7\u00f5es frequentemente encontradas: a condi\u00e7\u00e3o de \u201cum terceiro prejudicado\u201d e a do \u201camor <strong>\u00e0<\/strong> prostituta\u201d. A primeira condi\u00e7\u00e3o consiste em que o interesse deste tipo de homem nunca toma por objeto amoroso uma mulher que esteja livre, apenas as que s\u00e3o comprometidas. A segunda condi\u00e7\u00e3o que frequentemente se associa \u00e0 primeira consiste em que a mulher casta e insuspeita n\u00e3o exerce o fasc\u00ednio que a transforma em objeto amoroso, mas apenas a mulher com alguma m\u00e1 fama ou de quem se tem certa incerteza com rela\u00e7\u00e3o a fidelidade.<\/p>\n<p>Freud sublinha que frequentemente tais condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o ocorrem apenas uma vez na vida amorosa dos indiv\u00edduos mas que tais condi\u00e7\u00f5es para o apaixonamento se repetem, com as mesmas particularidades \u201ccada uma a exata c\u00f3pia da outra (&#8230;) formando uma longa s\u00e9rie\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Estas condi\u00e7\u00f5es de amor e de desejo admitem um esclarecimento simples segundo Freud e a explica\u00e7\u00e3o, mais refinada do que trago aqui, gira em torno do complexo de \u00c9dipo. A fixa\u00e7\u00e3o libidinal a m\u00e3e, pura e casta, condiciona seu desejo por mulheres de reputa\u00e7\u00e3o duvidosa enquanto o terceiro prejudicado \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia o pai. O que gostaria de sublinhar \u00e9 que \u201ca vida amorosa submetida a estrutura simb\u00f3lica edipiana torna o sujeito escravo de um certo destino de escolha amorosa e o inscreve em um automatismo de repeti\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Freud aborda nesses textos sobre a vida amorosa sobretudo a vertente edipiana que condiciona o objeto de amor e de desejo. No entanto, para a psican\u00e1lise, o \u00c9dipo n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica vertente que condiciona a vida amorosa. Por essa raz\u00e3o recorro ao caso do Homem dos Lobos, para mostrar que nem todas as condi\u00e7\u00f5es de amor encontradas na obra de Freud dizem respeito <strong>\u00e0<\/strong> estrutura da l\u00f3gica simb\u00f3lica edipiana.<\/p>\n<p><strong>O Homem dos Lobos, vida amorosa fixada na cena prim\u00e1ria.<\/strong><\/p>\n<p>A vida amorosa do paciente neste caso permanecer\u00e1 vinculada \u00e0 cena prim\u00e1ria, quando o paciente assiste com um ano e meio de idade a um coito <em>a tergo<\/em> entre seus pais, posi\u00e7\u00e3o sexual natural do reino animal em que a f\u00eamea \u00e9 colocada para acasalar com o macho. N\u00e3o importa aqui se a cena \u00e9 fantasiada ou vivida, de qualquer modo ela marca para este sujeito o encontro com o sexual e fixa um modo de gozo que o sujeito reencontrar\u00e1 por diversas vezes em sua vida. Freud \u201cestabelece uma importante liga\u00e7\u00e3o entre a cena prim\u00e1ria e a posterior compuls\u00e3o amorosa que se tornou t\u00e3o decisiva para o destino do paciente, e al\u00e9m disso introduz uma condi\u00e7\u00e3o de amor que esclarece tal compuls\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.\u00a0 Temos aqui as coordenadas da escolha de objeto\u00a0 e sua compuls\u00e3o amorosa ligada n\u00e3o \u00e0s coordenadas simb\u00f3licas edipianas, mas a uma cena traum\u00e1tica. A escolha de objeto do homem dos lobos permanecer\u00e1 fixada nessa imagem onde cenas an\u00e1logas desencadear\u00e3o a cada vez o mesmo \u00edmpeto desejante; \u00e9 assim com Groucha em sua inf\u00e2ncia, quando o paciente a v\u00ea ajoelhada esfregando o ch\u00e3o na mesma posi\u00e7\u00e3o que a m\u00e3e estaria na cena primitiva,\u00a0 com Matrona na adolesc\u00eancia, com uma outra jovem, etc.