{"id":3432,"date":"2018-09-16T07:31:00","date_gmt":"2018-09-16T10:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3432"},"modified":"2018-09-16T07:31:00","modified_gmt":"2018-09-16T10:31:00","slug":"ecos-de-quarta-match-o-estatuto-do-sintoma-nos-sujeitos-conectados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/ecos-de-quarta-match-o-estatuto-do-sintoma-nos-sujeitos-conectados\/","title":{"rendered":"#Ecos de quarta \u2013 Match: o estatuto do sintoma nos sujeitos conectados"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3415\" aria-describedby=\"caption-attachment-3415\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3415\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/boletim005_006-1.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/boletim005_006-1.jpg 200w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/boletim005_006-1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3415\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Instagram @helmut_breineder<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>Por Niraldo de Oliveira Santos<\/strong><\/h6>\n<p>\u00c9 bastante conhecido em nosso meio o trecho de Lacan de 1953, em \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem\u201d: \u201cQue antes renuncie a isso, portanto, quem n\u00e3o conseguir alcan\u00e7ar em seu horizonte a subjetividade de sua \u00e9poca. Pois, como poderia fazer de seu ser o eixo de tantas vidas quem nada soubesse da dial\u00e9tica que o compromete com essas vidas num movimento simb\u00f3lico. Que ele conhe\u00e7a bem a espiral a que o arrasta sua \u00e9poca na obra cont\u00ednua de Babel, e que conhe\u00e7a sua fun\u00e7\u00e3o de int\u00e9rprete na disc\u00f3rdia das l\u00ednguas\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> (p. 322).<\/p>\n<p>O que a revolu\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o, com o advento da internet na d\u00e9cada de 1960, e popularizada na d\u00e9cada atual, imprime na subjetividade da nossa \u00e9poca?<\/p>\n<p>Nosso pa\u00eds est\u00e1 na rede. O n\u00famero de pessoas com acesso \u00e0 rede mundial de computadores \u00e9 de 139,1 milh\u00f5es de pessoas. Dentre estes, 130 milh\u00f5es utilizam as redes sociais e 120 milh\u00f5es realizam o acesso atrav\u00e9s de seus celulares. Esse n\u00famero representa 57% do total da popula\u00e7\u00e3o brasileira.\u00a0 \u00c9 o terceiro pa\u00eds no posto de pessoas que passam mais tempo na internet \u2013 9 horas e 14 minutos por dia, sendo mais de 3 dessas horas dedicadas \u00e0s redes sociais<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Sim, o brasileiro est\u00e1 conectado. Isso implica em dizer que temos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o as chamadas de v\u00eddeo que aproximam parentes, amigos, amores e profissionais em diversos lugares do mundo. As redes sociais conectam pessoas para as mais diferentes finalidades: amizades se formam ou se desfazem. E presentificam, com velocidade, as paix\u00f5es do ser, formando o que Brousse<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> chamou de \u201ccampos de concentra\u00e7\u00e3o\u201d, ou comunidades de gozo, n\u00e3o ficando de fora o \u00f3dio. Sim, o <em>hater<\/em> est\u00e1 para a rede como \u201cpeixe n\u2019\u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p>Mas e o amor?<\/p>\n<p><strong><em>Is it a match?<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Match<\/em> \u00e9 uma palavra de l\u00edngua inglesa que, como substantivo designa: f\u00f3sforo, palito de f\u00f3sforo, partida, combina\u00e7\u00e3o, par, competi\u00e7\u00e3o, jogo, desafio. Como verbo, \u201c<em>To match\u201d<\/em> significa: corresponder, combinar, casar, unir, igualar, condizer<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 um termo que ficou popularizado e inserido em nosso idioma corrente a partir dos aplicativos de paquera. \u00c9 utilizado para designar uma combina\u00e7\u00e3o entre duas pessoas que reciprocamente gostaram das fotos, das descri\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas inseridas no perfil e, al\u00e9m disso, \u201ccurtem\u201d coisas em comum como ideologias pol\u00edticas e atividades culturais, por exemplo. Aproximar pessoas a partir dos gostos em comum \u00e9 um trabalho feito por uma complexa rede de cruzamentos de dados, os algoritmos que, silenciosamente, captam o comportamento dos usu\u00e1rios durante os acessos \u00e0 rede.\u00a0 Funciona como aquele amigo que, em uma festa, diz: \u201ctenho uma pessoa para te apresentar. Voc\u00eas combinam em tudo. Certeza que vai rolar\u201d.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, e isto n\u00e3o \u00e9 novidade nem para n\u00f3s, nem para os usu\u00e1rios dos aplicativos de paquera, h\u00e1 in\u00fameros desdobramentos do que pode ou n\u00e3o \u201crolar\u201d.<\/p>\n<p>Cito a seguir 4 vinhetas de pacientes que escutei recentemente:<\/p>\n<p>&#8211; Jo\u00e3o, 40 anos. Para ele, o aplicativo, voltado exclusivamente para o p\u00fablico gay masculino, \u00e9 \u201cuma del\u00edcia que escraviza\u201d. Vive praticamente \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos \u201cmatches\u201d, \u00e0 procura de homens com p\u00eanis acima da m\u00e9dia; os \u201cdotados\u201d, como ele se refere. Diz: \u201cse aparece um cara bonito com esta caracter\u00edstica, conversamos rapidamente apenas para combinar o encontro. Saio at\u00e9 no hor\u00e1rio do trabalho, se for o \u00fanico hor\u00e1rio poss\u00edvel\u201d. Escravo do seu objeto fetiche, questiona-se em an\u00e1lise sobre \u201cenvelhecer sozinho\u201d, embora n\u00e3o pare\u00e7a se angustiar com isso.<\/p>\n<p>&#8211; Ana, 61 anos, aposentada. Em tom de chiste, diz que est\u00e1 com a miss\u00e3o de conhecer todos os caf\u00e9s de S\u00e3o Paulo. Uma vez por semana, em m\u00e9dia, costuma marcar um encontro com um \u201ccoroa\u201d que conhece via aplicativos. Adora conversar, falar de sua vida e ouvir as hist\u00f3rias de seus interlocutores. Com v\u00e1rios deles, apenas beijos; com alguns \u2013 \u201caqueles que n\u00e3o falam tanto em doen\u00e7as\u201d, transa. Ainda n\u00e3o encontrou um que valesse a pena namorar. Chega a se perguntar se \u00e9 isso mesmo o que quer \u201ca essa altura do campeonato\u201d. Fica angustiada com os \u201c<em>ghostings<\/em>\u201d, aqueles de quem ela gostou e desaparecem sem tra\u00e7o algum.<\/p>\n<p>&#8211; Clara, 40 anos. Diz: \u201cEstou com um \u2018bode\u2019 gigante dos aplicativos. N\u00e3o tenho paci\u00eancia para iniciar uma conversa. Parece uma entrevista de sele\u00e7\u00e3o para um emprego\u201d. Lamenta-se do fato de suas amigas encontrarem o homem de suas vidas nos lugares mais inusitados: na fila para comprar p\u00e3o-de-queijo, no vag\u00e3o do metr\u00f4, na poltrona ao lado em um avi\u00e3o. Em uma enquete feita com seus amigos, eles dizem que ela \u00e9 muito exigente. Ela discorda e diz: \u201cEu s\u00f3 quero um cara que eu queira\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Caio, 34 anos. Os nomes dos pretendentes citados nas sess\u00f5es s\u00e3o muitos e desafiam a mem\u00f3ria do analista. D\u00e1 <em>match<\/em>, encontra na balada ou no cinema, transam uma vez e depois nada mais acontece. Trocam n\u00fameros de telefones, ele puxa conversa nos dias seguintes, insiste para um novo encontro e ouve in\u00fameras vezes, de diferentes rapazes, a justificativa: \u201cN\u00e3o estou a fim de algo s\u00e9rio agora\u201d, ou \u201cAcabei de sair de um relacionamento\u201d. \u00c9 sempre um \u201cvoc\u00ea \u00e9 um cara muito legal, mas&#8230;\u201d. Questiona-se sobre seu corpo, sua masculinidade, sua conversa. \u201cSer\u00e1 que \u00e9 porque sou passivo?\u201d, \u201cSer\u00e1 que sou muito chato?\u201d, \u201cTenho azar de s\u00f3 encontrar caras que n\u00e3o querem nada a s\u00e9rio?\u201d Caio est\u00e1 \u00e0s voltas com a quest\u00e3o: o que \u00e9 preciso para \u2018dar liga\u2019. Ou, para usar um significante presente no discurso dele: como \u201cfazer vingar?\u201d.