<\/p>\n<p>Deffieux, J-P nos mostra no texto j\u00e1 citado que l\u00e1 onde, na neurose, o simb\u00f3lico se enoda ao imagin\u00e1rio para cernir o real do trauma sexual, no sujeito psic\u00f3tico apenas o registo imagin\u00e1rio est\u00e1 empenhado nesta tarefa. Esta seria a raz\u00e3o pela qual no homem dos lobos o que aparece em sua forma pura \u00e9 o enodoamento imagin\u00e1rio \u2013 real das condi\u00e7\u00f5es de amor<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. Tomar o caso do homem dos lobos como uma psicose poderia nos conduzir a diferenciar neurose e psicose a partir de algumas caracter\u00edsticas gerais com rela\u00e7\u00e3o a vida amorosa. No entanto concluiremos sem a inten\u00e7\u00e3o de aprofundar esta distin\u00e7\u00e3o e sim ressaltando as condi\u00e7\u00f5es singulares, n\u00e3o edipianas da vida amorosa inclusive na neurose.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir do encontro com o traum\u00e1tico, com o sexual, que podemos conceber certas modalidades de gozo. Para tratar esse gozo, o neur\u00f3tico recorre neste ponto ao fantasma enodando o imagin\u00e1rio, simb\u00f3lico e real. O homem dos lobos n\u00e3o pode realizar esta opera\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o pode enodar imagin\u00e1rio simb\u00f3lico e real, para constituir suas condi\u00e7\u00f5es de amor singulares. Ele\u00a0 permaneceu fixado e paralisado na repeti\u00e7\u00e3o estrita da mesma cena \u2013 o que vemos com frequ\u00eancia na psicose.<\/p>\n<p>Assim, se de um lado temos as condi\u00e7\u00f5es de amor que aparecem ligadas <strong>\u00e0<\/strong> estrutura simb\u00f3lica do \u00e9dipo \u2013 condi\u00e7\u00f5es gerais \u2013por outro existem as condi\u00e7\u00f5es singulares, ligadas ao encontro primordial com o sexual, e que se sustentam no fantasma fundamental.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise produz novos la\u00e7os com o outro. Poder amar se desfazendo de algumas condi\u00e7\u00f5es edipianas fundamentais e afrouxando a fixa\u00e7\u00e3o do gozo encapsulada no fantasma, pode conduzir a um novo amor no final de uma an\u00e1lise. Esse novo amor permite tomar o outro por sua singularidade, e n\u00e3o apenas captur\u00e1-lo nas fic\u00e7\u00f5es que animam a neurose.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> DEFFIEUX, J.P. Psychologie de la vie amoureuse. Carnets Cliniques de Strasbourg, n\u00ba 6, p . 53-64, 2007<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> MILLER, J-A. Os labiritnos do amor, Correrio n\u00ba 56, 2006.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> FREUD, S. Um tipo especial de escolha feita pelo homem, In: <em>Obras Completas Vol.9<\/em> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.338<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> DEFFIEUX, J.P. Psychologie de la vie amoureuse. In: <em>Carnets Cliniques de Strasbourg<\/em>, n\u00ba 6, p 55.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> FREUD, S. Hist\u00f3ria de uma neurose infantil,\u00a0 In: <em>Obras Completas Vol.14<\/em>\u00a0 &#8211; S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.124<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Estamos considerando aqui uma leitura feita por v\u00e1rios autores no campo freudiano que abordam\u00a0 o caso do Homem dos Lobos como uma psicose. Para maiores referencias: FIGUEIR\u00d3, Ana Maria; LAIA S\u00e9rgio(Organizadores<em>) O Homem dos Lobos&#8230; com Lacan<\/em> , Scriptum, Belo Horizonte, 2011.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Andr\u00e9 Antunes da Costa \u201cContribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do amor\u201d \u00e9 sob este t\u00edtulo que Freud agrupa tr\u00eas textos escritos com um intervalo de oito anos entre eles. 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