<\/p>\n<p>Podemos constatar, a partir destes recortes, a marca particular como cada um destes pacientes faz uso dos aplicativos. Cada um com seu modo de gozo. Al\u00e9m disso, v\u00ea-se que a refinada e complexa tarefa dos algoritmos de \u201capresentar\u201d as pessoas, favorecendo o <em>match<\/em>, nada garante que vai \u201cdar liga\u201d, que vai vingar, mantendo a conjun\u00e7\u00e3o \u201camor e sexo\u201d, do encontro, do fazer par, no campo do mist\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>Entre o <em>match <\/em>e o fazer um par<\/strong><\/p>\n<p>Christiane Alberti, nossa convidada para as Jornadas da EBP-SP de outubro, em um texto que se chama \u201cTinder: primeiro a gente transa, depois a gente v\u00ea<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>\u201d, nos diz que o simb\u00f3lico mudou de ritmo. Para Alberti, \u201co Tinder \u00e9, antes de tudo, um lugar: a necessidade de situar o Outro desde que ele desapareceu\u201d. E acrescenta: \u201cPoder\u00edamos ler essa subjetividade do tempo, a multiplica\u00e7\u00e3o dos encontros sem dia seguinte, como uma banaliza\u00e7\u00e3o do ato sexual\u201d, como no caso do paciente Caio.<\/p>\n<p>Querer terminar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, segundo Alberti, \u00e9 causar um curto-circuito na ang\u00fastia, o desarranjo suscitado pelo imprevisto, e encontrar assim uma defesa diante do encontro com o real, na medida em que ele se constr\u00f3i a partir do imposs\u00edvel. \u201cPara fazer par \u00e9 preciso passar pelo sintoma que em seu princ\u00edpio nos isola. Neste plano, o Outro ser\u00e1 sempre de meia-tigela. Permanece a conting\u00eancia. N\u00e3o d\u00e1 para fazer par sem o pr\u00e9-requisito do encontro. O cupido tem sempre os olhos vendados e atira suas flechas ao acaso!\u201d.<\/p>\n<p>O encontro, o fazer par, dar liga, pressup\u00f5e o real. Localizar algo de si no outro e visar isto, \u00e9 um processo trabalhoso e angustiante. O sujeito moderno deseja mesmo isto? Mais uma vez, nossa \u00e9tica nos convoca a tomar os sujeitos no caso a caso. Por\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel dizer que, seguindo a pergunta sobre a subjetividade da \u00e9poca, que encontramos, cada vez mais, sujeitos que apresentam uma ang\u00fastia outra, n\u00e3o localizada? Onde est\u00e1 o objeto <em>a<\/em>?<\/p>\n<p>Lacan, em \u201cRadiofonia<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>\u201d, antecipa nosso tempo: \u201cEsse \u00e9 o <em>hic<\/em> que s\u00f3 se faz <em>nunc<\/em> quando se \u00e9 psicanalista, e tamb\u00e9m lacaniano. Em breve, todo o mundo o ser\u00e1 \u2013 minha audi\u00eancia \u00e9 um pr\u00f3dromo disso \u2013 e, portanto, tamb\u00e9m o ser\u00e3o os psicanalistas. Para isso, bastaria a ascens\u00e3o ao z\u00eanite social do objeto que chamo pequeno <em>a<\/em>, pelo efeito de ang\u00fastia provocado pelo esvaziamento com que nosso discurso o produz, por faltar \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o\u201d (p. 411).<\/p>\n<p>O \u201cefeito de ang\u00fastia\u201d, presen\u00e7a do objeto, \u00e9, portanto, produzido a\u00ed quando o objeto <em>a <\/em>encontra-se deslocalizado, destacado da fantasia. Se o objeto n\u00e3o est\u00e1 articulado \u00e0 fantasia, est\u00e1 solto no z\u00eanite social. Como decorr\u00eancia, o sujeito moderno pode possuir uma ang\u00fastia desarticulada, deslocada, fora do discurso, provocando consequ\u00eancias no corpo e no la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Entre os parceiros que se encontram, seja pela via tradicional ou via aplicativos, onde est\u00e1 o objeto? O objeto est\u00e1, ou pelo menos deveria, entre um e outro, escondido numa fantasia, escondido at\u00e9 para o pr\u00f3prio sujeito, mas articulado a esta. \u00c9 isto que movimenta o querer recortar no outro o objeto que pertence ao sujeito. \u00c9 o que Lacan nos mostra no Semin\u00e1rio 11<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> com a passagem: \u201cEu te amo; mas, porque inexplicavelmente amo em ti algo mais do que tu \u2013 o objeto <em>a <\/em>min\u00fasculo, eu te mutilo\u201d.<\/p>\n<p>Em uma sociedade que produz objetos mais-de-gozar destacados, o trabalho do psicanalista lacaniano seria o de tentar capturar os objetos desarticulados e inseri-los em um discurso, sob transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Para Laurent, \u201cO esc\u00e2ndalo da descoberta freudiana \u00e9 que, seja como for a transforma\u00e7\u00e3o do mundo, h\u00e1, no gozo, h\u00e1, no prazer, uma parte mais-al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer que faz com que isso adquira em seguida um aspecto \u2013 aquele que quer avan\u00e7ar na dire\u00e7\u00e3o do gozar sem entraves, encontra-se rapidamente no horror<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>\u201d (p. 130). E continua: \u201cNesse sentido, o programa de a\u00e7\u00e3o do psicanalista pode ser nomeado com a f\u00f3rmula: fazer acreditar no sintoma. Encontrar a forma de endere\u00e7ar-se \u00e0 ang\u00fastia do sujeito \u00e9 faz\u00ea-lo entender que os sintomas in\u00e9ditos de nossa civiliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o leg\u00edveis\u201d (p. 176). Isto convoca o psicanalista para este lugar de \u201cint\u00e9rprete na disc\u00f3rdia das l\u00ednguas, na Babel, como dizia Lacan em \u201cFun\u00e7\u00e3o e Campo\u201d.<\/p>\n<p>Ainda de acordo com Laurent<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>, \u201cpodemos dizer que o grande movimento da civiliza\u00e7\u00e3o, seu hedonismo de massa, faz desaparecer a particularidade do sintoma. A vis\u00e3o hedonista do mundo apoia seu imp\u00e9rio no acesso ao gozo \u2018para todos\u2019. O c\u00e1lculo da maximiza\u00e7\u00e3o do gozo est\u00e1 ao alcance de cada um. H\u00e1, portanto, dois tipos de rela\u00e7\u00e3o com o gozo, ambos necess\u00e1rios: querer mais gozo e querer a particularidade do sintoma. (&#8230;) Nesses termos, a serenidade do sujeito \u2018igual em presen\u00e7a dos objetos de gozo\u2019 \u00e9 n\u00e3o perder de vista a singularidade do caminho que lhe \u00e9 pr\u00f3prio\u201d. (p. 173). O sintoma \u00e9 a dimens\u00e3o de nossa ex-sist\u00eancia no mundo, nos diz Laurent. E acrescenta: \u201cInstalemo-nos nesse sintoma, dediquemo-nos a existir como sintomas e descobriremos que isso em que somos \u2018lan\u00e7ados\u2019 tamb\u00e9m nos \u00e9 \u2018enviado\u2019, tornando-nos destinat\u00e1rios disso que \u00e9 nosso destino. N\u00f3s ex-sistimos ao sintoma, pois h\u00e1 uma tens\u00e3o no sintoma. De um lado, ele \u00e9 envelope formal; de outro, peda\u00e7o de n\u00f3s mesmos, acontecimento de nosso corpo\u201d. (p. 174).<\/p>\n<p>Em \u201cA terceira\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>, Lacan nos diz que o sucesso da psican\u00e1lise \u00e9 seu fracasso. Se o real n\u00e3o insistisse, seria o fim da psican\u00e1lise. Um dos nomes do real hoje, sabemos, \u00e9 a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p><strong>Para al\u00e9m do <em>match<\/em>, o amor de transfer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Algu\u00e9m pede indica\u00e7\u00e3o de um analista que atenda a determinadas condi\u00e7\u00f5es: homem ou mulher, localiza\u00e7\u00e3o do consult\u00f3rio e pre\u00e7o da sess\u00e3o. O analista indicado responde ao chamado, marca entrevistas, pre\u00e7o combinado. <em>It\u00b4s a match<\/em>. Por\u00e9m, pode ou n\u00e3o \u201cdar liga\u201d, \u201cvingar\u201d. O amor de transfer\u00eancia \u00e9 ainda outra coisa. Mas, ao se presentificar, temos a\u00ed um caso &#8211; um caso cl\u00ednico.<\/p>\n<p>Para Dominique Laurent<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>, \u201ca reformula\u00e7\u00e3o radical da transfer\u00eancia operada por Lacan, em torno do par $\u25ca<em>a<\/em> e atualizando-se na sess\u00e3o, deslocou o debate anal\u00edtico sobre a transfer\u00eancia, concebida como repeti\u00e7\u00e3o ou como \u201caqui e agora\u201d. A quest\u00e3o da transfer\u00eancia no pr\u00f3prio tratamento \u00e9 ent\u00e3o correlacionada ao lugar do objeto <em>a <\/em>na civiliza\u00e7\u00e3o e seus discursos\u201d. (p. 133).<\/p>\n<p>\u201cA \u2018ascens\u00e3o ao z\u00eanite\u2019 do objeto <em>a<\/em> e o decl\u00ednio dos ideais no tempo da \u2018religi\u00e3o\u2019 dos direitos do homem, como observou Jacques-Alain Miller, reconfiguram a rela\u00e7\u00e3o de cada um com sua subjetividade. Cada um busca, na cultura, o parceiro fantasia, ou seja, a imaginariza\u00e7\u00e3o do parceiro do gozo. Quer ele tome a forma da adic\u00e7\u00e3o sexual ou n\u00e3o, ou da busca repetitiva do parceiro amoroso, como o mostra a frequ\u00eancia aos sites dos encontros virtuais, a falha particular e, por isso mesmo, generalizada, est\u00e1 no encontro. A demanda endere\u00e7ada ao analista toma, ent\u00e3o, as cores daquele que permitiria encontrar, enfim, o parceiro que conviria.<\/p>\n<p>Retomando o texto de Alberti<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>, os aplicativos \u201cmascaram que nos fatos e em todos os casos, mesmo que algumas mensagens de aproxima\u00e7\u00e3o sejam suficientes, \u00e9 preciso falar. N\u00e3o se entra na sexualidade e na via amorosa sem palavras. (&#8230;) Os encontros virtuais n\u00e3o eliminar\u00e3o esta delicada alquimia que faz com que dois seres incompletos e irremediavelmente s\u00f3s, venham a fazer um par\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Texto apresentado em Atividade preparat\u00f3ria para as VIII Jornadas da EBP-SP \u2013 \u201cAmor e sexo em tempos de (des)conex\u00f5es\u201d. EBP-SP, 01\/08\/2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Lacan, J. Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem \u2013 Relat\u00f3rio do Congresso de Roma (1953). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed, 1998.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Coelho, T. 10 fatos sobre o uso de redes sociais no Brasil que voc\u00ea precisa saber. 09\/02\/2018. <u><a href=\"https:\/\/www.techtudo.com.br\/noticias\/2018\/02\/10-fatos-sobre-o-uso-de-redes-sociais-no-brasil-que-voce-precisa-saber.ghtml\">https:\/\/www.techtudo.com.br\/noticias\/2018\/02\/10-fatos-sobre-o-uso-de-redes-sociais-no-brasil-que-voce-precisa-saber.ghtml<\/a><\/u>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Brousse, MH. O inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2003.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> http:\/\/www.wordreference.com\/enpt\/match<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Alberti, C. Tinder: primeiro a gente transa, depois a gente v\u00ea. O simb\u00f3lico mudou de ritmo. <u><a href=\"http:\/\/leplus.nouvelobs.com\/contribution\/1409836-tinder-on-baise-d-abord-on-voit-ensuite-le-symbolique-a-change-de-tempo.html\">http:\/\/leplus.nouvelobs.com\/contribution\/1409836-tinder-on-baise-d-abord-on-voit-ensuite-le-symbolique-a-change-de-tempo.html<\/a><\/u>. 25\/08\/2015. Traduzido para o portugu\u00eas por Ros\u00e2ngela Turim.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Lacan, J. Radiofonia (1970). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2003.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998, p. 254..<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Laurent, \u00c9. A psican\u00e1lise e a escolha das mulheres. Belo Horizonte: Scriptum livros, 2012.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Laurent, \u00c9. A sociedade do sintoma. A psican\u00e1lise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2007, p. 172.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Lacan, J. A terceira (1974). Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n\u00ba 62, dezembro de 2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Laurent, D. Viver a puls\u00e3o na transfer\u00eancia. In: A ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI. Rio de Janeiro: AMP \u2013 Subversos, 2013.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> Alberti, C. Tinder: primeiro a gente transa, depois a gente v\u00ea. O simb\u00f3lico mudou de ritmo. <u><a href=\"http:\/\/leplus.nouvelobs.com\/contribution\/1409836-tinder-on-baise-d-abord-on-voit-ensuite-le-symbolique-a-change-de-tempo.html\">http:\/\/leplus.nouvelobs.com\/contribution\/1409836-tinder-on-baise-d-abord-on-voit-ensuite-le-symbolique-a-change-de-tempo.html<\/a><\/u>. 25\/08\/2015. Traduzido para o portugu\u00eas por Ros\u00e2ngela Turim.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Niraldo de Oliveira Santos \u00c9 bastante conhecido em nosso meio o trecho de Lacan de 1953, em \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem\u201d: \u201cQue antes renuncie a isso, portanto, quem n\u00e3o conseguir alcan\u00e7ar em seu horizonte a subjetividade de sua \u00e9poca. 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